SAF, safadeza, safadão
Severino Marinho Leite, nos nossos encontros nas manhãs de domingo em Toinho da Cabeça de Galo, filosofava que “futebol é cachaça”. Meu amigo Marinho Branco se referia aos mecenas que investiam nos clubes de futebol sem ambição de lucro, apenas pelo prazer e por divertimento, e o retorno pessoal seria a conquista de um título. Com o advento da SAF, o mecenato futebolístico tende a acabar.
Antes, bem antes, já se falava em clube-empresa, tendo o União São João, Araras – SP, se constituído o primeiro clube–empresa do País, sob a Lei Zico (Lei nº 8.672, de 6 de julho de 1993), que facultava aos clubes de futebol a transformação em empresas. Outros clubes surgiram com essa característica, mas boa parte sequer disputa competições, e entre aqueles que disputam, poucos estão na primeira divisão dos Estados de origem ou nacional.
Com o surgimento da Lei Pelé (Lei 9.615 de 24 de março de 1998) e a consequente revogação da Lei Zico, o que era facultativo passou a ser obrigatório, e todos os clubes de futebol profissional do Brasil deveriam se tornar empresas. A Lei n° 9.981, sancionada em 2000, tornou a obrigatoriedade novamente opcional para os clubes.
A Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo especial de constituição de empresas voltado para o futebol no Brasil, foi oficializado por meio da Lei nº 14.193 de 6 de agosto de 2021, e se constitui em tendência pelo País. Também já aportou na Paraíba, com o CSP, e mais recentemente o Botafogo de João Pessoa aderindo, após um processo cuidadoso de preparação. O próximo deve ser o Treze.
Tenho um sentimento e, conversando com alguns torcedores, eles concordam de que a SAF tira o sentido de coletividade que o clube inspira, aquele que, basta torcer, é seu. Com a SAF, fica a sensação de que o clube agora, oficialmente, tem dono e isso pode acabar o amor, a paixão pelo time. Ao mesmo tempo, acho que se jogar futebol e conquistar títulos, ganha torcedores.
As vantagens da SAF é que acabaria aquela especulação entre torcedores de que fulano entrou no clube para tirar proveito próprio ou, no popular, para roubar; também muitos dirigentes deixariam de ser injustiçados por torcedores inconformados pela perda de um campeonato.
Não sei o que Seu Marinho, se vivo fosse, diria sobre a SAF, mas acho que aprovaria com ressalvas, pois, como toda empresa, requer um bom gestor, correto e cumpridor de seus deveres. Afinal, em tudo há riscos, e a sonoridade da sigla já lembra de safadeza, safado, safadão e safar.











