Colunista Valberto José

Jornalista, formado pela Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Iniciou como colunista na Gazeta do Sertão e trabalhou no Diário da Borborema e Jornal da Paraíba, colaborou na versão impressa d`A PALAVRA.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXV) - A dose da discórdia

    08/04/2021

    A vacinação anticovid-19 que tanto tem acirrado o meio político na crescente avalanche da pandemia, também é motivo de discórdia no seio familiar. Casal amigo, com prole hoje exagerada de quatro filhos e ex-cliente, viveu momentos tensos com a mulher querendo tomar a primeira dose na surdina, mas sob a ameaça da exposição de foto ou de vídeo da ação defensiva nas redes sociais. Tudo causa de sua insistência em esconder a idade.

    O sacana do marido não se conteve e teve o atrevimento de me contar tudo. Logo na véspera, confirmado o agendamento de quem tem 64 anos, o primeiro round, quando um dos rebentos falou que iria postar no grupo da família. “Você não vai fazer uma coisa dessa”, disse. Diante da insistência, irritou-se ainda mais. “Não tem que dizer minha idade a ninguém. Respeite minha vontade”, apelou, já no timbre desconcertante de quem não contém a irritação.

    Até os “filhotes” que moram fora aqueceram o ambiente, solicitando aos manos as imagens. Quando soube desses pedidos, ligou imediatamente para eles, proibindo qualquer tentativa de socializar o ato nas redes. “Mas mamãe, a senhora com um corpo desse era para ter orgulho e não ter vergonha de dizer sua idade”, teria ponderado um dos distantes. “Nem pensar nessa possibilidade”, cortou logo, já querendo alterar a voz.

    No outro dia, para a ação de locomover-se ao local da vacinação “drive-thru”, tomou as providências no sentido de evitar dissabores em caso de encontrar algum conhecido, quem sabe da equipe de aplicação. Mudou o formato do cabelo, escolheu a máscara de maior amplidão e não esqueceu dos óculos escuros.

    Queria ir sozinha. Impossível, mesmo os dois filhos que continuam em casa tendo compromissos profissionais. O marido, com intenções paradoxais, fez questão da gentileza da companhia. Mas, prevenida, captou o momento de o marido ligar o carro, no andamento da fila, discretamente pegou o seu celular e o escondeu debaixo do banco do passageiro.

    Nem assim evitou contratempo na hora de receber a dose preventiva. Quando a delicada moça perguntou se os dois seriam vacinados, o marido tomou a dianteira. “É ela, o novo aqui sou eu”. Quase que a jovem se assustou com o semblante da mulher, na sua reação agastada. Ainda bem que na agilidade que lhe é peculiar em situações adversas, recobrou o sorriso e disse um “é brincadeira dele”.

    Amigo do casal há muitos anos, concordo com os filhos de que ela deveria confessar a idade. Com certeza, no mínimo ouviria frases tipo “você é muito conservada”, você não aparenta a idade que tem”. O marido costuma ouvir “tua mulher é muito nova”. Praticante dos exercícios das academias, além de malhar o corpo, conserva os cabelos impecavelmente pintados.

    Fiquei preocupado com o amigo, pois estou certo de que se ela souber da nossa conversa, vai passar um mês de jejum.

    PARABÉNS, MINHA MÃE!

    Ah, meus irmãos, como foi bom experimentar, primeiro, a maternidade dessa mulher! Foi tão bom que não sei nem como dizer a vocês. Também é bom podermos ter a oportunidade de retribuir com o mínimo o máximo que ela nos dedicou. E ainda dedica. Obrigado, meu Deus!

    Mensagem que postei no grupo da família, no Whatzapp, dia sete último, quando minha mãe, Cleonice, completou 81 anos. Eu, que sou o primogênito de uma prole de 13 filhos, dos quais 11 foram criados e 10 continuam vivos. Festejou a data oito dias após tomar a segunda dose da vacina.

    BAFAFÁ NA CÂMARA

    O paraibano Pedro Cunha Lima (PSBD) anunciou que vai se licenciar do mandato parlamentar na Câmara Federal a partir desta sexta-feira (09) por 121 dias para tratar de assuntos pessoais. Quem assume sua vaga é o suplente Rafael Pereira Sousa, mais conhecido como Rafafá, que chegará na Capital da República ostentando a inédita condição de primeiro deputado federal gay do Nordeste. Espera-se que o bafafá não seja tão grande.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXIV) - "Quando o leite azeda"

    01/04/2021

    Fora do comércio há dois anos, vivo o paradoxo de observar com a retina de cliente como se comportam os profissionais da área e de antenas ligadas a ouvir o que eles falam na prática do atendimento em tempo duro de pandemia. Até sem querer, sou tentado a fazer um comparativo com a minha atuação quando estava em atividade. Confesso que tenho testemunhado mais profissionalismo no esforço concentrado ou até mudo de “´posso ajudar”.

    Nesse tempo, em apenas duas oportunidades cheguei a me decepcionar nessa nova rotina de só comprar. Curiosamente, decepções ocorridas em padarias distintas, em que pese nossa casa só consumir pão uma ou, no máximo, duas vezes por semana. As situações dilacerantes sucederam ao comprar o leite, na tentativa de não o adquirir vencido ou que não venha a cortar mesmo na validade oficializada, decerto traumatizado pelas vezes acontecidas.

    Perto de nossa casa, um pequeno ponto de venda de produtos de panificação foi reaberto há uns seis meses. De proporções diminutas, não comporta a fabricação de qualquer tipo do derivado do trigo, motivando o fornecimento por outra padaria mais estruturada. Mas é bem sortido. No início, testei o pão e me pareceu familiar. Gostando, perguntei de onde vinha e tive a constatação ser de origem já conhecida, pois comprara lá um certo período.

    O danado foi o leite oferecido, que, embora da marca líder, começou a azedar nossa relação cliente/vendedor. Não que acontecesse qualquer rusga, mas é que por duas vezes comprei o produto vencido e só observei depois que cheguei em casa. Nas duas oportunidades, a troca aconteceu com a gentileza cativante da mulher do dono.

    Desde então, em função da falta de acesso ao saquinho do produto – exposto na parte interna do balcão, passei a fazer perguntas do tipo “e a validade, está em ordem? ou o vencimento é quando?” Certa noite, pedi o leite e, ao ver a balconista com o saco na mão, fiz a indagação. “É... eu vendo produto vencido”, ironizou o dono, cortando a resposta da funcionária.

    Até pensei que ele estivesse brincando, mas quando vi o semblante fechado e o olhar fulminante, tive medo. Ponderei que em duas oportunidades levara, de lá, o leite vencido e que é um direito do cliente saber a validade. “Quando acontecer estar vencido, você me reclame”, gritou. No momento, ele se ocupava (ou se preocupava?) apenas com o caixa. Entendi ser isso o motivo da reação arrogante e pedi desculpas pelo aborrecimento causado. Nunca mais voltei lá.

    POEMA DAS LÁGRIMAS

    O amigo Jurandy França fez um poema sobre lágrima, a pedido de sua musa Leonora, e me enviou, via zapp.

    “São escoamento de dores, alegrias, saudades ou qualquer outro sentimento.

    São alívios em forma de suspiros que se desgrudam dos olhos, se lançam face abaixo e caem aos nossos pés, regando vitórias, perdas ou derrotas.

    Elas são sublimes! Perdem apenas para o ato de respirar ao surgimento do existir... Após a primeira respiração fora do útero materno, vem o choro regado por lágrimas... não sei se é de alegria por ver a luz ou de tristeza e medo, por deixar o conforto de um mundo puro, chamado mãe.

    Depois que eu li, confessei ao amigo que “Eu me alivio tanto quando verto lágrimas”. Sozinho, num canto que ninguém veja e ouvindo o Ato Penitencial Eu Confesso a Deus e a Vós Irmãos, de autoria de André Zamur. Como me restitui a paz e a serenidade!

    DEFINIÇÃO DE MÚSICA

    Padre Carlos foi nosso professor de Música, nas 5ª e 6ª séries do Vera Cruz, em Patos, na década de 70. Velhinho, mas com uma vitalidade impressionante, ficou famosa sua definição de música, lembrada até hoje pela maioria dos colegas, acredito. “Música é a arte de expressar o sentimento da alma por meio do som”.

    RECORDAÇÃO EM VERSOS

    Pedi ao colega cordelista Marcos Dias Novo, que também é músico, para recordar em versos os ensinamentos do querido padre, versos que seguem.

    Não esqueço meu velho professor/O reverendo e amigo padre Carlos./No coração está tudo bem guardado/Seu jeito simples e o que ele ensinou./As melodias que a gente entoou/E ele dizia expressem que é muito bom/Os sentimentos da alma pelo som./Fazendo assim vocês fazem bela arte/Mas cantem sempre com simplicidade/Quem faz assim desenvolve esse dom.

  • PROSA DE FREGUESIA - Sob o efeito da ebriedade (XXIII)

    25/03/2021

    O inseparável aparelho de mobilidade vocal foi o meio usado por Felipe, nessa pandemia, para comentar as ações do mano Felício, sob o efeito da ebriedade, após ler a última coluna. Achando pouco, aproveitou para recordar outros causos, mas queixando-se de que fora acusado pelo Rei do Meretrício de responsabilidade, em parte, por sua longa caminhada errante. “Logo eu, considerado exemplo da família”, lamentou.

    No tempo em que a Loteria Esportiva predominava e o número de ganhadores só era conhecido na noite de segunda-feira, Felipe e Felício descansavam nas redes da casa paterna, ouvindo rádio, enquanto o sono não os anestesiava, quando saiu o resultado da hoje Loteca. Apenas um acertador fisgou o valor resultante dos 13 pontos. “Se eu ganhasse um prêmio desses, mulher ia limpar o danado com nota de 100 contos”, disse Felício.

    Sem tempo de me recompor da gargalhada, Felipe recordou outra presepada do irmão, quando ambos, muito jovens, trabalhavam no mesmo local e lá dormiam. Estudante na Liberdade, Felício conseguiu arrastar, mesmo na sobriedade etílica após as aulas, uma garota até Monte Castelo, bairro da laboração de ambos, e já encontrou Felipe na quietude do adormecimento.

    Imerso na profundidade do sono restaurador, Felipe só despertou com a conversa baixinha dos amantes, terminada a diversão. “Acordei com a conversa dos dois e gritei: flaguei. A mina correu pra minha rede”, rememorou, mas garante que rejeitou a oferta, quando se lembrou do “pão com banha”.

    Felipe também contou uma situação em que por pouco Felício não foi vítima. Numa casa de prostituição que funcionava no primeiro andar no centro da cidade, surgiu uma confusão entre ele e outro. Sanados os ânimos, o oponente desceu e ficou na calçada, na agitação de sua ansiedade, quando o alegre porteiro desceu e o encontrou ainda com resquícios de exaltação, esperando para dar cabo do desafeto. “Não faça isso que ele é sobrinho de teu amigo fulano”.

    Após rememorar essas ações do mano, Felipe queixou-se de que certa ocasião Felício evocou, após tomarem “umas e outras” numa comemoração familiar, que fora ele quem o levou para desarnar, na ansiedade de sua adolescência, numa das casas do ramo, no bairro de Bodocongó. “Mas isso foi no tempo de minha juventude. Mesmo quieto, também vivi meus momentos...”, confessou. E não mais se falou de ebriedade nem de libertinagem

    É SÓ ALEGRIA

    Sou fã de Ton Oliveira, acho seu timbre de voz bem próximo de Lindu, o saudoso Gogó de Ouro do Trio Nordestino das antigas, e o acompanhava na apresentação de Cantos e Contos da TV Correio, nas manhãs de domingo. Depois foi substituído por Cléber Oliveira e eu fiquei a me perguntar por Ton. Até descobrir que ele estreara o É Só Alegria, às 10h, na TV Borborema. Desde então, mantenho assiduidade ao programa, também ao filho de Joacir.

    É SÓ ESCURO

    Domingo último, o programa foi excelente, com os Três do Nordeste. Não entendo, não tenho especialidade no assunto, mas vejo algo estranho. Por mais que as estrelas brilhem, há um escuro que empana o brilho das estrelas do programa. Acho que falta mais iluminação ou então é o excesso de cores escuras no ambiente. Em qualquer ângulo que a câmara foca, aparecem as sombras do apresentador, dos artistas e dos músicos no piso, nas paredes e até na face, quando de chapéu. Forró é bom no escuro. Mas no sítio.

    INSPIRAÇÃO

    A nossa irmã da Equipe de Nossa Senhora, Soraia César, parabenizou Margarida, minha mulher que aniversariou no dia 23 último, com a seguinte mensagem: Que seu dia seja alegre e LEVE, igual a você. Logo me veio a inspiração para falar da leveza dessa flor que me perfuma há mais de 30 anos.

    TUA LEVEZA

    Ah, “A Insustentável/Leveza do Ser” .../Que me leva,/Que me traz./Que me rejeita, /Que me atrai./Que me aceita/Que me ajeita, /Que me satisfaz./Que me confia;/Que não desconfia/Que a vida é leve,/Que a vida é curta,/Que pode ser longa./Que longa-metragem! /Que conta a história, /Que grande voragem! /Que não nos destrói, /Que só nos constrói. /Que grande vantagem! /Que bênção do Pai!

  • PROSA DE FREGUESIA - O ébrio e o poeta (XXII)

    19/03/2021

    Quando o pai resolveu registrar de Felício o caçula da prole, decerto não imaginava que o insólito nome rimaria com a maior sensação de prazer do filho, já a partir da adolescência. Até se culpa dessa profecia diabólica. Além dos bares da vida, Felício tem nos locais de prostituição sua grande fonte de divertimento, a ponto de, controlado que é, ter crédito junto à maioria das mulheres das casas que semanalmente visita.

    Por nunca ter casado, Felício se constitui em exemplo de coerência. A mãe lamenta essa solteirice opcional; queria uma mulher cuidando do filho, com o zelo que lhe destinou desde o nascer. Ele é coerente ainda quando reserva parte do salário para as despesas da casa materna, da qual nunca saiu. Sob o efeito da ebriedade, costumava vir ao nosso açougue adquirir a gorda mistura dominical até quando estivemos em atividade.

    A responsabilidade é outra virtude admirável na personalidade do rei. Há 30 anos labuta na mesma fábrica de calçados, beneficiado por certo pela máxima de que “sapateiro não trabalha na segunda”. Não bebe nos dias ou horas de expediente e sempre está disposto a umas horas extras, que é “para ajudar nas minhas farras”.

    Ainda na infância Felício demonstrou tendências alcoólicas. O pai contratara um amigo pedreiro para uma pequena reforma na casa. O profissional gostava de tomar a dose do almoço e pediu para um dos presentes ir à quitanda mais próxima. Logo, Felício se ofereceu para o serviço, levando o copo. “Parece que beberam um pouquinho, essa veio pequena”, desconfiou. “Bebi pouquinho, mas bebi”, confessou Felício, em conversas à parte com os irmãos.

    Nos bares que frequenta, Felício conserva a amizade dos proprietários e funcionários, em função da plausibilidade de sua perturbação etílica, embora lhe aflore, após ingerir algumas geladas, o costume excessivo de cumprimentar a todos apertando a mão. Ao sair, sai falando com conhecidos ou não, sempre com a mão aberta para a saudação ébria. Foi numa dessas andanças etílicas que Felício me surpreendeu, na longa avenida que dá acesso à sua casa.

    Numa confraternização natalícia familiar, fomos paralisados pelo som nas alturas e passante de uma carreata, motivando a que todos se dirigissem ao portão ou se aglomerassem na calçada. De longe avistei Felício já vindo em nossa direção, os olhos apertados, contrastando com o sorriso largo, denunciando que bebera.

    Após o característico aperto de mãos, ficou conversando comigo, mas sempre observando a movimentação política, atento a quem ia nos carros, correspondentes aos acenos de candidatos e apoiadores. De repente, com o sorriso cativante de sempre, Ronaldo Cunha Lima acena para o nosso lado.

    Calmo e extremamente discreto na sobriedade do dia a dia, Felício não se conteve aos acenos do líder. Avançou em direção ao carro, buscando a mão do poeta, o carro andando devagar, ele acompanhando, sempre buscando a mão do poeta, numa tentativa andante de uns 30m. Até o veículo parar e o aperto de três mãos acontecer. Ao voltar, perguntei-lhe o que Ronaldo falou. “Ébrio amigo...”, respondeu o Rei do Meretrício.

    DOENDO LONGE

    A goleada de 7 a 1 imposta pelo Bahia ao Campinense doeu bem longe daqui. Uma tia minha e o amigo Jurandy França, que residem em São Paulo há décadas, lamentaram a vergonhosa derrota. “Essa doeu”, queixou-se Rita, a tia-irmã. O time não honrou seus torcedores, a exemplo do meu irmão Patrício, que, quando operado do coração (há 15 anos), ainda internado, pediu ao médico a liberação para ir um jogo. Claro que não foi atendido.

    AINDA O MUSEU

    O coordenador de Turismo de Campina Grande, Miguel Ângelo, que é casado com uma sobrinha minha, confirma que a Secretaria de Cultura do Município está em negociação para adquirir o acervo do Museu Luiz Gonzaga, que funcionava no bairro do Cruzeiro e cujo prédio teria sido vendido. Torçamos pela nobreza de um acordo entre José Nobre e a secretária Giseli Sampaio. Há esperança, pois o homem não é Alencar.

  • PROSA DE FREGUESIA - Notícia trágica(XXI)

    11/03/2021

    No primeiro dia de Aparecida na casa de Severina Pereira ninguém acreditou no seu trabalho, menos ainda que viesse a dar conta da cozinha e da limpeza geral. Magra ao extremo, o rosto fino realçado pelo cabelo alongado até os ombros e os olhos fundos a denunciar algum excesso, enganou a todos na extremidade de sua disposição diligente. Até os agregados, feito eu. A satisfação unânime com sua lida já refletia nos semblantes daquele lar, em menos de um mês.

    O certo mesmo, passados quase 40 anos, é que Aparecida foi a melhor doméstica que apareceu na casa de Severina Pereira, nesse longo tempo do meu acolhimento necessário imposto pelo comércio da família, posso testemunhar. Daí, a justificativa para tantas saídas e voltas, certamente resultantes das denúncias de seus olhos fundos, cujas olheiras os aprofundavam ainda mais.

    E o que denunciavam os olhos fundos de Aparecida? Foi um mistério logo desvendado pela dupla patronal. Em que pese a emaciação perceptível, Aparecida vivia de farras e aventuras amorosas constantes. Mas no trabalho, além da disposição demonstrada nos primeiros dias, mantinha uma discrição que impunha o respeito dos funcionários e clientes do setor comercial da casa. Nunca deu bolas pra ninguém.

    Várias foram as vezes, portanto, que Aparecida trabalhou na casa de Severina. Na última, a moça farrista teria ido embora de Campina Grande, pois ficamos sem saber notícias. Até o dia em que disseram a Severina que Aparecida morrera assassinada na zona de meretrícios de Itabaiana. O sentimento de tristeza dominou a todos e a patroa logo providenciou uma missa pela sua alma, rezada na igreja mais próxima.

    Passado pouco mais de um ano, na solidão comercial das 2h da tarde, Severina se aproxima da porta anexa do estabelecimento, após transpor o portão principal da casa. Olhos arregalados, a face mais avermelhada do que é, um pouco ofegante, e me chama. “Veja quem apareceu agora aqui”, disse. Aí, sorrindo da notícia trágica, os mesmos olhos fundos e as olheiras mais acentuadas, Aparecida chega à porta. Logo foi falando, como querendo testemunhar que não é assombração.

    O PASTOR E A MASSA

    O amigo Marcos Dias Novo, colega dos tempos colegiais em Patos, costuma ir a uma padaria em Esperança, cidade em que reside e pastoreia seu rebanho batista. Afora o pão, saboreia umas bolachas em formato de coração, fabricação exclusiva da casa. Esta semana, ao chegar no finalzinho da tarde, não encontrou o produto na prateleira de sempre e perguntou à moça do balcão onde ele estava. Certeza, não eram as bolachas do deputado.

    INSPIRAÇAO POÉTICA

    Ocupada com outro cliente, a balconista pediu à colega, em atendimento no meio do salão, servindo sopa, que lhe mostrasse o novo local da bolacha, pecando pela omissão do nome do produto. “Ô fulana, mostra pra ele o coração...”. A moca sorriu, franziu a testa e, descontraindo ainda mais o momento, indagou: como posso fazer isso? Todos sorriram. Marcos, multifacetado, como poeta cordelista aproveitou o mote involuntário e escreveu as três estrofes que seguem.

    BOLACHAS OU CORAÇAO

    Eu fui lá na padaria/Lá não fui pra buscar pão/Na forma de coração/Eram as bolachas que eu queria/De outra não pretendia/Mas a moça do balcão/Com gentil educação/Disse à colega da frente/Mostre aí para o cliente/Onde fica o coração.

    E a moça desconsertada/Olhou pra outra e sorriu/Dizendo pra quem pediu/Agora estou enrolada/Pra resolver a parada/Aqui nesta ocasião/Sem clima de emoção/Ou uma música tocada/Vai parecer uma cantada/Eu mostrar meu coração.

    Foi só um mal-entendido/Sorrindo se resolveu/Todo mundo se envolveu/No clima ali expandido/Mas ficou esclarecido/No bom senso e na razão/Qual era sua missão/E assim mais que ligeira/Me mostrou na prateleira/Bolachas de coração.

  • PROSA DE FREGUESIA - O que vem do céu (XX)

    04/03/2021

    Até mesmo Lopito demorou a entender o motivo de ganhar esse apelido na infância, colocado pelo amigo do pai, e pelo qual é conhecido até hoje, já vivendo a terceirização da idade. Só muitos anos depois, na plenitude de nossa vida adulta, apontei ao companheiro de “tantas jornadas” a causa mais aparente para o inusitado cognome. “Esse Lopito só pode vir de Lopes, da família do teu pai”, sugeri. “Que tem a significação de lobo. Então, tu és um lobinho”, curti.

    O apelido de Lopito foi uma inspiração de Jano, certamente querendo homenagear o seu cúmplice de farras na solteirice distante. Recentemente descobri que Lopito é um poeta, professor e crítico literário angolano, cujo nome de batismo é João André da Silva Feijó. “Mas eu sou `poeteiro´ e dos bons”, reagiu ao ser informado da existência desse vate.

    Além da amizade duradoura, Lopito me proporcionou o prazer de uma parceria comercial até quando estive em atividade. Nesses dois anos de ócio, raramente o encontro, mas nessa pandemia sempre me liga para falar de suas reações em determinado momento, como da vez que reclamou da senhora que lhe vendeu uma maçã estragada. Diante da queixa do cliente, insistiu não ser culpada. “Já sei. A senhora não estava dentro dela”, ironizou, rindo.

    Uma das aptidões de Lopito, revelada na clausura domiciliar imposta pela Covid19, é fazer suco, qualquer que seja a fruta, com água ou com leite. Todos em casa gostam. “E o suco do pai? cobra o filho, quando quer se refrescar no lanche da tarde. “O suco do pai, meu filho, é melhor do que o soco do pai”, brincou, certa vez, após o pedido filial pela produção caseira de sucos.

    Lopito também conserva uma amizade com Anjinho tipo “carne e unha”, embora não concorde com as excessivas aventuras amorosas do amigo e por isso vive a censurá-lo. Em conversa descontraída com uma parente próxima de Anjinho, estimulou, simulando um julgamento prévio e mundano. “E anjinho vai pro céu ou não?”. “Aquele, parece que não”, concordou a moça, depois de esboçar um sorriso gentil.

    A filha de Lopito tem um nariz tão apurado, que ele chega a desconfiar ser portadora do distúrbio da hiperosmia. Seu poder de percepção aos odores desagradáveis impressiona, visto ser capaz de sentir mal cheiro até em perfume francês. Em casa, costuma pressentir o azedume do leite. Pode apostar: quando colocado para ferver, mesmo na validade, o líquido corta.

    Recentemente, ficou zangada em função da mãe ter esquecido suas roupas estendidas no varal e expostas às chuvas intermitentes da noite. “Vai ficar fedendo”, previu. No outro dia, após chegar do trabalho, encontrou as roupas na sua cama, limpas e cheirosas. “Elas não estão fedendo, não”, reconheceu. “Claro, minha filha. O que vem do céu não fede. Também quem chega lá”, advertiu o genitor.

    EDIL DA MUDANÇA

    O meu amigo Jurandy França, paraibano que não esquece a terrinha e todo ano vem curtir as férias na sua Arara, foi incentivado a conhecer o vereador da mudança. Apresentado ao edil, chegou a elogiá-lo pensando ser ele o cara disposto a mudar os costumes políticos locais. “Na minha campanha, não comprei voto, não dei dinheiro a ninguém. Meu projeto é mudança. Tenho um caminhãozinho e fiz mais de 150 mudanças”, confirmou. Aí fez mudança na cabeça pensante de Jurandy.

    MUSEU DO FORRÓ

    O padre Hachid, mesmo exercendo o sacerdócio a quase 130Km, não perde oportunidade de incentivar o desenvolvimento de Campina Grande. Em conversa descontraída, via WhatsApp, com o novo coordenador de Turismo, Miguel Ângelo, sugeriu a criação do Museu do Forró. Sugestão que eu endosso. Por falar em museu, qual a situação do Museu Luiz Gonzaga, cujo prédio, no bairro do Cruzeiro, teria sido vendido?

  • PROSA DE FREGUESIA - Confissões no balcão (XIX)

    25/02/2021

    A relação entre comerciantes, funcionários e clientes tende, sempre, a se transformar em amizade. Nessa conversão o nível de confiança se eleva a ponto de intimidades e segredos de alcova serem revelados, até sem querer, na espontaneidade das conversas ou consequências de rumos que esses diálogos tomam. Foi assim que me foi confessada a traição matrimonial daquela mulher sem quaisquer ares de suspeição.

    Nos meus tempos laborais na zona leste, um cozinheiro alegre costumava fazer as compras de carne para o restaurante em que trabalhava. Nos momentos de pouca ou nenhuma frequência, enquanto providenciavam seus pedidos, os colegas apimentavam a conversa, arrancando-lhe revelações, como a debutaçao de sua entrega. “Perdi minha virgindade aos 15 anos, num rio, lá em Caicó. Ai, ai. Ainda me lembro”.

    Já na minha loja, depois de anos de bate-papos, a morena da área da saúde, de 1,80m, compleição robusta, revelou a surra que dera no marido ao descobrir, depois de anos de casados, uma traição. “Não aceitei. Fiz tudo com ele, que me ensinou tudo. Aprendi tudo. Fiquei cega...”, recordou. Ele foi parar no hospital. Claro, não o que ela trabalhava. Escapou, mas nunca mais voltou pra casa.

    Carrinhos de picolé e de pipocas, carroças, além de fiteiros pendurados ao corpo, entre outros, tumultuavam a portaria do Capitólio, no auge da frequência aos cinemas serranos, na minha infância feliz. Um deles, o da venda de “gelo raspado”, enfeitado de pinturas variadas e inscrições de frases tipo para-choque de caminhão, cativara minha atenção. “Mulher chifreira merece pimenta na beira”, essa, certamente pela rima, nunca esqueci.

    No processo de produção de carne de sol, o especialista abre, com um facão apropriado, a peça (coxão mole, por exemplo) ao meio, sem dividi-la. Depois de aberta, usa a faca mais amolada, e risca vários cortes rasos de um lado, de modo que não perfure o outro. Nessas incisões, coloca-se certa quantidade de sal, usando o dedo do meio (pai-de-todos) para infiltrar mais o sal. Na ação de salgar a carne, logo me vinha à mente a frase raivosa.

    Lúcia, morena conterrânea de Sivuca, foi nossa cliente até tomar outro destino. Tinha uma curiosidade imensa em saber do processo de produção da carne de sol. Prometi um dia preparar uma peça com essa finalidade. Bastante tempo depois, ela chega justamente quando começo a cortar uma manta de coxão mole. “Estás fazendo carne de sol? Eu quero ver”, cobrou.

    Terminado o procedimento de corte, pedi um ajudante para levar a peça à bancada da salga e convidei Lúcia para me acompanhar. Joguei o sal na manta, espalhando-o por toda parte. Na hora de usar o dedo do meio, lembrei da frase, e não resisti em contar-lhe a história. “Mulher chifreira merece pimenta na beira”, pronunciei, sem desconfiar o que cometera na vida. “Mereço não, seu Valberto. Faz tanto tempo que já estou perdoada”, revelou.

    IVAN LOPES

    Vi poucas vezes Ivan Lopes, pai da nossa também saudosa colega Karina Araújo e que nos deixou há uma semana, jogar. Apenas quando o Campinense tinha algum compromisso em Patos, cidade que residi por cinco anos a partir de 71, aos 12 anos. Mas o bastante para enxergar sua potencialidade como jogador, a exemplo da maioria do elenco daquele “time de Zé Pinheiro”.

    UM GOLAÇO

    Ficou na minha memória o gol que ele marcou no Estádio José Cavalcante, quando ainda jogava de lateral-esquerdo, antes de formar dupla de área com Deca. Pense num golaço! Dominando a bola junto à linha lateral e bem próximo da linha de meio de campo, viu-se acossado sem ter para quem passar a bola, olhou para o goleiro e de pé esquerdo cruzou voltando, formando um curto arco-íris incolor. Foi no ângulo. Pena que foi gol contra.

    ENTREVISTA

    Vale a pena ver de novo (quem não viu, ver) a entrevista concedida por Ivan Lopes a Paulo Roberto, no programa Ponto a Ponto, da TV Itararé, há dois anos. Deve estar no Blog Camisa 10. Um pouco da história do futebol de Campina Grande da primeira metade dos anos 70. Não lembrava que Ivan jogou no timaço do Tiradentes de Teresina de 74 e 75. Lá, a repercussão de sua partida foi grande. Mereceu até nota de pesar da Federação de Futebol do Piaui.

  • PROSA DE FREGUESIA - Duas pandemias (XVIII)

    18/02/2021

    A sílaba inicial da palavra pandemia sugere coisas boas, gostosas, ritmos musicais e dançantes, e até competições esportivas; as três sílabas finais propõem exercícios físicos e incitam o saber. O pan lembra de panificação, o pão nosso de cada dia e as massas finas derivadas do trigo; também nos recorda o pandeiro que ritmiza o forró e atiça o gingado no samba, além do Pan-americano, a competição que une as américas. Demia nos lega às academias de ginásticas e de letras e às instituições de ensino superior.

    No entanto, na atualidade, quando pronunciada, provoca terror, sofrimento, dor, angústia, desemprego... até prisão domiciliar. Tudo causa da disseminação universal da covid 19. Também, em que pese os acenos contrários das lideranças, nos animam a valorizar a ciência e os profissionais da saúde, com os testes, os cuidados e a descoberta das vacinas.

    Aliás, a notícia do teste retal para detectar o vírus me fez lembrar uma saudosa cliente que viveu 100. Sempre que podia, mesmo com o avanço da idade, acompanhava o neto nas compras. Com 96 anos, teve que se submeter a uma colonoscopia. “Doutor, o caboclo sofreu”, disse ao médico, depois de recobrar os sentidos, passado o efeito da anestesia.

    Beto Diniz, comerciante do ramo de ferragem e material para marcenarias, foi cliente nosso até o fechamento do açougue. Bem casado, sempre chegava acompanhado da mulher e nos divertia bastante com suas histórias e saídas improvisadas. Após longo tempo, reencontrei Beto há uma semana, quando fui à sua loja adquirir umas bugigangas para consertar um móvel.

    Na nossa rápida conversa, comentou sobre a covid 19 e seus efeitos no comércio e na vida das famílias. Falou das dificuldades que tem enfrentado, a exemplo de todo comerciante, mas me surpreendeu mesmo quando disse que o Brasil vive um cenário de duas pandemias. Nem esperou eu perguntar qual seria a outra. “Uma do povo, outra do governo”, adiantou.

    ASSIS COSTA

    Nos depoimentos dos inúmeros amigos sobre Assis Costa, que nos deixou em plena segunda-feira de carnaval, os testemunhos de sua generosidade foram unânimes. Comigo mesmo, além de generoso, foi compreensível. Ao me valer da sua ainda insipiente, mas já vasta coleção de discos de vinil, quando trabalhávamos juntos no Diário da Borborema. Usou o sobrenome fazendo o bem. Não dava as costas pra ninguém

    ALTEMAR DUTRA

    Admirador de Altemar Dutra e conhecedor, através de um irmão que convivera com uma mulher também chamada Margarida, que umas de suas músicas se intitula desse nome, procurei o LP do cantor com essa canção por várias discotecas de Campina Grande e das cidades que visitei. Em vão. Então, falei com Assis Costa e pedi emprestado o disco de sua coleção para gravar numa fita cassete. Prontamente me acudiu.

    DISCO QUEBRADO

    O som de nossa casa -moderno para a época -, se a memória não me trai, era um 3 em 1 ou 4 X 1: disco, toca-fitas, rádio e gravador. A estante de nossa sala era alta e o som ficava colocado na parte superior, acima do compartimento reservado à televisão. Para ter acesso na colocação do disco, tinha que subir num banco. Aproveitei para gravar os dois lados, mas quando fui virar o LP, ele caiu no chão e foi caco pra todo lado.

    DISCO DEVOLVIDO

    Fiquei sem chão, achando que ele iria pensar que o acidente não aconteceu, sendo uma artimanha minha para ficar com o disco. Foi muito compreensível e, diante da minha garantia de adquirir o primeiro que encontrasse, ficou tranquilo. Acionei de imediato um vendedor de discos que levava as raridades pra ele. Com pouco mais de um mês, o “discotecário” ambulante chegou com o LP. Paguei na hora e na hora mesmo o entreguei para Assis Costa.

    FEIRA CENTRAL

    Ultimamente, os nossos encontros aconteceram na Feira Central, na frutaria de Zito Procópio, divertido comerciante do local. O último foi em outubro, antes de Zito deixar a feira após cerca de 60 anos. Lá, Assis ficava sentado num banquinho, ouvindo as graças do vendedor, soltando as suas, e fazendo seus pedidos. Deixa um pomar de saudades.

  • PROSA DE FREGUESIA - O cliente e o exame (XVII)

    11/02/2021

    As pernas tortas lembram as de Garrincha, mas nunca chutou uma bola. Não é que a redonda fosse produto raro no cariri de sua infância; a condição paterna é que propiciava a escassez permanente de tudo. Menos de trabalho infantil. Melhor ter sido assim, pois passou a utilizar as pernas de forma incansável nos forrós do tempo de sua juventude, depois de fincar os pés em solo campinense. Até o dia que disse sim àquela que hoje cuida das sequelas da doença que o limita na velhice.

    Nosso cliente por mais de 20 anos, foram raras as vezes que Totinha, sozinho, veio às compras. “Ela disse que queria 2Kg daquela carne que vocês sabem qual é”. Acompanhava a mulher todo sábado, mas não dava pitaco nenhum, embora ficasse observando tudo. Sequer uma palavra. Nem mesmo quando ela lhe pedia o dinheiro para pagar a conta. Nas conversas comigo, falava que “mulher não manda em mim” ou que “não faço o que ela quer”.

    As constantes vindas de Totinha ao nosso comércio estreitaram nossa relação. A ponto de, por vezes, vir apenas “jogar conversa fora”. Ficávamos na cozinha. Ele, tomando um cafezinho; eu, se fosse no horário, as minhas três doses. Bom de copo, nunca bebemos juntos, pois ele já tinha deixado a bebida bem antes da solidificação da nossa amizade.

    Quando perdeu o emprego de muitos anos, Totinha optou por trabalhar de servente de pedreiro, fichado até a aposentadoria. Na precisão, porém, mesmo de ócio remunerado, fazia um bico na construtora que por vários anos dedicou seu trabalho. “É o dinheiro da carne”. Justamente nesse bico, ele voltou a “melar o bico”, numa das tentativas de deixar de beber definitivamente, sob a pressão da mulher.

    No novo local de trabalho, uma barraca instalada supria as necessidades dos trabalhadores e o dono, já conhecedor da disposição etílica de Totinha, sempre lhe oferecia uma dose. Até o dia que não resistiu aos apelos. “Encha o copo”, ordenou. Copo tipo americano, que, cheio, secava de gole. “A primeira já desceu convidando a segunda”. Foi mais uma temporada de bebidas e crescente desassossego em casa.

    Com jeito de figurante de filmes de faroeste, Totinha fala pouco, mas quando abre a boca, é direto, curto e grosso. Como nas conversas que mantinha, quando da prestação de serviços, com o padre amigo e que sempre o chamava, antes da doença limitadora, para os serviços de capinagem no terreno da igreja. “O senhor é mais teimoso do que o porco duroc”.

    Na última bebedeira, perdeu o “documento”. Na calçada de casa, a mulher já avistara Totinha vindo, naquele “cai aqui, cai acolá”, tentando se aprumar nas pernas tortas. Ao entrar, rumou pelo beco, equilibrando-se não se sabe como, parou e ficou tateando para abrir a braguilha. “Cadê... cadê... cadê...”, balbuciava. “Cadê o quê? perguntou a mulher. “A bichinha, a bichinha”, respondeu.

    Certamente essa passagem e a pressão da mulher e dos filhos o fizeram abandonar o vício. “Enquanto você falar, eu continuo bebendo”, dizia, ante os apelos implorantes da mulher. Mas ele creditava essa abstinência à mãe. “No dia que minha mamãe disse que ou ela ou a bebida, eu deixei.” Durante os anos em que ficamos nesse bate-papo nunca se animou a tomar uma, parecendo se contentar com o cheiro da minha cachaça predileta. “É cheirosa, mas...”, balançava a cabeça de um lado para o outro, economizando as palavras.

    Certo dia, apresentei Totinha a um cunhado que mora em Santa Catarina e na ocasião nos visitava, e provoquei dizendo que ele faria o exame de próstata naquela semana. “Não tem quem obrigue eu fazer. Prefiro morrer”, cortou. “Aqui, só quem botou o dedo foi minha mãezinha. Até o dia que me entendi de gente e disse a ela que pode deixar que eu mesmo limpo”.

  • PROSA DE FREGUESIA - Subterrâneos de excessos (XVI)

    04/02/2021

    Em que pese as orientações superiores ou em curso e a necessidade constante de um bom atendimento, os excessos cometidos pelos profissionais do comércio acontecem, na sua grande maioria de forma involuntária. Quando a excessividade ocorre, as consequências são graves à empresa, sendo a mais comum a perda do cliente, também a de maior gravidade, por afetar diretamente o caixa. Excesso não se encaixa, eis o lema.

    Quando aquele pai colocou o filho num colégio tradicional da cidade, não imaginava o que viria a ouvir sobre ele, um menino muito inteligente, mas pouco interessado nos estudos e muito levado. “Seu filho está insuportável”, disse o coordenador em reunião a dois com sua mãe. O genitor, ao tomar conhecimento, voltou ao colégio e fez suas queixas ao diretor. Já com a transferência escolar na mão.

    Um vendedor de peixe, desse meio abusado, já não suportava mais ver aquela freguesa pegar os aquáticos e, de um em um, aspirar para evitar que comprasse um estragado. Certo dia, de propósito, ele deixou os peixes sob refrigeração, não expondo nenhum deles no balcão, como de costume. “Não tem peixe hoje, não?”, perguntou a mulher, surpresa logo ao chegar. “Tem não, dona. A senhora só quer peixe cheiroso e peixe não cheira como perfume”, justificou.

    Amigo meu de muitos anos e colega do ramo de carnes, há mais de três décadas resolveu tentar melhor sorte em Timon, no Maranhão. Lá, viveu fases boas e fases difíceis até se estabilizar. Muito carismático, sabe agradar o freguês como ninguém, principalmente com brincadeiras de improviso, mas tem seus momentos de exagero no trato com eles. “A senhora está boa de arrumar um macho”, disse a uma cliente conhecida por abusar da boa vontade dos balconistas.

    Em adiantado estado de gestação, a cliente resolveu pausar as compras e encarregou uma parente para buscar a mistura no açougue, ambas já conhecidas dos funcionários. “Ela hoje quer linguiça, pois, vocês sabem, está grávida e por isso de desejo”, destacou. “Ela está assim por causa de linguiça e ainda quer mais linguiça”, reagiu o balconista, caindo todos na gargalhada.

    Proprietário de pequeno açougue no bairro, na década de 80, sabia os horários de movimentos da loja, os de picos e não. Certo dia ele precisou de um açougueiro para tirar a folga de um dos seus, que viajara. Naquele tempo, antes da lei do desarmamento, ele só trabalhava com um revólver em baixo do balcão. Nunca o usou, a não ser em brincadeiras. Como naquele dia do substituto.

    Determinado horário da manhã, costumava ser vazio de clientes, pois poucos vinham ao estabelecimento. Ele, então, chamou o colaborador e se dirigiram lá pra trás, quando puxou o revólver e disparou três vezes. “Quando aqui está fraco, eu dou uns tiros pra chamar o freguês”, justificou para um assustado profissional. 0s clientes começaram a chegar, mesmo.

    Apolônio cometeu muitos excessos, que o fizeram, estamos certos, superar muitas adversidades. Mas também foi superado. Recém-casado, vendeu um terreno no interior e veio para Campina Grande, junto a com a mulher, investir no comércio. Comprou um ponto, botou uma bodega e começaram a trabalhar. Logo conquistaram uma gama de clientes, o negócio foi crescendo e se transformou em mercadinho.

    Já avançando na idade, Apolônio continuava namorador. Leninha, corpo cobiçado no bairro e famosa pelas aventuras, caiu nas suas graças e foi sua desgraça, após iniciado o romance. Logo de início, ela passou a ser integrante no seu caderno de fiado, após convencer a mulher. Como saiam uma vez por semana, toda semana ele riscava suas contas. “A bichinha é ‘pagadeirinha’, Zefinha”, dizia sempre à esposa. O romance acabou e ela nunca descobriu. Mas o mercadinho voltou a ser bodega.

  • PROSA DE FREGUESIA (XV) - Quando o para-choque encosta no balcão

    28/01/2021

    A filosofia de para-choque é ambulante, logicamente, mas Xico Sá, aquele da Folha, já nos alertava, em 2013, que ela “já era”, em função da escassez de frases nos caminhões deste país. Contudo, quem vive do comércio vez por outra pode beber dessa fonte, justo quando ela estaciona sem pretensão nenhuma no balcão de todos, pela perícia do condutor que de viva voz a propaga num improviso de cantador de viola. Para descontrair e contagiar o ambiente.

    Foi o que aconteceu quando duas mulheres voltavam de Uber da academia e nem o cansaço pelo esforço nos exercícios impediu que uma delas observasse o nome do motorista na língua inglesa e o indagou, na curiosidade do momento: teu nome é Felipe. “Não. É Phillips”, corrigiu. “Então, o passageiro te chama de televisão, rádio...”, brincou. “Conheço uma moça cujo nome é Sony. Dá certinho para casar com você”, apontou a outra. “Aí forma uma dupla sertaneja”.

    Certa vez, um caminhão de carga maneira, placas de Pernambuco, parou em frente ao nosso comércio. O gordo motorista desceu, aproximou-se do balcão e, observando que não tinha mulher no ambiente, fez o seu pedido, após desejar um bom dia a todos. “Tem carne de boi seca?”. “Tem seca, tem verde, tem madura, salgada e insooossa”, frisou o balconista, entendendo a malícia e climatizando o encontro.

    Cleodon, meu tio pelo lado materno, foi caminhoneiro até o dia que Deus o chamou. Era muito brincalhão, mas com uma presença de espírito que realçava suas brincadeiras. Certa vez ele vinha meio ligeiro no seu caminhão, porém no limite permitido de velocidade, quando deu de frente com uma viatura da PRF e pisou firme no pedal, freando com certo impacto, o que motivou a ironia do policial. “Tem freio, hem! “. “Graças a Deus”, agradeceu, desarmando o guarda.

    Quando eu casei, Don-Don, como eu o chamava, não pôde comparecer por causa das constantes viagens. Um ano depois, ele chegou no açougue do mano Cloves e ficou um tempo conversando comigo, perguntando sobre a minha nova vida. “Mas já perdesse o fogo?”, perguntou, de chofre, com um olhar fixo no meu. Fiquei sério, meio encabulado, pensando coisas, quando ele quebrou o gelo. “A gente perde o fogo no dia em que dá um pulinho fora...”.

    Orion, proprietário de uma carreta com cabina Scania tipo jacaré, foi nosso cliente até o fechamento da loja. Depois de alguma resistência, optou por transformar o seu bruto num caminhão truck. Ficou lindo! “Pode copiar”, aconselhou, na traseira da carroceria. Certo dia, ele veio às compras, depois de estacionar seu jacaré em frente. Único cliente naquele momento, ficamos num bate-papo agradável, versando mais sobre o seu “novo” carro.

    Galego, como é mais conhecido, deu detalhes da reforma no veículo e confirmou estar recebendo muitas ofertas de compra. “Todo mundo doido pelo meu jacaré. Agora não vendo mais”, avisou. Zozó, esperto funcionário, entrou na conversa. “Esse caminhão aí leva um fogão?”, ironizou. “Leva até a cozinheira”, apimentei. “Se a cozinheira vier sai comida”, improvisou Orion, num duplo sentido que lembra João Gonçalves e suas divertidas composições.

    SENTIMENTO FAMILIAR


    A covid-19 fez mais uma vítima, só que agora uma pessoa bem próxima de nossa família. Há uma semana, a dentista Maria José Arruda, cunhada do meu tio Cloves, não resistiu aos ataques implacáveis do coronavírus e voltou à casa do pai, diria como equipista que sou. Considerava Maria José o símbolo da união entre os Pereira e os Araújo da Silva, cuja proximidade é tamanha, que parece uma família só. Por isso os sentimentos no meu lado materno são grandes.

    SEM TESTEMUNHA


    Maria José, igualmente suas irmãs, era muito querida por nós, e atendeu por muito tempo em seu consultório residencial, na rua João Moura; durante um período deixou meu sorriso bem melhor. Minha mana Maria da Guia foi sua assistente até se casar e ir morar em São Paulo. Lamento duplamente: por ser uma pessoa considerada da família e não ter mais a testemunha de que dormi na cadeira do dentista.

  • PROSA DE FREGUESIA (XIV) - Subterrâneo de excessos

    21/01/2021

    Ao cliente, tudo; ao atendente, a cordialidade, o bom atendimento. Tudo e cordialidade são palavras que, grosso modo, apontam como deve ser a relação bilateral de compra e venda. Contudo, vez por outras, os excessos são registrados, pois, seres humanos, os profissionais do comércio estão sujeitos às falhas ou reações intempestivas causadas pelo estresse da labuta diária. Geralmente, essas reações não ficam barato.

    Nunca esqueci do colega que atendeu aquele médico, já fichado na turma pela chatice e arrogância. Ele colocou o pedaço de carne na balança de ponteiros de um lado e do outro (bem moderna, à época) e confirmou exatos 2kg. “Não tem dois quilos aí, não”, duvidou, depois de olhar fixamente no ponteiro do seu lado. “Mas nesse lado tem”, reagiu, prontamente, o balconista.

    Outro, na feira central, vendeu um bonito pedaço de acém desossado por coxão mole. A cliente, certamente a secretária da casa, veio devolver e, após receber o dinheiro de volta, ficou xingando o atendente. “Você me respeite”, bradou o profissional. “Quem quer respeito, respeita o freguês”, ensinou. “Ela tem razão mesmo”, reconheceu, ao girar o corpo para comentar comigo.

    Também no Mercado Central, outro companheiro vendeu uma carne moída. O homem a trouxe de volta numa diminuta caçarola, bem temperada e cheiro de abrir o apetite. No ponto para o consumo, mas queria a devolução ou troca, justificando que estava estragada. O vendedor, meu vizinho de banco, pediu-me para verificar e comprovei a sanidade do produto, o seu odor.

    Diante da insistência do freguês, o açougueiro também mostrou a outros colegas, que atestaram as boas condições, entre eles, Caboclo Agra. “A carne está boa, cheirosa, pode comer sem medo”, falou ao homem, que insistia na troca. “Também, você cheira a carne com a boca aberta”, encerrou. Ele retomou o vasilhame e, de cara fechada, tomou o rumo de casa.

    Também vivi uma situação parecida, só que reagi com rara sabedoria. A cliente havia comprado uma carne de sol. Cerca de uma hora depois, apareceu o marido, de frigideira na mão, exigindo a troca. A carne frita, bem cheirosa, convidando a tomar uma. “Minha mulher comprou essa carne, disse que está estragada e pediu para trocar”. Cheirei com mais intensidade e a troquei por outra; cancelei a mistura já tirada para o nosso almoço, economizei no gás e ainda tomei três.

    Um balconista do nosso ramo trabalhou uma temporada e foi posto pra rua pelo patrão, depois de cometer algumas besteiras. Justamente no sábado à noite, na casa patronal, foram acertar as contas, sem que convergissem para um acordo nos valores. “Eu só saio daqui quando o senhor me pagar esse tanto”, ameaçou. O patrão, conhecido pela veemência ao falar, abriu a gaveta do birô, puxou um 38 e gritou: da minha casa. A carreira foi tamanha que se o patrão tivesse atirado mesmo “a bala não o acertava”.

    Conhecido pela calma, cometi alguns excessos, mas em duas oportunidades não foi com cliente. Na feira, um velho pedinte saia de banco em banco exercendo sua mendicância e costumava usar, disfarçadamente, uma das mãos para subtrair algum produto. No início da tarde daquele sábado, ele apareceu, disse-lhe, com boas maneiras, que não lhe dava e ele foi embora. Quando ele saiu, meu irmão, que era conhecedor de seus costumes, confirmou que ele havia levado umas gramas e me aconselhou ir atrás. “Deixa isso pra lá”, falei.

    Só que meia hora depois o velho voltou e ficou olhando pra mim, com um riso debochado. Um fogo subiu nas minhas pernas e não me contive. “Velho safado, você me rouba e ainda vem gozar com minha cara”, falei, segurando sua longa barba com as mãos. Depois, soltei uma delas e acertei-lhe o queixo. De branca, a barba ficou vermelha. Só deu tempo eu me esconder debaixo do balcão para a polícia chegar.

    A outra vez que me excedi foi com um vendedor, que apareceu à nossa loja, oferecendo um produto que não era nossa especialidade. Era eu dizendo que não precisava, que não estava em condições de adquirir nada, mil e uma justificativas. Ele não se convencia e insistia tanto, tanto, numa insistência tão incisiva que já estava me sufocando, pois, sentindo o fôlego diminuir. Não aguentei mais e me vali de uma brincadeira comum: se você soubesse a minha situação, tirava as calças e me dava. Ele fechou a cara, deu meia-volta e foi embora.

    FERNANDO SOARES

    Antes, já tinham nos deixados, vítima da Covid-19, Karina Araújo e Gomes Silva, colegas no JP e no DB; agora, Fernando Soares, habilidoso presidente da ACI. Tive poucos contatos com Fernando, pois justamente quando ele começou a liderar a classe, eu já havia saído da imprensa e me tornado recluso da atividade comercial, daí não ter aprofundado a amizade. Coincidentemente, foi na sua administração que fui alijado da lista de sócios da entidade. Nem liguei, pois achei justo, justíssimo, já que não estava mais militando em nenhum órgão.

    “É TUDO VAIDADE”

    Nosso encontro marcante foi quando eu fui escalado para fazer uma matéria sobre o presidente da Associação Comercial da época, José Borges de Medeiros. Antes de terminar de redigir, chegou Fernando na redação para ver o que eu tinha escrito, certamente pelo fato de eu ter vindo do esporte. Com muita gentileza, pediu para ler o texto e sugeriu trocar algumas palavras sob a alegação de que “a gente lida com vaidades”. Repetiu isso várias vezes.

    SENTIMENTO

    Outro encontro inesquecível nosso foi quando fui receber o pagamento pela compra de uma carne de bode que foi servida numa confraternização de final de ano da ACI. Agradeceu pela confiança, o preço camarada e a qualidade do produto. Foi, sem dúvidas, uma grande perda, visto ser uma pessoa agregadora e por isso o sentimento da categoria foi imenso.

  • PROSA DE FREGUESIA (XIII) - O médico e a coruja

    14/01/2021

    Conheci o dr. Abdias quando ele passou a ser cliente do comércio do meu tio, nos anos finais da década de 70. Decano da medicina, ainda continuava clinicando e tinha como característica inata o humor no trato com os pacientes e amigos, fundamentado na sinceridade de sua fala e até numa árida incontinência verbal. O que vinha à boca, ele soltava não importando quem estivesse por perto.

    Naquela época, a cidade já experimentava a expansão do comércio farmacêutico, mas com uma característica diferente da atualidade, convergente às grandes redes. Quando se abria uma farmácia, portanto, era consequência de um investimento individual ou de pessoas que queriam diversificar suas atividades. Nos bairros campinenses registrava-se a maior proliferação de novos estabelecimentos do ramo.

    Assim surgiu, em 79, uma farmácia para concorrer com a do popularíssimo Everaldo Agra, até então única na vocacionada comercialmente rua Campos Sales. A loja cheia de clientes esperando atendimento, dr. Abdias desceu do carro, caminhou na lentidão de seu passo e, sem o bom dia de chegada, soltou uma das deles, ao ver que abrira outra drogaria. “Campina Grande tem mais farmácia do que rapariga”.

    Particularmente, fui atendido pelo médico de forma inesperada. Esmorecido e em estado febril, não aguentei trabalhar naquele dia e me deitei no aconchego da casa familiar, que ficava no mesmo prédio do comércio. “Doutor, seu amigo está doente lá dentro. Vá lá tirar a temperatura dele”, disse o parente, acenando para uma consulta domiciliar. “Não quero melar meu dedo de mxxx não”, avisou.

    Convocação aceita, dr. Abdias entrou no quarto e, ao me ver, tascou um “diz, ladrão, o que estás sentindo?”, iniciando a improvisada consulta. Após o procedimento, desviou a atenção pra mulher do meu tio e receitou a medicação. “Dê esse remédio a ele e o enrole numa estopa, pois ladrão a gente enrola numa estopa”, recomendou.

    Há quem recordava, à época, a consulta de um padre de Pocinhos, famoso por suas aventuras com mulheres. Suspeitando de uma doença venérea, recorreu aos cuidados de dr. Abdias. “Doutor, eu fiz xixi no pneu do Jeep e fiquei com uma ardência e com um certo corrimento no pênis”, disse. “O senhor deve ir a um oftalmologista. Pra não confundir uma vagina (ele teria citado no popular mesmo) com um pneu”, teria recomendado. Ele nem confirmou nem desmentiu.

    Inesquecível também de dr. Abdias foi um atendimento domiciliar a uma vizinha de minha mãe e genitora de conhecido comerciante campinense de então, bastante idosa e fragilizada com a enfermidade. “E a velha parece uma coruja”, emendou, ao avistar a paciente, diante de seus familiares.

  • PROSA DE FREGUESIA (XII) - O “sobrinho” da cliente

    07/01/2021

    Roberto foi o colaborador certo admitido na hora certa diante da necessidade decorrente do processo de crescimento que nossa loja experimentava naquele ano. Aprendiz, embora entendesse do ramo, tinha uma capacidade incrível de assimilar os ensinamentos e rapidamente adaptou-se à equipe familiar. Tornou-se, logo, no profissional que a casa exigia com a vantagem de parecer ler meus pensamentos. Geralmente, quando eu pensava orientá-lo em determinado serviço, ele já estava em execução.

    Se as vendas obedeciam a um ritmo crescente, Roberto impôs maior celeridade no processo, recaindo na premência de contratar mais um atendente. Tímido e do tipo caladão, o pouco que falava parecia ser o suficiente para o freguês entender; de olhos verdes e jeito de galã de novela, ele também mudou o perfil da nossa freguesia, que passou a ser mais jovem, boa parte interessada também no novo balconista, recém-saído da adolescência.

    De modo que se tornou habitual telefonemas perguntando pelo gato, o lindo, o bebê, etc. Despertava interesse até de pessoas do mesmo sexo. Certa tarde, dia de folga de Roberto, o outro atendente estava escorado à porta, lá permanecendo, diante da aproximação de dois jovens homossexuais que vinham certos do atendimento de Roberto. 0 mais apressado, certamente o mais interessado, chegou primeiro e da calçada me avistou dando suporte ao caixa. Parado, voltou delicadamente o olhar para o colega, com um leve riso de decepção.

    Luzinete era minha conhecida de muitos anos, visto que fomos colegas do Estadual da Prata, e passou a fazer as compras no lugar da mãe, já bastante idosa, dando preferência pelo atendimento de Roberto, aliviando, de certa forma, os colegas, tamanha sua chatice. Em que pese o avanço da idade, Luzinete ainda provocava desejos e, no bairro, tinha fama sua disposição na cama, assim como na troca de companheiros.

    O certo é que as conversas reservadas entre ela e Roberto aumentavam, logo após o aviamento de suas compras, provocando desconfianças, apesar da diferença visível de idade e de sua situação de mulher comprometida no momento. Atendente de um frequentado consultório médico, Luzinete convidou Roberto para lá comparecer, mesmo não sendo local da especialidade de seu gênero, e justo no dia da folga patronal. Com a recomendação de que dissesse ao porteiro ser seu sobrinho. Convite foi aceito e consulta realizada.

    GENIVAL LACERDA


    Não lembro de Genival Lacerda quando dos meus tempos de menino, aqui em Campina Grande. Minhas lembranças do artista me chegam da adolescência, em Patos, de um show seu patrocinado em praça pública, na esteira de seu sucesso de então, Vendedor de Jumento. Depois, seu estouro com Severina Xiquexique, e minha volta para Campina Grande, em 76, para morar na casa de uma tia, na Liberdade, quando ele também chegou para residir ao lado da igreja Santa Filomena. No retorno do restante da minha família à avenida Almirante Barroso, via-o sempre na casa de dona Chiquinha de seu Enéias, famosa rezadeira.

    FEIRA CENTRAL

    Mas os encontros mais divertidos com Genival aconteceram na feira central, quando ele comprova carne ao colega Chico Macaco, que teria sido seu pandeirista ou seu tocador de triângulo. Saia cada uma. Nosso último encontro foi há dois ou três anos, na Almirante Barroso, em casa de seu amigo de toda vida, o mecânico Inajá, vizinho de minha mãe. Com o meu irmão Patrício, recordou alguns feirantes do Mercado Central, seu ponto logo cedinho nas manhãs de sábado, antes da mudança para o Recife.

  • PROSA DE FREGUESIA (XI) - O filho de Tiquinho

    30/12/2020

    Já que este ano epidêmico está a um tiquinho de nada para acabar, vale a pena contar a história do suposto filho de Tiquinho. Lucinha tem a pele morena, estatura alta realçada no corpo cheio e olhos levemente esverdeados. Ainda provoca suspiros no bairro. Contudo, a fama adquirida na adolescência após a primeira entrega, os desvios de caminhos e a incapacidade de fidelização ao companheiro da vez ainda são empecilhos para compromissos mais sérios.

    De origem humilde, cedo começou a trabalhar. Inicialmente em casa de família; depois, numa pizzaria, na qual fazia de tudo, mas sobressaindo-se como a preferida da clientela na função de garçonete, em que pese a reputação consolidada das noitadas após o trabalho ou folga. Além de atender bem, sabia se comportar naquele ambiente, tirando de letra as cantadas de um comensal insaciável depois da consorte ir ao banheiro.

    Lucinha foi nossa cliente por muito tempo, fazendo as compras do patrão ou patroa do momento, e raramente para si. Sua presença na nossa loja rendia sempre conversas apimentadas, após sua saída, quando algum companheiro de farras lá se encontrava. E até confissão, como a daquela autoridade, aparentemente bem casado e de certa classe, confirmando que saíra com ela tempos atrás. “É primeira, bem limpinha e faz direitinho”. Outros usavam palavras mais vulgares para definir suas habilidades no leito.

    De família desajustada, Lucinha tem uma irmã que, à época, vivia igualmente de aventuras. Parece que encontrou alguém que lhe deu rumo. Antes, porém, essa mana teve filhos e, pelo menos um deles, doara. No carro, a caminho da doação, o remorso torturando-lhe a alma, encontrou conforto e ânimo em Lucinha. “Tu não tens condições de criá-lo. É melhor dar, ele vai ser bem criado”. Depois, a palavra realista e convincente. “Nós não somos puta mesmo?”.

    Certa tarde, a loja vazia, chegaram três rapazes para a compra do tira-gosto da noite. Enquanto esperavam o aviamento da encomenda, conversavam, quando um deles disse que Lucinha está grávida. “Mas nem ela mesma sabe quem é o pai”, duvidou um deles. “É filho de Tiquinho”, confirmou o terceiro, despertando a curiosidade de todos. “Um tiquinho de um, um tiquinho de outros”, brincou. O rebento de Lucinha tomou o mesmo destino do primo.

    CEIA NATALINA(I)

    Agnes não é a minha prima em segundo grau, uma das filhas da prima Adelina; está muito explícito que Antonelli sequer é a produzida e talentosa atriz global; igualmente Alice não é mesmo a prima de minha mulher e nem Nina, a amiga de décadas de minha mãe e mãe do ex-colega Carlinhos; muito menos Zeca é o famoso do pagode e Pluto tampouco o personagem da Disney. Mas todos fizeram nossa noite de Natal melhor, mesmo com um deles subtraindo de nós o item principal de nossa ceia.

    CEIA NATALINA(II)


    A mulher, com a ajuda direta da filha, preparou tudo com extremo esmero. Encarregado da logística, às 15h em ponto deixei um dos itens do presente natalino na padaria para deixá-lo no ponto comestível. Com a recomendação de buscá-lo depois das 19h. Perto das 20h, cheguei em casa e coloquei o produto devidamente assado à mesa, rumando para o quarto, onde o chuveiro me esperava. Na contramão, Margarida se dirigiu à cozinha e deparou-se com a matilha devorando o Fiesta, resgatado da mesa por um dos hóspedes da semana natalina.

  • PROSA DE FREGUESIA (X) - Plataforma ecumênica

    17/12/2020

    O misto de conselho e alerta de seu Afonso foi além da solidariedade amiga. Traduz nas entrelinhas a dimensão da possibilidade latente de uma convivência sadia, pacífica, fraterna e compartilhada entre os cristãos. Sem agredir nossas crenças, sem intenção de forçar uma conversão incerta e ainda nos poupar de uma situação constrangedora.  “Continue pedindo, que Deus atende. Mas não use intermediário, peça diretamente a Ele”.  

    O sensato apelo, dito após perguntar e ouvir meu relato sobre a situação vivida naquele momento – acidente de um filho - , foi de um evangélico convertido para um católico praticante e que me tocou profundamente.  Mais pelo aceno ecumênico contido nas palavras do que mesmo pela solidariedade. Nunca esqueci.  “Está bem, seu Afonso, recuperando-se, já saiu do CTI”, dissera antes tranquilizando o meu cliente, que perguntara primeiro, com sua conhecida polidez, para depois iniciar o pedido de suas compras.

    Sou adepto do diálogo inter-religioso e da unidade dos cristãos, independente das denominações e estou de acordo com “a definição atual, mais abrangente, que considera como ecumenismo a aproximação, a cooperação, a busca fraterna da superação das divisões entre as diferentes igrejas cristãs”. No comércio, vive-se, com maior abrangência, essa relação. Além de clientes, acolhi, por exemplo, colaboradores evangélicos.

    Comercialmente, nunca tive problemas no relacionamento com cristãos não católicos e até os que se dizem ateus, pois fundamentado no respeito mútuo. Até cheguei a fornecer meus produtos para algumas igrejas. Contudo, já testemunhei determinadas situações que não foram fáceis entre os clientes, “Nossa Senhora foi a primeira prostituta”, blasfemou um freguês para outro, que retrucou alertando-o com um “você não sabe o que diz”. Consola-me não ter ouvido isso na nossa loja, mas num ponto ambulante na praça do bairro.

    No nosso, ouvi coisas até certo ponto compreensíveis, embora não aprove quando deriva para o radicalismo, como disse a freguesa recém-convertida na época em que existia os produtos embutidos São Mateus. “Eu quero 1Kg de Mateus, aqui”, pediu, apontando para a linguiça calabresa e subtraindo o “São” da marca, palavra que não discriminara antes. Ainda bem que o produto não era comercializado por metro, fiquei pensando.

    Constrangedor, também, ouvir julgamentos precipitados. Uma cliente só usava saias curtas, short mostrando a poupa da bunda e caprichava na generosidade dos decotes; depois ela surpreendeu na compostura das vestimentas. “Isso dava mais do que vaca nova. Agora, depois que é crente, se veste assim...”, comentou Paulo, ao vê-la sair da loja. “Todo crente tem um passado negro”, apontou outro, que depois teve que suportar o filho evangélico e a filha casada com um negro. “Fui castigado duplamente”, queixou-se.

    A sobriedade nas palavras de seu Afonso, ditas há sete anos, ainda hoje me enche de esperança de um mundo mais civilizado, ameno, sobretudo nesse momento tão constrangedor vivido no Brasil, marcado por tanta intolerância. Política, social, religiosa e racial.

  • PROSA DE FREGUESIA (IX) - O zoológico e a patada

    11/12/2020

    Nem tudo que se fala na parte reservada aos clientes numa loja é direcionado a quem está no lado de dentro da plataforma que os separa. Frações de conversas paralelas, por mais que jogadas na surdina, podem pular o balcão e chegar aos ouvidos do vendedor mais atento. Descobre-se, assim, muitos segredos e curiosidades que deveriam permanecer em mistério. Namoros ou casamentos acabados, moças desvirginadas, desavenças entre casais ou vizinhos... são novidades sempre captadas pela antena humana dos comerciários.

    O melhor, contudo, é ouvir as brincadeiras e as gozações que descontraem o ambiente. “Ele é tão amarrado, tão sovina, que na hora do ofertório, desliga a televisão”, brincou um comerciante em relação a outro. “E ele faz alguma coisa...”, duvidou Juari, quando informado que um amigo estava de namoro com mulher bem mais nova. “Mas ele deve ter estudado, tornando-se um poliglota”, completou, deixando o outro balançando a cabeça, rindo.

    Cliente de voz alta e conversa constante, quase não deixando que outros falem, não é preciso dizer porque é conhecido por Zeca Barulho. Quando ele começou a frequentar nosso comércio, chamávamos de Zeca Doido, até que um dia descobriu. Levou na esportiva. “Mas Zeca Doido, não. Podem me chamar de Zeca Barulho, como já me chamam na padaria”, pediu, amansando a voz, no esforço sereno para externar sua compreensão.

    Um dia de sábado, cerca de uma dúzia de mulheres no açougue, Zeca Barulho chegou e foi logo assanhando. “Mulher é pra apanhar de manhã pra comer sabão e apanhar de tarde pra saber que sabão não é pra comer”, admoestou, despertando a atenção coletiva. Conhecidas, apenas uma senhora reagiu, na profundeza de sua serenidade, falando algo que não relembro. Todos acabaram rindo.

    Mas o melhor de Zeca era dizer, para espanto de quem ouvia, que tinha um zoológico em casa, abrigando uma cascavel, uma jararaca, um burro velho, um cavalo, uma gata e um tigre. Além da mulher e dos dois filhos, Barulho aconchegara o sogro e a sogra. “A minha mulher é a cascavel e a sogra, a jararaca; o sogro, o burro velho; meu filho, o cavalo, que é uma coisa de bruto; a gata, minha filha. E o tiiiiigreeee, sou eu”, gabava-se.

    Em conversa paralela, duas clientes se confabulavam, quando uma delas queixou-se do tempo, que estava bastante frio. “Esse tempo só é bom pra dormir”, apontou. Bastante conhecidas, não hesitei em apimentar o bate-papo, soltando um “bom pra outras coisas também”. “Esses homens só pensam naquilo...”, lembrou. “Não tem quem aguente. Morta de sono, cansada, de madrugada, e o marido aperreando “, disse a outra. “Quando o meu começa eu dou logo uma patada”, confessou.

    FAMILIARIDADE


    Éramos mais de 20 primos, descendentes de três irmãos – meu pai e duas irmãs – e criados no terreno da minha infância feliz, entre o Colégio Panorama, Av. Almirante Barroso, Av. Dinamérica e o Conj. Nenzinha Cunha Lima, propriedade do meu avô paterno, Patrício Lopes de Almeida. Brincadeiras de crianças, trabalhos no roçado e na casa de farinha, banhos no açude... marcaram essa fase inesquecível da nossa vida.

    SAUDADE


    Há uma semana, José Barbosa da Silva (Deda), um desses primos, veio a óbito, vítima de um câncer impiedoso. Deda foi um dos mais divertidos desses parentes, em que pese a orfandade materna. Muito querido, deixa imorredoura saudade. Foi aquele “freguês” que não se arriscou, ainda noivo, a mandar o futuro sogro, barbeiro afamado no bairro, fazer sua barba. “E eu sou doido pra dar o meu pescoço a ele”, justificou.

  • PROSA DE FREGUESIA (VIII) - O ECC do balcão

    04/12/2020

    A labuta de quatro décadas me sugere que o comércio de bairro, principalmente do gênero alimentício, é um encontro de casais sem a tutela eclesial. Um encontro sem assembleia, sem o coro e sem o canto, mas de muitos encantos e vários desencantos; sem o padre ou o pastor para ouvir e orientar; com um cônjuge sempre disposto a confessar suas mágoas, suas aflições e enxergar no outro lado do balcão um psicólogo voluntário. Na nossa loja, Margarida, que ficava no caixa, era a especialista sem diploma.

    Também esse encontro temporal revela, vez em quando, uma surpresa agradável. É quando o casal alterna a realização das compras, ou seja, uma vez vem um, outra vez vem o outro. Nunca o casal. Até que, depois de muito tempo, certo dia chegam os dois juntos e confirmam a aliança. A surpresa é grande. O entrosamento entre o comerciante ou comerciário e o casal ganha um novo rumo. Vira amizade. Há exemplo até de compaternidade.

    Além dos problemas, das mágoas e das aflições ouvidas, testemunhamos realidades reprováveis. As brutalidades, as indelicadezas e as imposições entre os cônjuges. É muito constrangedor. Vi mais de uma vez mulher chorar com as grosserias do companheiro; vi também homem ficar calado, mudo, completamente anulado, sem reação nenhuma, diante da tonalidade vocal de sua cara-metade.

    Além de constrangedor, é triste presenciar essas cenas; saber que um cônjuge não come, há tempo, determinado tipo de produto porque o outro não gosta e impõe seu gosto. Há, contudo, dizeres engraçados, ditos com a naturalidade de quem carrega a comicidade na veia; também os falares chatos, pronunciados com a imposição de quem quer ser engraçado e não é.

    Certa vez, o marido ficou comprando a carne, enquanto a mulher foi na padaria. Com a sacola panificada na mão, ela voltou e, delicadamente, perguntou a ele qual carne tinha adquirido. “Comprei carne com osso. Se você não gostar, da próxima eu compro de novo”, ameaçou numa rispidez injustificável. “Ele tem que comprar o que eu quero, senão não tem carne nenhuma!”, alegou outra mulher, com certo ar de malícia.

    Dona Zirinha foi nossa cliente por muitos anos. Extremamente exigente, mas de uma exigência que não se transformava em chatice. O marido, de natureza calma, fazia as compras e ela só o acompanhava em situações especiais, a exemplo de um churrasco. “Está bem... bem enjoada”, respondeu sem qualquer arrogância, com certa dose de humor, certa vez, quando perguntado se dona Zirinha estava bem. “Hoje é o aniversário da minha gambiarra”, justificou outro ao trocar suas compras habituais por outras especiais, nobres.

    Um senhor, já avançado na idade, comprou um frango e uma galinha matriz e pediu que embalasse em sacolas separadas. “O frango é pra filial e a galinha, fazendo jus ao nome, é pra matriz”, justificou, antecipando-se a uma improvável interrogação. “Quando minha mulher morrer a bunda vai numa carreta e o restante do corpo no caixão”, tentou descontrair outro, sem arrancar qualquer riso de dois colegas que o acompanhavam.

    É muito prazeroso ver um casal fazer as compras em harmonia, dialogando sobre o que vai levar, procurando atender o gosto conjugal e até buscando satisfazer o paladar individual. Toinho, aposentado da Celb/Energisa, e dona Neném são exemplos de cônjuges que vivem essa harmonização. Foram nossos fregueses por cerca de 20 anos e nunca externaram qualquer contrariedade durante esse tempo. E todo sábado, sem falta, estava o casal na loja, já vindo da feira. Nunca chegou um sem o outro.

  • PROSA DE FREGUESIA (VII) - Toinho e a calça de Santa Cruz

    26/11/2020

    Antônio Pereira Filho é o tipo de cliente que quando chega ao nosso estabelecimento causa dupla satisfação. Certeza de vendermos algum produto e de risos fáceis em razão de suas tiradas humorísticas, com forte teor filosófico e ditas com a naturalidade de quem não tem a intenção de ser engraçado. “Eu vejo duas situações quando se diz algo: ou se torna engraçado ou se torna chato”, aponta, garantindo falar sem qualquer intenção de uma comicidade momentânea.

    Aliás, a história de Toinho de dona Elvira, como é conhecido no Jardim 40, não é uma piada, mas é cheia de graças. Graças divinas, quando sabemos que ele é alcoólatra, mas há 30 anos não bota uma gota etílica na boca. “Quem deixa de beber é como quem mata um: sabe o dia, a hora e o porquê”, justifica. Porém, uma latinha de sua cachaça preferida é o seu último desejo, no ocaso da vida. “Já avisei aos meus irmãos”, diz, certo de ser atendido quando tiver pertinho de cerrar os olhos.

    Aposentado como eletricista, Toinho tem como passatempo a cozinha. Aprendeu exercendo seu ofício no Hotel Ouro Branco, em João Pessoa, para onde fora transferido e lá ficou morando. Ligado a várias comunidades católicas, rotineiramente é requisitado como chef nos encontros. “Ensine todos os caminhos ao Padre Hachid, menos o da cozinha”, ouviu, num desses, sobre a disposição gastronômica do querido padre. “Ele come mais do que padre de novela”, completei.

    Quando eu caminhava nas primeiras horas do dia, avistei várias vezes Toinho chegando à academia. Certo dia, na loja, conversando com um vendedor, ele aparece e puxo conversa sobre sua determinação física logo cedo. “Academia é como prótese dentária: ninguém gosta, mas tem que usar e se acostuma”, comparou, arrancando uma risada espontanea do outro.

    Numa das vezes que veio ao meu açougue, Toinho fez o pedido sem delimitar a quantidade ou a quantia, no que eu perguntei o peso ou o valor em cifras. “Tire um pedaço de carne de sol pra mim, aí. “Mas tire um pedaço que caiba no meu bolso”. Enquanto eu afiava a faca na chaira, recomendou: mas lembre-se que minha calça é de Santa Cruz, o bolso é pequeno”, clamou numa metáfora externando sua situação financeira naquele instante

    Toinho é do tipo que coloca em jogo uma amizade para não ficar sem a piada. Sabe, contudo, conservar o amigo. Certa manhã, brincou até com sua fé praticante. Era tempo de inverno, mas de baixo índice pluviométrico. Tanto que amanheceu fazendo sol. Toinho chegou, deu um bom dia bem generoso, fez sua encomenda e se voltou para a porta, aproximando-se da calçada. De repente caiu uma rápida chuvinha fina. “É o único tempo do ano que a gente não pode confiar em Deus”, apontou.

    Lembrei-me imediatamente do meu saudoso tio Cleodon, caminhoneiro e também exímio na arte do improviso sem a viola nordestina, que certamente deixou certa contribuição à filosofia do caminhão. Dondon, como o chamávamos, limitava suas graças à superfície terrestre, na esperança de receber as graças do Alto. “Só gosto de brincadeiras do teto pra baixo. Do teto pra cima, não”, ensinava.

  • PROSA DE FREGUESIA (VI) - O segredo de seu Horácio

    19/11/2020

    Causou surpresa quando aquele senhor desconhecido desceu do carro, aproximou-se do balcão e pediu a encomenda de dona Candinha, cliente de muitos anos e que optara pela entrega domiciliar depois da confiança adquirida. Até então, na plenitude de sua exigência, preferia provir suas compras. Aliás, conferir a carne, pois seu gosto já sabíamos. Mantinha um balconista preferencial, o meu mano. “É para seu Patrício cortar”, recomendava sempre a quem atendia sua ligação.

    Fazia muitos anos que Dona Candinha nos dava a graça de sua fidelização; assim como admirávamos sua predileção por chã de fora ou coxão duro, ignorando a rigidez da peça. Nunca fora ao estabelecimento com o marido, razão da surpresa. Um dos colaboradores chegou a pensar que ela lidava com uma viuvez prematura ou um divórcio involuntário. Pensamento retorcido, malevolente; aquele senhor que buscou a encomenda era seu esposo.

    Seu Horácio, o marido de Dona Candinha, era o oposto da mulher, a partir do físico e da cor. Mais baixo do que ela, contraste mais visível ainda na sua pele morena em comparação à brancura enodoada da companheira. Um doce de pessoa. Conquistava logo pela voz. Mansa, aveludada, de um timbre diferenciado a traduzir todo carisma pessoal de seu Horácio, que doravante passou a nos agraciar com suas visitas, embora esporádicas.

    Mecânico industrial, viajava o Nordeste na prestação de seu disputado serviço, motivo de nunca ter comparecido antes. O tempo passou, até que a viuvez isolou seu Horácio. Ficou uns tempos sem nos prestigiar, certamente assimilando o golpe, até que certo dia chegou acompanhado da filha. Desde então, passou a frequentar nosso estabelecimento na matinal do domingo. Sempre os dois.

    Hoje, seu Horácio deve estar com 85 anos, mas dois anos atrás, poucos meses antes da loja baixar as portas de forma definitiva, a filha chega sozinha. “Ele foi ao Recife”, responde, após interrogada sobre o paradeiro paterno. Perguntei se ele foi acompanhado, com alguém dirigindo o carro e ela disse ter dúvidas, desconfiando, inclusive, que seu Horácio fora sozinho, enfrentando a intensidade do trânsito da capital pernambucana.

    Uma semana depois seu Horácio aparece sem a filha para fazer sua compras e eu puxo conversa sobre a viagem. Ele confirma ter ido sozinho, que até chamou alguém para acompanhá-lo. “Eu fui enterrar uma companheira de 30 anos. Vivi esse tempo com ela e Candinha nunca descobriu”, confessou, causando espanto. “Mulher que soube viver”, reconhece. Além da viuvez dupla, meses depois perdeu a filha em acidente doméstico.


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