Setembro Amarelo, Bíblia…
Não houve premeditação na decisão de Sônia de se isolar no quarto do apartamento da sobrinha, no 12º andar do único “arranha-céu” existente no bairro, após o almoço de Natal em família. Tampouco na determinação de ficar à janela. Ali, sentia as rajadas contínuas dos ventos alísios que, naquela tarde, varriam o Planalto da Borborema e pareciam tornar ainda mais turvo o turbilhão de pensamentos sobre os acontecimentos da véspera.
A manicure trabalhara o dia todo, acabando o expediente com a iluminação natalina já cintilando a cidade. Tomou um banho rápido, vestiu a roupa que comprara para aquela noite e foi saindo para se encontrar com o marido, que chegaria de viagem, na casa dos familiares dele. Num piscar de olhos — nem chegou a dar cinco passos —, após transpor a calçada, sentiu um estalo. “Não vou mais, não”, decidiu.
Com a mesma rapidez com que sentenciou o fico, Sônia entrou em casa, admirando-se da facilidade com que abriu a porta. Sentou-se no sofá, os pensamentos a mil, receosa de encarar a cama solitária. Resolveu, então, sorver um cálice de vinho. Depois mais um. E mais outro. Foi tomada por uma sensação de leveza e sentiu vontade de um quarto cálice, mas decidiu ir para o quarto, pois o cansaço e o sono já a dominavam.
Quando acabara de guardar o vinho e de lavar o cálice, e já caminhava para o leito, o celular tocou. Uma voz familiar e amiga, na serenidade que o momento exigia, disse-lhe: — Foi bom você não ter vindo. Falou mais alguns assuntos, como a lhe preparar os tímpanos para ouvir a pancada. O marido chegara para o Natal em família acompanhado da amante. “Não acredito!”, reagiu entre a dúvida e a certeza. Mas não cerrou os olhos naquela noite. No outro dia, as fotos das redes sociais comprovavam tudo.

Embora o desânimo a dominasse, Sônia aceitou de bom grado o convite da sobrinha para o almoço. Após, mesmo na certeza de que não ia dormir, optou por ficar no quarto; a solidão talvez fosse melhor para remoer a inimaginável decepção que sofrera em plena noite de Natal. O vento que invadia o cômodo a convidou à janela.
Do quadrilátero aberto, divisou as serras que contornam a cidade. Os pensamentos estavam a mil por segundo e uma força estranha começou a subir por suas pernas, chamando-a ao salto letal. Já não sentia os pés no chão, parecia levitar. Pronta para o impulso decisivo, um vento soprou mais forte e, então, ouviu o farfalhar das folhas de um livro na estante próxima à janela. Era uma Bíblia que, naquele momento, salvou a sua vida. — Nunca mais eu vou sofrer, meu Deus — confiou.
E saiu dali direto para a igreja, onde dobrou os joelhos e rezou como nunca havia rezado, agradecida pelo dom da vida.










