Colunista Valberto José

Jornalista, formado pela Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Iniciou como colunista na Gazeta do Sertão e trabalhou no Diário da Borborema e Jornal da Paraíba, colaborou na versão impressa d`A PALAVRA.

  • A ARRANCADA DA RAPOSA RUMO AO TETRA

    17/09/2021

    No início dos anos 90, no caderno de esportes do Diário da Borborema, assinei matéria enfocando a vida, naquela época, dos jogadores que formaram o elenco do Campinense que ficou conhecido como “o time de Zé Pinheiro”. Ao ler a página, após a publicação, pensei comigo mesmo: um fenômeno. Tão raro, quanto a raridade do hexa rubro-negro dos anos 60.

    No mês de agosto, fez 50 anos que a Raposa ganhou o Campeonato Paraibano de 71, dando a arrancada para o tetracampeonato da década de 1970. A conquista significou a consolidação do “time de Zé Pinheiro”, alusão criada pela torcida para definir o elenco praticamente todo formado no Estádio Plinio Lemos, hoje Vila Olímpica, um dos mais vitoriosos da história.

    O título veio após uma série decisiva de três partidas com o Botafogo, das quais venceu duas e perdeu uma, ganhando a última na casa adversária. Para chegar à fase de decisão, o rubro-negro conquistou o primeiro turno, fracassou no segundo permitindo que o rival se garantisse na final, mas reagiu de forma heroica abocanhando o terceiro de forma invicta.

    A Raposa ganhou o 1º Turno vencendo seis jogos e perdendo um; no returno, mesmo sem perder, ficou na segunda colocação obtendo três vitórias e dois empates. O Bota triunfou em quatro jogos e empatou um. O terceiro turno não deu pra ninguém, pois o rubro-negro saiu vitorioso nos cinco confrontos.

    Ao todo, o Campinense disputou 20 jogos, vencendo 17, empatando um e perdendo dois. A única derrota - 1 x 0 - na fase de turno foi para o Santos, no Estádio Leonardo da Silveira, em João Pessoa. Marcou 42 gols e sofreu 13, tendo em Edgar – 15 gols – o principal artilheiro; Vavá e Toinho, foram os atletas que atuaram em todos.

    As comemorações do título contaram até com um conhecido trezeano, destaca página esportiva do DB. É que João Nogueira de Arruda (Pinta-Cega), torcedor apaixonado do Treze, vestiu-se de rubro-negro e foi às ruas festejar a conquista adversária.

    O jogo que decidiu a competição foi no 04 de agosto, na capital. Na tarde seguinte, a bandeira da Paraíba tremulava no Colégio Diocesano de Patos, cidade que nos acolhera poucos meses antes, lembrando a fundação do Estado. Mas para o amigo Lopito, que nos visitava na ocasião, a bandeira comemorava o título conquistado pelo Campinense.

    FICHA TÉCNICA

    Campinense – Ailton; Miro, Jota Alves (Ademir), Deca e Ivan Lopes; Vavá e Toinho; Dinga, Pedrinho Cangula, Edgar e Valnir. Técnico Ibiapino

    Botafogo – Lula; Paisinho, Lando, Valdo e Gerônimo; Odon (Leone) e Santana; Paulinho, Chico, Jorge (Capelense) e Ferreira.

    Juiz: Geraldo Luckwu. Auxiliares: Evanílson Meneses e Genival Batista. Gols: Edgar e Toinho (CC), Ferreira (Bota).

    CAMPANHA RUBRO-NEGRA

    PRIMEIRO TURNO

    11/04 Campinense 5 x 0 União

    18/04 Esporte 0 x 2 Campinense

    02/05 Santos 4 x 3 Campinense

    09/05 Campinense 1 x 0 Botafogo

    19/05 Auto Esporte 0 x 2 Campinense

    23/05 Campinense 4 x 1 Guarabira

    SEGUNDO TURNO

    06/06 Campinense 3 x 2 Auto Esporte

    13/06 Botafogo 0 x 0 Campinense

    16/06 Campinense 5 x 0 Esporte

    20/06 Treze 1 x 1 Campinense

    27/06 União 0 x 1 Campinense

    TERCEIRO TURNO

    04/07 Esporte 1 x 2 Campinense

    07/07 Auto Esporte 1 x 2 Campinense

    11/07 Campinense 2 x 0 Botafogo

    14/07 Campinense 2 x 0 União

    18/07 Campinense 1 x 0 Treze

    DECISÃO

    28/07 Campinense 2 x 0 Botafogo

    01/08 Botafogo 2 x 1 Campinense

    04/08 Botafogo 1 x 2 Campinense

  • Gente de feira

    10/09/2021

    A obra de Câmara Cascudo lembra que “O melhor do Brasil é o brasileiro”. Parodiando o folclorista potiguar sou animado a refletir que o melhor da feira é o feirante. Literalmente o feirante. O que vende, o que compra, o que trabalha ou presta serviços e até o que atrapalha. Todos, em funções diferentes, são gente de feira. Alegre ou triste, bem humorada ou não.

    Mesmo deixando de trabalhar na feira da Rainha da Borborema, continuei a frequentar seus espaços, principalmente os de frutas e verduras, mantendo uma relação comercial de décadas com pelo menos dois comerciantes. A pandemia me forçou a um afastamento involuntário, mas não me privou de seus produtos.

    Dona Penha foi minha fornecedora de verduras e legumes por mais de 30 anos. Só deixei de lhe comprar depois que laços comerciais familiares me ataram feito os lançados pelos vaqueiros na caatinga. Nunca esqueci quando minha caçula nasceu e ela chegou, de surpresa, em nossa casa, levando uma lembrancinha simples, mas repleta de carinho.

    Feirante dos mais engraçados que conheci, Zito Procópio passou mais de mais de 60 anos – iniciou praticamente criança - negociando na feira de frutas. Deixou, forçado pelo freio nas vendas premido pela pandemia. Assis Costa, jornalista que nos deixou em fevereiro, era seu cliente e passava mais de hora sentado no único tamborete do box, fazendo os pedidos, ouvindo e soltando gracejos.

    Até na hora de somar a conta do cliente Zito brincava, simulando uma narração de futebol pelo rádio. “Cinco mais quatro nove, com mais três doze. Fez que foi, não foi, Batatais não vai atrás. Vai um...”. Depois, de riso contagiando o ambiente, conferia a conta. Raramente errava.

    As brincadeiras recheadas de malícias de Zito com os fregueses mais chegados ou afeitos ao tipo eram constantes. “Vale R$ 1,00. Tu dá R$ 1,00?”, apelava ao avistar um cliente chegando para o encontro casual com outro já em atendimento. Ou, disfarçadamente, apontando o dedo, sem que o outro visse, “Tu ia, tu ia?

    Certo domingo recebi a missão de levar um padre conhecido ao seminário por traz do Colégio Panorama. Chegando pela Almirante Barroso, esperei o sinal abrir e virei à direita e já avistei Zito saindo do campo de pelada onde hoje é o Tododia. Abriu o sorriso sacana, foi levantando a mão e o indicador apontando para o padre. “Tu ia, tu ia?”. Tive que controlar a alegria para não constranger o padre.

    Carregador de feira bastante prestigiado, Manoel exerce a habilidade no contato com a freguesia, que não é pequena, mais do que manobrando seu carro de mão pelo meio da feira. Costuma atender mais de um cliente ao mesmo tempo e deixa todos satisfeitos. Nem se altera na inevitável pressão pela rapidez da entrega.

    Morador da zona rural de Massaranduba, Manoel é encarregado de realizar as compras de boa parte da clientela, inclusive as minhas, estas após a pandemia. Também pratica o serviço de delivery, usando a moto na qual se desloca de casa para o trabalho de terça a sábado.

    A habilidade e a disposição de Badu, como também é conhecido na localidade onde mora, só lhe abre porteiras. Encarregado de entregar os bolos que vem do interior de Pernambuco, ele já recebeu proposta para gerenciar a produção e distribuição, mas não topou a transferência para Bezerros.

    Também rejeitou contrato em uma rede campinense de supermercados, onde faz entrega dos produtos do trigo. Lamentei, alertando que ele teria uma carteira assinada. “Eu tenho e meu terreno, pago o meu sindicato; tenho minha aposentadoria garantida. Aqui, eu faço o meu horário e ganho bem mais”, justificou.

    No nosso último contato, quando veio deixar as compras no meu carro, brinquei dizendo que ele estava disfarçando, pois teria sido o ganhador recente da Timemania em Massaranduba. “Deixa eu quieto, aqui, com a minha carrocinha. Andando tranquilo e em paz”.

    Chapéu é outro habilidoso carroceiro do nosso Patrimônio Cultural e ganhou o apelido em função do uso constante do objeto de proteção solar, mas que na verdade é para esconder a calvície prematura. É o único carroceiro que mantém o luxo de não trabalhar no sábado.

    Além da habilidade no contato com o cliente, Chapéu é exemplo de conscientização de como prestar um bom serviço. “Eu tenho que tratar bem o meu cliente. Tenho que conhecer a cor e saber a placa do carro do meu cliente”, disse em conversa comigo há anos. “O meu PIB é daqui”, justificou.

  • FEIRA DE APELIDOS

    03/09/2021

    Trabalhei na feira central vendendo carne por 10 anos, deixando após ser vítima encarcerada, sob a acusação de ágio no preço, do Plano Cruzado, que, feito amor, foi bom enquanto durou. Também enquanto deu para vender pela tabela foi uma maravilha, pois o tabelamento oficial permitia o lucro justo e a regularidade do abastecimento necessário.

    Fui pescado para o ramo pelo tio Clóvis na sequência do esperançoso retorno a Campina Grande, depois de cincos anos em Patos. Sem perspectivas de trabalho, aceitei de primeira o convite familiar, continuando o aprendizado comercial iniciado com papai, agora tendo que aprender as nuances da nova atividade.

    Com a loja de Zé Pinheiro vislumbrando perspectivas futuras e exigindo minha presença diária, a tarde de sexta-feira e a madrugada do sábado me foram reservadas para os serviços de desossa e o desarno no atendimento. Em pouco tempo de Mercado Central conheci muitos colegas, parte deles com os apelidos insólitos.

    Aqui, não vou citar apelidos motivados por deficiência física ou que a pessoa não aceita ser chamada, tipo Boca Torta. Destaco o que realmente substitui o nome de registro, a exemplo de Mané Botico, considerado um artista no trabalho de magarefe no Matadouro Público, enquanto funcionou em Bodocongó.

    Artista, pois despelava os animais abatidos com raro capricho deixando o couro bovino bem delineado, conforme o seu figurino natural, performance que motivou o apelido. Certo dia, um observador mais atento percebeu a maneira detalhada como ele riscava e cortava a região anal de uma rês e, admirado não se conteve.

    - Rapaz, tu és um Mané Botico mesmo. Tu tiras o botico do bicho bem direitinho, bem desenhado. Desde então ficou conhecido por Mané Botico e nem estava aí para o cognome insultante. Na única conversa que tivemos, ele me contou com naturalidade a motivação para ganhar o apelido.

    Pelo menos a identificação de duas pessoas com o mesmo apelido pelos feirante colegas foram através do acréscimo de uma palavra que caracterizasse cada um. Trabalharam no setor de carne, dois profissionais conhecidos por Dedé. Um, com uma certa elegância e um ar de importância, ficou conhecido por Dedé Importado; o outro, talvez pelo comportamento pertinente, chamava-se Dedé Peitica.

    Conheci dois marchantes do Mercado Central – um deles já falecido – atendendo por Deca. Embora do mesmo nível social e financeiro, colegas adotaram palavras antônimas para facilitar a identificação de cada um, nas conversas. Um, certamente pelo espírito de grandeza, passou a ser Deca Rico; o outro, na simplicidade do seu viver, foi “batizado” de Deca Pobre. Este, pegou o bonde rumo à eternidade.

    0 saudoso Chico Macaco foi meu vizinho de box e o nome formando o composto de como era chamado retrata com certa fidelidade as características de sua aparência física. Interessante

    que um colega seu, metido a conquistador de mulheres (não sei se também pegou o bonde), ironicamente chamava-se Guei. Num tempo em que a palavra inglesa Gay não era popularizada ainda no Brasil.

    Também é comum ainda hoje cognominar o profissional pelo produto que vende. Fulano da Carne de Sol, Edilson do Alho. No meu tempo, um vendedor de especiarias era conhecido por Tempero. Mais do que justo, pois além de vender os condimentos, sabia temperar o diálogo comercial com boas doses de humor.

    Ainda vive pelo mercado um moreno de olhar diferenciado, bem estranho, que é conhecido por Satanás. Caiu bem, pois é a representação perfeita de como a gente imagina ser o demônio. Corre uma lenda de que ele mordeu um gabiru, revidando uma mordida que o roedor lhe dera. Ele confirma a veracidade do acontecimento. Acho que nem o diabo acredita.

    Morando no mesmo bairro, na infância, mas sem aproximação que sequer o seu nome sabia, reencontrei o filho de Luzia Viola trabalhando com carne na feira atendendo por “Oi” de Prata. O motivo para o apelido é que seus os olhos matizavam (não sei se ainda é vivo) duas ou três cores, destacando o verde claro, quase prateado.

    O apelido encontra justificação diversificada, de acordo com a característica física e das ações do apelidado, tornando-se parte do nosso folclore, pois, é certo, fruto das manifestações populares. Certo também que o apelido pega mais rápido, de primeira, quando a pessoa se zanga com o novo sobrenome. Que pelo nome não se perca.

    TAMBORETE

    Escrevendo a coluna anterior sobre os acessos da feira, logo me lembrei do vereador Olímpio Oliveira, que trabalhou no Mercado Central ajudando o pai e a mãe na venda de ovos, queijo e, se a memória não me trai, lanches e refeições. Na feira, Olímpio deu seus primeiros passos de líder, fundando uma associação de feirantes do Mercado Central.

    ASSALTO

    Esta semana, veio o apelo comovente do edil pelas redes sociais para reencontrar o tamborete de estimação, no qual subia para alcançar o balcão. O banquinho foi no porta-malas do carro, levado em assalto no mês de julho. Feito a sanfona roubada de Gonzaga, o tamborete não é do povo. O dono, sim.

  • A feira, as flores e o fumo

    27/08/2021

    As opções de acessos à feira de Campina Grande são muitas e praticamente todos os nomes das ruas de entrada sugerem algo para o êxito do consumidor no momento das compras no Mercado Central e seu entorno. Mas nenhuma das alternativas é tão romântica quanto chegando pela pequenina rua onde o forrozeiro Genival Lacerda nasceu e morou boa parte de sua vida.

    De início, é bom lembrar, a nossa principal avenida, a Floriano Peixoto, tem duas vias de acessos. Floriano significa da flor, é uma variante italiana de flora como a avisar que em determinado local se vende uma variedade imensa de flores; na gíria do passado, também significou uma nota de cem Cruzeiros, o que sugere os gastos que o cliente terá nas compras.

    Logo ao passar pela Catedral sentido Alto Branco/Santo Antônio e estancar no sinal, o peregrino entra à direita na Rua Peregrino de Carvalho e à frente pode optar por uma das duas entradas: pela Antônio de Sá ou a continuidade da Afonso Campos. Se apreciar o líquido do engenho, o sobrenome lembra uma dose, se estiver sadio.

    Quem vem na apelidada Avenida Canal, o nome sugere uma infinidade de canais de compras dentro e fora do Mercado Central ofertando uma variedade imensurável de produtos. Se optar pela Rua Marcilio Dias, terá a noção de que um mar de mercadorias estará ao seu alcance quase todos os dias, com a exceção dominical; se preferir a Carlos Agra, o doutor evoca a agradecer o poder de compras ao Pai.

    A Rua Quebra Quilos, que tem duas vias de acesso, uma das quais oferecendo prazeres carnais – a Rua Boa, como chamava Rosil Cavalcante -, obviamente nos desperta no sentido de que não sejamos roubados no peso. Ficarmos atentos na ocasião da pesagem, sopesando com os olhos produtos como carne e cereais. Para o quilo não ser quebrado.

    Na Vila Nova da Rainha, podemos encontrar o acesso mais romântico, via Rua Manoel Farias Leite, aquela onde nasceu Genival Lacerda, no número 36. Se toda rainha é digna de flores, logo na entrada se encontra a feira de flores. Esse romantismo sofre um abalo poucos metros depois do indivíduo topar com os pontos de venda de fumo.

    Um contraste que opõe beleza, cores e odores e motivou uma justa queixa de Lopito. “A gente chega recebendo flores, mas em seguida leva fumo”. A contrariedade pode se evidenciar no sentido inverso, amigo. O sujeito chega por outra rua, faz as compras e leva fumo. Na saída ganha flores.

    NOVO PROGRAMA

    Por falar em Genival Lacerda, gostei das mudanças no programa de Ton Oliveira, na TV Borborema. Com novo formato, cenário novo e outra denominação – Música & Cia -, vem priorizando o verdadeiro forró. Cezzinha, Maciel Melo, Forró Lampejo e Delmiro Barros passaram por lá. O sentimento de nordestinidade aflorou ao ponto de, quando lembro do programa, quero dizer Nordeste & Cia.

    BEM NORDESTE

    Domingo último, curti Ciro Santos e Forró de Nois, no Cantos e Contos, na TV Correio; em Roland Boldrin, na TV Itararé, foi uma delícia ver Liv Morais cantar as principais músicas do pai Dominguinhos. Para depois conhecer, no programa de Ton, a banda Forró Trakino, de Junco do Seridó, que tem em Manoel no triângulo um cantor muito bom. É só Alegria!

  • Não Serei o Lenhador de Augusto

    20/08/2021

    Se depender da aniversariante do dia, não serei o lenhador que Augusto explora e ainda terei a velhice que o poeta implora. Esta menina, embora carregue a zanga da mãe, me traz a tranquilidade paterna que um genitor anseia.

    Como Morgana me preenche de esperança! Pelo talento, pelo carisma, pela simpatia, pela beleza... Não a beleza externa que todos veem, mas a beleza interna que sensibiliza os sábios e desarma os brutos. Uma beleza alicerçada na fé; a fé que traz esperança.

    De tão divina, essa beleza interna de Morgana chega a ser profética, servindo-lhe de livramento; sempre vislumbra o perigo à frente. Aí, não lhe falta coragem para decidir, mesmo que, feito Maria, lhe trespasse o peito.

    Ela herdou de mim o gosto pelo trabalho e pelas festas. A intensidade de sua determinação trabalhista neutraliza qualquer ação mandonista patronal ou mesmo paternal. Sem causar ranço.

    Para ilustrar: no nosso comércio (quando estava funcionando), a porta de acesso tem uma chave no meio e um cadeado embaixo, fechando no piso. Para abri-la, giro no meio, me inclino para tirar o cadeado e levantar a porta; ela, até quando pode nos ajudar, não me deixava abaixar de novo para pegar a peça de travamento, recolhendo-a numa rapidez admirável, me poupando o agachamento necessário.

    Festa é com Morgana, mas com intensa responsabilidade. Certa vez fui falar com ela pelo seu excesso festivo, aí me calou: painho, puxei ao senhor, que numa festa só sai no lixo; a diferença é que o senhor não dança.

    Estou convicto de que esta filha não me será "uma árvore de empecilho". E nem precisará se "abraçar com o tronco", pois ela mesma tece para mim a velhice que o poeta almeja.

    CASAMENTO

    A data de 20 de agosto passa a ser muito importante para nossa família. Neste dia, levarei Morgana, a minha filha amada, ao altar para receber as bençãos nupciais, quando a entregarei aos cuidados de Gustavo Borges, que passa a ser um novo filho. Que ele tenha de forma constante a reciprocidade desses cuidados.

    Então, vale a pena republicar o texto escrito para comemorar um dos seus aniversários e que foi decisivo para eu aceitar os repetidos convites de Marcos para voltar a escrever a coluna. Que a estabilidade matrimonial permaneça sempre!

  • Uma noite em Marizópolis

    13/08/2021

    Com uma caixa grande repleta de mercadorias embaladas ou produzidas em casa sobre a cabeça ou apoiada nos quadris, saia, ainda menino, do bairro do Cruzeiro para vender esses produtos no Catolé e no Jeremias. Esse périplo foi um ensaio do que viria a ser minha vida de vendedor ambulante adolescente, no sertão.

    A labuta sertaneja teve início aos 12 anos, logo após a mudança familiar para Malta, onde a prole permaneceu por três meses. Chegamos no início da noite de uma sexta-feira e no domingo, por determinação paterna, corri o pequeno comércio local.

    Sem qualquer conhecimento do território a ser percorrido, oito dias depois a ordem foi vender a produção em três cidades no sentido alto sertão. “Primeiro é Condado, depois São Bentinho e aí, Pombal”, orientou, com a dica de pegar o ônibus ou uma das caminhonetas, os alternativos de hoje.

    Essa foi a minha rotina aos sábados e domingos e durante as férias escolares, até retornar a Campina Grande cinco anos depois. Sem qualquer demérito paternal, esse trabalho de comercialização domiciliar, na adolescência, firmou minha responsabilidade com o mérito da preservação dos estudos.

    Agora com morada em Patos, a partir de terceiro mês em solo sertanejo, as viagens se estendiam por parte do Piancó, regiões de Sousa e Catolé Rocha, esticando até a Alexandria, no Rio Grande do Norte. Nessa função de vendedor mirim, passei, junto com outros dois irmãos, algumas aventuras que me trouxeram experiência de vida.

    Como na vez que fui, junto com o mano Afonso, vender em São Mamede e Santa Luzia, praças da rota, sob a orientação de ir a São José do Sabugi, Parelha e Equador, cidades desconhecidas, retornando ao Estado pelo Junco. Nem é preciso confirmar que as vendas foram um fracasso. Em Equador, um comerciante adquiriu alguns produtos e nos levou para o almoço em sua casa.

    Noutra oportunidade, viajei com papai com o objetivo de trabalhar nas praças de Catolé do Rocha, Brejo do Cruz e Belém de Brejo do Cruz. Na terra de Zé Ramalho, ele decidiu retornar, me encarregando das vendas em Belém, onde uma dupla de anões comprava por toda cidade. Ainda determinou ir até Patu, solo potiguar que não conhecia.

    O retorno seria pela terra de João Agripino, onde embarcaria no ônibus da Viação Patoense e chegaria a Patos. Sem conseguir transporte, foi impossível esse percurso. Conhecedor da circulação de trem entre Mossoró e Sousa, fiz a opção da viagem ferroviária.

    Dormi na futura Terra dos Dinossauros, na casa de dona Rosa, que funcionava como hotel. No dia seguinte, logo cedo da manhã, uma locomotiva me devolveu aos braços de minha mãe, que me recebeu com os olhos túmidos e ainda úmidos de tanto choro.

    Numa viagem a Alexandria, também acompanhado de Afonso, um cliente nos chamou para dormir no aconchego de sua humilde casa. Convite aceito, reparamos as energias depois de um profundo sono em redes armadas na sala. Não é que me acordei, corado de vergonha, com o fundo da rede ensopado, efeito de uma rara e repentina incontinência urinária.

    Sousa foi uma praça de boas vendas, mas com o tempo foram decaindo, decaindo até ao ponto de papai desistir. Lembro do intenso movimento de trens e pessoas na sua estação ferroviária, entroncamento, baldeação e destino dos vagões vindos de Recife, Mossoró e cidades do Ceará.

    - Seu Zé, o almoço desse menino tenho que cobrar mais caro, pois ele come demais, avisou dona Rosa, que nos acolhia tão bem – na mesma mesa da família comungávamos a nossa refeição -, apontando para o mano Afonso, que após os 40 sentiu a necessidade de afinar o corpo com uma indispensável bariátrica.

    De Catolé do Rocha, a recordação é das sessões de cinema, com ênfase as de filmes pornôs, depois de driblar a fiscalização com a cumplicidade da portaria. Também frequentei bastante a loja de discos que Chico César veio a trabalhar, lógico que tempos depois que deixei a atividade ambulante.

    Outra grande aventura foi no então distrito de Marizópolis, lugar onde se vendia apenas uma vez no mês. Escalado para negociar em Sousa, viajei no ônibus da empresa Andorinha que passava em Patos por volta de 21h30. Não é que adormeci e vim me acordar na hoje cidade, que não constava na rota traçada por papai.

    Tarde da noite e com pouco dinheiro, optei por “dormir” na calçada, às margens da rodovia que corta a cidade, colocando a dupla de caixas entre dois carros estacionados de frente para as casas. A poucos metros, numa escola, uma “festa de arromba” amenizou a minha apreensiva noitada.

    No outro dia, ao abrir as portas do Mercado Público do então distrito de Sousa, vendi alguma coisa e voltei para negociar o restante dos produtos na Cidade Sorriso.

    Nem que eu quisesse, conseguiria esquecer essa noite. A amiga Soraia César, natural de Marizópolis, sem querer, me faz lembrar essa imprevisibilidade, todo mês, nas reuniões das Equipes de Nossa Senhora.

  • LEGADO PATERNAL

    06/08/2021

    Ainda hoje recordo papai nos despertando do sono adolescente, aos primeiros raios solares, para os afazeres do dia. E como tinha o que fazer! “Acorda, acorda... Passarinho que não deve nada a ninguém já está no mundo”. Raramente citava o nome; só quando um dos maiores insistia na sonolência indomável ou fingia não ouvir o seu mote matinal.

    Primogênito de uma prole de 11filhos, costumava ser o primeiro a pular da cama, obediente como sempre fui. Os menores – Pudera, tinha até recém-nascido – eram poupados do levantar cedo do dia. Os mais velhos, depois da limpeza facial e do café da manhã, logo iniciavam a labuta diária.

    Os que tinham aulas pela manhã se arrumavam e rumavam para a escola; os que estudavam no período vespertino ficavam encarregados das obrigações de produção e embalagem de temperos na fábrica caseira. E até das vendas. Aos sábados e domingos e nas férias, principalmente, viajávamos por quase todo sertão vendendo a produção.

    Já deu para mensurar a rigidez e a disciplina de como fomos criados. Vale mais um exemplo. Menino de uns oito anos, fui encarregado de levar um cozinhado de macaxeira, colhida no roçado que papai manteve por um tempo nas terras do meu avô, no bairro do Cruzeiro, e que ofertara a um amigo.

    Sentindo o peso da “carga”, dirigi-me à casa do beneficiado. Na sua ausência, entreguei o presente à mulher, que me gratificou com uma nota. Ao voltar, caí na besteira de dizer a papai da gratificação. “Não mandei você receber dinheiro de ninguém. Volte lá e devolva”, reagiu. Morto de vergonha, devolvi a recompensa. “Não era para você ter dito a ele”, lamentou a jovem senhora.

    Mesmo na necessidade de colocar os filhos no trabalho, José Lopes de Almeida (Zé Patrício) não esqueceu dos estudos de nenhum deles, com o empenho decisivo de nossa mãe. Ele não deixou riqueza, mas nos legou valores morais baseados no trabalho, na honestidade e na responsabilidade.

    Esse legado busquei repassar para os meus três descendentes, com a vantagem de poder dar-lhes condições da dedicação estudantil exclusiva. Com as facilidades de hoje, todos chegaram à conclusão de um curso superior, um deles recentemente.

    Acredito que todo pai gostaria de ser melhor ou fazer mais pela sua descendência. Ainda resiste dentro de mim essa sensação. A consciência do dever cumprido me faz superar o sentimento ao vê-los na prática da honestidade, da responsabilidade e da dedicação ao trabalho. Ninguém bateu à minha porta cobrando uma conta de nenhum deles.

    Nas orações, sempre pedi bênçãos e proteção para os três; rogo que eles não se desviem do caminho de Deus e que nunca nos deem um desgosto moral. Não me canso desses pedidos ao Criador. Depois de crescidos, acrescentei a estabilidade nas orações. Suplico, portanto, que eles obtenham e mantenham a “estabilidade profissional, financeira e matrimonial”.

    INDELICADEZAS

    Na minha vida de comércio, presenciei diversas indelicadezas de filhos para com os pais. Mas nenhuma foi tão desrespeitosa quanto a que testemunhei, incrédulo, no meu açougue. Um adolescente mandou o seu genitor tomar naquele canto, após uma discussão na escolha de uma carne.

    “Esta é a primeira e última vez que você fala assim comigo”, reagiu o pai, com a firmeza que o momento exigia. Caindo em si, o garoto imediatamente lhe pediu desculpas. Nem mesmo essa retratação amenizou a vergonha do progenitor. Perdi o cliente de vários anos.

    MEDO

    Outro cliente, octogenário, um exigente que sabia exigir, bem falante, ficava mudo diante do filho, autoridade em Estado distante, quando vinham os dois à compra do churrasco, nas férias do descendente. Este, extremamente arrogante, de semblante grave e certa gravidade no falar, metia medo até nos balconistas.

    Nunca viu o filho sem camisa, após ele chegar à maioridade, confirmou uma irmã. Nem na praia, sequer em casa. É que sua austeridade não impediu que o jovem fizesse, às costas, uma enorme tatuagem.

  • O "efeito" do Viagra

    30/07/2021

    Certamente o meu encanto com a ancianidade lúcida, produtiva e carismática justifica a facilidade que tenho de fazer as pessoas da faixa etária de meus pais amigas. Severiano Correia Filho, o eletricista e encanador seu Dedé, é saldo dessa interação espontânea, que gera papos agradáveis e divertidos, como no nosso reencontro há pouco.

    Conheci seu Dedé logo após o meu noivado, numa de suas idas à casa da sogra para os consertos elétricos e hidráulicos. Gentileza sua! Mestre no seu ofício, vivia de grandes empreitadas, merecedor que era da confiança de engenheiros e construtores.

    Até então meu desconhecido, causou-me surpresa saber que conhecia meus ascendentes maternos, moradores próximos que foram na zona rural. Tinha uma amizade fraterna e boêmia com Joca Paulino e Jasi, tio e primo de minha mãe, com os quais costumava dividir as aventuras noturnas.

    Por várias vezes relembrou uma noitada que passou com tio Joca. “Passamos a noite no cabaré”, recorda, sem rodeios. Nem o cansaço foi empecilho para que se dirigissem, a pé, no dia seguinte, para os sítios onde moravam, cuja estrada principal era a de Catolé de Boa Vista, hoje a PB 038.

    Quando eles iam à altura da entrada do bairro Verdejante, vinha um carro, cujo motorista o reconheceu e parou para lhe oferecer a carona. Com uma condição: apenas ele. Mostrando companheirismo, agradeceu a gentiliza, sob o argumento de não deixar o amigo continuar a caminhada sozinho.

    O condutor do veículo, Belino Figueiredo, deu marcha e foi embora, mas com um quilometro parou, fez a curva e voltou. “Vou levar os dois”, arrependeu-se, deixando Joca na derradeira curva do Lucas, após a fazenda dos Mota; Dedé ficou no Estreito, à entrada do Boi Velho, sítio de sua residência.

    Depois que casei, também passei a me valer dos serviços de seu Dedé, tendo que encarar o incômodo de não cobrar os pequenos. Compensava-o, geralmente, ofertando-lhe uma boa cachaça e um tira-gosto tipo buchada de bode ou o “corredor de boi” para ele carregar a bateria

    Dedé trabalhou até a dupla de membros inferiores deixar, embora seu trabalho fosse mais de supervisão dos serviços e orientação à equipe que comandava. Acidentou-se numa das obras e desde então passou a conviver com as dificuldades de locomoção e verticalização.

    A inflexibilidade de um dos materiais com que trabalhava, o cano de PVC, foi a sequela adquirida do acidente, depois da perna enrijecida. Insistiu por vários anos no trabalho, tendo que se render às sentenças médicas cada vez mais incisivas.

    Nem o incômodo da deficiência sequelada tira a alegria de viver e o humor do amigo octogenário. Paradoxalmente, é motivo de brincadeiras e frases jocosas tanto de sua parte como da parte do seu largo círculo de amizade. Como a pegadinha improvisada por Walter, o Mangueira da Eletropolo.

    Contratado para fazer as instalações hidráulicas e elétricas de um dos prédios de Mangueira, Dedé estava atento à equipe na execução dos serviços, quando ele chegou acompanhado de uma mulher que viera conhecer o imóvel. O mestre foi convidado a participar.

    Os três saíram pelos corredores e cômodos da edificação, seu Dedé andando com as dificuldades imposta pela sequela, explicando os serviços executados, respondendo perguntas, etc. Numa pausa, foi surpreendido por um Mangueira alegre e brincalhão.

    - Olha, doutora, Dedé ficou com essa perna dura de tanto tomar Viagra, gracejou o contratante. No momento em que ficaram a sós, o mestre ainda teve que suportar a pergunta inconveniente da mulher. – Seu Dedé, aquilo que Mangueira falou é verdade mesmo?

  • OS OLHOS MIÚDOS DO NETO

    23/07/2021

    A velhice me encanta. Não aquela resultante de um processo patológico de senescência, mas a ancianidade lúcida, produtiva e carismática. Como não se encantar com Gonzaga Rodrigues escrevendo crônicas pra moça ler, aos 88 anos, e com Fernando Henrique Cardoso aos 90 lançando livro, publicando artigos e dando entrevistas lúcidas, pautando um Brasil melhor.

    Ainda hoje me lembro, encantado, mãe Sinhá, a minha avó materna que viveu 100 e sete meses com uma dignidade humana impressionante. Quanta lucidez, quanta vivência, quanto humor! E tanta jovialidade numa idade tão avançada.

    No mês do Dia dos Avós, 26, tomo a liberdade de relembrar neste espaço casos e situações vivenciadas e vividas por essa mulher que nos deixou há 11 anos. Vaidosa, não gostava de dizer a idade. Só vim ter certeza da sua quando festejou os 80 anos. “Tenho 35”, costumava responder ao ser indagada, abrindo um sorriso cativante.

    De raciocínio ágil, mãe Sinhá surpreendia com respostas incomuns à pessoa de sua idade. Como numa das inúmeras vezes que saímos no carro e eu, apressado, pedi que minha mãe abrisse a porta e descesse com ela.

    - Pegue mãe Sinhá, falei. - Vou nascer de novo, improvisou. Nisso, outra pessoa, na calçada, abriu a porta do carro. - Já tem outra parteira para me pegar, completou.

    Outra vez, fui levá-la na fisioterapia e quando ela entrou na sala de exercício, disse-lhe que teria que sair, mas voltaria em tempo. “Pra onde você vai?”, perguntou. “Vou buscar os ovos”, respondi. E ela, apontando pra minha área abaixo do ventre, retrucou: e não estão aí, não?

    Quando Sinhá estava com oitenta e poucos anos, marquei para 3h da tarde daquele dia para ir buscá-la em sua casa e levá-la ao médico. Um minuto antes cheguei, ultrapassei o portão, segurado pela falsidade do cadeado, e bati à porta.

    Pelo vidro avistei-a vindo no seu passinho miúdo. Girou a chave e a maçaneta, foi abrindo devagar e consultou o relógio. - Três horas. Cabra macho. Tem dois ovos em baixo, reagiu, diante da minha pontualidade britânica.

    No aniversário de 99 anos, um neto deu-lhe de presente um celular. Dias depois, numa manhã de sábado, em plena efervescência do movimento no meu comércio, o telefone toca e quem atende, me avisa: é Dona Sinhá.

    Diante da ocupação momentânea não pude correspondê-la e pedi que lhe dissesse que retornaria depois. ” Estou treinando”, justificou, quando informada da impossibilidade do atendimento e da pergunta o que desejava.

    Com 95, quando ela ainda arriscava uma vagarosa caminhada no Açude Velho, pude apresentá-la ao saudoso Jorge Hipólito, à época companheiro de atividades físicas, lembrando-lhe que ele fora goleiro de Treze e Campinense.

    Vi o negão meio embaraçado, diante de suas perguntas. Ora confirmava que jogou ou trabalhou num, ora noutro. Sem que ela se contentasse com suas respostas. Na verdade, Sinhá queria saber qual dos dois times ele torcia.

    Certo domingo, ao chegar à missa, avistei que ela já se encontrava num dos bancos, junto com minha mãe e uma nora. Ao terminar a celebração, vinha ela segurada pela mão de uma delas e quando me viu, soltou e se apegou à minha. “O braço de um homem é melhor”.

    Fui levá-la em casa, que ficava próxima à igreja, caminhando. Ao ultrapassar o portão, me contou, bem satisfeita, que tivera uma visita naquele final de tarde. “Que há tempo não vinha aqui”. Curioso, perguntei quem. “Martinho da Vila”, que cantara no Faustão, respondeu.

    Depois da morte de um genro, ela foi visitar a irmã dele, que, melancólica, começou a lamentar a perda de pessoas jovens. “Mas as pessoas boas morrem cedo, dona Sinhá”. “Já sei que eu sou muito ruim, Normélia”, retrucou, com seu humor característico, já aos 90 e poucos anos.

    Tinha um cuidado imenso para eu não dirigir depois de beber. “Deixa-me ver seus olhos”, pedia quando eu ia buscá-la para um passeio ou ir ao médico. É que achava que meus olhos ficavam miúdos quando eu bebia. Ainda hoje eles continuam miúdos. Mas de saudade.

  • MAIS SAÚDE, MENOS SAUDADE

    15/07/2021

    O mês iniciou com o descenso nos números de casos e mortes de Covid-19, após um junho de estatísticas assustadoras, engrossadas pela partida de dois primos, vítimas que foram do vírus impiedoso. Não deixa de ser um alento, embora venha o alerta dos especialistas de uma nova variante.

    Paralelamente, parece avançar o plano nacional de vacinação, ainda que os dados sejam baixos. Conforme o consórcio de veículos de imprensa, apenas 15,17% da população brasileira estão totalmente imunizados, até dia 14. Muito aquém do esperado!

    Por isso mesmo os cuidados preventivos devem ser mantidos e redobrados. Só quem foi contaminado pelo vírus ou perdeu parentes sabe do sofrimento e da dor. Sou testemunha do que está passando a família de teto de Janarque e Berg, primos vitimados pela doença.

    Tem sido intenso o sofrimento de minha tia Neném! Janarque, 47 anos, primo pelo lado materno, era a opção única masculina entre seus rebentos, completando o quinteto filial com quatro irmãs. Como sofrem essas mulheres!

    Berg, aparentado pela ramificação paterna, filho de minha tia Severina, que há anos está no patamar superior. Desloquei-me ao município de Livramento e vi a tristeza e a dor estampadas no rosto dos seus irmãos e filhos.

    Por mais de uma vez uma filha desmaiou, como a implorar: Pai, quero ir também. Os irmãos pareciam tranquilos, mas os olhos denunciavam todo sentimento pela perda de uma convivência de 53 anos.

    Sim, a maioria dos irmãos sempre morou junto. No mesmo teto, quando solteiros; no mesmo terreno depois de casados. Dividindo os trabalhos rurais, os problemas e as necessidades; rateando os parcos lucros da lavoura inconstante ou da pequena e dependente pecuária.

    Vamos redobrar os cuidados, repito. Máscaras, asseio constante das mãos e vacina, eis a receita. Não reneguem a ciência, pois os cientistas podem renegar Deus, mas Deus não renega a ciência. Nem ninguém. Para que tenhamos mais saúde, menos saudade.

    GOLS NELES

    A participação paraibana na última rodada do Certame Brasileiro foi generosa em marcação de gols. Nada menos que 16 foram assinalados pelas quatro equipes que disputam a competição, perfazendo uma média de quatro para cada uma. Que continuem assim.

    Pela série D, o Sousa surpreendeu ao condenar o Caucaia por 7 a 0. O Campinense tomou dois gols do Atlético cearense, mas reagiu marcando três comprovando que a melhor defesa é o ataque.

    O Treze não considerou essa máxima do futebol, levou dois do América-RN e, apesar do esforço, não conseguiu assinalar mais um.

    Na série C, o Botafogo entrou livre, leve e solto na zona fraca - digo defensiva - do Manaus e deslanchou, construindo uma inesperada vitória de 4 a 1.

    O BRUTO

    Lopito continua inspirado na academia. A professora não viu que ele fizera uma atividade no polete, justamente o exercício do coice. “Falta o coice”, cobrou, depois de examinar seu programa de treinamento. “Já fiz. Os brutos aprendem logo a dar coices”, brincou.

  • Compartilhando mensagens

    09/07/2021

    Não há motivo maior para comemorações do que datas natalícias, estando vivo. Festejar meu nascimento, à minha maneira e de acordo com as minhas condições, é uma das práticas que conservo. Nesse dia, nada me atinge, a alegria predomina e a sensação é a de que é o dia mais feliz do ano.

    Nas datas de aniversários de familiares, principalmente irmãos, costumo enviar-lhes mensagens, via grupo, inspiradas no sentimento que nos une, no que eles são e o que representam em minha vida. No mês do meu aniversário, vale compartilhar esses afagos. É o que segue.

    No níver da mana Albanete, postei uma mensagem no grupo da família e a sobrinha Nilsa, comentou: Minha Nossa Senhora, como é que a gente escreve mais alguma coisa depois desse texto de tio Valberto. Priscila, sobrinha que mora em Teresina, sugeriu: copie e cole o texto de novo. “Simples assim”.

    HERANÇA

    “O nome é Albanete, mas poderia ser Ana Cristina, como chegamos a chamar. A intransigência paterna mudou o seu antropônimo, mas a generosidade divina manteve como suas principais características pessoais o significado do nome preferido pela gratidão materna, ou seja, cheia de graça e ungida por Deus. E essa graciosidade ela irradia, indistintamente, a todos.

    Acredito ser Albanete, dos filhos, quem mais carrega na alma a fé de Cleonice, nossa mãe. Com a vantagem de transmitir essa fé com palavras, atos e até nas omissões involuntárias. Quem se aproxima dessa nossa irmã, certamente se sente mais perto de Deus”.

    ANGELICAL

    No aniversário de Carminha, a caçula da prole, escrevi: Tu és tão angelical na vida do próximo (e também do distante) que te definir é quase impossível. És uma desafiadora da filosofia franciscana; fazes sem esperar receber.

    Carregas no ombro também a serenidade, esse atestado de fé. Eu e tu somos a extremidade familiar a partir do momento que sou o primogênito e tu és a caçula. Mas se a última és, com certeza és a primeira entre todos no coração da descendência de José e Cleonice.

    Recentemente, o “piauiense” Afonso ganhou cartão de idoso, o que motivou eu agrupar a mensagem: Tão bom chegar aos 60 com jeito de adolescente responsável e exemplo de adulto caridoso; agora idoso animado. Nem adiantou a bariátrica, pois o coração permanece obeso. Obeso de bondade.

    A CHEF

    Baixinha no tamanho, Aurora, também irmã, tem o nome e a estatura da avó paterna. Cozinha maravilhosamente e madruga para trabalhar. “Parabéns, mana tão pequena! Mas de um coração tão grande. E de uma mão de fada, que agrada o paladar de todos.

    Uma pequena que faz jus ao nome ao nos lembrar fisicamente nossa vó paterna; ao sair pra trabalhar, feito os tropeiros, ‘mais cedo que a barra da aurora’. Que Deus mantenha sempre essa serenidade que esconde teus problemas e tuas preocupações”, mensageei.

    Anete é outra irmã, que mereceu a seguinte felicitação: Certamente teu nome é o diminutivo de Ana, a avó de Jesus. Mas nem a aparente diminuição nominal apequenou tua fé; pelo contrário, és um exemplo de pessoa que conserva uma crença inabalável e perseverante, fazendo jus à origem de teu nome e por isso mesmo cheia de graça.

    SERVO

    Em que pese o apelido feminino, Bia é o mano das carnes no bairro do Catolé, e nessa mensagem vale saber o seu nome verdadeiro. “Abdias, o teu nome de batismo, tem uma característica linda no seu significado: servo de Deus.

    E assim tu te comportas quando faz uma caridade, quando compreende o próximo, quando perdoa o próximo... Bia, o teu apelido no berço familiar, traduz a força na mitologia grega. Que uses essa força para e como ação na significação do teu nome batismal”.

    A “paulistana” Maria da Guia ficou surpresa com essa mensagem: A devoção materna foi divina ao optar por Maria e Guia na composição nominal de nossa mana. Foi até profética, além de sábia e devota. Maria simboliza a fé de quem acredita; Guia, a sabedoria que necessitamos para caminhar e guiar quem a nós, se une. E você, D‘aguia, tem sabedoria para se guiar e guiar os seus.

    TRINDADE

    No início do mês, dois sobrinhos e a mulher de outro, comemoram novas datas. “Ah, essa trindade humana que nos enche de uma trilogia: fé, esperança e amor. Que Gabriel, Valentina e Janaína tenham sempre a proteção da Trindade Santa”, desejei.

    Em ano interior, o texto foi esse: Um trio que nos encanta pelas travessuras espontâneas de Valentina, pela maioridade conquistada por Gabriel e pela maternidade abençoada de Janaína. Que a ação divina seja uma constante na vida de cada um deles.

    FILOSÓFICO


    Para Juliana, sobrinha filha de Anete, mana especialista em doces, postei: Hoje, nossa família festeja mais um ano da docilidade de Juliana em nossas vidas. Sim, ela, além de nos passar doçura, nos repassa calma, nos transmite serenidade.

    A degustação da especialidade culinária materna não só lhe fez bem ao paladar, está expressa na sua voz e no seu jeito delicado de ser.

    Aline herdou da mãe Aurora o gosto de cozinhar e é formada em Filosofia. Não tive receio em homenageá-la desejando ser o escritor inglês que escreveu a biografia de São Tomás Aquino. “Numa data como esta eu queria ser G. K. Chesterton para te emoldurar um perfil filosófico”.

  • SONHANDO NA ACADEMIA

    02/07/2021

    Por “livre e espontânea pressão” filial, sob a argumentação de fortalecer os músculos, senti a necessidade de me matricular numa academia, após 17 anos apenas participando de caminhadas, que antes já era minha principal atividade física. Na única vez que decidi malhar, passei apenas três meses. Não me adaptei.

    Agora, sem a rotina laboral de até dois anos atrás, passada uma semana, a adaptação foi instantânea. Assimilei direitinho os exercícios e a ociosidade sem remuneração ainda me deixa livre para manter as caminhadas.

    O bom da academia, além das atividades físicas, foi reencontrar o amigo Lopito, que sempre solta das suas. Em dúvidas num exercício braçal, por exemplo, pediu orientação ao professor, que recomendou subir até ao peito, descendo até às coxas. “Já sei. Peito pênis, peito pênis”, atreveu-se.

    Noutra oportunidade, brincou com a própria mulher, que sempre o acompanha nas atividades físicas. Lopito acabara de exercitar o número, que exigia o corpo deitado na extensão do estofado do equipamento, enquanto o colega esperava o término.

    Terminada a série, Lopito não liberou a máquina, sem antes dar-lhe um conselho. “Higienize a máquina, pois dormi com uma morena que não é bem limpa...”. A mulher, que ouvia tudo, já acostumada às suas graças, balançou a cabeça e abriu os lábios de compreensão.

    Lopito sempre fica atento às práticas físicas dos companheiros nos segundos ou minuto entre um intervalo e outro das séries exercitadas. Certo dia, ele avistou uma senhora se exercitando com as mãos para trás, segurando uma espécie de vara, que lembra um cabo de vassoura.

    Rápido, pediu o meu olhar em direção à mulher. “Uma pá”, disse, apontando. Que pá? perguntei, sem entender nada. “Uma velha corcunda com um pau na bunda”, decifrou, impondo uma seriedade de humorista na resposta.

    O trabalhar das panturrilhas, que sempre é o penúltimo das atividades, Lopito faz com imensa satisfação. A panturrilheira tem uma longa haste metálica apontando pra frente, segurando o peso, que dá a sensação de potencialidade juvenil, quando levantada.

    Sentado, o praticante apoia os pés em baixo e as coxas acima, sob o estofado protetor. Na proporção que movimenta os pés, a haste vai subindo e descendo, e a sensação de potencialidade aumenta. “Aqui, eu me sinto com a potência da minha juventude”, alegra-se Lopito.

    Naquela manhã, certa aluna passou toda a aula falando do sonho que tivera na noite anterior. A mulher sonhou fazendo todos os tipos de exercícios físicos a noite toda e toda atividade que praticava, naquela manhã, comentava com o professor que já fizera no sonho.

    - Sonhei fazendo tudo. Fiz perna, fiz braço, abdominal... Chega me acordei cansada, queixou-se. – Então, nem precisava ter vindo hoje, brincou o professor.

    Calado, Lopito ouvia tudo, torcendo para que a mulher saísse mais cedo, na ansiedade de soltar das suas; ele acabou findando a atividade daquela manhã e foi embora, deixando a colega ainda rememorando os seus sonhos.

    Voltando no dia seguinte, Lopito deu bom dia a todos e, antes de buscar seu programa de treinamento, procurou conversar com o docente em particular, logo perguntando pela sonhadora, que ainda não tinha chegado. “Eu acho que ela estava sonhando com o professor”, maldou.

    FUTEBOL E CACHAÇA

    Sempre é bom quando a gente vê a torcida motivada, incentivando o time e até retribuindo os resultados obtidos dentro das quatro linhas. Como agora fez um grupo de torcedores do Campinense, garantindo um bicho de R$ 102 mil aos atletas pelo título conquistado.

    Ao tomar conhecimento de que alguém investe no futebol sem a perspectiva do retorno financeiro, lembro de Severino Marinho Leite, o homem que anotava as fichas técnicas dos jogos do Treze. “Futebol é cachaça”, dizia, traduzindo todo sentido de diversão que tem o futebol.

    MAIORAIS EM CONFRONTO

    Campinense e Treze jogam mais um clássico neste sábado, dia 3 de julho, agora pelo Campeonato Brasileiro da Série D. Motivada pelo título estadual conquistado e pela vitória obtida em cima do Central, na casa do adversário, a Raposa quer mais três pontos para se manter entre os primeiros do grupo A3 da competição.

    SEM FAVORITISMO

    Sem vencer no certame, o Galo busca uma reação e nada melhor do que um clássico para reiniciar uma nova fase de vitórias. Em clássico, é bom lembrar, não há favoritismo e o time que está por baixo costuma dar a volta por cima. O jogo terá no apito o amazonense Antônio Carlos Frutuoso.

  • O duplo sucesso de João

    25/06/2021

    É feito extraordinário um compositor nordestino, desconhecido, radicado no torrão natal, emplacar dois sucessos nacionais ao mesmo tempo, no mesmo ano, e do ritmo que mais caracteriza a musicalidade da região. João Gonçalves, que nos deixou às vésperas do Dia de São João, conseguiu realizar essa façanha em 1975.

    O hit Severina Xique-xique, interpretado por Genival Lacerda, teve repercussão tão grande no país, que está na listagem das 100 músicas mais executadas no Brasil, naquele ano. Ocupando uma marcante 15ª posição, conforme o site Mais Tocadas.

    O outro sucesso criado por João foi Mariá, forró gravado pelo cearense Messias Holanda, que embora não se encontre entre as 100 mais, permaneceu meses nas paradas musicais brasileiras, no dizer daqueles tempos.

    Adolescente, lembro perfeitamente quando tive a alegria de ver pela primeira vez Genival Lacerda cantando o “forró da boutique”, como ficou conhecido, em programa televisivo de abrangência nacional.

    Também nunca esqueci o impacto que me causou ao ouvir Mariá, na primeira oportunidade, pela força dos seus versos simples, relatando os costumes e o chão do cariri, terra de meus familiares. Nem me dei conta do duplo sentido contido no refrão.

    Embora estudasse no Vera Cruz, em Patos, vinha saindo do colégio Estadual, onde participara da aula de Educação Física do professor Bastinho, à época ainda atleta do Nacional. Caminhando para contornar a praça em frente, surge o carro de som de Patrício Neto – Patrisom - tocando Mariá.

    O resultado sonoro do puxado da sanfona e do batuque do zabumba e do pandeiro mexeu com as minhas pernas. Fiquei quase a ensaiar uma dança, mas os versos cantados, explodindo feito bomba junina, contiveram os passos, faiscando no peito uma nostalgia adolescente.

    “...Na cacimba só tem água pra beber/...Nesse tempo não tem água pra gastar/Já disse: na cacimba não dá certo/ Vai pro riacho salgado/Eu fiz um buraco lá/A água do riacho é bem limpinha...”.

    De volta a Campina Grande no janeiro seguinte, testemunho João Gonçalves lançando o primeiro disco. Como agradou naqueles anos, embora não possuísse uma boa voz, o que motivou um colunista colocar um ponto de interrogação entre parêntese ao escrever a palavra cantor quando se referia a ele.

    Ainda em 76, assisti João ao vivo pela primeira vez, numa apresentação nas proximidades do mercado da Liberdade, pertinho da casa de Genival Lacerda. Mas num show no gancho da estrada, a final da Almirante Barroso com a rua Três Irmãs, o cariri retratado de novo em nova letra.

    “Quem tem lá no cariri, chiqueiro de criação dá um duro da mulesta para sustentar de ração”, versos esses chamando a atenção do parente Chico Lopes. Ele, na sua seriedade rural, atento à mensagem, não se contendo no duplo sentido do refrão – A cabra até como pouco, mas o bode comendo acaba -, olhou pra mim abrindo um sorriso e balançando a cabeça.

    Marcos, irmão de movimento religioso e cearense viajado, falou sobre João com certa nostalgia dos anos 70, 80. Surpreendeu-me ainda quando eu disse que o compositor morava na mesma rua do meu comércio e confessou: eu sei, pois fiz uma visita a ele”.

    Cerca de quatro anos atrás fui com amigos à zona rural de Puxinanã, quando ficamos bebendo, ouvindo músicas e outros dançando. Depois de tocadas músicas do compositor, ele passou a ser assunto dominante das conversas. Moradores locais lembraram suas músicas e alguns até desejando um encontro.

    Meu contato inicial com João Gonçalves foi ainda na década de 70, quando passou a morar no Zepa e se tornou cliente do tio Clóvis, com o qual eu trabalhava. Anos depois, no Jardim 40, novo reencontro, após ele fixar residência, de onde partiu na segunda-feira, dia 21, para deixar uma enorme boutique de saudade.

    HEGEMONIA RUBRO-NEGRA

    O título estadual conquistado pelo Campinense em cima do Sousa, tornando-se o primeiro time a ganhar o certame em território sertanejo fora os nativos, mantém a hegemonia rubro-negra em transição de décadas. Ou seja, a Raposa sempre papou o estadual em final ou início de dezena anual. A exceção, os anos 99,2000 e 2001 e 2009 e 2011.

    Logo ao debutar no campeonato, o rubro-negro foi campeão em 60, 61 seguindo a série anual até fechar com o histórico hexa em 66; na década de 70, após um hiato de três anos, ganhou em 71 até faturar o tetra em 74; em 79 e 80, a Raposa feroz de Zé Aurino festejou o bi. No início dos anos 90 veio o título de 91. Agora, 2021, volta a erguer a taça.

    OUTRO PRIMO


    A Covid, a “gripezinha” do presidente, leva mais um primo, agora do lado paterno. Gutemberg Almeida, o Berg, não resistiu às consequências do vírus e ontem, Dia de São João, veio a óbitos aos 54 anos. O sepultamento é em Livramento, para onde a família mudou-se na segunda metade da década de 1970. Antes, na primeira segunda-feira do mês, levara Janarque, sobrinho de minha mãe.

  • Último forró no Triângulo

    18/06/2021

    O Maior São João do Mundo foi marcante na minha vida, com realce o de 1987. Nem a dura rotina diária de trabalho em duas frentes impediu, naquele ano, que eu perdesse apenas três noites no Parque do Povo, uma das quais – a de São Pedro – vendo o raiar do sol.

    Passeei nas suas ruas fictícias, matei a sede etílica nas suas barracas e “filmei” as danças hilariantes de suas palhoças. Sem uma namorada fixa, sequer um quebra-galho, como lamenta aquele forró de João Gonçalves. Livre, leve e solto. Não tinha como imaginar que seria minha despedida de solteiro. E foi.

    Mas os acontecimentos da infância marcam mais. Daí, a memória me retroceder no tempo, a um tempo de mais de duas décadas antes da festa junina local agigantar-se a ponto de se tornar em evento de repercussão turística além-mar.

    Tinha eu 11 anos quando minha mãe me colocou no catecismo da Igreja de Santa Cruz, hoje Igreja Nossa Senhora das Dores, aquela nas proximidades de JC Rocha. Dona Lourdes, dedicada catequista, evangelizava com foco na motivação dos catecúmenos.

    A realização de um presépio vivo no Natal e a promoção de quadrilha junina no mês de junho são exemplos de eventos motivadores que ela criou. A marcação da quadrilha de 1970 (ou seria 69?) lembro bem. O trio de forró com Zé de Tatá na sanfona, o casamento matuto e o passeio em carroça de burro, etc.

    No primeiro ensaio, dona Lourdes orientou a formação de duas filas, uma de homens e outra de mulheres, lado a lado, resultando no par de quadrilheiros. Racista, o colega da frente, ao perceber que ficaria com uma negra, interpretou a brincadeira do grilo; foi para traz.

    Essa artimanha impeliu-me a um avanço na fileira, mudando a paridade e, consequentemente, ficar com a preta. Assumi a negritude da dama por todo ensaio sem demostrar qualquer acanhamento.

    Minha reação não passou despercebida. No treinamento seguinte, a catequista escolheu para ser minha dama a mais bonita da turma, embora mais alta do que eu. Em mais um ensaio, a professora me surpreendeu ao nos confirmar os noivos da quadrilha.

    Paralelamente aos ensaios, os mais chegados da turma organizavam momentos dançantes nas casas. Lembro, particularmente, da animação na casa do obeso Epitácio. Como não tinha amizade com a noiva, ficava livre para dançar com outras meninas nessas festinhas caseiras

    A festa não durou o mês todo, mas foi animada, bonita e atraiu os moradores do bairro. No dia da quadrilha, a passeata de carroças de burro percorreu partes das ruas Almirante Barroso, Francisco Lopes de Almeida, Três Irmãs e por toda Prof. Luiz Gil.

    Se fosse hoje, diante da afirmação do Maior São João do Mundo como um dos maiores eventos do turismo nacional, a linguagem do marketing denominaria o percurso de “Triângulo do Forró”, uma vez que o mapa dessas ruas tem a configuração de um trilátero.

    Assim como em 87, curti todo esse São João sem saber que seria de despedidas. De Campina Grande e dos forrós. Ao completar 12 anos, a mudança familiar para o sertão me causou um impacto tão grande, que o retraimento foi inevitável. Nunca mais dancei na minha vida.

    DECISÃO QUENTE

    Decidir um campeonato já é uma quentura, imagine com o jogo decisivo às 10h da manhã, em pleno sertão paraibano, com seu histórico de alta temperatura. Se a Raposa conseguiu a vantagem do empate ao vencer o primeiro confronto, o Dino tem a seu favor o termômetro, adaptado que é ao clima local. O caldeirão vai ferver.

    SEM ESCOLHA

    Quem quer ser campeão não escolhe adversário e tem que estar preparado para encarar as adversidades possíveis e inimagináveis. O time vem adquirindo a confiança da torcida, visto que, sob o comando de Ranielle Ribeiro está invicto e com atuações até convincentes. O que comprova que o clube agiu certo quando trocou de treinador, ainda no início da competição.

    ATLETA PARAIBANO

    Para quem não está lembrado, o lateral Aderlan, que usou a cabeça e marcou o primeiro gol do Bragantino na virada sobre o Corinthians, é aquele revelado pelo Campinense e com passagem também pelo Treze. O atleta vem firme como titular do time paulista.

  • Providência do Jota

    11/06/2021

    Não foi mera coincidência um trio de bebês da terceira geração de primos ganhar nomes cuja letra inicial é J, o J de Jesus. Também não acredito em entendimento familiar nessa simultaneidade; talvez influência sonora, visto que dois deles emitem a mesma sonoridade.

    Reforça-se a tese dessa influição observando-se que todos nasceram no segundo semestre do mesmo ano – 1973. Na sequência, Janarc, filho da minha tia Neném (Francisquinha) – agosto; Joab, meu irmão caçula - setembro; Josimar, do tio Clemilcio e meu afilhado – dezembro.

    A opção pelo “J” de Jesus no nome dessas crianças foi, creio, uma busca inconsciente e antecipada desses casais ao auxílio divino de que precisariam para os momentos mais cruciais que viriam com o tempo. Uma providencia. Afinal, ninguém imaginava duas tragédias e um vírus impiedoso no meio do caminho.

    Nem a adolescência vivida a 180km de distância impediu que eu e a mana Socorro fôssemos padrinhos de Josimar. Nas nossas férias, aqui, o tio nos convidou e o batismo de seu novo rebento foi realizado no Convento São Francisco, no bairro da Conceição.

    Josimar cresceu e buscou sua liberdade sobre duas rodas. Viveu essa liberdade ao extremo, até ela ser interrompida em 2001, pouco depois de completar 27 anos, numa colisão entre sua moto e um ônibus em plena 15 de Novembro, rua em que a família ainda mora.

    Ainda em 2001, a tragédia veio a galope, naquele domingo de dezembro de vaquejada num dos parques locais. Após rara folga dominical, Joab, o nosso irmão caçula, cansou deste mundo e resolveu, aos 28 anos recém-completados, ficar mais perto de Deus.

    Janarc, cuja sonoridade inicial do nome destoa da harmonia sonora dos parentes, cresceu disposto a seguir a profissão do pai, caminhoneiro dos bons. Depois de trabalhar em várias empresas e penar em alguns momentos com quebra-galhos, conseguiu adquirir seu próprio caminhão.

    Mesmo nas dificuldades dessa pandemia, Janarc vinha segurando o volante de sua vida, conseguindo os fretes necessários para pagar seu veículo e custear suas despesas. Mas o vírus traiçoeiro veio a reboque e o sintomatizou; na segunda-feira, dia 07 de junho, não resistiu às complicações da Covid-19 e nos deixou.

    MANO SESSENTÃO

    O meu irmão Afonso, que mora em Teresina, chegou à casa dos 60, no último dia oito. Terceiro na hierarquia de nascimento de uma prole de 13 irmãos, é um exemplo de resiliência, superando todas das dificuldades com alegria e humor. No grupo da família, postei a mensagem que segue

    “Tão bom chegar aos sessenta com jeito de adolescente responsável e exemplo de adulto caridoso; agora idoso animado. Nem adiantou a bariátrica, pois o coração permanece obeso de bondade. Vida longa”.

    SÍNDROME DO KM 12

    Houve um período, nos meus tempos do Diário da Borborema, em que o Campinense não podia passar em São José da Mata sem deixar um ponto quando atuava em gramado sertanejo. A torcida já estava apreensiva, principalmente nos jogos em Patos.

    Isso motivou que eu colocasse, na página esporte, a seguinte manchete: Campinense tenta superar a Síndrome do Km 12. Mais de 30 anos depois, a Raposa tem que superar essa síndrome. Se quiser ser campeã de 2021.

  • A camisa branca do padre

    03/06/2021

    Sou de um tempo em que o uso diário da batina pelos padres era uma unanimidade. Tempo de minha infância feliz, nas terras do meu avô no Cruzeiro; tempo de uma adolescência que praticamente não tive, no sertão paraibano.

    Após o Concílio Vaticano II os sacerdotes iniciaram um processo tímido de desuso das vestes eclesiásticas, embora a obrigatoriedade permaneça até hoje, conforme reza o Código de Direito Canônico, no cânone 284.

    Nunca esqueci o padre que evangelizava montado numa Lambreta pelas ruas do hoje bairro Santa Cruz. Naquela noite, como de costume, acompanhava meu pai no bate-papo com amigos, reunidos na mercearia próxima.

    Padre Tadeu (?) parou a motocicleta, arregaçou a batina, levantou a perna e desceu. Pra surpresa geral, entrou no pequeno comércio, pediu uma carteira de cigarro, acendeu um, sentou-se e ali permaneceu abençoando a conversa.

    Também nunca esqueci o padre Acácio, na austeridade do exercício sacerdotal na cidade de Malta, onde nossa família morou por três meses. O rigor de sua batina preta cobria os fiéis; não permitia mulher entrar na igreja de calça comprida.

    Não há como esquecer igualmente padre Levi, suando a batina nas passeatas e “burreatas” em sua campanha na eleição municipal de Patos, em 1972, depois de uma experiencia na vizinha São José do Bomfim.

    Sem a batina, o colarinho romano serve para identificar que aquele homem aparentemente de vestes comuns não é uma pessoa comum, mas que serve a Deus depois de longo período de estudos. Foi ordenado, é um sacerdote.

    Certamente não foi por displicência que aquele casal evangélico chegou ao restaurante e, ao avistar um jovem de camisa branca, em pé, observando o ambiente, procurou ser atendido por ele.

    - Boa noite! Arranje, por favor, uma mesa - pediu a moça. - Eu não trabalho aqui, senhora - justificou o homem. O namorado, até então católico, dissipou o engano da companheira, que não reparara o detalhe do colarinho. - Ele não é garçom, minha filha. É padre.

    AINDA HACHID

    Na coluna anterior, destaquei a generosidade de padre Hachid em nos presentear, principalmente em datas importantes. Ainda seminarista, ele nos mimou, no Dia dos Pais, com uma preciosidade que é uma das minhas leituras favoritas. O livro A palavra é filha do silêncio, antologia dos artigos de Dom Luís Gonzaga Fernandes, publicados nos jornais entre 1981 a 2003. Quando iniciei sua leitura, fiquei com remorso. De não ter lido os artigos do querido bispo na época.

    DEDICATÓRIA

    Com uma linda e compreensiva caligrafia, a dedicatória já nos dava um alento do padre que Hachid seria. “A vida coloca pessoas especiais em nosso caminho e cabe a nós nunca distanciarmos delas. Se o bom Deus permitiu que nos conhecêssemos, ele tinha um propósito. Peço a Deus por você, por Margarida e sua família. Que Ele cubra a sua vida de bençãos. Reze por mim. Para que eu seja como Deus quer e sua Santa Igreja necessita. Feliz Dia dos Pais! Abraços do Diác. Hachid Ilo”

    MEMÓRIA

    A leitura sempre nos traz novas descobertas e nos enriquece com ensinamentos, além de espantar a solidão. E estimula a memória. Quando li sobre a morte de Caroço de Pinha, torcedor-símbolo do Botafogo de João Pessoa, pensei ser uma pessoa desconhecida. Mas lendo a coluna do médico Givaldo Medeiros intitulada “Antônio no andar de cima”, no MaisPB, tive a minha memória atiçada. Aí lembrei dele vendendo jornais pelas ruas de Patos, na nossa adolescência naquela cidade.

  • PADRE HACHID

    28/05/2021

    A Equipe Nossa Senhora da Guia, da qual fazemos parte com mais cinco casais, vive a orfandade espiritual desde o passamento de padre Hachid Ilo, cujo peso não resistiu ao ataque impiedoso da Covid-19. Hachid nos acompanhava, na condição de conselheiro espiritual, desde quando ainda seminarista e deixa a sensação de que na sua passagem terrestre, de tão marcante, foi profeta de si mesmo.

    Quando Hachid foi transferido para Picuí, legou um boneco – como ele gostava de nos mimar! – a cada casal da equipe, escrito com uma frase, no mínimo, premonitória. “Só a fé supera a saudade”, expressão essa que embasa a que minha mãe pronunciou, naquela madrugada triste de dezembro de 2001, quando perdeu o filho caçula. “Oh, meu filho, que dor que eu estou sentindo. Só Deus é maior do que essa dor”, disse, ao me avistar.

    A pandemia rareou nossos encontros, mas a tecnologia permitiu que as reuniões mensais fossem realizadas de forma online e nesse período apenas uma única vez nos reunimos presencialmente, respeitando as indicações de segurança. Quando não podia participar, Hachid enviava um áudio ou vídeo com a Homilia da Palavra e o comentário do tema estudado no mês.

    Não é exagero dizer que Hachid foi quase unanimidade no exercício de seu sacerdócio; sabe-se que ele agradou crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, casados, viúvos e separados. O sucesso dos encontros criados por ele, além da dinâmica que impôs aos tradicionais EJC, ECC e EC, atesta esse posicionamento. Todos com números recordes de participantes, quer no recebimento da graça, quer na disposição do voluntariado.

    Hachid falava a linguagem de todos, fazendo-se entender por todos. Lembro de uma reunião em nossa casa, quando nossa filha tinha que sair para uma confraternização entre amigos. “Vai pra night”, disse, quando ela pediu licença, interrompendo o encontro, para passar no meio de todos.

    Certa vez confirmou que fora a um bar em que os jovens encontristas se confraternizavam. “Cheguei lá comi alguma coisa, não demorei, mas marquei minha presença e fiz a minha evangelização”, justificou. As opções musicais de Hachid também o ligavam muito aos jovens.

    Verdade, seriedade e divertimento são algumas das palavras que definem Hachid nas reuniões. Atiçava a todos com uma brincadeira para no contrapé nos mostrar a seriedade que o temo estudado exigia. Aí soltava o seu bordão preferido naquele momento descontraído - “Oh, que povo ruim!”. E todos caiam na gargalhada.

    Na hora da partilha, que é o momento do lanche ou da refeição, conforme o combinado pelas mulheres, ele se soltava ainda mais. Numa delas, um dos nossos lhe sugeriu uma dieta. “Não! Eu já deixei refrigerante. Vocês se estressam com trabalho, com filhos, etc. Mas podem coisar. Eu não posso coisar, como”, brincou, lembrando as várias atribuições que tinha, como vigário diocesano.

    Certa vez, padre Hachid solicitou uma doação para a igreja a amigo nosso, recém-casado. Mesmo com a doação garantida, padre Hachid não resistiu à oportunidade de descontrair ainda mais o doador com uma das suas. “Se você não mandar isso, eu faço a oração da impotência para você”, brincou.

    Padre Hachid também prestava orientação eclesiástica para outra equipe, a Nossa Senhora de Fátima. Com a ida para Picuí, impossibilitado de acompanhar as duas, demostrou seu amor pelos mais velhos, optando pela de maior faixa etária, justamente a nossa.

    Eu posso até estar cometendo uma heresia - e se for o caso, peço perdão -, mas padre Hachid foi profeta de si mesmo. Ao pressentir a brevidade de sua morte. Ele foi profético quando deixou gravado, além da frase “Só a fé supera a saudade”, todas as homilias e comentários mensais deste ano da nossa equipe; foi profético quando numa das suas lives fez o comentário realista sobre a morte. Foi um profeta de si mesmo. Que nos deixou um alerta precioso, a nos aconselhar a “não flertar com o pecado”.

    RECADO AO JOVEM

    Quando as Equipes de Jovens de Nossa Senhora, de Campina Grande, planejavam algum encontro, um retiro, o Padre Hachid era o primeiro lembrado para a lista de palestrantes. No livro de estudos do ano passado, ele escreveu um texto e uma frase sua ficou marcada entre eles, com repercussão até em Portugal: Lembre-se o Jovem: Jesus lhe ama como você é, esperando que um dia você seja como Ele quer.

    OUTRA PERDA


    Além de reduzir o clero da Diocese de Campina Grande, a Covid-19 desfalcou a Catedral de Nossa Senhora da Conceição de um dos seus servos leigos, Márcio Almeida Gomes, o Márcio da Telha Forte. Ele, com sua Sandra, coordenou o nosso ciclo, quando fizemos o ECC em 2002. À família, nossas condolências. Eu disse a padre Hachid da positividade de Márcio; poucos dias depois ele testou positivo.

  • A segunda foi a primeira

    21/05/2021

    Como mostrava a propaganda do sutiã da década de 80, tudo que é primário a gente nunca esquece. Também não vou esquecer a nossa aventura - minha e da consorte – de quarta-feira, 19 de maio, em busca da segunda dose, que acabou sendo a primeira, na pirâmide do Parque do Povo. Com direito a “dançar” uma quadrilha sem os acordes da sanfona, o batuque ritmado do zabumba e o tilintar do triângulo.

    A ansiedade começou no dia 6 de maio, dia programado pelo calendário de vacinação para a dose 2 e que acabou sendo adiada, sem previsão, em função do limite de fabricação do imunizante pelo Butantã. Essa ansiedade aumentou quando anunciada o agendamento da nova data, mas quando acessei o site, constatei ser destinada a quem tomaria até 28 de abril.

    O início da semana foi esperançoso com o anúncio da chegada de novas doses da Coronavac, confirmada ainda na terça, mas sem o agendamento disciplinador, o que me pareceu estranho. Sem poder ir no horário previsto de 13h, pouco antes das 15h nos dirigimos ao Ginásio “Meninão”, local escolhido por nós – afinal, a primeira dose foi lá – e nem o avistar a longa fila de carros nos fez desvanecer.

    Ao seguir pela Av. Floriano Peixoto vimos que a fileira já vinha da Rua Tranqüilino Coelho Lemos, aquela do IFPB; contornamos o giradouro do Canal de Bodocongó e já na garagem da Nacional dimensionamos a quilometragem do alinhamento veicular. Permanecemos no mesmo sentido e estacamos na rabeira da fila, na escola técnica para contornar após a instituição federal, pegando o rumo da imunização.

    Depois de 2h na quilométrica fila, com a sensação de alivio ao avistar o “Meninão”, chegando em frente ao inacabado Hospital da Criança, o retrovisor descortina a viatura da Guarda Municipal, rodando lentamente com a luz piscando. “Que é que a polícia faz tão devagar?”, me perguntei, ainda sem identificar o veículo.

    Pacientemente, na sua lentidão cada vez mais desacelerada, o motorista parava lada a lado a cada carro enfileirado, e o guarda do banco de passageiro, com extrema gentileza, nos fazia o favor de avisar a conclusão dos serviços vacinais, alentando ter continuidade a partir de 18h, no Parque do Povo.

    Passando de 17h, voltamos em casa, repomos as energias com um lanche restaurador e, de novo, tomamos o rumo da imunização completa. Na pirâmide do PP, a fila humana formava uma quadrilha improvisada sem os instrumentos característicos da regionalidade musical nordestina. Mas, claro, tinha o marcador, um senhor gordo, numa camioneta improvisada de palco, a controlar, adicionando certa energia na voz, os passos dos cansados “quadrilheiros”.

    Concluída de forma positiva essa aventura, penso que tomar a segunda dose acabei, feito o mano, tomando a primeira no Parque do Povo. Sem álcool.

    CONDOLÊNCIAS

    Minhas condolências à família de Adenize Queiroz de Farias, líder do Instituto do Cegos de Campina Grande, pela partida do patriarca Luiz Franco, no início desta semana. Homem de igreja, de uma serenidade admirável, sempre que nos encontrávamos, antes da pandemia, nos encontros do Terço dos Homens. “Era um homem muito sereno. Até diante das circunstancias da morte”, define Adenize.

    TRATAMENTO

    Embora a diferença de idade nossa fosse de pai pra filho, dispensava o tratamento cerimonioso e ele parecia gostar. Lembro de Luiz ainda da feira, no seu ponto de gelada que eu costumava frequentar até quando esteve em atividade. Em entrevista a Paulo Roberto, no programa Ponto a Ponto, da TV Itararé, Adenize destacou a qualidade do produto. “A melhor da Feira Central”, posição que eu endosso. A preferida era a de coco com pão doce.

  • A PRIMEIRA SEM ÁLCOOL

    13/05/2021

    A prole de 13 filhos lá de casa, da qual eu sou o primogênito, foi bem dividida pois composta de sete mulheres e seis homens. Nem a dupla angelical que engrossou as estatísticas de mortalidade infantil da década de 60 ampliou essa diferença, embora o caçula tenha, no desespero momentâneo de seus 28 anos, desfalcado o quinteto masculino que colocava no trabalho a quase totalidade de sua disposição diária. Sem tempo para o lazer ou divertimentos tipos festas dançantes.

    De família pobre, tivemos que iniciar cedo na labutação, principalmente os homens, dividindo o tempo entre trabalho e estudo; as mulheres se dividiam entre os serviços caseiros e a busca pelo saber. A necessidade de trabalhar e a vontade de estudar consumiram o tempo da prole a tal ponto, que uma das meninas já disse, depois de grande, que “a gente não teve adolescência”. No que concordo.

    A precocidade laboral nossa motivou a que poucos de nosso time aprendessem a dançar. Acredito que apenas dois ou três dos 11 irmãos criados sabem o remelexo no salão. Eu, nem com três na cabeça. De modo que a nossa fonte maior de relaxamento foi a etílica. Antes da Lei Seca mesmo, eu bebia todo dia, mas não o dia todo. Duas três doses para o almoço.

    Certa vez, um colega de jornal, na serenidade de sua voz, me acusou de viciado. “Mas não é alcoólatra”, atenuou, diante da inquirição do meu olhar e do semblante fechado. Mas há os mais dispostos, feito o mano Patrício; ele, igual a mim e aos outros, tinha ou tem cadeira cativa no Parque do Povo.

    Recordo com certa nostalgia, que perdi apenas três noites no Parque do Povo, no São João de 87. Na noite de São Pedro, saí direto para o trabalho. Imagine se eu dançasse! Anos mais tarde, compreendi ter sido minha despedida de solteiro, pois um ano e poucos meses depois eu me casei.

    Já Patrício, o quarto na escala familiar, conforme o nascimento, sabe aproveitar melhor do que eu os momentos no QG do Forró. Quando vai, sob a disposição etílica, passeia por todas as ilhas de forró, permanecendo mais tempo naquela que tem mais mulheres, as mais dispostas à dança. Não escolhe; segura a que suporta seus passos ébrios.

    Nos últimos anos, ele tem intensificado a luta para deixar a ebriedade e por isso tem permanecido mais tempo sem beber. Mas há uma semana, a pandemia que tira o povo do parque, levou Patrício de volta à pirâmide do complexo festivo central de nossa cidade. Para tomar a primeira dose, quem sabe um prêmio pela abstenção de meses.

    Levado pelo sobrinho Luciano, que registrou a imagem do momento, Patrício fez questão de dividir a emoção colocando a foto no grupo da família. “A primeira dose no Parque do Povo sem ser de cachaça”, legendou, evidenciando que na sobriedade também tem seus momentos geniais.

    CASSIANO

    Ouvir Cassiano, que morreu no último dia 7, nos meus momentos de descontração musical, cantando A Lua e Eu, sempre foi uma das minhas preferências. O reconhecimento ao seu talento, depois de sua partida, não me surpreende, pois sempre acompanhei os especialistas, dos quais lembro Nelson Mota, em sua coluna no Jornal da Globo, exaltando a performance do paraibano. Acredito que será sempre lembrado não com a popularidade de Jackson do Pandeiro, mas igualmente pelo talento criador e inovador na MPB.

    NATURALIDADE

    Quando escuto Cassiano, lembro também de uma voz marcante na radiofonia paraibana, o saudoso Geraldo Batista. No rastro do estouro nacional de Cassiano em 76 e da música A Lua e Eu, Batista gravou uma vinheta, com seu vozeirão inconfundível, destacando a naturalidade campinense do cantor e compositor. Ao contrario do artista, que foi embora e nunca mais voltou aqui, Geraldo tinha um orgulho imenso de Campina Grande. Mesmo sendo de fora, cearense.

    PROFISSIONALISMO

    o narrador Romildo Nascimento, da Rádio Cariri - 101 FM, segurou a emoção e mostrou o senso de profissionalismo que tem na cobertura de Treze 2 x 1 Nacional de Patos, há uma semana. Por volta de 5 minutos do segundo tempo, ele soube do falecimento de sua mãe e reuniu forças para narrar a partida até o trilhar do apito final. Profissionalismo de gigante.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXIX) - Ação maternal, reação filial

    06/05/2021

    Se um filho dimensionasse o valor, a representatividade e o que é uma mãe em sua vida sequer falaria abusado com ela. Na minha longa jornada comercial, vi e ouvi muitas grosserias e indelicadezas de filhos com suas mães. Quanto isso me doía! Mas também muitas gentilezas, muitas doçuras, muitas ternuras filiais cantaram em meus ouvidos; igualmente ações de cuidados, de zelos, de estima ficaram desenhadas na retina de meus olhos.

    Nunca esqueci aquela senhora que eu atendia, nos meus tempos de “Zepa”, rica e já avançada na idade, a delicadeza em pessoa, o quanto ela foi maltratada pelo filho prepotente, empresário de destaque em Teresina. Tudo por causa de uma carne de sol que ela comprara para o seu almoço regional, nas poucas vezes que a visitava, e ele não gostou. A vergonha foi tanta que ela deixou de nos prestigiar.

    Também está viva em minha memória a aspereza maternal daquele jovem, a mãe querendo um tipo de carne e ele optando por outro. “A senhora tem que comer da que eu comprar”, impôs. A dureza filial cortando-a por dentro e os olhos ameaçando-a por fora, deixando-a muda, impactada, sem ação nem reação.

    Igualmente, lembro daquela senhora que sempre brincava comigo, as vezes dizendo alguma doidice, que se sentiu ofendida pela filha, na reação encabulada a uma dessas brincadeiras. “Não me chame de doida. Respeite-me, que sou sua mãe e nunca mais me fale desses modos”, motivando um imediato e delicado pedido de desculpas da descendente.

    Há situações em que não há grosseria, mas a resposta do rebento, mesmo dita de forma amena, provoca uma certa surpresa pelo significado de contrariedade dos ensinamentos. O casal vinha no carro com o filho, que faria vestibular naquele dia; ela desceu e ficou no nosso açougue enquanto o marido foi levar o filho no local das provas. Entrando, ela virou-se de costa e perguntou: meu filho rezou pedindo a Deus para tirar uma boa nota? “Ele não vai fazer a prova por mim”, respondeu.

    Enumerar o que as mães fazem pelos filhos é impossível uma totalização e só reforça a máxima de que “uma mãe é para 100 filhos, mas 100 filhos não é para uma mãe”. Não posso deixar de exemplificar a ação de minha ex-cliente e sempre amiga Sueli, que resolveu produzir e vender salada de frutas para ajudar nas despesas de formatura em Medicina de sua filha Daisy. Hoje, estão colhendo o fruto das frutas retalhadas.

    Meus filhos costumam se encher de impaciência com a mãe, por exemplo, quando têm que sair juntos, e ela demora a se arrumar. Eles, então, ameaçam não esperar. “Meu filho, sua mãe esperou nove meses por você na barriga e você não pode esperar um minuto por ela?”, reajo sem disfarçar o ressentimento.

    Quando presencia as indelicadezas e as brutalidade maternais dos filhos, há gente que reage dizendo que vão se arrepender quando a mãe morrer. Não precisa esperar a fatalidade. Basta um distanciamento necessário como a mudança para um Estado distante ou país. Amiga minha que há quase 30 anos mora em terras sudestinas certa vez me confessou o arrependimento do tratamento dispensado à sua genitora, na sua adolescência aflita. “Se eu soubesse que viveria tão distante, teria tratado melhor a minha mãe”, lamentou.

    SEMANA DAS MÃES

    O casal animador do mês da nossa Equipe de Nossa Senhora, Silvaneide e Ronaldo, produziu um vídeo com os filhos falando sobre suas mães. Se a fala dos rebentos já foi uma surpresa, imagine a publicação antecipada desse vídeo no grupo de WhatsApp, na última segunda-feira. A emoção foi geral dessas seis mães equipistas. Em vez do Dia da Mães, o casal promoveu a Semana das Mães.

    EXOTISMO NO FUTEBOL

    Depois da intervenção da CBF na Federação Paraibana de Futebol e a decisão de trazer árbitros de fora, chama atenção os nomes exóticos anunciados na escala de cada rodada da competição deste ano. Schumacher Marques, Arkilson de Lima, Ruthyanna Camila, Herioberto Henrique, Crisvalesco Marco, Altobele Leandro, Suelson Diógenes, Oberto Santos, Kildenn Tadeu, Wagner Reway, Afro Rocha... O danado é quando o torcedor usar o exotismo no xingamento.


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