Colunista Valberto José

Jornalista, formado pela Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Iniciou como colunista na Gazeta do Sertão e trabalhou no Diário da Borborema e Jornal da Paraíba, colaborou na versão impressa d`A PALAVRA.

  • O primeiro biscoito recheado

    26/11/2021

    A nossa memória afetiva está sempre de tomada ligada a nos conectar com o nosso passado infantil, alimentando aquela saudade que não dói e ainda fazendo o favor de nos resgatar a felicidade inocente. Nunca esqueci os mimos que ganhei de Aluísio Silva, cuja fazenda fazia divisa com o sítio do meu avô materno, Zé Paulino.

    Praticamente todas as manhãs, o revendedor da Chevrolet visitava sua propriedade, onde mantinha uma quitanda visando ao suprimento dos moradores e vizinhos. Pelo menos três porteiras, uma das quais na gleba do meu avô, ele tinha que passar para poder chegar à Fazenda Santa Lúcia.

    Abrir a porteira aos carros que transitavam naquela estradinha divisória era motivo de divertimento e oportunidade de ganhar algum mimo, nas férias escolares. Revistas com fotos de carros novos ou de jogadores de futebol (ah, aquela com Pelé e Garrincha!) moedas, bombons, guloseimas...

    Naquele sábado, faltando de tudo em casa, quando sobrava leite, o copo espumado do leite cru ordenhado pelo meu avô antes da barra da aurora fora a única refeição matinal até seu Aluísio passar. Após a ordenha, “papai do cariri” foi à feira com objetivo de suprir as necessidades da semana que se aproximava.

    Sentado num pilão rasteiro na cozinha da casa, insistia em aperrear minha vó por comida, ignorando a escassez causada pelo consumo da semana que findava. De repente, escuto o ronco da caminhonete do marido de dona Cristina Procópio cortando o silêncio daquela manhã agrestina, que ainda hoje teima em mim ser caririzeira.

    Saltei do pilão e saí em disparada para escancarar a porteira à caminhonete que ainda hoje me fascina. Um pacote de pães (comentava-se que o homem do cachimbo comia o pão tirando o miolo, muito estranho para o menino) foi a recompensa de tanto esforço.

    Alegre, corri em direção a cozinha, os pés batendo na bunda, e o entreguei à mãe Sinhá. Ela, pacientemente, despedaçou os pães, colocando-os num prato de visível profundida, ensopando-os de leite. Pude matar, como diria a outra avó, o fado.

    Há exatos 40 anos, conheci o amigo Jurandy França na faculdade, o que me possibilitou idas frequentes à sua casa em Arara, rotina que durou até sua partida para o sul. Uns 25 anos depois, ao iniciar uma série de viagens pelo brejo, retomei as visitas à família França, o que continuo fazendo sempre que vou àquela região.

    Na primeira vez dessa retomada, Socorro (Mara), a irmã do amigo, registrou a nossa visita e colocou a foto nas redes sociais. Jeane, a caçula, que hoje mora no interior paulista, acessou a imagem e sua memória afetiva nos conectou à sua infância de privações.

    “Esse senhor de bigode é aquele que me deu o primeiro biscoito recheado que comi. Ainda hoje sinto o gosto, o recheio de morango”, evocou.

    DUPLO SENTIDO

    Essa polêmica em torno da mudança do nome do Aeroporto Castro Pinto por Aeroporto José Maranhão, embora concorde com a manutenção da nomenclatura por respeito à história, é trocar seis por meia dúzia. Sugiro homenagear os dois, adotando a fusão dos nomes, o que manteria o duplo sentido consagrado por João Gonçalves no forró. Que tal Aeroporto Castro Maranhão?

  • Gente de feira (III)

    19/11/2021

    O trabalho de profissionais do ramo para deixar a carne em ponto de venda nos açougues de bairros e tarimbas da feira central é a continuação dos serviços iniciados com a compra das rezes em sítios e fazendas e do abate nos matadouros. É muito labor!

    O Matadouro Público de Campina Grande funcionou no bairro de Bodocongó até a década de 1990, quando a maior parte da carne consumida na cidade passou a vir dos grandes frigoríficos do Pará, Maranhão, Tocantins e até Goiás, em caminhões refrigerados.

    Abandonado, o prédio em estilo “art déco”, construído em 1942, sofreu a ação do tempo após o seu funcionamento ser interditado pela Justiça em função de problemas de higienização, entrando em crescente estado de ruína. Reduzido a escombros, no seu terreno foram edificados dois condomínios residenciais.

    Única opção de abate da cidade, exceto quando surgiam os abatedouros clandestinos, viveu seu auge nos anos de 1970. Para lá, açougueiros dos bairros e feirantes do Mercado Central acorriam às suas instalações para ter um bom produto para comercialização no dia seguinte.

    Parte dos comerciantes fazia seus pedidos por telefones ou deixava já encomendado antes; outra, preferia escolher as reses de forma presencial. Aí, conforme a ótica individual, optava-se pela que tivesse mais qualidade, com perspectivas de mais rentab9lidade, a mais nutrida, o mocotó mais fino.

    Além da ambição por um boi mais carnudo, a descontração no encontro com os colegas animava os feirantes à opção da escolha in loco. O misto de bar, lanchonete e restaurante que funcionava no local e até quitandas das proximidades eram atrativos para uma cervejinha, uma cachaça ou mesmo o almoço fora de casa.

    Essa farra não seria antes da escolha do animal a ser abatido. Aos currais dos fornecedores – Menininho e Gerson Reis, os principais - se dirigiam aqueles marchantes, já observando o gado à disposição, uns já apressando em dizer “esse é o meu”, “reserva esses dois pra mim”, “aquele lote separa pra mim”.

    Naquela manhã, ao se aproximar do curral, Claudio logo avistou uma rês que lhe agradou – porte vistoso, bem nutrida e sem excesso de gordura. “Zé da Guia, por favor, separe aquele preto pra mim”. Satisfeito com a escolha, continuou na conversa com os colegas.

    Com a mão direita posta na estaca do curral, o braço esticado distanciando o corpo da cerca e distraído com o bate-papo, Cláudio sente uma quentura leve, algo roçando a região entre a nuca e a cabeça, embebendo o local com uma umidade incômoda.

    Era um boi que, sorrateiro, sem que ninguém percebesse, apareceu do nada e começou a lamber suas costas. Justamente aquele preto que escolhera para o abate, cujas carnes seriam vendidas no seu banco no dia seguinte. A ternura do bovino sensibilizou o feirante, que, sem qualquer justificativa, providenciou a comutação.

  • Galo tirou uma "casquinha" no campeão de 1986

    12/11/2021

    O Campeonato Brasileiro de 1986 só foi decidido no dia 25 de fevereiro de 1987 e o São Paulo chegou ao título ao vencer o Guarany de Campinas por 4 a 3 nos pênaltis, após empate de seis gols no tempo normal. O Treze, que entrara na competição após classificação no Torneio Paralelo, tirou uma casquinha no tricolor antes que ele comemorasse a conquista.

    A façanha alvinegra aconteceu na noite de uma quarta-feira de 12 de novembro de 86, diante de um público pagante de 21.925, no Amigão. Um gol do zagueiro Dão definiu a vitória paraibana, resultado que motivou uma série de acusações de parte do elenco são-paulino do adversário jogar dopado.

    No dia seguinte, procurei repercutir o triunfo do Galo nas páginas do Diário da Borborema da sexta-feira, 14. Início da tarde, material praticamente pronto, recebo uma ligação de Geovaldo pedindo para checar as acusações. De pronto, saí em direção ao Rique Palace Hotel, local da hospedagem tricolor na cidade.

    Logo na calçada do Edifício Rique, encontrei o zagueiro uruguaio Darío Pereyra, que não se negou à entrevista e ratificou as acusações. “Se tivesse havido o exame antidoping, o resultado seria outro”, disse. “Correr daquele jeito, meu...”, insinuou o atacante Muller.

    Pepe, que naquele ano comandava o elenco paulista, elogiou a atuação do Galo da Borborema, mas usando frases tipos “correria insaciável” e “jogar dessa maneira”. Na coluna seguinte às entrevistas, no DB, Humberto de Campos decifrou a malandragem oral do treinador.

    Havia sempre, naquele ano, à disposição dos atletas nos treinamentos do estádio Presidente Vargas caldo de cana, banana com chocolate e guaraná em pó. Em 2002, pela Copa do Brasil, o Treze voltou a vencer o São Paulo por 1 a 0 e nenhum profissional tricolor justificou a derrota com acusações desse tipo.

    ESCALAÇÃO DAS EQUPES

    Vale a pena ler de novo a escalação das equipes no Jogo Treze 1 x 0 São Paulo, dia 12 de novembro de 1986, pelo Campeonato Brasileiro daquele ano.

    Treze – Jorge Hipólito; Levi, Café, Dão e Cláudio Mineiro; Henrique, Márcio Ribeiro (Fernando Baiano) e Aroldo; Gabriel, Bill e Rinaldo. São Paulo – Gilmar; Zé Teodoro (Fonseca), Oscar, Dario Pereira e Nelsinho; Bernardo, Silas e Pita; Muller, Manu (Pianelli) e Sidney.

    MISSÃO RUBRO-NEGRA

    O Campinense tem uma missão quase impossível neste sábado, que é vencer o Aparecidense dentro de seus domínios pelo menos com uma diferença de um gol e forçar as cobranças de pênaltis na decisão da Série D de 2021. A derrota em casa limitou as chances do rubro-negro. O time goiano é forte jogando no Estádio Annibel Batista de Toledo, em Aparecida de Goiânia, mas não é invencível. É acreditar no impossível.

  • Gente de feira (II)

    05/11/2021

    Nos anos de 1960/1970, a feira central de Campina Grande vivia o auge de sua movimentação comercial e o setor de carnes, se não fosse o mais intenso, com certeza era o mais trabalhoso. O abrir os quartos das reses abatidas que chegavam do matadouro, a desossa, a separação e a limpeza das peças, o trinchar e o arrumar do balcão exigiam a presença de profissionais já a partir da meia-noite nos dias de pico, sexta e sábado.

    Chico e Sidclei, colegas do ramo, mantinham uma dualidade adjacente. Além de vizinhos de box no Mercado Central, preservavam uma vizinhança em bairro da zona leste, separados apenas por um quarteirão. Essa aproximação residencial motivou aos dois a preservação de uma rotina caminhada juntos rumo ao trabalho nas madrugadas frias da cidade.

    Na prevenção dos perigos do horário, cada um levava para casa a faca que usavam como instrumento laboral e voltava, de madrugada, no caminhar em direção à feira, pronto para usar, numa necessidade, como instrumento de defesa. Felizmente nunca precisaram desvirtuar o uso. O risco maior era um policial gostar da “arma” e apreendê-la para tê-la em casa.

    Os colegas da feira admiravam o companheirismo de Chico e Sidclei. Até teimavam em ignorar possível aleivosia deste, famoso por suas conquistas amorosas. Ficou famosa a tentativa de assédio à nova feirante que encantava a todos. Estrategicamente, Sidclei ficou em pé numa passagem, quase impedindo o acesso de outra pessoa, ao avistar a neófita vindo.

    - Com licença, seu Sidclei. No lugar que dois não passam, o outro não pode estar, reagiu, desarmando o insaciável. Nunca mais ele se enxeriu para a moça.

    Não é que com o tempo, Sidclei, propositadamente, começou a simular uma amnésia, revelada quase sempre na metade do caminho percorrido pelos dois para a feira.

    - Eita, Chico, esqueci minha faca. Sidclei voltava, então, para buscar seu instrumento; Chico continuava, solitário, o seu caminho - não sendo solidário para não atrasar os serviços. Enquanto isso, sem a preocupação de atrasos, Sidclei usava seu instrumento de prazer na satisfação dos prazeres de Maria, a mulher do companheiro.

    Pelo menos duas vezes no mês a amnésia atacava Sidclei, motivando a que Chico colocasse a “pulga atrás da orelha”. Naquela madrugada, já atravessando a avenida Canal, Sidclei lembrou-se da “faca” e avisou ao companheiro que teria de buscar o instrumento.

    Ressabiado, Chico fez que seguia rumo à feira, deu meia-volta e perseguiu o colega, resguardando-se de cuidados para não ser visto. Aproximando-se do quarteirão, tomou posição estratégica na esquina e de lá avistou o “amigo” parando na porta da casa.

    Chico respirou fundo e, apressado, foi em direção à residência, chegando em tempo de o “urso” ir abrindo a porta encostada. E, mesmo na escuridão da pequena sala, avistou a mulher pronta para receber o amante.

    - Esqueci a faca também, disse, voltando imediatamente, sem dar tempo do outro ensaiar uma fuga. Retomou a caminhada à feira, ainda mais apressado, iniciando os serviços, após tomar as doses etílicas de controle nervoso no Bar do Canarinho.

    Concluído o balcão, esperou a chegada do patrão, a quem fez ver a necessidade de voltar em casa, encontrando-a vazia de gente. Arrumou as roupas que lhe pertenciam e outros objetos, colocando tudo num carro de um amigo e guardou na casa de um parente. Retornou ao trabalho e concluiu suas obrigações no início da tarde. Sidclei não só perdeu a feira daquele dia, como todas no período de seis meses seguidos.

    Passaram-se os anos, Chico arranjou outra mulher e depois de muito tempo voltou a falar com Sidclei, a quem chamava de Clei, claro que sem o companheirismo de antes. A nova mulher cuidava extremamente bem de Chico. Nunca mais deixou que ele almoçasse nos pontos da feira. Todo dia levava, junto com os filhos já adolescentes, o seu almoço.

    Num sábado de feira boa, Chico feliz com as vendas, a mulher ainda no balcão, embora já fizesse tempo que ele almoçara, lá vem Sidclei passando em frente ao banco. “Clei, Clei, vem cá”, chamou. Sem dar tempo Sidclei perguntar nada, Chico foi girando para a mulher, apontando o indicador. “Tá vendo esta aqui. Ela não é Maria, não, visse”.

  • Nem todo outubro é rosa

    29/10/2021

    Marcado por ser canceriano de julho, paradoxalmente encontro motivos para considerar outubro um mês abençoadamente marcante na minha vida. É que as datas mais importantes da minha existência datam nesse que se posiciona como o décimo mês do ano, de acordo com o calendário gregoriano. Outubro, pra mim, é tudo de bom.

    Desconfio que essa simbiose teve origem já no meu nascimento, pois a terra que me serviu de berço comemora a data de fundação em 11 de outubro. Até quando a visão paterna enxergou necessidade de respirar outros ares, encontrou conveniência para eu passar a adolescência numa cidade elevada a esse patamar dia 24 desse mês, a tórrida Patos.

    Os laços familiares atam aos dias de outubro a chegada ao mundo de um tio e uma tia, dois cunhados e uma irmã. Não falta motivos, portanto, para se comemorar um natalício no meu lado materno nesse que, no calendário romano, era o oitavo mês. Daí a derivação do nome vir da palavra latina octo, que significa oito.

    Não recordo exatamente se foi por causa de uma greve, mas a colação de grau de nossa turma do Curso de Comunicação aconteceu num outubro de 1985, quando não era comum esse tipo de solenidade no mês 10. Três dias depois comecei no Diário da Borborema, que me tirou da clandestinidade laboral de quase uma década em outra atividade.

    Expostos esses acontecimentos, não há como surpreender quando eu confirmar que me casei, sem qualquer propósito nesse sentido, na plenitude da primavera do 10º mês de 1988, na praça do Trabalho, naquela igreja redonda cercada de flores, com uma mulher de nome de flor. E que o primeiro filho nasceu no outubro do ano seguinte.

    Temos o Outubro Rosa, uma campanha de conscientização cujo objetivo é alertar as mulheres e a sociedade da importância da prevenção e da precocidade do diagnóstico do câncer de mama. Tenho a consciência de que outubro, para mim, é uma estação policromática de 31 dias.

    DE OLHO NA VAGA

    Campinense e Atlético cearense disputam neste sábado, no Amigão, uma vaga na final da Série D do Campeonato Brasileiro, no confronto de rubro-negros em nível nordeste. O time que ganhar será um dos finalistas da competição e o empate leva a decisão para os pênaltis. Espera-se que a Raposa mantenha a performance dos últimos jogos, principalmente diante da equipe de Horizonte, nos quais saiu invicto com duas vitórias e um empate.

    A VEZ DA BASE

    O gerente de futebol do Treze, Fernando Gaúcho, confirma que o clube tem como prioridade para 2022 a conquista do Campeonato Paraibano de Futebol. Garante que o clube vai apresentar, em breve, um planejamento nesse sentido e que a equipe de base vai ser importante. O problema é que os clubes locais só lembram da chamada prata da casa nos momentos de crise braba. Não há prioridade na formação de atletas.

  • Quando o “13” persegue um raposeiro

    22/10/2021

    Torcer de forma radical por um time é uma patologia, determina a sabedoria popular. “Fulano é doente pela Raposa, sicrano é doente pelo Galo”. Professor Júnior discorda desse diagnóstico quando o aficionado é rubro-negro em solo paraibano. “Não existe raposeiro doente”, ensina.

    Dôva, açougueiro no Zepa, encaixa-se no perfil de sanidade apontada pelo vizinho e amigo. Com uma dose extra de radicalidade: não pronuncia o número “13” de jeito nenhum. Nem no atendimento aos clientes, que costumam rir quando ele diz “um mais 12 ou 12 mais um” e levam na brincadeira.

    Lopito não chega a esse grau, pois encara com naturalidade pronunciar o nome do time rival, caso seja necessário, embora sofra da síndrome da conotação negativa que o número inspira. De modo que sempre aciona o desconfiômetro quando aparece o “13” nas suas contas, nas leituras, avisos, etc.

    Não é que o ano já entrou convulsionando sua mente. Reunido em família na passagem de 2020/2021, Lopito avisou logo que só tomaria a primeira dose (não, não é a vacina) depois de romper o ano novo. Após os abraços, as saudações, é que preparou sua dose predileta.

    - Agora, sim, disse, já levantando o copo, girando-o em torno da plateia caseira, mas antes de virar pra dentro, consultou o relógio. - Eita, o ano não vai ser bom: 13 minutos. Mesmo assim, sem dar tempo às gozações familiares, rapidamente engoliu o conteúdo, retomando a confiança. “O álcool tira o azar, meninos”, bradou, após ingerir.

    O desconforto de Lopito na noite de ano foi uma prévia do que viria a ser seu infortúnio com o número rivalizado. Qualquer movimento, ação, contagem, etc. o “13” vem aparecendo. Ainda em janeiro, saiu no carro e, ao retornar, conferiu a quilometragem rodada: 13 Km.

    Por inúmeras vezes Lopito consultou o relógio, e o 13 aparecendo para informar os minutos. Certa tarde, almoçou e saiu. Ao chegar a seu destino, observou o painel do carro na ânsia de saber a hora e o aviso piscante: 13:13.

    Num dia de sábado, foi à venda próxima de casa, pegou dois refrigerantes e, dirigindo-se ao caixa, perguntou o valor. “13 Reais”, confirmou a moça, já rindo, conhecedora que é de sua simpatia futebolística. “É... mas o álcool tira o azar”, lembrou.

    De tanto ser perseguido pelo numeral azarento, no seu dizer, foi se acostumando com a positividade perceptível dos fatos acontecidos no decorrer do ano. Mas quando foi observando a participação sofrida do rival no certame estadual, veio-lhe uma certeza: o 13 que me persegue está dando azar ao Treze.

    Paralelamente, a surpreendente ascensão da Raposa na competição motivou Lopito a afastar o sentido azarento que o número inspira. “Ele vem me dando sorte”, conscientizou-se. A ponto de conquistar o título. E agora, carimbar o passaporte de acesso à Série C. Já anseia surgir mais “13” na sua rotina. Para comemorar o título nacional.

    META É O TÍTULO

    O técnico Ranielle Ribeiro não está satisfeito só com o acesso conquistado pelo Campinense, após uma perseguição de 10 anos. Nas comemorações da conquista, avisou: a meta é o título da Série D. Mas vai ter que passar novamente pelo Atlético cearense em mais dois jogos para poder chegar à final da competição. No ano, vitórias de 3 a 2 lá e 3 x 0 cá credenciam a Raposa.

    PARA POUCOS

    Ser destaque jogando em Treze e Campinense na posição de goleiro é uma performance que poucos conseguem, realmente, Mauro Iguatu. Acredito que só o agora ídolo rubro-negro e Jorge Hipólito, que atuou na Raposa em 83 e no Galo em 86, 87, conseguiram. Com Iguatu tendo a vantagem de defender e cobrar pênaltis.

  • "Nem Castor empata de dar Galo na cabeça"

    15/10/2021

    Não é preciso ser criança para acreditar que num 12 de outubro o Treze venceu o Santos em plena Vila Belmiro. Isso mesmo! No Dia da Criança, em sua estreia na divisão principal do Campeonato Brasileiro de 1986, após histórica classificação pelo Torneio Paralelo, o Galo fisgou o Peixe em seu reduto ganhando de 1 a 0.

    A campanha alvinegra na segunda fase da competição não foi das melhores – ficou em sétimo na classificação do grupo I, formado por nove equipes – mas conseguiu resultados expressivos como esse, além de uma vitória sobre o São Paulo e um empate com o próprio Santos, no jogo de volta, no “Amigão”, saindo invicto no confronto entre eles.

    O gol que definiu o triunfo galista na Vila Belmiro aconteceu aos 36min do segundo tempo, marcado pelo atacante Bill, que vinha sendo cobrado pela torcida em função da falta de pontaria. O juiz foi Manoel Amaro de Lima, árbitro que apitara o jogo entre Vasco e Santos, no milésimo gol de Pelé, em 1969. Um publico de 9.674 pagantes compareceu ao estádio santista.

    O Santos se rendeu ao ímpeto galista com Rodolfo Rodríguez; Ijuí, Nildo, Pedro Paulo e Paulo Robson; Dunga, Ribamar e Júnior; Serginho Dourado (Antônio Calos), Dino Furacão e Santín (Carlos Alberto Borges). Técnico Formiga. O Treze surpreendeu com Jorge Hipólito; Levi, Dão, Café e Claudio Mineiro; Henrique, Marcio Ribeiro e Fernando Baiano (Aroldo); Gabriel, Bill e Mirandinha.

    A vitória do Galo no reduto adversário serviu de alerta ao Palmeira, seu próximo adversário em jogo disputado no Parque Antárctica, três dias depois. O alviverde vingou o futebol paulista aplicando uma goleada de 4 a 1 no time dirigido por Valdemar Carabina.

    Mas nem o esticado placar desanimou os alvinegros para o confronto contra o Bangu do lendário Castor de Andrade, dia 19 de outubro, no “Amigão”. Patrono do clube, ele acompanhou a delegação até Campina Grande em avião fretado.

    A presença do bicheiro na cidade motivou Geovaldo Carvalho a interpretar a confiança da torcida em chamada de primeira página do Diário da Borborema num palpite que ainda hoje me fascina: Nem Castor empata de dar Galo na Cabeça. Um gol de Henrique aos 36min do segundo tempo, diante de 12.988 pagantes, confirmou a premonição do nosso editor.

    A HORA DA RAPOSA (I)

    O Campinense tem a chance de conquistar o acesso à Série C do Campeonato Brasileiro, neste sábado, no Amigão, em jogo contra o América de Natal. Quem vencer recebe o passaporte da terceirona; um empate leva a decisão para os pênaltis. Os últimos resultados e os confrontos com o adversário na competição – 3 x 0, aqui, e 0 x 0 lá – credenciam o rubro-negro.

    A HORA DA RAPOSA (II)

    Espera-se que a torcida rubro-negra não queira se vingar do que marginais travestidos de torcedores alvirrubros praticaram lá. Deixem que os jogadores da Raposa, conscientes como estão, resolvam. Com a prática do bom futebol e bola na rede. Se o time mantiver o ritmo e o foco nem a Barreira do Inferno impede o acesso da Raposa, diria Geovaldo.

  • AS CHUVAS DE LÁ E AS COISAS DE CRIANÇAS

    09/10/2021

    A oficialização do 12 de outubro como o Dia da Criança veio através do Decreto nº 4867, de 5 de novembro de 1924, depois de aprovada uma proposta do deputado federal fluminense Galdino do Valle Filho. A popularização da data só aconteceu a partir de 1960, quando a fabricante de brinquedos Estrela e a Johnson & Johnson criaram a Semana do Bebê Robusto, campanha de objetivos meramente comerciais. 

    Mundialmente, a data é celebrada em 20 novembro, conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), dia em que foi aprovada a Declaração dos Direitos da Criança, em 1959, com o sugestivo nome de Dia Universal da Criança. Então, acho que contar alguns causos de filhos de familiares, amigos e clientes é uma boa maneira de celebrar a data nacional. 

     

    Quando eu trabalhava com o tio Cloves, um comprador ficou devendo uma conta na casa. Pagador, por algum motivo permaneceu um tempo sem pagar a dívida, mas o filho sempre ia às compras, quitando a mercadoria que levava.  

     

    Naquele dia, coincidiu de Cloves se encontrar no comércio e ao ver o menino, perguntou-lhe pelo pai, sem esquecer a cobrança discreta, afirmando que tem um negócio dele aqui. Prontamente, o garoto reagiu com um pode me dar, que eu levo”. 

     

    Outra vez, no meu estabelecimento, a filhinha de uns cincos anos constrangeu a mãe duas vezes. Era meu aniversário e alguém da casa lembrou a data, motivando os parabéns da mulher, que não conteve a curiosidade e indagou a quantidade de janeiros. Esperta, a menina, como um desagravo, perguntou a idade da genitora; depois que ela respondeu, arrematou: já está boa de morrer. 

     

    Estávamos eu e o mano Afonso, liberando latas dágua do Açude da Mata, que antes do abastecimento do Cruzeiro, Santa Rosa, Vila Cabral, etc matava a sede dos moradores desses bairros, quando avistamos a cunhada de um primo de mãe. “Ei, bicha, você é irmã da mulher de Nivaldo”, indagou Afonso, na espontaneidade de uma criança sem vergonha. 

     

    Levamos nosso filho Glauber para uma consulta com o doutor Gouveia, pediatra adepto da homeopatia. Conhecedora das traquinagens do menino, uma “pimentinha” no dizer de um amigo, ainda em casa Margarida o orientou que se comportasse, não mexesse em nada, pois o “doutor é chato e abusado”, adjetivos que não condizem com o temperamento do saudoso médico. 

     

    No consultório, após os cumprimentos formais, Dr. Gouveia direcionou a mão para cumprimentar o menino, que rápido, feito cantador de viola, não lhe deu tempo de perguntar seu nome, entregou: doutor, mãinha disse que o senhor é muito chato e abusado”.  Não é preciso dizer que a mãe corou de vergonha. “Doutor, ele é muito danado. Por isso disse isso a ele”, justificou. 

     

    Quando criança, nos finais da década de 1960, o pai do amiguinho Lopito só falava em colocar o filho numa oficina mecânica, sob a justificativa de “ir desasnando”. Na escola em que estudávamos, tinha uma cisterna que subia à altura de meia parede, devidamente bem tampada, minimizando os riscos aos alunos. 

     

    A localização do reservatório ficava junto à bateria de banheiros. Não é que certa tarde, na hora do recreio, Lopito subiu na cisterna para filmar, pela diminuta janela do banheiro feminino, as coleguinhas aliviando suas necessidades. Uma delas viu o rosto curioso do menino e resolveu denunciá-lo à direção. 

    Ao chegar em casa, desconfiado e temendo o cinturão paterno, Lopito já sentiu alivio ao ver o pai de mãos livres do cinto. No fundo, o velho, conhecido por suas aventuras extraconjugais, parecia satisfeito com a ação do filho. “Vai gostar do produto, como eu, certamente imaginava assim”, confessou Lopito, depois de adulto.  

     

    Mas o pai teria que conversar com o filho, no mínimo orientando-o para não mais fazer isso. E aconteceu de forma educativa, o que motivou a defesa do filho numa frase que causou um riso tímido nos lábios paternais. “O senhor quer que eu vá trabalhar numa oficina, então eu fui conhecer as peças...”, justificou Lopito. 

     

    Leonam, hoje com 15 anos, é filho do meu primo Adriano, caminhoneiro que está trocando a liberdade da estrada pela prisão do comércio varejista. Quando Leonam criança, a família passou uns tempos na cidade de Sousa, terra natal de Simone, a mãe. À época, de férias na casa da avó em Campina Grande, perguntei se ele gostava da Cidade Sorriso. “Gosto pouco... Como as chuvas de lá”, respondeu. 

  • Galo agrega valorização no Paralelo

    30/09/2021

    O vice-campeonato de 1986 permitiu ao Treze disputar o Torneio Paralelo, competição criada pela CBF com o objetivo de acessar quatro equipes à Série A do Campeonato Brasileiro ainda naquele ano, em sua segunda fase. Campeão paraibano, o Botafogo representou o Estado na fase inicial, mas não logrou êxito na sua tentativa de um avanço.

    O alvinegro, sob o aporte financeiro da família Gadelha, que tinha em Marcondes o candidato ao governo do Estado e em Petrônio prestigiado diretor junto à torcida, formou uma equipe competitiva. Contratou Valdemar Carabina como treinador e o preparador físico Marcos Melo, que ganhara recentemente o título com o Botafogo.

    O clube buscou no Londrina do Paraná o goleiro Jorge Hipólito, que três anos antes se destacara no Campinense. Ainda do Plínio Lemos, veio o zagueiro Dão; também com passagem pelo “Zepa” o ponteiro Gabriel, destaque de há muito do Santa Cruz, e o meia Rinaldo, adquirido por empréstimo, após contratado pelo tricolor ao rubro-negro como grande promessa.

    A diretoria ainda trouxe o zagueiro Café, do CSA, e o atacante Bill, do Atlético de Goiás. Também vieram os meias Márcio Ribeiro e Aroldo. Manteve no elenco atletas testados no “PV”, como o lateral Levi, o meia Fernando Baiano e o atacante Fernando PB. A chamada prata da casa teve chance, destacando-se o volante Henrique, o lateral Marco Antônio e o meia Mirandinha.

    Jorge Hipólito; Levi, Dão, Café e Marco Antônio; Henrique, Fernando Baiano (Aroldo) e Rinaldo (Márcio Ribeiro); Gabriel, Bill e Mirandinha. Esta, a equipe base que terminou o torneio na primeira colocação do Grupo E, garantindo a participação imediata na divisão principal daquele ano, na fase seguinte.

    Em que pese a boa campanha, a classificação não foi fácil. A única derrota de 1 a 0 - para o Maranhão em São Luiz - na penúltima rodada quase desclassifica o Galo. O avanço foi possível graças ao empate de 1 a 1 entre Ferroviário e Moto Club, resultado este que limitou a pontuação dos maranhenses.

    Precavida, a diretoria alvinegra agiu antecipadamente nos bastidores, acionando o “homem da mala”, garantindo uma gratificação de CR$(Cruzados) 30 mil ao clube cearense; o diretor Petrônio Gadelha confirmou o pagamento. Os jogadores, claro, foram recebidos festivamente na entrada da cidade.

    O Galo terminou o torneio na primeira colocação do grupo E, com 12 pontos, resultado do acúmulo de cinco vitórias, dois empates e apenas uma derrota. Junto com o alvinegro, subiram o Central – grupo F – 11 pontos, Internacional Limeira (SP) – grupo G- 13 pontos e Criciúma (SC) – grupo H – 14 pontos.

    Quem passa pelo “PV” ou se senta nas suas arquibancadas lê frases em forma de lembretes: Campeão Brasileiro 1986 - Série B. É uma jogada de marketing em resposta, ao que me parece, ao Central, que usou esse procedimento no estádio de Caruaru. Oficialmente, a CBF não proclamou um campeão. Certamente porque não houve a fase de decisão, pois o acesso foi automático.

    CAMPANHA

    A campanha do Treze no Torneio Paralelo de 1986 foi a seguinte:

    07/09 – Treze 1 x 0 Ferroviário (CE)

    10/09 – Treze 1 x 0 Guarany (Sobral)

    13/09 - América (RN) 0 x 0 Treze

    18/09 – Sport Belém 1 x 2 Treze

    21/09 – Treze 2 x 1 River (PI)

    25/09 – Rio Negro (AM) 0 x 0 Treze

    28/09 – Treze 2 x 0 Moto Club

    02/10 – Maranhão 1 x 0 Treze

    VITÓRIAS

    Nas próximas colunas, procurarei destacar a trajetória alvinegra na divisão principal do Campeonato Brasileiro de 86, marcada por vitórias importantes que dignificam sua história. Ganhar do Santos, em plena Vila Belmiro, e do São Paulo, no “Amigão”, na mesma competição não é façanha que um time paraibano consegue todo ano.

    DESORGANIÇÃO

    O Campeonato Brasileiro de 1986 é considerado o mais desorganizado da história das competiçoes nacionais de futebol. A CBF resolveu juntar as Taças de Ouro, Prata e Bronze (equipevalentes às séries A, B e C) numa única competição, com 80 clubes. As consequencias dessa desorganização reinante foram a criaçao do Clube dos 13 e da Copa União.

  • PANDEIRO DA ESPERANÇA

    24/09/2021

    No primeiro gemido da sanfona, já comecei a me arrepiar; quando ela soltou a voz gorjeando os primeiros versos da música de Rosil Cavalcanti, meus olhos marejaram. Foi grande a emoção em ver Helloysa do Pandeiro tentar a finalística do The Voice Kids interpretando – uma ironia ao nome do programa – um dos clássicos mais lindos do cancioneiro nordestino.

    Aliás, a performance da menina de Areia e da pessoense Lais Meneses na semifinal do programa cantando o regionalismo de nossa terra nos traz um alento. O de que o verdadeiro ritmo de nossa terra pode voltar a ser destaque na musica brasileira, não apenas com os artistas do passado, mas com os talentos atuais e os que estão surgindo.

    Vale lembrar que nesses tipos de programa, sempre que alguém – criança, jovem, adulto e de mais de 60 - interpreta uma música de forró, um baião, coco... ganha destaque, independente da classificação. É a força da tradição musical do Nordeste, que a modernidade medíocre vem ofuscando de forma avassaladora.

    0 impacto de Helloysa, mesmo sem o pandeiro, cantando Aquarela Nordestina foi tão forte que Carlinhos Brown me pareceu trincar os dentes, como mostrado numa das imagens. Até censurei o baiano por ele atribuir a Luiz Gonzaga o mérito criador dessa canção, esquecendo a autoria de Rosil e a gravação original de Marinês, de 1958.

    De imediato, iniciei uma pesquisa online e constatei que em alguns sites e até em trabalhos universitários conferem a Gonzaga a autoria dessa composição. De fato, Luiz gravou a música, assim como mais tarde Elba Ramalho, mas nenhum dos dois supera Marinês com sua voz marcante. A falta do crédito a Rosil é imperdoável.

    A forte influência paterna faz de Helloysa uma artista com foco na nossa música regional, tendo em Jackson sua principal inspiração, derivando para outros nomes, a exemplo de Marinês. Essa determinação legada do pai, que é músico, nos dá a esperança de que ela não se renderá ao desvirtuamento da vocação regionalista que vitimou Lucy Alves.

    O repertório de Helloysa no programa confirma sua determinação em defender a boa música nordestina e tem agradado ao público. Foi escolhida semifinalista com índice superior a 37% da votação popular, 42% dos telespectadores a colocaram na final.

    A expectativa nossa é que a “menina de Areia” mantenha a performance e o repertório. Qual música ela cantará na finalíssima? Bem que poderia continuar o resgate de Rosil e Marinês e dentro da temática da seca que sempre calcina o solo nordestino com “No Meu Cariri” ...

    GENTE DE FEIRA

    Com uma voz plenamente radiofônica e articulação fácil nas palavras, Chapéu, que eu não vejo há quase três anos, me enviou um áudio agradecendo pela citação do seu nome na coluna e por lembrar do seu conterrâneo Câmara Cascudo. Não sabia que ele é um natalense que mora em Campina Grande há mais de 20 anos. “Hoje tenho um coração paraibano”, diz.

    TIRAR O CHAPÉU

    Logo no início do áudio, o hábil carroceiro se identifica com um slogan. “Olá, amigo Valberto. Sou eu, Chapéu da Feira Central, referência naquilo que faz em Campina Grande”. Se eu usasse chapéu para disfarçar minha calvície ou proteger minha cabeça o tiraria, com todo prazer, para saudá-lo.

  • A ARRANCADA DA RAPOSA RUMO AO TETRA

    17/09/2021

    No início dos anos 90, no caderno de esportes do Diário da Borborema, assinei matéria enfocando a vida, naquela época, dos jogadores que formaram o elenco do Campinense que ficou conhecido como “o time de Zé Pinheiro”. Ao ler a página, após a publicação, pensei comigo mesmo: um fenômeno. Tão raro, quanto a raridade do hexa rubro-negro dos anos 60.

    No mês de agosto, fez 50 anos que a Raposa ganhou o Campeonato Paraibano de 71, dando a arrancada para o tetracampeonato da década de 1970. A conquista significou a consolidação do “time de Zé Pinheiro”, alusão criada pela torcida para definir o elenco praticamente todo formado no Estádio Plinio Lemos, hoje Vila Olímpica, um dos mais vitoriosos da história.

    O título veio após uma série decisiva de três partidas com o Botafogo, das quais venceu duas e perdeu uma, ganhando a última na casa adversária. Para chegar à fase de decisão, o rubro-negro conquistou o primeiro turno, fracassou no segundo permitindo que o rival se garantisse na final, mas reagiu de forma heroica abocanhando o terceiro de forma invicta.

    A Raposa ganhou o 1º Turno vencendo seis jogos e perdendo um; no returno, mesmo sem perder, ficou na segunda colocação obtendo três vitórias e dois empates. O Bota triunfou em quatro jogos e empatou um. O terceiro turno não deu pra ninguém, pois o rubro-negro saiu vitorioso nos cinco confrontos.

    Ao todo, o Campinense disputou 20 jogos, vencendo 17, empatando um e perdendo dois. A única derrota - 1 x 0 - na fase de turno foi para o Santos, no Estádio Leonardo da Silveira, em João Pessoa. Marcou 42 gols e sofreu 13, tendo em Edgar – 15 gols – o principal artilheiro; Vavá e Toinho, foram os atletas que atuaram em todos.

    As comemorações do título contaram até com um conhecido trezeano, destaca página esportiva do DB. É que João Nogueira de Arruda (Pinta-Cega), torcedor apaixonado do Treze, vestiu-se de rubro-negro e foi às ruas festejar a conquista adversária.

    O jogo que decidiu a competição foi no 04 de agosto, na capital. Na tarde seguinte, a bandeira da Paraíba tremulava no Colégio Diocesano de Patos, cidade que nos acolhera poucos meses antes, lembrando a fundação do Estado. Mas para o amigo Lopito, que nos visitava na ocasião, a bandeira comemorava o título conquistado pelo Campinense.

    FICHA TÉCNICA

    Campinense – Ailton; Miro, Jota Alves (Ademir), Deca e Ivan Lopes; Vavá e Toinho; Dinga, Pedrinho Cangula, Edgar e Valnir. Técnico Ibiapino

    Botafogo – Lula; Paisinho, Lando, Valdo e Gerônimo; Odon (Leone) e Santana; Paulinho, Chico, Jorge (Capelense) e Ferreira.

    Juiz: Geraldo Luckwu. Auxiliares: Evanílson Meneses e Genival Batista. Gols: Edgar e Toinho (CC), Ferreira (Bota).

    CAMPANHA RUBRO-NEGRA

    PRIMEIRO TURNO

    11/04 Campinense 5 x 0 União

    18/04 Esporte 0 x 2 Campinense

    02/05 Santos 4 x 3 Campinense

    09/05 Campinense 1 x 0 Botafogo

    19/05 Auto Esporte 0 x 2 Campinense

    23/05 Campinense 4 x 1 Guarabira

    SEGUNDO TURNO

    06/06 Campinense 3 x 2 Auto Esporte

    13/06 Botafogo 0 x 0 Campinense

    16/06 Campinense 5 x 0 Esporte

    20/06 Treze 1 x 1 Campinense

    27/06 União 0 x 1 Campinense

    TERCEIRO TURNO

    04/07 Esporte 1 x 2 Campinense

    07/07 Auto Esporte 1 x 2 Campinense

    11/07 Campinense 2 x 0 Botafogo

    14/07 Campinense 2 x 0 União

    18/07 Campinense 1 x 0 Treze

    DECISÃO

    28/07 Campinense 2 x 0 Botafogo

    01/08 Botafogo 2 x 1 Campinense

    04/08 Botafogo 1 x 2 Campinense

  • Gente de feira

    10/09/2021

    A obra de Câmara Cascudo lembra que “O melhor do Brasil é o brasileiro”. Parodiando o folclorista potiguar sou animado a refletir que o melhor da feira é o feirante. Literalmente o feirante. O que vende, o que compra, o que trabalha ou presta serviços e até o que atrapalha. Todos, em funções diferentes, são gente de feira. Alegre ou triste, bem humorada ou não.

    Mesmo deixando de trabalhar na feira da Rainha da Borborema, continuei a frequentar seus espaços, principalmente os de frutas e verduras, mantendo uma relação comercial de décadas com pelo menos dois comerciantes. A pandemia me forçou a um afastamento involuntário, mas não me privou de seus produtos.

    Dona Penha foi minha fornecedora de verduras e legumes por mais de 30 anos. Só deixei de lhe comprar depois que laços comerciais familiares me ataram feito os lançados pelos vaqueiros na caatinga. Nunca esqueci quando minha caçula nasceu e ela chegou, de surpresa, em nossa casa, levando uma lembrancinha simples, mas repleta de carinho.

    Feirante dos mais engraçados que conheci, Zito Procópio passou mais de mais de 60 anos – iniciou praticamente criança - negociando na feira de frutas. Deixou, forçado pelo freio nas vendas premido pela pandemia. Assis Costa, jornalista que nos deixou em fevereiro, era seu cliente e passava mais de hora sentado no único tamborete do box, fazendo os pedidos, ouvindo e soltando gracejos.

    Até na hora de somar a conta do cliente Zito brincava, simulando uma narração de futebol pelo rádio. “Cinco mais quatro nove, com mais três doze. Fez que foi, não foi, Batatais não vai atrás. Vai um...”. Depois, de riso contagiando o ambiente, conferia a conta. Raramente errava.

    As brincadeiras recheadas de malícias de Zito com os fregueses mais chegados ou afeitos ao tipo eram constantes. “Vale R$ 1,00. Tu dá R$ 1,00?”, apelava ao avistar um cliente chegando para o encontro casual com outro já em atendimento. Ou, disfarçadamente, apontando o dedo, sem que o outro visse, “Tu ia, tu ia?

    Certo domingo recebi a missão de levar um padre conhecido ao seminário por traz do Colégio Panorama. Chegando pela Almirante Barroso, esperei o sinal abrir e virei à direita e já avistei Zito saindo do campo de pelada onde hoje é o Tododia. Abriu o sorriso sacana, foi levantando a mão e o indicador apontando para o padre. “Tu ia, tu ia?”. Tive que controlar a alegria para não constranger o padre.

    Carregador de feira bastante prestigiado, Manoel exerce a habilidade no contato com a freguesia, que não é pequena, mais do que manobrando seu carro de mão pelo meio da feira. Costuma atender mais de um cliente ao mesmo tempo e deixa todos satisfeitos. Nem se altera na inevitável pressão pela rapidez da entrega.

    Morador da zona rural de Massaranduba, Manoel é encarregado de realizar as compras de boa parte da clientela, inclusive as minhas, estas após a pandemia. Também pratica o serviço de delivery, usando a moto na qual se desloca de casa para o trabalho de terça a sábado.

    A habilidade e a disposição de Badu, como também é conhecido na localidade onde mora, só lhe abre porteiras. Encarregado de entregar os bolos que vem do interior de Pernambuco, ele já recebeu proposta para gerenciar a produção e distribuição, mas não topou a transferência para Bezerros.

    Também rejeitou contrato em uma rede campinense de supermercados, onde faz entrega dos produtos do trigo. Lamentei, alertando que ele teria uma carteira assinada. “Eu tenho e meu terreno, pago o meu sindicato; tenho minha aposentadoria garantida. Aqui, eu faço o meu horário e ganho bem mais”, justificou.

    No nosso último contato, quando veio deixar as compras no meu carro, brinquei dizendo que ele estava disfarçando, pois teria sido o ganhador recente da Timemania em Massaranduba. “Deixa eu quieto, aqui, com a minha carrocinha. Andando tranquilo e em paz”.

    Chapéu é outro habilidoso carroceiro do nosso Patrimônio Cultural e ganhou o apelido em função do uso constante do objeto de proteção solar, mas que na verdade é para esconder a calvície prematura. É o único carroceiro que mantém o luxo de não trabalhar no sábado.

    Além da habilidade no contato com o cliente, Chapéu é exemplo de conscientização de como prestar um bom serviço. “Eu tenho que tratar bem o meu cliente. Tenho que conhecer a cor e saber a placa do carro do meu cliente”, disse em conversa comigo há anos. “O meu PIB é daqui”, justificou.

  • FEIRA DE APELIDOS

    03/09/2021

    Trabalhei na feira central vendendo carne por 10 anos, deixando após ser vítima encarcerada, sob a acusação de ágio no preço, do Plano Cruzado, que, feito amor, foi bom enquanto durou. Também enquanto deu para vender pela tabela foi uma maravilha, pois o tabelamento oficial permitia o lucro justo e a regularidade do abastecimento necessário.

    Fui pescado para o ramo pelo tio Clóvis na sequência do esperançoso retorno a Campina Grande, depois de cincos anos em Patos. Sem perspectivas de trabalho, aceitei de primeira o convite familiar, continuando o aprendizado comercial iniciado com papai, agora tendo que aprender as nuances da nova atividade.

    Com a loja de Zé Pinheiro vislumbrando perspectivas futuras e exigindo minha presença diária, a tarde de sexta-feira e a madrugada do sábado me foram reservadas para os serviços de desossa e o desarno no atendimento. Em pouco tempo de Mercado Central conheci muitos colegas, parte deles com os apelidos insólitos.

    Aqui, não vou citar apelidos motivados por deficiência física ou que a pessoa não aceita ser chamada, tipo Boca Torta. Destaco o que realmente substitui o nome de registro, a exemplo de Mané Botico, considerado um artista no trabalho de magarefe no Matadouro Público, enquanto funcionou em Bodocongó.

    Artista, pois despelava os animais abatidos com raro capricho deixando o couro bovino bem delineado, conforme o seu figurino natural, performance que motivou o apelido. Certo dia, um observador mais atento percebeu a maneira detalhada como ele riscava e cortava a região anal de uma rês e, admirado não se conteve.

    - Rapaz, tu és um Mané Botico mesmo. Tu tiras o botico do bicho bem direitinho, bem desenhado. Desde então ficou conhecido por Mané Botico e nem estava aí para o cognome insultante. Na única conversa que tivemos, ele me contou com naturalidade a motivação para ganhar o apelido.

    Pelo menos a identificação de duas pessoas com o mesmo apelido pelos feirante colegas foram através do acréscimo de uma palavra que caracterizasse cada um. Trabalharam no setor de carne, dois profissionais conhecidos por Dedé. Um, com uma certa elegância e um ar de importância, ficou conhecido por Dedé Importado; o outro, talvez pelo comportamento pertinente, chamava-se Dedé Peitica.

    Conheci dois marchantes do Mercado Central – um deles já falecido – atendendo por Deca. Embora do mesmo nível social e financeiro, colegas adotaram palavras antônimas para facilitar a identificação de cada um, nas conversas. Um, certamente pelo espírito de grandeza, passou a ser Deca Rico; o outro, na simplicidade do seu viver, foi “batizado” de Deca Pobre. Este, pegou o bonde rumo à eternidade.

    0 saudoso Chico Macaco foi meu vizinho de box e o nome formando o composto de como era chamado retrata com certa fidelidade as características de sua aparência física. Interessante

    que um colega seu, metido a conquistador de mulheres (não sei se também pegou o bonde), ironicamente chamava-se Guei. Num tempo em que a palavra inglesa Gay não era popularizada ainda no Brasil.

    Também é comum ainda hoje cognominar o profissional pelo produto que vende. Fulano da Carne de Sol, Edilson do Alho. No meu tempo, um vendedor de especiarias era conhecido por Tempero. Mais do que justo, pois além de vender os condimentos, sabia temperar o diálogo comercial com boas doses de humor.

    Ainda vive pelo mercado um moreno de olhar diferenciado, bem estranho, que é conhecido por Satanás. Caiu bem, pois é a representação perfeita de como a gente imagina ser o demônio. Corre uma lenda de que ele mordeu um gabiru, revidando uma mordida que o roedor lhe dera. Ele confirma a veracidade do acontecimento. Acho que nem o diabo acredita.

    Morando no mesmo bairro, na infância, mas sem aproximação que sequer o seu nome sabia, reencontrei o filho de Luzia Viola trabalhando com carne na feira atendendo por “Oi” de Prata. O motivo para o apelido é que seus os olhos matizavam (não sei se ainda é vivo) duas ou três cores, destacando o verde claro, quase prateado.

    O apelido encontra justificação diversificada, de acordo com a característica física e das ações do apelidado, tornando-se parte do nosso folclore, pois, é certo, fruto das manifestações populares. Certo também que o apelido pega mais rápido, de primeira, quando a pessoa se zanga com o novo sobrenome. Que pelo nome não se perca.

    TAMBORETE

    Escrevendo a coluna anterior sobre os acessos da feira, logo me lembrei do vereador Olímpio Oliveira, que trabalhou no Mercado Central ajudando o pai e a mãe na venda de ovos, queijo e, se a memória não me trai, lanches e refeições. Na feira, Olímpio deu seus primeiros passos de líder, fundando uma associação de feirantes do Mercado Central.

    ASSALTO

    Esta semana, veio o apelo comovente do edil pelas redes sociais para reencontrar o tamborete de estimação, no qual subia para alcançar o balcão. O banquinho foi no porta-malas do carro, levado em assalto no mês de julho. Feito a sanfona roubada de Gonzaga, o tamborete não é do povo. O dono, sim.

  • A feira, as flores e o fumo

    27/08/2021

    As opções de acessos à feira de Campina Grande são muitas e praticamente todos os nomes das ruas de entrada sugerem algo para o êxito do consumidor no momento das compras no Mercado Central e seu entorno. Mas nenhuma das alternativas é tão romântica quanto chegando pela pequenina rua onde o forrozeiro Genival Lacerda nasceu e morou boa parte de sua vida.

    De início, é bom lembrar, a nossa principal avenida, a Floriano Peixoto, tem duas vias de acessos. Floriano significa da flor, é uma variante italiana de flora como a avisar que em determinado local se vende uma variedade imensa de flores; na gíria do passado, também significou uma nota de cem Cruzeiros, o que sugere os gastos que o cliente terá nas compras.

    Logo ao passar pela Catedral sentido Alto Branco/Santo Antônio e estancar no sinal, o peregrino entra à direita na Rua Peregrino de Carvalho e à frente pode optar por uma das duas entradas: pela Antônio de Sá ou a continuidade da Afonso Campos. Se apreciar o líquido do engenho, o sobrenome lembra uma dose, se estiver sadio.

    Quem vem na apelidada Avenida Canal, o nome sugere uma infinidade de canais de compras dentro e fora do Mercado Central ofertando uma variedade imensurável de produtos. Se optar pela Rua Marcilio Dias, terá a noção de que um mar de mercadorias estará ao seu alcance quase todos os dias, com a exceção dominical; se preferir a Carlos Agra, o doutor evoca a agradecer o poder de compras ao Pai.

    A Rua Quebra Quilos, que tem duas vias de acesso, uma das quais oferecendo prazeres carnais – a Rua Boa, como chamava Rosil Cavalcante -, obviamente nos desperta no sentido de que não sejamos roubados no peso. Ficarmos atentos na ocasião da pesagem, sopesando com os olhos produtos como carne e cereais. Para o quilo não ser quebrado.

    Na Vila Nova da Rainha, podemos encontrar o acesso mais romântico, via Rua Manoel Farias Leite, aquela onde nasceu Genival Lacerda, no número 36. Se toda rainha é digna de flores, logo na entrada se encontra a feira de flores. Esse romantismo sofre um abalo poucos metros depois do indivíduo topar com os pontos de venda de fumo.

    Um contraste que opõe beleza, cores e odores e motivou uma justa queixa de Lopito. “A gente chega recebendo flores, mas em seguida leva fumo”. A contrariedade pode se evidenciar no sentido inverso, amigo. O sujeito chega por outra rua, faz as compras e leva fumo. Na saída ganha flores.

    NOVO PROGRAMA

    Por falar em Genival Lacerda, gostei das mudanças no programa de Ton Oliveira, na TV Borborema. Com novo formato, cenário novo e outra denominação – Música & Cia -, vem priorizando o verdadeiro forró. Cezzinha, Maciel Melo, Forró Lampejo e Delmiro Barros passaram por lá. O sentimento de nordestinidade aflorou ao ponto de, quando lembro do programa, quero dizer Nordeste & Cia.

    BEM NORDESTE

    Domingo último, curti Ciro Santos e Forró de Nois, no Cantos e Contos, na TV Correio; em Roland Boldrin, na TV Itararé, foi uma delícia ver Liv Morais cantar as principais músicas do pai Dominguinhos. Para depois conhecer, no programa de Ton, a banda Forró Trakino, de Junco do Seridó, que tem em Manoel no triângulo um cantor muito bom. É só Alegria!

  • Não Serei o Lenhador de Augusto

    20/08/2021

    Se depender da aniversariante do dia, não serei o lenhador que Augusto explora e ainda terei a velhice que o poeta implora. Esta menina, embora carregue a zanga da mãe, me traz a tranquilidade paterna que um genitor anseia.

    Como Morgana me preenche de esperança! Pelo talento, pelo carisma, pela simpatia, pela beleza... Não a beleza externa que todos veem, mas a beleza interna que sensibiliza os sábios e desarma os brutos. Uma beleza alicerçada na fé; a fé que traz esperança.

    De tão divina, essa beleza interna de Morgana chega a ser profética, servindo-lhe de livramento; sempre vislumbra o perigo à frente. Aí, não lhe falta coragem para decidir, mesmo que, feito Maria, lhe trespasse o peito.

    Ela herdou de mim o gosto pelo trabalho e pelas festas. A intensidade de sua determinação trabalhista neutraliza qualquer ação mandonista patronal ou mesmo paternal. Sem causar ranço.

    Para ilustrar: no nosso comércio (quando estava funcionando), a porta de acesso tem uma chave no meio e um cadeado embaixo, fechando no piso. Para abri-la, giro no meio, me inclino para tirar o cadeado e levantar a porta; ela, até quando pode nos ajudar, não me deixava abaixar de novo para pegar a peça de travamento, recolhendo-a numa rapidez admirável, me poupando o agachamento necessário.

    Festa é com Morgana, mas com intensa responsabilidade. Certa vez fui falar com ela pelo seu excesso festivo, aí me calou: painho, puxei ao senhor, que numa festa só sai no lixo; a diferença é que o senhor não dança.

    Estou convicto de que esta filha não me será "uma árvore de empecilho". E nem precisará se "abraçar com o tronco", pois ela mesma tece para mim a velhice que o poeta almeja.

    CASAMENTO

    A data de 20 de agosto passa a ser muito importante para nossa família. Neste dia, levarei Morgana, a minha filha amada, ao altar para receber as bençãos nupciais, quando a entregarei aos cuidados de Gustavo Borges, que passa a ser um novo filho. Que ele tenha de forma constante a reciprocidade desses cuidados.

    Então, vale a pena republicar o texto escrito para comemorar um dos seus aniversários e que foi decisivo para eu aceitar os repetidos convites de Marcos para voltar a escrever a coluna. Que a estabilidade matrimonial permaneça sempre!

  • Uma noite em Marizópolis

    13/08/2021

    Com uma caixa grande repleta de mercadorias embaladas ou produzidas em casa sobre a cabeça ou apoiada nos quadris, saia, ainda menino, do bairro do Cruzeiro para vender esses produtos no Catolé e no Jeremias. Esse périplo foi um ensaio do que viria a ser minha vida de vendedor ambulante adolescente, no sertão.

    A labuta sertaneja teve início aos 12 anos, logo após a mudança familiar para Malta, onde a prole permaneceu por três meses. Chegamos no início da noite de uma sexta-feira e no domingo, por determinação paterna, corri o pequeno comércio local.

    Sem qualquer conhecimento do território a ser percorrido, oito dias depois a ordem foi vender a produção em três cidades no sentido alto sertão. “Primeiro é Condado, depois São Bentinho e aí, Pombal”, orientou, com a dica de pegar o ônibus ou uma das caminhonetas, os alternativos de hoje.

    Essa foi a minha rotina aos sábados e domingos e durante as férias escolares, até retornar a Campina Grande cinco anos depois. Sem qualquer demérito paternal, esse trabalho de comercialização domiciliar, na adolescência, firmou minha responsabilidade com o mérito da preservação dos estudos.

    Agora com morada em Patos, a partir de terceiro mês em solo sertanejo, as viagens se estendiam por parte do Piancó, regiões de Sousa e Catolé Rocha, esticando até a Alexandria, no Rio Grande do Norte. Nessa função de vendedor mirim, passei, junto com outros dois irmãos, algumas aventuras que me trouxeram experiência de vida.

    Como na vez que fui, junto com o mano Afonso, vender em São Mamede e Santa Luzia, praças da rota, sob a orientação de ir a São José do Sabugi, Parelha e Equador, cidades desconhecidas, retornando ao Estado pelo Junco. Nem é preciso confirmar que as vendas foram um fracasso. Em Equador, um comerciante adquiriu alguns produtos e nos levou para o almoço em sua casa.

    Noutra oportunidade, viajei com papai com o objetivo de trabalhar nas praças de Catolé do Rocha, Brejo do Cruz e Belém de Brejo do Cruz. Na terra de Zé Ramalho, ele decidiu retornar, me encarregando das vendas em Belém, onde uma dupla de anões comprava por toda cidade. Ainda determinou ir até Patu, solo potiguar que não conhecia.

    O retorno seria pela terra de João Agripino, onde embarcaria no ônibus da Viação Patoense e chegaria a Patos. Sem conseguir transporte, foi impossível esse percurso. Conhecedor da circulação de trem entre Mossoró e Sousa, fiz a opção da viagem ferroviária.

    Dormi na futura Terra dos Dinossauros, na casa de dona Rosa, que funcionava como hotel. No dia seguinte, logo cedo da manhã, uma locomotiva me devolveu aos braços de minha mãe, que me recebeu com os olhos túmidos e ainda úmidos de tanto choro.

    Numa viagem a Alexandria, também acompanhado de Afonso, um cliente nos chamou para dormir no aconchego de sua humilde casa. Convite aceito, reparamos as energias depois de um profundo sono em redes armadas na sala. Não é que me acordei, corado de vergonha, com o fundo da rede ensopado, efeito de uma rara e repentina incontinência urinária.

    Sousa foi uma praça de boas vendas, mas com o tempo foram decaindo, decaindo até ao ponto de papai desistir. Lembro do intenso movimento de trens e pessoas na sua estação ferroviária, entroncamento, baldeação e destino dos vagões vindos de Recife, Mossoró e cidades do Ceará.

    - Seu Zé, o almoço desse menino tenho que cobrar mais caro, pois ele come demais, avisou dona Rosa, que nos acolhia tão bem – na mesma mesa da família comungávamos a nossa refeição -, apontando para o mano Afonso, que após os 40 sentiu a necessidade de afinar o corpo com uma indispensável bariátrica.

    De Catolé do Rocha, a recordação é das sessões de cinema, com ênfase as de filmes pornôs, depois de driblar a fiscalização com a cumplicidade da portaria. Também frequentei bastante a loja de discos que Chico César veio a trabalhar, lógico que tempos depois que deixei a atividade ambulante.

    Outra grande aventura foi no então distrito de Marizópolis, lugar onde se vendia apenas uma vez no mês. Escalado para negociar em Sousa, viajei no ônibus da empresa Andorinha que passava em Patos por volta de 21h30. Não é que adormeci e vim me acordar na hoje cidade, que não constava na rota traçada por papai.

    Tarde da noite e com pouco dinheiro, optei por “dormir” na calçada, às margens da rodovia que corta a cidade, colocando a dupla de caixas entre dois carros estacionados de frente para as casas. A poucos metros, numa escola, uma “festa de arromba” amenizou a minha apreensiva noitada.

    No outro dia, ao abrir as portas do Mercado Público do então distrito de Sousa, vendi alguma coisa e voltei para negociar o restante dos produtos na Cidade Sorriso.

    Nem que eu quisesse, conseguiria esquecer essa noite. A amiga Soraia César, natural de Marizópolis, sem querer, me faz lembrar essa imprevisibilidade, todo mês, nas reuniões das Equipes de Nossa Senhora.

  • LEGADO PATERNAL

    06/08/2021

    Ainda hoje recordo papai nos despertando do sono adolescente, aos primeiros raios solares, para os afazeres do dia. E como tinha o que fazer! “Acorda, acorda... Passarinho que não deve nada a ninguém já está no mundo”. Raramente citava o nome; só quando um dos maiores insistia na sonolência indomável ou fingia não ouvir o seu mote matinal.

    Primogênito de uma prole de 11filhos, costumava ser o primeiro a pular da cama, obediente como sempre fui. Os menores – Pudera, tinha até recém-nascido – eram poupados do levantar cedo do dia. Os mais velhos, depois da limpeza facial e do café da manhã, logo iniciavam a labuta diária.

    Os que tinham aulas pela manhã se arrumavam e rumavam para a escola; os que estudavam no período vespertino ficavam encarregados das obrigações de produção e embalagem de temperos na fábrica caseira. E até das vendas. Aos sábados e domingos e nas férias, principalmente, viajávamos por quase todo sertão vendendo a produção.

    Já deu para mensurar a rigidez e a disciplina de como fomos criados. Vale mais um exemplo. Menino de uns oito anos, fui encarregado de levar um cozinhado de macaxeira, colhida no roçado que papai manteve por um tempo nas terras do meu avô, no bairro do Cruzeiro, e que ofertara a um amigo.

    Sentindo o peso da “carga”, dirigi-me à casa do beneficiado. Na sua ausência, entreguei o presente à mulher, que me gratificou com uma nota. Ao voltar, caí na besteira de dizer a papai da gratificação. “Não mandei você receber dinheiro de ninguém. Volte lá e devolva”, reagiu. Morto de vergonha, devolvi a recompensa. “Não era para você ter dito a ele”, lamentou a jovem senhora.

    Mesmo na necessidade de colocar os filhos no trabalho, José Lopes de Almeida (Zé Patrício) não esqueceu dos estudos de nenhum deles, com o empenho decisivo de nossa mãe. Ele não deixou riqueza, mas nos legou valores morais baseados no trabalho, na honestidade e na responsabilidade.

    Esse legado busquei repassar para os meus três descendentes, com a vantagem de poder dar-lhes condições da dedicação estudantil exclusiva. Com as facilidades de hoje, todos chegaram à conclusão de um curso superior, um deles recentemente.

    Acredito que todo pai gostaria de ser melhor ou fazer mais pela sua descendência. Ainda resiste dentro de mim essa sensação. A consciência do dever cumprido me faz superar o sentimento ao vê-los na prática da honestidade, da responsabilidade e da dedicação ao trabalho. Ninguém bateu à minha porta cobrando uma conta de nenhum deles.

    Nas orações, sempre pedi bênçãos e proteção para os três; rogo que eles não se desviem do caminho de Deus e que nunca nos deem um desgosto moral. Não me canso desses pedidos ao Criador. Depois de crescidos, acrescentei a estabilidade nas orações. Suplico, portanto, que eles obtenham e mantenham a “estabilidade profissional, financeira e matrimonial”.

    INDELICADEZAS

    Na minha vida de comércio, presenciei diversas indelicadezas de filhos para com os pais. Mas nenhuma foi tão desrespeitosa quanto a que testemunhei, incrédulo, no meu açougue. Um adolescente mandou o seu genitor tomar naquele canto, após uma discussão na escolha de uma carne.

    “Esta é a primeira e última vez que você fala assim comigo”, reagiu o pai, com a firmeza que o momento exigia. Caindo em si, o garoto imediatamente lhe pediu desculpas. Nem mesmo essa retratação amenizou a vergonha do progenitor. Perdi o cliente de vários anos.

    MEDO

    Outro cliente, octogenário, um exigente que sabia exigir, bem falante, ficava mudo diante do filho, autoridade em Estado distante, quando vinham os dois à compra do churrasco, nas férias do descendente. Este, extremamente arrogante, de semblante grave e certa gravidade no falar, metia medo até nos balconistas.

    Nunca viu o filho sem camisa, após ele chegar à maioridade, confirmou uma irmã. Nem na praia, sequer em casa. É que sua austeridade não impediu que o jovem fizesse, às costas, uma enorme tatuagem.

  • O "efeito" do Viagra

    30/07/2021

    Certamente o meu encanto com a ancianidade lúcida, produtiva e carismática justifica a facilidade que tenho de fazer as pessoas da faixa etária de meus pais amigas. Severiano Correia Filho, o eletricista e encanador seu Dedé, é saldo dessa interação espontânea, que gera papos agradáveis e divertidos, como no nosso reencontro há pouco.

    Conheci seu Dedé logo após o meu noivado, numa de suas idas à casa da sogra para os consertos elétricos e hidráulicos. Gentileza sua! Mestre no seu ofício, vivia de grandes empreitadas, merecedor que era da confiança de engenheiros e construtores.

    Até então meu desconhecido, causou-me surpresa saber que conhecia meus ascendentes maternos, moradores próximos que foram na zona rural. Tinha uma amizade fraterna e boêmia com Joca Paulino e Jasi, tio e primo de minha mãe, com os quais costumava dividir as aventuras noturnas.

    Por várias vezes relembrou uma noitada que passou com tio Joca. “Passamos a noite no cabaré”, recorda, sem rodeios. Nem o cansaço foi empecilho para que se dirigissem, a pé, no dia seguinte, para os sítios onde moravam, cuja estrada principal era a de Catolé de Boa Vista, hoje a PB 038.

    Quando eles iam à altura da entrada do bairro Verdejante, vinha um carro, cujo motorista o reconheceu e parou para lhe oferecer a carona. Com uma condição: apenas ele. Mostrando companheirismo, agradeceu a gentiliza, sob o argumento de não deixar o amigo continuar a caminhada sozinho.

    O condutor do veículo, Belino Figueiredo, deu marcha e foi embora, mas com um quilometro parou, fez a curva e voltou. “Vou levar os dois”, arrependeu-se, deixando Joca na derradeira curva do Lucas, após a fazenda dos Mota; Dedé ficou no Estreito, à entrada do Boi Velho, sítio de sua residência.

    Depois que casei, também passei a me valer dos serviços de seu Dedé, tendo que encarar o incômodo de não cobrar os pequenos. Compensava-o, geralmente, ofertando-lhe uma boa cachaça e um tira-gosto tipo buchada de bode ou o “corredor de boi” para ele carregar a bateria

    Dedé trabalhou até a dupla de membros inferiores deixar, embora seu trabalho fosse mais de supervisão dos serviços e orientação à equipe que comandava. Acidentou-se numa das obras e desde então passou a conviver com as dificuldades de locomoção e verticalização.

    A inflexibilidade de um dos materiais com que trabalhava, o cano de PVC, foi a sequela adquirida do acidente, depois da perna enrijecida. Insistiu por vários anos no trabalho, tendo que se render às sentenças médicas cada vez mais incisivas.

    Nem o incômodo da deficiência sequelada tira a alegria de viver e o humor do amigo octogenário. Paradoxalmente, é motivo de brincadeiras e frases jocosas tanto de sua parte como da parte do seu largo círculo de amizade. Como a pegadinha improvisada por Walter, o Mangueira da Eletropolo.

    Contratado para fazer as instalações hidráulicas e elétricas de um dos prédios de Mangueira, Dedé estava atento à equipe na execução dos serviços, quando ele chegou acompanhado de uma mulher que viera conhecer o imóvel. O mestre foi convidado a participar.

    Os três saíram pelos corredores e cômodos da edificação, seu Dedé andando com as dificuldades imposta pela sequela, explicando os serviços executados, respondendo perguntas, etc. Numa pausa, foi surpreendido por um Mangueira alegre e brincalhão.

    - Olha, doutora, Dedé ficou com essa perna dura de tanto tomar Viagra, gracejou o contratante. No momento em que ficaram a sós, o mestre ainda teve que suportar a pergunta inconveniente da mulher. – Seu Dedé, aquilo que Mangueira falou é verdade mesmo?

  • OS OLHOS MIÚDOS DO NETO

    23/07/2021

    A velhice me encanta. Não aquela resultante de um processo patológico de senescência, mas a ancianidade lúcida, produtiva e carismática. Como não se encantar com Gonzaga Rodrigues escrevendo crônicas pra moça ler, aos 88 anos, e com Fernando Henrique Cardoso aos 90 lançando livro, publicando artigos e dando entrevistas lúcidas, pautando um Brasil melhor.

    Ainda hoje me lembro, encantado, mãe Sinhá, a minha avó materna que viveu 100 e sete meses com uma dignidade humana impressionante. Quanta lucidez, quanta vivência, quanto humor! E tanta jovialidade numa idade tão avançada.

    No mês do Dia dos Avós, 26, tomo a liberdade de relembrar neste espaço casos e situações vivenciadas e vividas por essa mulher que nos deixou há 11 anos. Vaidosa, não gostava de dizer a idade. Só vim ter certeza da sua quando festejou os 80 anos. “Tenho 35”, costumava responder ao ser indagada, abrindo um sorriso cativante.

    De raciocínio ágil, mãe Sinhá surpreendia com respostas incomuns à pessoa de sua idade. Como numa das inúmeras vezes que saímos no carro e eu, apressado, pedi que minha mãe abrisse a porta e descesse com ela.

    - Pegue mãe Sinhá, falei. - Vou nascer de novo, improvisou. Nisso, outra pessoa, na calçada, abriu a porta do carro. - Já tem outra parteira para me pegar, completou.

    Outra vez, fui levá-la na fisioterapia e quando ela entrou na sala de exercício, disse-lhe que teria que sair, mas voltaria em tempo. “Pra onde você vai?”, perguntou. “Vou buscar os ovos”, respondi. E ela, apontando pra minha área abaixo do ventre, retrucou: e não estão aí, não?

    Quando Sinhá estava com oitenta e poucos anos, marquei para 3h da tarde daquele dia para ir buscá-la em sua casa e levá-la ao médico. Um minuto antes cheguei, ultrapassei o portão, segurado pela falsidade do cadeado, e bati à porta.

    Pelo vidro avistei-a vindo no seu passinho miúdo. Girou a chave e a maçaneta, foi abrindo devagar e consultou o relógio. - Três horas. Cabra macho. Tem dois ovos em baixo, reagiu, diante da minha pontualidade britânica.

    No aniversário de 99 anos, um neto deu-lhe de presente um celular. Dias depois, numa manhã de sábado, em plena efervescência do movimento no meu comércio, o telefone toca e quem atende, me avisa: é Dona Sinhá.

    Diante da ocupação momentânea não pude correspondê-la e pedi que lhe dissesse que retornaria depois. ” Estou treinando”, justificou, quando informada da impossibilidade do atendimento e da pergunta o que desejava.

    Com 95, quando ela ainda arriscava uma vagarosa caminhada no Açude Velho, pude apresentá-la ao saudoso Jorge Hipólito, à época companheiro de atividades físicas, lembrando-lhe que ele fora goleiro de Treze e Campinense.

    Vi o negão meio embaraçado, diante de suas perguntas. Ora confirmava que jogou ou trabalhou num, ora noutro. Sem que ela se contentasse com suas respostas. Na verdade, Sinhá queria saber qual dos dois times ele torcia.

    Certo domingo, ao chegar à missa, avistei que ela já se encontrava num dos bancos, junto com minha mãe e uma nora. Ao terminar a celebração, vinha ela segurada pela mão de uma delas e quando me viu, soltou e se apegou à minha. “O braço de um homem é melhor”.

    Fui levá-la em casa, que ficava próxima à igreja, caminhando. Ao ultrapassar o portão, me contou, bem satisfeita, que tivera uma visita naquele final de tarde. “Que há tempo não vinha aqui”. Curioso, perguntei quem. “Martinho da Vila”, que cantara no Faustão, respondeu.

    Depois da morte de um genro, ela foi visitar a irmã dele, que, melancólica, começou a lamentar a perda de pessoas jovens. “Mas as pessoas boas morrem cedo, dona Sinhá”. “Já sei que eu sou muito ruim, Normélia”, retrucou, com seu humor característico, já aos 90 e poucos anos.

    Tinha um cuidado imenso para eu não dirigir depois de beber. “Deixa-me ver seus olhos”, pedia quando eu ia buscá-la para um passeio ou ir ao médico. É que achava que meus olhos ficavam miúdos quando eu bebia. Ainda hoje eles continuam miúdos. Mas de saudade.

  • MAIS SAÚDE, MENOS SAUDADE

    15/07/2021

    O mês iniciou com o descenso nos números de casos e mortes de Covid-19, após um junho de estatísticas assustadoras, engrossadas pela partida de dois primos, vítimas que foram do vírus impiedoso. Não deixa de ser um alento, embora venha o alerta dos especialistas de uma nova variante.

    Paralelamente, parece avançar o plano nacional de vacinação, ainda que os dados sejam baixos. Conforme o consórcio de veículos de imprensa, apenas 15,17% da população brasileira estão totalmente imunizados, até dia 14. Muito aquém do esperado!

    Por isso mesmo os cuidados preventivos devem ser mantidos e redobrados. Só quem foi contaminado pelo vírus ou perdeu parentes sabe do sofrimento e da dor. Sou testemunha do que está passando a família de teto de Janarque e Berg, primos vitimados pela doença.

    Tem sido intenso o sofrimento de minha tia Neném! Janarque, 47 anos, primo pelo lado materno, era a opção única masculina entre seus rebentos, completando o quinteto filial com quatro irmãs. Como sofrem essas mulheres!

    Berg, aparentado pela ramificação paterna, filho de minha tia Severina, que há anos está no patamar superior. Desloquei-me ao município de Livramento e vi a tristeza e a dor estampadas no rosto dos seus irmãos e filhos.

    Por mais de uma vez uma filha desmaiou, como a implorar: Pai, quero ir também. Os irmãos pareciam tranquilos, mas os olhos denunciavam todo sentimento pela perda de uma convivência de 53 anos.

    Sim, a maioria dos irmãos sempre morou junto. No mesmo teto, quando solteiros; no mesmo terreno depois de casados. Dividindo os trabalhos rurais, os problemas e as necessidades; rateando os parcos lucros da lavoura inconstante ou da pequena e dependente pecuária.

    Vamos redobrar os cuidados, repito. Máscaras, asseio constante das mãos e vacina, eis a receita. Não reneguem a ciência, pois os cientistas podem renegar Deus, mas Deus não renega a ciência. Nem ninguém. Para que tenhamos mais saúde, menos saudade.

    GOLS NELES

    A participação paraibana na última rodada do Certame Brasileiro foi generosa em marcação de gols. Nada menos que 16 foram assinalados pelas quatro equipes que disputam a competição, perfazendo uma média de quatro para cada uma. Que continuem assim.

    Pela série D, o Sousa surpreendeu ao condenar o Caucaia por 7 a 0. O Campinense tomou dois gols do Atlético cearense, mas reagiu marcando três comprovando que a melhor defesa é o ataque.

    O Treze não considerou essa máxima do futebol, levou dois do América-RN e, apesar do esforço, não conseguiu assinalar mais um.

    Na série C, o Botafogo entrou livre, leve e solto na zona fraca - digo defensiva - do Manaus e deslanchou, construindo uma inesperada vitória de 4 a 1.

    O BRUTO

    Lopito continua inspirado na academia. A professora não viu que ele fizera uma atividade no polete, justamente o exercício do coice. “Falta o coice”, cobrou, depois de examinar seu programa de treinamento. “Já fiz. Os brutos aprendem logo a dar coices”, brincou.


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