Colunista Júnior Gurgel

  • O EXEMPLO DO REI DAVID

    20/01/2022

    O saudoso amigo Carlinhos Moscoso – maior anti-Cunha Lima de Campina Grande – nos ligou em janeiro de 2010 convidando-nos para visitar o tribuno Vital do Rêgo, que estava internado na UTI da Clínica Santa Clara. Carlinhos era um dos frequentadores da feijoada da casa do tribuno aos sábados. Eu, Bazinho (Altair Pereira); Amaro; Henriquemar Dutra... Vez por outra Dagoberto Pontes... A notícia foi impactante. O câncer de próstata, nós sabíamos através de sua irmã Bernadete (Bebé), com quem em nossa época na radiofonia conversávamos todos os dias. No ar, com sua pontual participação, e particularmente, em linha direta dos antigos telefones fixos.

    Partimos imediatamente para a Praça da Bandeira, e nos encontramos com o “pulguento” - forma carinhosa com que Carlinhos Moscoso tratava seus mais chegados – de lá nos dirigimos à Clínica Santa Clara. Nos informaram que as visitas estavam proibidas, o estado de saúde do tribuno era muito grave... Na saída, deparamo-nos com uma grande comitiva, tendo à frente o então governador José Maranhão, que fez uma festa ao avistar Carlinhos. Se abraçaram... Sem rodeios, Moscoso foi direto ao tema político: já enterrou Cássio de cabeça para baixo? Maranhão estava no governo por decisão do TSE, que cassou o mandato de Cássio Cunha Lima (reeleito em 2006) e o empossou como segundo mais votado. O ex-governador abriu um largo sorriso de vitorioso e respondeu: “quem está no governo? Ele nunca mais voltará, está inelegível por oito anos”.

    Carlinhos insistiu: existe um monte de processos contra ele, até por desobedecer decisões do STF, bote tudo para andar, pague caro a bons advogados e acabe com a carreira dele. Não brinque com inimigos...Lembre-se do que está escrito na Bíblia, história de David, que acertou o gigante Golias com uma pedra e quando o viu no chão, correu, tirou a espada das mãos de Golias e arrancou seu pescoço. David sabia que o Gigante tinha desmaiado. Quando tornasse, esmagaria sua cabeça, só com uma de suas mãos. Finalmente acrescentou: “anote o que estou dizendo hoje, em janeiro de 2010”.

    Era ano de eleição (2010) e Maranhão até aquela data (janeiro) além de imbatível, não tinha adversários. Em apenas onze meses, o prefeito de João Pessoa Ricardo Coutinho se levantou, rebelou-se e o traiu; Cássio conseguiu uma liminar para disputar o Senado Federal, numa “brecha” da lei da ficha limpa (questão de retroação), uniu-se com Ricardo Coutinho - aquele que mais o hostilizou e ainda premiou Marcelo Weick advogado que o cassou - nomeando-o Procurador Geral da PMJP. Antes de um ano da advertência de Carlinhos Moscoso, Maranhão fora derrotado com mais de 160 mil votos (novembro de 2010) por Ricardo Coutinho, tendo como vice Rômulo Gouveia e Cássio Senador. Muito embora só tenha assumido, um ano e meio depois.

    Estamos percebendo a história se repetir. Governador João Azevedo está alimentando adversários diretos - Clã Rego - quando poderia decidir agora em janeiro como, e com quem marchará para as urnas. Se copiar ou adotar o roteiro de Maranhão, verá o inimaginável acontecer. Os dois principais grupos políticos do Estado – Cunha Lima e o governo – só têm um adversário em comum: Ricardo Coutinho, defensor da postulação de Veneziano. João vai esperar ser degolado como Golias?  

  • O TACITURNO CÁSSIO CUNHA LIMA

    19/01/2022

    Não recordamos nenhuma declaração oficial do ex-governador Cássio Cunha Lima - se dirigindo ao povo paraibano - agradecendo o empenho de seus abnegados seguidores, admiradores e companheiros de jornadas, despedindo-se da vida pública, atividade exercida através de diversos mandatos populares, conquistado ao longo dos últimos trinta e seis anos. Se esta atitude (de foro íntimo) já foi tomada, seu desdobramento lhes impõe um pronunciamento formal. Do mesmo modo que anunciou sua estreia no distante 1986 - aos 21 anos entrando na disputa por uma vaga para a Câmara dos Deputados – aguarda-se que repita o gesto comunicando ao povo que (paradoxalmente) foi alcançado por uma compulsória voluntária e prematura, incompreensível para muitos que ainda o consideram líder.

    Indubitavelmente as derrotas “machucam”. As disputas são movidas por egos inflados. Encontrar culpados para justificar insucessos ocasionais - depois de uma luta renhida - não muda o cenário dos acontecimentos. A peleja é uma constância a partir da própria sobrevivência. São das derrotas que se tiram lições para as vitórias. Imaginem se Enivaldo Ribeiro tivesse desistido (1988) quando sofreu sua primeira derrota para “o menino de Ronaldo”? Ou, quando foi vencido por Félix Araújo Filho e Cássio Cunha Lima mais duas vezes consecutivas? Além de outros tombos inesperados como vice de Wilson Braga (1990). Estes infortúnios, só o fortaleceram. Elegeu-se deputado federal por três vezes consecutivas, e pavimentou os caminhos por onde trilhariam seus filhos e netos. Aguinaldo Ribeiro, deputado estadual, federal; Ministro de Estado; líder de governo na Câmara dos Deputados; líder da maioria...

    Daniela Ribeiro - que estreou com uma derrota - como companheira de chapa (vice) de Rômulo Gouveia (2004), elegeu-se depois vereadora. Em seguida, deputada estadual e hoje é Senadora da República. Quando foi necessário se aliar definitivamente ao Clã Cunha Lima, Enivaldo foi vice de Romero Rodrigues e segurou o assento, passando para seu neto, atual vice-prefeito de Campina Grande. Edificou uma história admirável de persistência e obstinação. Seu único momento hesitante foi o ano 2000, quando Cássio o procurou, e o convidou para ser seu vice. Confessou projeto de se licenciar para disputar o governo. Enivaldo teria sido prefeito e reeleito. Mas, não topou.

    O tucano queria uma paz pública em Campina Grande, que motivasse a cidade marchar unida com ele em 2002. “Se você não vier, vou trazer Cozete e será um massacre”. Por mais que Enivaldo não acreditasse, o impossível aconteceu. Cozete rasgou o discurso de mais de uma década do PT, contra os Cunha Lima, e foi ser vice de Cássio. Cumpriu seu compromisso com dignidade: ajudou derrotar Maranhão, apoiado por Lula. Evitar o jovem Pedro se frustrar numa aventura desvairada, enfrentando (solitário) uma poderosa “máquina”, com uma incrível capacidade destrutiva, será um ato de prudência, para quem (Cássio) já esteve dos dois lados do balcão.

    Ronaldo Cunha Lima só foi governador do estado (1990) porque ninguém tinha coragem de enfrentar Wilson Braga e Enivaldo Ribeiro. O PMDB – rachado pelo PSDB - foi esmagado por Collor de Melo no ano anterior (1989). Dois senadores que se fossem derrotados nada perderiam – Humberto Lucena e Raimundo Lira – sequer se manifestaram. E Antônio Mariz, por que não voltou para a revanche? Preferiu o Senado, “escudado” por Ney Suassuna. Até o próprio Marcondes, resolveu renovar seu mandato.

    Qual o temor de Cássio? O que tem a perder? Esta talvez seja a chance de reconquistar o que escapou de suas mãos, em circunstâncias ardilosas, tramada por seus inimigos próximos, com apoio dos distantes. Em 2018, o tucano foi “presa” de uma “caçada” comandada pelo seu maior algoz, ex-governador Ricardo Coutinho. O verdugo, que dois anos depois alcançou a humilhante quarta posição na disputa pela PMJP. A única “bravata” de heroísmo que Ricardo Coutinho conserva como vitória histórica, é pensar que tirou Cássio da vida pública. Que custa Cássio alia-se ou alinhar-se ao projeto de João Azevedo? Sua legenda (PSDB) em nada o ajudou quando mais precisou (2018).

    Quebrar o seu silêncio como construtor de pontes seria um “elemento surpresa” de bom alvitre, evitando ampliar o fosso já existente e isolacionista. Quer seja como Senador, vice de João Azevedo ou deputado federal... Mostre a seus oponentes, que ainda é capaz de enfrentar uma batalha. Leve consigo Bruno, Romero; Pedro e Ruy. Volte a circular em Campina Grande, e fortaleça suas bases. Inspire-se na coragem de seu pai em 1959, 1963; 1966; 1968; 1990. Política se alimenta de fatos novos.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte XII)

    18/01/2022

    Após alcançar o segundo turno da campanha de 1990 (governo do estado) Ronaldo Cunha Lima começou a organizar suas tropas, com vistas ao embate decisivo da guerra. O enfrentamento ocorreria em 25/11/1990, praticamente 50 dias após a “refrega” de 03 de outubro, confronto que terminou em paz - mesmo com momentos tensos - onde esperou-se desfechos de atos violentos. O tempo prometia ser aliado de Wilson Braga, que saíra vitorioso no primeiro turno. Tinha elegido o maior número de deputados federais e estaduais. O MDB amargou 5 x 1 para a Assembleia. E 3x1 para a Câmara. A legenda tomou uma surra grande. Mas, Braga dormiu sobre os “loiros” da vitória. Na percepção equivocada dos coordenadores de sua campanha, o restante viria “por osmose”. Bastaria saber negociar espaços no futuro governo. A história mostrou que se equivocaram.

    Não perceberam o espantoso crescimento na euforia dos “Ronaldistas”, que não disfarçavam a surpresa de terem chegado tão longe. Humberto Lucena - que aspirava se livrar de Ronaldo - acreditando que o pleito seria decidido no primeiro turno foi o primeiro a cercar o poeta. Mariz tinha sido eleito Senador, se constituindo numa ameaça direta sobre o controle da legenda (MDB) que ele comandava. Os Cunha Lima se fortaleceram... Cássio na Prefeitura de Campina Grande, Ivandro foi eleito deputado federal - aproveitando os redutos de Asfóra e Cássio - Ronaldo nutria expectativas de derrotar Wilson Braga. Doravante, predominaria a habilidade. Quem seria mais competente, para atrair os derrotados que concorreram para Câmara e Assembleia Legislativa. E, trazer o Exército de João Agripino Maia, fiel da balança, com mais de 137 mil votos.

    A lógica apontava que o PMDB tinha chegado ao seu limite com Mariz, 490 mil votos. Ronaldo ficou atrás com 468.546. Somando os votos dos eleitos para a Câmara dos Deputados, não atingia 150 mil votos. Ivandro 44.231, José Maranhão 25.860; Luiz Clerot 25.106; Zuca 25.125. Totalizando 120.402 sufrágios. Vexame maior foi o Parlamento Estadual, que não atingiu 85 mil sufrágios. Zenóbio Toscano 14.936. Levi Olímpio 13.828; Dr. Bosco 12.027; Zé Feliciano 11.633; Ivânio Ramalho 9.961; José Aldemir 9.613; Fernando Melo 7.490; Gilvan Freire 5.027. totalizando 84.512. Seus novos apoios (esquerdas) foram Simão Almeida 4.538 (PCdoB) e Chico Lopes 4.482 (PT) atingiram 9.020.

    Analistas do “varejo” político (da época) registraram com precisão e autenticidade que Mariz tinha “puxado” Ronaldo, circunstância inversa a que ocorrera com Wilson Braga e Marcondes Gadelha. A coordenação política de Wilson Braga blindou-se, e se preparou com forte artilharia para sair na frente atacando. Não iam ficar na trincheira, como no primeiro turno. A ordem era baixar ainda mais o nível da campanha, utilizando as mesmas armas do PMDB. Ronaldo Cunha Lima mudou de tática. Nada mais de ataques. A ideia foi passar uma imagem confiante de vitorioso. Largaram na frente, surpreendendo mais uma vez, com o “vira-vira”. Quem primeiro chegou para engrossar as fileiras das tropas peemedebistas, foram as esquerdas: PC, PCdoB; PT; PSB.

    A corrida seria em busca dos candidatos derrotados para o parlamento federal e estadual, não importando o lado que esteve no primeiro turno. Diariamente no horário gratuito do Rádio e TV, Ronaldo mostrava adesões, exibindo na TV fotos de lideranças ao lado do poeta. “Era do lado de lá, agora veio para o lado de cá”. Poucos foram até Ronaldo, mas o poeta foi a todos. Muitos alegaram - depois da campanha - que tudo não passou de uma fotografia. Mas, não contestaram. Aguardaram uma visita de Braga, valorizando-os, o que não aconteceu. Wilson já estava sem dinheiro, e raciocinou erroneamente.

    Presidente Fernando Collor de Melo tinha assumido em 15 de março de 1990, e trouxe com ele, um duro plano econômico. A “bala de prata”, como frisou. Trocou o Cruzado pelo Cruzeiro, congelou a poupança e todos os depósitos bancários. O que maldosamente a grande mídia - eternamente esquerdopata - levou para a história como “Confisco” ou “sequestro”. Grande mentira. Todos receberam seu dinheiro em parcelas de 12 a 24 meses. Wilson Braga tinha seus financiadores, porém sem disponibilidade de caixa.

    Mariz ao se eleger Senador mostrou serviço, e os destinos da campanha ficaram em suas mãos. Ele decidiria o pleito. Era conhecido como o herdeiro político do ex-governador João Agripino Filho, portanto irmão por afinidade de João Agripino Maia. O único dentro do PMDB que tinha capacidade de trazer João Agripino Maia, seus 137.487 mil votos e sua presença em palanque ao lado de Ronaldo. João era ético, devia a chance de sua candidatura ao então governador Burity, com quem aprazou uma data limite para decidir qual destino tomaria. Como Braga não conversou com Burity, apesar de inúmeras embaixadas recebidas para procurar João Agripino Maia, este declarou apoio a Ronaldo Cunha Lima. A campanha foi decidida.

    No dia 25.11.1990 os paraibanos foram às urnas. A abstenção reduziu bastante. Wilson Braga cresceu em mais de 70 mil votos. Dos 498.763 saltou para 571.802. Porém, mostrou sua estagnação, ao comparar com sua votação de oito anos antes (1982) 509.855. Mariz cresceu em mais de 140 mil votos. Em 1982 (358.146) em 1990, 490 mil sufrágios. O alto comando nacional da legenda, se voltou para Paraíba. Dos 22 governadores eleitos quatro anos antes (1986), MDB tinha chances de manter apenas cinco estados. No Nordeste, só a Paraíba. Mesmo crescendo mais em 50 mil votos no segundo turno, Ronaldo – se não fosse a adesão de João - teria sido derrotado por Wilson Braga. Abertas as urnas, Ronaldo Cunha Lima 704.375, Wilson Braga 571.802, maioria pró Ronaldo (MDB) 132.802 sufrágios.

    Como o futuro sempre esteve no passado, os vencedores das eleições de 1990 foram os herdeiros do patrimônio político de João Agripino Filho. Ronaldo é merecedor de méritos pelo seu excelente desempenho (protagonismo) como candidato. Mas, os votos conferidos a Antônio Mariz e João Agripino Maia (no primeiro turno) confirma a tese. Antônio Mariz, 490.376 + 132.802 de João Agripino Maia, totalizaram 623.178 votos. Aos Cunha Lima, coube o complemento de 81.197 votos. Como Ronaldo governaria com apenas 09 dos 36 deputados estaduais? Desceu do palanque e conclamou a governabilidade. Conseguiu.

    Uma das virtudes do poeta, era ser cumpridor de compromissos. Nada de amnésia pós eleição. Neste aspecto, tinha memória privilegiada. Mariz, que o elegeu, o sucedeu quatro anos depois. Na sequência, Ronaldo a liderança número um da Paraíba, seus erros, tropeços, tragédia e violência.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte XI)

    14/01/2022

    Após setembro (1989), aniversário de um ano da nova Carta Magna, o país quebrou. O ex-governador de Alagoas Fernando Collor de Melo, que começou caçando “Marajás” no seu Estado, terminou encontrando 20.611.011 votos (15/11/1989) quando foi realizado o primeiro turno do pleito presidencial, uma festa da democracia, concorrida por 22 candidatos. Ulisses Guimarães, símbolo da “Nova República”, maior liderança do PMDB, amargou 3,204 milhões de votos, ocupando a 7ª posição, atrás de Guilherme Afif Domingues, Maluf; Covas; Brizola; Lula e o primeiro colocado, Collor.

    Encontramos em maio (1990) o saudoso amigo Josué Silvestre, conselheiro do Clã Cunha Lima desde a campanha de Ivandro, no distante 1976. Residia no Sul do país. Mas, sua presença “sazonal” na Rainha da Borborema, a cada dois anos, era para atender o calendário eleitoral. Orientava o marketing, jornalismo e a comunicação. Tinha uma boa visão da macro política e enxergava além das muralhas partidárias.

    Perguntamos se Ronaldo seria candidato ao governo. Respondeu que sim, e percebendo nossa perplexidade, imediatamente começou argumentar sobre as chances do poeta. “A briga é entre Burity e Wilson Braga... Tudo que sonhamos está acontecendo. Burity lançará um candidato para afrontar Braga” (?). Continuamos sem entender o raciocínio... Após diversas indagações, Josué confessou que Burity – mesmo com o governo fragilizado - queria eleger seu sucessor no segundo turno, com um candidato seu, ou quem ele apoiasse. E, as esquerdas, também formaria uma chapa. Num eventual segundo turno, PT, PCB; PSB e PCdoB, não tinham outra opção, senão o voto útil em Ronaldo. A luta do poeta era alcançar o segundo turno. Se Braga não vencesse no primeiro, perderia a eleição, sentenciou Josué.

    Contrapomos que a chapa em formação pelo núcleo “Braguista” era mais agregadora. Wilson Braga governador, Enivaldo Ribeiro vice, Marcondes Gadelha para o Senado. O povo iria lembrar-se do governo Braga, da gestão de Enivaldo em Campina Grande e Marcondes Gadelha - além de um bom desempenho no Senado - subliminarmente rememoraria a funesta escolha do povo em 1986, quando foi preterido. Não esqueceriam que Burity foi eleito apoiado por Ronaldo. Finalizando, apontamos o infortúnio e perda de prestígio do MDB, que estava se afundado nos “rachas” pós Constituinte. No Congresso, só o PSDB - recém criado - tinha provocado uma revoada de 60 deputados federais e 09 Senadores (tucanos). A legenda estava à deriva. Ronaldo enfrentaria este desgaste?

    Continuando, buscamos saber quem seria o vice de Ronaldo. “Cícero Lucena” respondeu Josué. É algum parente de Humberto? “Talvez... Distante. Mas, é presidente do Sindicato dos Construtores da Paraíba”. Completamos sua resposta: todos falidos pelos Cruzados da vida. O candidato ao Senado será Antônio Mariz, enfatizou Josué. O que achas? Amigo Josué (interrompemos exclamando) Mariz já vem de duas derrotas consecutivas. Eleições indiretas para Burity (1978) e diretas para Wilson Braga (1982). Burity preside na Paraíba o partido do presidente da república, que acaba de assumir (1990/PMN/Collor). Resta pouco espaço de manobra para avanço das tropas peemedebistas. Entretanto, acreditamos na predestinação, sorte; destino... A autoajuda está em alta: Lair Ribeiro; Paulo Coelho... Eles acreditam na conspiração do universo, em favor dos sonhadores. O poeta gosta deste tipo de literatura? (Rimos).

    Passada as convenções (1990), chapas registradas, a campanha ganhou as ruas. A agressividade do MDB, usando artilharia pesada, foi semelhante a Blitzkrieg Alemã na segunda guerra, que em quatro semanas ocupou toda Europa Central e expulsou os Ingleses em fuga, na retirada de Dunquerque. No horário gratuito do Rádio e TV, de grande audiência na época, o MDB usava de uma brutalidade hedionda impactante, que acuava Braga e Enivaldo e Burity. A menor acusação imputada a Wilson, era a de assassino (caso de Paulo Brandão), crime que ele sequer foi denunciado pela Promotoria. Mas, não contestavam e não sabiam responder à altura. Estavam desaparelhados de assessoria jurídica, e o marketing era péssimo. Piorando o quadro, Wilson e Enivaldo não eram bons oradores.

    No Rádio e na TV, mais de 40 inserções diárias usando “foguetes” rápidos, com os mais diversos tipos de ataques ofensivos e pessoais como: “telefone do comitê do candidato da pistolagem 765.1238”. Calibres das armas usadas no crime de Paulo Brandão. Mexeram com a família de Enivaldo... O passado do seu sogro - enfrentamento das Ligas Camponesas... Homicídios de João Pedro Teixeira, Fuba; Margarida... Nada de ética, respeito, dignidade ou jogo limpo. Fazendo uma analogia do futebol, a campanha se transformou numa “pelada” de bairro, sem juiz. Para o PMDB, a “porrada” era sua tática intimidatória. Abaixo do pescoço, tudo era “canela”. E, tome pau.

    Os grandes Showmícios do MDB eram uma festança. O prefeito de Campina Grande, jovem, vivia seu apogeu como “Cássio Coisa Linda”, mobilizava a juventude de todo o Estado. Crescimento de Braga estagnou no início de setembro, a eleição era no dia 03 de outubro. João Agripino como candidato de Burity, claudicava e percebia que não alcançaria Braga nem Ronaldo. Mas, a “maquina” lhes aquinhoava um percentual expressivo, para levar a disputa para o segundo turno. No dia 03/09/1990 as secções eleitorais de Campina Grande eram um campo de guerra. Uma meninada abaixo de 20 anos fazia corredor Polonês e partiam para os eleitores de Braga, tomavam chapas, vaiavam; xingavam; empurra-empurra... Finalmente apuradas as urnas, Braga 498.763; Ronaldo inimaginavelmente 462.562; João Agripino Maia 137.487; Emília Correia Lima 44.719. Abstenção foi alta...

    Para o Senado, Antônio Mariz (bancado por Ney Suassuna) obteve 490.376, saindo com 28 mil sufrágios a mais que Ronaldo. Marcondes Gadelha (liso) 296.376 praticamente metade dos votos de Braga. Deputados Federais, o PMDB elegeu 04, dos 12. A tragédia foi o resultado para Assembleia Legislativa. o PMDB elegeu apenas 07 dos 36 deputados. As esquerdas 02, e 26 foram do PDT/PFL/PDS, mistura Braga/Burity. Na sequência a imprevista vitória de Ronaldo, único estado do Nordeste que o PMDB elegeu o governador.

  • Eleições 2022 na PB: DISPUTA SERÁ PELO SENADO

    10/01/2022

    Embarcamos no micro período eleitoral, e sua contagem regressiva dos 260 dias para realização do primeiro turno das eleições 2022. Candidatos a governador têm que botar o pé na estrada, para visitarem – pelo menos uma vez - os 223 municípios do Estado. Tarefa itinerante de João Azevedo desde 2016, que vem percorrendo os quatro cantos da Paraíba. Em Palácio, portas abertas para lideranças, atuais e ex-prefeitos.

    Na última sexta-feira (07.01.2022) um homem mau, petista José Dirceu - lobo voraz de gula insaciável pelo erário público - esteve arquitetando uma chapa de oposição na Paraíba, liderada por Veneziano Vital do Rêgo (MDB), irmãos Cartaxo (Luciano e Lucélio) e a filha da atual vice-governadora, que é candidata ao governo pelo PDT (?). Movimento excêntrico, desconectado com a realidade, órfão de apoio popular.  

    Ex-ministro Sérgio Moro, que também circulava pela Paraíba buscando seguidores para fortalecer sua postulação "presidenciável", comentou sobre a presença de “Daniel” ou “Zé Bituca”, passeando nas praias da Capital: "fruto da impunidade reinante no país".     

    A arte da política é semelhante à guerra. Quem motiva tropas são os bons generais. O herói mais “condecorado” das esquerdas paraibanas, que se “voluntariou” neste malogrado Exército da oposição, ainda é o ex-governador Ricardo Coutinho. Por que não está à sua frente? Coutinho derrotou Cássio Cunha Lima (2014) no segundo turno, com 1.125.956 votos. Recorde até hoje não superado.

    Mesmo vencendo no primeiro turno em 2018, João Azevedo obteve 1.119.758 sufrágios. Só três lideranças políticas paraibanas, até o presente, conseguiram ultrapassar a barreira de um milhão de votos. Ricardo Coutinho (duas vezes), João Azevedo em 2018 e Cássio Cunha Lima quatro vezes: reeleição em 2006, eleição para o Senado em 2010; primeiro e segundo turno de 2014.

    Se Veneziano conseguir a proeza de repetir sua votação para o Senado em 2018 (844.786) e João Azevedo conservar o resultado conquistado há quatro anos (1.119.758), sua maioria sobre Veneziano será de 274.972 sufrágios. Os números refletem realidade insofismável. Nas disputas para o Senado Federal, só Cássio Cunha Lima, no distante 2010, quebrou a barreira de mais de um milhão de votos. Onde Veneziano irá buscar esta diferença que o separa de João Azevedo desde 2018?

    Contra fatos...  

    As eleições majoritárias (2022) na Paraíba se restringirão a disputa pela vaga no Senado Federal. Tem quatro postulantes até o momento. O retrógrado Luís Couto - com o discurso “Fidelista” dos anos 60 em defesa da usurpação de terras produtivas – na intenção de depredar o vitorioso Agronegócio brasileiro; Efraim Filho, que busca subir na “garupa” do cavalo de João Azevedo; Aguinaldo Ribeiro desconfortado por pertencer à legenda do presidente Bolsonaro, razões que o põe em rota de colisão com projeto de reeleição do governador.

    A surpresa será Raimundo Lira, candidato de Gilberto Kassab e que dispõe de grande estrutura financeira. É sabedor do custo de uma eleição para o Senado e, se não estiver “blefando”, será eleito em 02/10/2022. Nos seus curtos recados tem mostrado que seu foco é o Senado Federal. Não se envolve nas questões ideológicas, e vai procurar votos na esquerda, direita, centro; extremos...Resta saber o destino de seu companheiro de legenda Romero Rodrigues, que continua na infausta busca pela milagrosa receita de se fazer omeletes sem quebrar os ovos. Para vencer em 2022, quer seja Senado ou Governo do Estado, o candidato tem que sair das urnas com mais de um milhão de votos.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte X)

    06/01/2022

    A campanha de 1988 - eleições municipais de Campina Grande - foi um dos maiores desafios da carreira política de Ronaldo Cunha Lima. Das três conversas que tivemos com o poeta - ao longo de sua existência e larga trajetória na vida pública - admitiu nesta ocasião que temeu uma derrota (1988). Tivemos inúmeros outros encontros. Mas, nestes três momentos coincidentes, o papo foi com o “ser” Ronaldo, vida; sonhos; desilusões; erros; decepções... Sentimentos comuns dos mortais.

    O primeiro destes diálogos “desabafos” foi no aeroporto de Brasília (1989). Ainda minúsculo, e com pequena área de embarque. Nosso destino era São Paulo, voo às 07:30 da manhã. Chegamos às 06:00hs. Nos dirigimos ao café e lá estava Ronaldo (só). Coincidentemente sua viagem também era para São Paulo. Nos cumprimentamos, tomamos o primeiro cafezinho. Oferecemos um cigarro, dispensou. Estava tentando abandonar o tabagismo. Após o segundo café, resolveu fumar metade de um. Nos propôs trocar o café por uma dose do puro malte. Como o papo estava bom, aceitamos. Desde janeiro de 1987, quando deixamos as funções de Superintendente do Jornal da Paraíba, era a primeira vez que nos avistávamos. Estávamos no RN, muito embora finais de semana sempre em Campina Grande.

    Sem rodeios, abordamos diretamente a eleição do ano anterior (1988) e a vitória de Cássio. Tínhamos curiosidade em saber das dificuldades enfrentadas para emplacá-lo como candidato, a partir da família. O mal-estar causado à casa de Ivandro... E como a cidade aceitou o processo sucessório dinástico, de pai para filho? “Foi a única campanha que eu tinha que vencer e vencer, respondeu o poeta. Campina definiria seu líder: restava eu e Enivaldo. Vital, depois de duas derrotas - principalmente a de 1982 - não se soergueria. Os Gaudêncios foram desterrados da vida pública em 1986. Não restavam mais herdeiros dos espólios de Argemiro, Cabral (anos 60). Cássio havia conquistado os jovens, obstinados, brigões; voto fiel e campanha 24hs nas ruas”.

    Continuando acrescentou: “tomaram-me em 1986 a chance de disputar governo do Estado, na ocasião e idade ideal, aos 50 anos. Campina Grande foi humilhada com a decisão de Humberto, preferindo trazer Burity, que não tinha mais para onde ir. Espalharam um boato, sem fundamento, que ele seria o segundo na chapa para o Senado ao lado de Braga. Entrou em desespero, e sem ouvir mais ninguém, trouxe Burity. Desde 1930, Campina Grande arcou com o ônus de sustentar o Estado (impostos). Só teve um governador - nomeado como Interventor - Argemiro de Figueiredo. Nossa postulação ia ao encontro do grande sonho da cidade”. Fizemos uma pergunta alternativa: não teria sido mais fácil, ser o companheiro de chapa de Humberto? Respondeu-nos: “quem tinha esta bola de Cristal em Junho? Ele sequer admitia esta discussão. Iria convidar um “laranja” só para compor. Lembre-se - na boca do povo - uma vaga seria provavelmente do MDB, e outra indiscutivelmente de Wilson Braga”. José Carlos (São Braz) homem rico, ainda era o candidato ao governo. Milton Cabral, milionário, estava no comando do Estado. Os efeitos do Plano Cruzado ainda não eram perceptíveis. Só em meados de setembro, depois das chapas fechadas e em plena campanha, as pesquisas começaram a nos mostrar vitória geral. Até Lira!

    Interferimos no comentário, para ratificar a surpresa. Esqueceram até o Projeto Canaã... A eleição fora atípica, pois seriam eleitos os Constituintes de 1988. Isto acarretou numa enxurrada de dinheiro (MDB), com candidatos milionários patrocinados por grupos empresariais, na busca de eleger seus “testas de ferros” - parlamentares “missão” - para defender seus grandes interesses na nova Carta Magna.

    Embarcamos, trocamos de assentos para continuar a conversa. Desinibido com ajuda do whisky, voltamos a inquiri-lo: ano vindouro (1990) você disputará o governo? “Primeiro teremos que saber quem será o próximo Presidente. Mesmo assim, só se for pela oposição, contra Burity, e se Wilson Braga topar ser o Senador” ... Deu uma longa gargalhada. Continuou: “o desastre da gestão (Burity) não tem mais conserto. Teceu comentários sobre sua relação com o governador, que era formal, sofrível e sem empatia mútua. Funcionava através de “recados”. Nunca lhes deu oportunidade de discutir amplamente sobre “Campina Grande”, projetos e perspectivas. Não ficaria sem mandato, iria para a Câmara, ocupar (1990) a vaga deixada por Cássio. Quanto ao sonho de um Cunha Lima governar a paraíba, Cássio o realizaria. Sobre o “vazio” ou desaceleração repentina quando apeou-se do Poder, ele concordou. Mesmo ainda cedo, já tinha os sabujos da casa de Cássio, e os nostálgicos queixosos da casa de Ronaldo.

    Trechos destas longas conversas serão inseridos oportunamente em outras narrativas. Chegando em São Paulo, aeronave já taxiando na pista para o desembarque, perguntamos finalmente ao poeta se ele tinha noção do feito histórico da vitória de Cássio. “Não entendi, como assim”? Na história das democracias, nunca um pai passou um governo diretamente para um filho. Nos Estados Unidos - 200 anos de democracia - só John Adam – segundo presidente – viu seu filho John Quincy Adam ser eleito 20 anos depois, sexto presidente. George W. Bush foi o segundo, mas, onze anos após este dia, em 2000. Isabelita Perón foi presidente da Argentina, porque era a vice de seu esposo, Juan Domingues Perón. Faleceu um ano depois de eleito (1973). O "Perón" patoense Geraldo Medeiros, passou o mandato para sua esposa Dra. Geralda (1988). A sorte tem sido sua companheira inseparável poeta...Inesperada eleição de vereador, dois mandatos consecutivos como deputado estadual; o “racha” de Vital em 1968, Vital novamente “rachando” em 1982, e as disposições transitórias de Sarney. Conhece outro exemplo no Brasil ou no mundo, de pai passar o mandato para um filho? “Não tinha enxergado por este lado... Ficou alguns segundos reflexivo e disparou: “você esqueceu Burity? Este tem sorte. Foi acordado na madrugada pelos Generais, recebendo o presente de governar a Paraíba. Como deputado federal, um fiasco, não disputaria a renovação de seu mandato (1986). Humberto o procurou e o pôs no governo novamente. Tudo isto sem o mínimo esforço. Como você define isto, sorte?

    O misterioso destino e seus revezes, naquele momento, não permitia vislumbrar quaisquer possibilidade de Ronaldo Cunha Lima se eleger governador, apenas um ano e oito meses depois deste encontro (1990). Mas, talvez estivesse “escrito nas estrelas”.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte IX)

    04/01/2022

    Janeiro de 1983, Ronaldo Cunha Lima assume a Prefeitura Municipal de Campina Grande juntamente com seu vice, Antônio de Carvalho Souza (Carvalhinho). Nomeou seu secretariado, trazendo Edvaldo do Ó para a pasta do Planejamento. Como sua vitória simbolizava mudança geral e radical, toda a equipe de Enivaldo Ribeiro – os que não renunciaram – foi exonerada. O segundo e terceiro escalão eram cargos ocupados pela “meritocracia”, mas foram expungidos, pela onda da “renovação”.

    Seis meses após a instalação do governo, silente expectativa dominava o meio formador de opinião, sobre sua imobilidade. Tomamos a iniciativa de visitar o amigo Edvaldo do Ó, na Secretaria de Planejamento. Indagamos o por que não assumiu a CONDECA, que dispunha de estrutura voltada exclusivamente para o Planejamento da Cidade. Alegou que a CONDECA foi “desertificada” pelas exonerações e iria ser fechada. Perguntamos ainda sobre os principais projetos para Campina. “Se Ronaldo executar os CURA II e III, deixados por Enivaldo, entrará para a história como um dos melhores prefeitos de Campina Grande. Não pediu reservas, a matéria foi publicada. Trinta dias depois, Edvaldo foi exonerado. Segundo nota divulgada, “a pedido” (?).

    A partir de 1983, Campina Grande mergulhou numa crise econômica, que mudou terminantemente sua posição como maior polo abastecedor do interior nordestino. A Paraíba e todo semiárido atravessavam a maior estiagem prolongada da história. A seca que começara a castigar em 1981, tinha ampliado seu quadro de calamidade com a chegada do “bicudo”. Praga surgida no sul dos Estados Unidos, que se instalou em todo o Nordeste, maior produtor de algodão do país. Campina Grande estagnou. Mais de uma dezena de grandes algodoeiras e tecelagens começaram a fechar suas portas. A falta de chuvas levou à falência também as Industrias que beneficiavam o agave (sisal). Não por conta do “bicudo”, mas pela “desertificação” do cultivo em todo o Curimataú.

    O fim destas commodities causou o “efeito dominó”. O grande comércio atacadista da cidade - que abastecia todo o interior nordestino - sem os caminhões que traziam o algodão e voltavam carregados com mercadorias, da miudeza ao eletrodoméstico, começaram a encerrar suas atividades. Desemprego, emigração e êxodo... O poeta não tinha culpa das intempéries, pragas nas lavouras... A angústia amainou em 15/01/1985: o PMDB, seu partido, havia elegido Tancredo Neves presidente. Todas as esperanças se voltaram para uma “ação salvadora” de Brasília. Mesmo assim, o CURA II e III – deixados por Enivaldo – vinha sendo executado. Pavimentação de Ruas, drenagens com canais; esgotamento sanitário...

    O vice-presidente José Sarney foi empossado em 15/03/1985. Tancredo Neves fora hospitalizado na véspera. O tema pré-eleitoral de 1986 já estava em debate na cidade, sobre a volta de Enivaldo, que seria uma “barbada”. A economia do país entrou em colapso com a hiperinflação. Ulisses Guimarães, Presidente da Câmara e MDB - sonhando suceder Sarney e temendo a volta do PDS/PFL ao poder - “empurrou” uma PEC aumentando de quatro para cinco anos o mandato do Presidente, e convocando uma Assembleia Nacional Constituinte para as eleições de 1986. No bojo do projeto, prorrogação de mandatos dos prefeitos eleitos em 1982 até 1988. Sorte do poeta.    

    Final de Janeiro de 1986 a derrocada da economia já tinha causado danos irreversíveis. O governo federal não se sustentaria por muito tempo e seus apoiadores temiam convulsão social, com Intervenção e provável volta dos militares. Em todo o Brasil, carros circulavam com adesivos: “Eu era feliz e não sabia”. Em 28/02/1986 o presidente José Sarney decretou feriado bancário por três dias, trocou a moeda de Cruzeiro para Cruzado. No câmbio, o Cruzado ficou mais valorizado que o Dólar. Implantou a “tablita”, mecanismo de securitização das dívidas. Quem devia um milhão aos Bancos, quitava a conta com dez cruzados. O consumo explodiu. Estados e Municípios triplicavam suas arrecadações a cada mês. Finalmente em 14/05/1986 Ronaldo Cunha Lima inaugurou sua primeira obra - com recursos próprios - que se arrastava desde 1984: o Forródromo, ou Pirâmide, do Parque do Povo.

    Em nove meses, o Brasil desfrutou de um padrão de vida que causava inveja aos Suíços. A oposição no Congresso alertava que o Plano Cruzado seria um “estelionato eleitoral”. O poeta viu a chance de disputar o governo, aproveitando o momento do Cruzado, dinheiro sobrando no MDB e popularidade de Sarney. Brigou em todas as frentes por esta oportunidade. Entretanto, a “vez” era de Humberto - que temendo perder a campanha e ficar fora da vida pública - rachou a oposição, e trouxe o ex-governador Tarcísio Burity como seu candidato. O poeta teria sido eleito. Em 15/11/1986 as urnas conferiram ao MDB uma vitória esmagadora: 22 dos 23 governadores, 38 dos 49 Senadores e 260 deputados Federais, dos 487.

    Como previsto pela oposição, o Cruzado começou a ruir a partir de 17/11/1986. Sarney decretou moratória e tivemos mais três malfadados planos econômicos: Cruzado II, Bresser e Verão. Para amenizar o caos, a grande mídia alimentava a opinião pública apontando solução através da nova Constituição, que foi promulgada em 07/09/1988. Nas “disposições transitórias”, Sarney - desejando eleger seu filho governador do Maranhão - permitiu sucessão para parentes em até primeiro grau. Ronaldo Cunha Lima não hesitou: imediatamente lançou seu filho Cássio – deputado federal eleito com 93.393 mil votos - para sucedê-lo. O episódio desagradou profundamente a casa de Ivandro. Já havia amplo movimento por sua candidatura, que seria a revanche de 1976.

    Ivandro estava no BNDES - Burity no governo - dependia dele para liberar recursos do Projeto Canaã, deixados por Wilson Braga, algo em torno de 90 milhões de dólares. Burity preferia Ivandro e lhes daria total apoio. Cássio era jovem, tinha o futuro (tempo) em seu favor. A Estadualização da FURNE (11.10.87) e criação da UEPB, foi o maior presente que o Clã recebeu de Burity. A FURNE (que era Municipal) estava prestes a fechar, pela inadimplência dos alunos e a suspensão do Crédito Educativo (O FIES dos nossos dias). O ato inspirou o discurso para Ronaldo/Cássio conquistarem a juventude.

    Cássio derrotou Enivaldo (1988). A oposição não se uniu... Ivandro, mesmo machucado, não fugiu à luta. Ronaldo sempre foi seu irmão preferido. Começava uma nova era: CCL. Um vazio imensurável se apoderou do poeta, que temia o ostracismo.

  • Reescrevendo a história: A GRANDE MENTIRA

    30/12/2021

    Exatamente há quarenta e três anos, os 17 Atos Institucionais promulgados entre 1964 a 1969 – incluindo o temido AI-5 – foram definitivamente revogados pelo presidente Geisel. A extinção ocorreu via Congresso Nacional, através da Emenda Constitucional nº 11, aprovada em 13/10/1978, cujos efeitos só entrariam em vigor após 30/12/1978. Este foi o fim dos governos dos Militares: 30/12/1978. Infelizmente, após a chegada das “esquerdas” ao Poder, mudaram a História Oficial, criminosamente através do MEC, usando livros didáticos de História com narrativas falsas demarcando o período dos Governos Militares até 1985, com a posse do Presidente José Sarney.

    Inadmissível fazer “vistas grossas”, ignorar erros, comprometendo a verdade, permitindo que gerações futuras engulam tamanha mentira, fruto da dissimulação das esquerdas - ávidas por “heroísmo” - para justificarem sua incompetência. O pior é observarmos os “canalhas da grande mídia” que neste período eram respeitados - hoje uma velharia venal e sem vergonha - que além de silenciarem, muitos até concordam e defendem o embuste. Toda grande Nação revisa constantemente sua história.

    No XX Congresso do partido Comunista da extinta União Soviética (14/02/56), Nikita Kruschev denunciou a monstruosidade do seu antecessor psicopata Joseph Stalin, que matou milhões de inocentes e êmulos entre 1921 e 1953. Mikhail Gorbachev, quando assumiu o poder em 1985, admitiu o assassinato (fuzilamento) do Czar Nicolau II e toda sua família. Boris Yeltsin, seu sucessor, localizou e mandou exumar os corpos e acompanhou sepultamento na Catedral de Pedro e Paulo em São Petersburg. Em 2008, a Suprema Corte da Rússia os resgatou, admitindo crime do Estado. Vladimir Putin instruiu a abertura de inquérito para identificar os responsáveis diretos pela barbárie, atribuída a Lênin, com apoio de Stalin.    

    No dia 15 de novembro de 1978, o Colégio Eleitoral formado com membros do Congresso Nacional e Delegados Estaduais da ARENA e MDB, elegeram João Batista de Figueiredo Presidente da República Federativa do Brasil. Estavam aptos a votarem 702 membros. Deste total, 11 se abstiveram. O candidato da ARENA (Gen. Figueiredo) obteve 355 votos. Seu opositor escolhido pelo MDB, General Euler Bentes Monteiro, 266 sufrágios. Entre 1º de Janeiro de 1979, até 15 de março (posse de Figueiredo), Geisel desmilitarizou todo o governo. Oficiais da ativa, lotados nos Ministérios, Autarquias e nas centenas de Estatais, voltaram para os Quarteis. Os que estavam na reserva (considerados civis) ficou a critério do novo presidente, sua permanência na gestão.

    Presidente Figueiredo cumpriu com tudo que havia prometido a seu antecessor. Criou o pluripartidarismo, e foi além das expectativas na Anistia cobrada pelos condenados por corrupção a pegarem em armas, para cometer fratricídio e derramar sangue dos seus irmãos, em nome da causa de tomarem o Poder de assalto.

    Oito meses depois (28/08/1979) o presidente Figueiredo sancionou a Lei 6.683/79 concedendo Anistia Ampla Geral e Irrestrita retroagindo e perdoando punidos por corrupção desde 1961. Os presídios de Fernando de Noronha, Ilha Grande e Ilha da Cobras foram esvaziados e fechados. Sem presos políticos, já não havia mais ditadura.

    As greves (1981) “pipocaram” em todo o País. O número de Sindicatos triplicou. Ainda tem Jornalista e historiador pusilânime que cita o presidente Figueiredo como “Governo Militar”, e considera seus seis anos de mandato como “período da ditadura”. Uma falsa narrativa, propositalmente mentirosa, para apagar o gigantesco crescimento do país em 14 anos (1964/1978). Macular a imagem dos militares explicitava o temor de sua volta pelas próprias urnas, como historicamente aconteceu com Peron (Argentina) e o próprio Getúlio em 1950.

    Em 1980, partidos da esquerda estavam burocraticamente se organizando: PC, PCdoB; PSB; PCO... Mas, não dispunham de tempo suficiente para participarem das eleições municipais previstas para aquele ano. Uma Emenda Constitucional adiou o pleito para 1982, sob o argumento de eleições gerais. Figueiredo concordou.

    Após a prorrogação das eleições municipais de 1980 para 1982, o ano de 1981 foi o teste da democracia brasileira, em vigor desde 1º de janeiro de 1979. O País ficou sendo regido com a maioria dos artigos da constituição de 1947, feitas algumas alterações em 1977, consolidando o Ato Institucional que pôs fim a República dos Estados Unidos do Brasil – onde cada Estado tinha sua Carta Magna independente do Governo Central – efetivando a República Federativa do Brasil.

    No governo Figueiredo (1979/1985) não houve cassações de mandatos, nem prisões políticas. Movimentos grevistas “baderneiros” aconteciam no quotidiano. Não há registros do uso da força durante seis anos. Onde estava a ditadura militar que a “estória” das esquerdas insiste em afirmar que a “redemocratização” só ocorreu em 1985? Absurdo! Sarney deveria testemunhar em suas memórias estes momentos por ele vividos - que ora aqui escrevemos – em forma de registro para a posteridade.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte VIII)

    16/12/2021

    O desalento dos Cunha Lima (1981) sinalizava abandono em definitivo da vida pública. Só restava Ivandro - mesmo respeitado e admirado por seus pares no Senado da República – que não tinha o comando do partido. Era o suplente de Rui Carneiro, que assumiu em 1977 e seu mandato se encerraria no ano seguinte (1982).       

    Na Paraíba, o governador que assumiu em 15/03/79, José Tarcísio de Miranda Burity, vinha realizando uma gestão inovadora, futurista, conquistando admiração em todos os segmentos da sociedade, com avançados programas de obras, serviços e ações sociais. Entretanto, os “cabeças” da sua brilhante equipe de Secretário, haviam desfalcado Enivaldo Ribeiro. Inclusive um dos principais, José Silvino Sobrinho.

    Em quatro anos (1977/1981) Enivaldo Ribeiro ganhou visibilidade estadual. As eleições para governador do ano seguinte (1982) seriam diretas. Os Gaudêncios (importante grupo político de Campina Grande influente no Cariri e Curimataú) lançaram-no candidato a governador. Formaram a “Frente de Campina”, movimento suprapartidário, com apoio do “Grupo da Várzea” e lideranças de João Pessoa. Enivaldo estava eleito governador - um ano antes do pleito - episódio que o fez tirar o foco da sua sucessão, não preparando um candidato para 1982.

    Setembro de 1981, a fatalidade começou a operar suas enigmáticas mudanças no curso da história. Presidente Figueiredo, após sofrer um infarto, licenciou-se do cargo e viajou com destino a Cleveland, nos Estados Unidos, para fazer uma cirurgia de ponte de safena. Assumiu o vice Aureliano Chaves. O Congresso aproveitou a oportunidade e apresentou uma PEC, derrubando a sublegenda. Aprovaram para o Governo do Estado. Para os prefeitos, houve resistência. Com a volta de Figueiredo, o tema saiu da pauta.

    Após queda da sublegenda a “Frente de Campina” procurou imediatamente Burity. Mas, o governador havia perdido o controle do PDS, no tumultuado processo da troca do nome da sigla. A agremiação estava nas mãos do deputado Soares Madruga, Secretário Geral do Partido, com os Livros de Atas escondidos a sete chaves. Madruguinha recusou-se a dialogar com a Frente de Campina. O movimento esfriou ...

    Humberto Lucena deu um xeque-mate nas pretensões do Clã Cunha Lima de comandar o PMDB. Trouxe João Agripino e Antônio Mariz para a legenda, garantindo-lhes o direito de indicarem a chapa majoritária (1982). O neto de Solón de Lucena assumiu definitivamente o partido, que comandou até sua morte. Se Ivandro “topasse”, teria que enfrentar Burity, já com campanha nas ruas (blefando) para o Senado, exibindo 81% de aprovação de sua gestão. Quem iria enfrentá-lo? Ivandro? Jamais. Seria loucura.   

    Janeiro de 1982, todos ainda queriam ser o candidato de Enivaldo. Raymundo Asfora (seu vice), os Gaudêncio; Edvaldo do Ó ... até William Arruda, depois de 14 anos fora da vida pública, queria voltar a ser prefeito. Dia 19/01/1982 foi promulgada a Lei nº 6.978/82 que estabeleceu o voto vinculado, “engessando” a opção do eleitor, que só poderia votar numa única legenda, escolhendo de vereador a prefeito, deputado estadual; deputado federal; governador do estado e senador. Em março de 1982 o governador Tarcísio Burity renunciou e passou o governo para seu vice, Clóvis Bezerra. Continuou “blefando” que disputaria o Senado.

    Humberto Lucena lançou Antônio Mariz para o governo e João Agripino para deputado federal. Em Campina Grande, Enivaldo estava acossado, sofrendo pressões para escolher um nome capaz de agregar todos que compunham seu enorme bloco. O MDB procurava a casa de Ivandro, que esperava a opinião de Ronaldo. Junho se aproximava, período das convenções e início oficial da campanha. Delfim Neto aprovou no Congresso o “FINSOCIAL” (25.05.1982) contribuição temporária que se tornou lei até hoje (COFINS). O dinheiro seria fonte de financiamento de campanha do PDS.

    Vence eleições quem anda mais, erra menos e gasta bem. Enivaldo Ribeiro cometeu todos os erros – até os inimagináveis – para que Ronaldo crescesse em cima de seus disparates. Ficou “queimado” com os meios universitários quando atropelou a eleição de Moaci Carneiro como Reitor da FURNE e usou um ato de força, nomeando Vital do Rêgo como Pró-Tempore. Ocorreram até greves. Margarida Mota, Moací Carneiro e Jeremias Jerônimo arrastaram a FURNE e formaram linha de frente na campanha do poeta. Wilson Braga escolheu o respeitado empresário José Carlos da Silva Júnior para ser seu vice. Burity surpreendeu a todos, quando cedeu seu lugar para o Senado ao deputado federal Marcondes Gadelha, provocando baixa expressiva no MDB-PB. E foi eleito com a maior votação da história (proporcionalmente) até hoje.

    Reuniões diárias eram realizadas para chegarem a um consenso sobre “quem” seria o candidato de Enivaldo. Foram às convenções divididos Vital e William Arruda, que saiu candidato pelo PDS-1, Vital no PDS 2. Enivaldo não teve maioria no Diretório? Argumentos para William Arruda desistir? Manter os Gaudêncios à frente da campanha? Segurar Raymundo Asfora? Fiel da balança, que desprestigiado declarou apoio a Ronaldo Cunha Lima. Em troca, Ivandro lhe deu o sonhado mandato de deputado federal. Edvaldo do Ó entra no jogo, apoiando Ronaldo. Mesmo assim, a maioria da população ainda acreditava que Enivaldo elegeria seu sucessor. William Arruda descobriu que estavam enganando-o. Critérios para distribuição do FINSOCIAL determinavam 60% para o 1º da legenda, e 40% para o segundo. Vital estava ficando com os 60%. Convocou uma coletiva, e não só desistiu, mas pediu que votassem em Ronaldo.

    Como o voto era vinculado, Wilson Braga e o empresário José Carlos da Silva Júnior foram vítimas do “voto camarão” em Campina Grande. Dados do arquivo do companheiro Dagoberto Pontes: Mariz 39.760 votos, Wilson 31.530, maioria de 8.230 sufrágios. Quanto a Vital, a maioria de Ronaldo foi de 12.054 votos. Ronaldo voltara a ser prefeito, repetindo 1968: Vital do Rêgo “rachando” mais uma vez a maioria, desagregando o gigante PDS de Campina, cometendo todos os erros e contradições inexplicáveis, como a falta de apoio e diálogo com seu sogro Pedro Gondim, que foi candidato ao Senado na chapa de Mariz. Como votou D. Nilda? Contra seu pai, ou seu esposo? O tropeço involuntário de Enivaldo (1982), consolidou a liderança do Clã Cunha Lima na cidade, que comandou por 22 anos ininterruptos.

    Na sequência, conquista do governo, volta do Clã ao Senado e primeiro racha na família já Oligárquica.  

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte VII)

    10/12/2021

    A partida súbita, repentina e inesperada do amigo Aluísio Cunha Lima (29/09/79) desfalcou o Clã, já abalado com o dano irreparável provocado pela tragédia que vitimou Fernando (28/09/78), um ano antes. Restava Ivandro, no Senado da República, e Ronaldo, que já tinha readquirido seus direitos políticos, suspensos em 1969.  

    Atônito diante do indecifrável mapa do destino, o poeta não sabia por onde começar, ou recomeçar. Ficaria no Rio ou voltaria para A Paraíba? Deve ter lido José Américo de Almeida (A Bagaceira) e se inspirado na frase cunhada pelo imortal da literatura: “Voltar é uma forma de renascer, ninguém se perde nos caminhos da volta”.

    Nos anos cinquenta do século passado (XX), quem não pertencesse ou descendesse de uma família polÍticamente oligárquica, só havia um caminho para ingressar na vida pública e conquistar uma vaga como agente político: ser líder estudantil. Fernando Cunha Lima foi o primeiro do Clã a se tornar líder estudantil. Eleito e reeleito presidente do CEC-Centro Estudantil Campinense, no início dos anos 50. Estabeleceu liderança e foi sucedido por seu irmão Ivandro, depois Ronaldo, no caso já como vice-presidente. “Espinho que tem de furar, mesmo pequeno mostra a ponta”. Os Cunha Lima não esconderam desde o movimento estudantil, que espaços ocupados não se abdica nem se regateia. Não se aceitam “composições”, só “adesão”.

    Nas eleições municipais de 1959 Campina Grande testemunhou uma disputa de titãs. Talvez tenha sido o pleito mais “esbanjador” da Rainha da Borborema. Dois banqueiros disputaram a Prefeitura: Severino Cabral x Newton Rique. Ronaldo Cunha Lima, com 23 anos, candidatou-se a vereador pelo PTB. Seus irmãos mais velhos consideraram loucura, aventura e precipitação. O poeta, com apoio da classe estudantil e dos inúmeros amigos conquistados em suas turnês quotidianas nos bares da cidade - não importando o bairro ou classe social - conseguiu surpreender todos, obtendo 950 votos e se elegendo. Sorte de principiante? Talvez...Teve uma brilhante atuação no legislativo mirim, graças à sua retórica em verso e prosa.

    Sonhava com voos mais altos. Entretanto, evitando atritos domésticos não os externava no ambiente familiar. Em 1962, mais uma vez – sem ouvir conselhos – lançou-se candidato a deputado estadual. A família vinha prosperando... Aluísio já era lojista, Ivandro era dono de um Cartório e Fernando tinha se tornado um hábil profissional em movimentar ativos financeiros, na área de captação e investimentos. Já dispunham de meios para ajudar o poeta, financiando pequena estrutura em sua nova empreitada. A sorte já não seria de principiante. Ronaldo elegeu-se deputado estadual. O Clã começou a ser respeitado pelas tradicionais famílias e lideranças políticas da cidade.

    Em 1963, eleições municipais, o prefeito de Cabaceiras, José Aurélio, convidou Fernando Cunha Lima – já proprietário e latifundiário no município -  para sucedê-lo. A eleição seria um passeio... Ronaldo discursando em versos, Fernando um grande orador; terra de Félix Araújo, com quem tinham laços políticos, e apoiados pelo prefeito? Não tinha como perder. Os irmãos Cunha Lima se uniram e entraram na luta determinados a vencê-la. Mas, por ironia do destino, o impossível aconteceu: foram derrotados. Fernando perdeu para Abdias Aires, que a partir de então tornou-se um líder por décadas na cidade.

    Volta a questão mística do destino. Se Fernando tivesse sido eleito prefeito de Cabaceiras, jamais teria alcançado o sucesso como empresário empreendedor, importador e exportador; aberto espaço político para a família em nível nacional. Teria ficado no tamanho e dimensão de uma liderança municipal do Cariri Paraibano.

    Os irmãos Cunha Lima cresceram rapidamente em seus projetos pessoais. Aluísio, Fernando, Ivandro; Roberto. Em 1966, Ronaldo vai à luta para renovar seu mandato de deputado estadual. O maior memorialista político do Estado, nosso amigo médico Alfredo Lucas, confirmou a estrondosa votação de Ronaldo: o segundo do Estado, perdendo apenas para Clóvis Bezerra, posteriormente ex-governador da Paraíba.

    Chegamos ao ano de 1980. O destino do Clã Cunha Lima estava lançado. Como anteviu Aluísio, após a morte de Fernando, Humberto Lucena iria tomar a frente do MDB-PB. Era neto de Solon de Lucena, que governou a Paraíba nos anos 20. Ronaldo iria ou não ser candidato, para enfrentar o indicado de Enivaldo?

    A “sorte” mostrou que seria sua companheira inseparável. Logo que se instalou a nova legislatura (março 1980) o deputado federal Anísio de Sousa (GO) apresentou uma PEC, para prorrogar o mandato dos prefeitos e vereadores eleitos em 1976, até 1982. A justificativa era a permissão para criação de novas legendas, e não teria tempo suficiente até 15 de novembro. O Palácio do Planalto simpatizou com a ideia da eleição geral de vereador a senador da república e diretas para governos estaduais. Com maioria, o governo aprovou a PEC. Surgiram o PT, PTB, PDT e PP. Ronaldo escapou de uma provável derrota... Teve tempo para se estruturar, acompanhar seu irmão Ivandro no Senado, e confortar a família, adaptando-os a conviver com as perdas de seus irmãos em 1978/1979.  

    Na sequência, eleições 1982, instalação do Clã e o início dos 22 anos de comando dos destinos de Campina Grande.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte VI)

    08/12/2021

    O mês de dezembro de 1978 teve um verão com noites quentes, longas e insones para a classe política brasileira, quer seja governo ou oposição (Arena/MDB). Uma reviravolta na história do País tinha data e hora marcada para acontecer, até o dia 31. Presidente Ernesto Geisel tinha promulgado a Emenda Constitucional nº11, em 13 de outubro – trinta e dois dias antes do pleito de 15 de novembro - revogando todos os 17 Atos Institucionais que se sobrepunham a Constituição desde 1964, inclusive o temido AI-5. Todavia, só entraria em vigor a partir de 01/01/1979.

    Oposição e esquerdas levantaram tese que a Emenda era uma “cilada clientelista” para recuperar momentaneamente a popularidade eleitoral do regime. Queriam assegurar maioria na Câmara e Senado, mesmo com Senadores Biônicos e ampliação das bancadas do Norte/Nordeste. Contrargumentavam indagando: por que esperar até 31 de dezembro? Em 15 de novembro fizeram ampla maioria no Senado. Na Câmara, acrescentaram apenas cinco deputados à atual bancada da ARENA. Havia muito ceticismo... Não acreditavam na abertura política com redemocratização.

    No dia 29 veio o susto. Estávamos no cafezinho São Braz com Aluísio Cunha Lima – já era Calçadão – por volta das 20:00, quando de repente o ambiente ficou lotado. Cervejaria Flórida permanecia aberta com todas as mesas ocupadas. Formaram-se diversas rodas de bate papo... A voz do Brasil acabara de noticiar que o Presidente Geisel havia usado o AI-5. Extinguiu a CGI – Comissão Geral de Inquéritos, parturiente dos IPM (Inquéritos Policiais Militares), processo estabelecido para cassar e prender comunistas e corruptos. No mesmo ato, abolia também o AI-16, acabando com os banimentos. Acaloradas discussões foram até a madrugada. Pessoas que nunca tinham frequentado o papo, estavam por lá. Ninguém se arriscava opinar. “Figuras” conhecidas como suspeitas de serem informantes, mostravam-se enigmaticamente sorridentes.

    Nos afastamos do local e comentamos com Aluísio sobre possibilidades de retrocesso. Vão fechar tudo? Se todos os 17 Atos seriam extintos em dois dias, por que “pinçar” só o 16? “Não vai acontecer nada”, contrapôs o amigo. “Tudo ocorrerá como Fernando falou. Se extinguiram a CGI, como irão cassar mandatos sem IPM”? O Congresso estava em recesso de final do ano, o senador Ivandro Cunha Lima deveria estar na cidade. Após a tragédia de Fernando, Aluísio se omitia em falar sobre política. A curiosidade nos impeliu a abordá-lo: “Ivandro deve saber de algo... Se vai acontecer ou não o que estão comentando”. Aluísio, com gesto de impaciência, respondeu que o último a saber seria Ivandro, era do MDB.

    Dois dias depois, 31/12/1978, a TV Borborema anunciou durante todo o dia, em sua programação, uma Edição Especial do programa Confidencial “ancorado” por Chico Maria, que iria ao ar às 00:01.  

    Após o apagar das luzes, Chico Maria ao vivo apareceu ao lado de Ronaldo Cunha Lima. A Emenda nº 11 entrará em vigor. Mesmo ainda faltando alguns meses para Ronaldo terminar seu período de dez anos de suspensão dos seus direitos políticos, sem AI-5 não havia mais “cassados”. O poeta se dirigiu a Campina Grande bastante emocionado. O estúdio estava lotado por seus ex-secretários e colaboradores de 1968... Mas, não falou que seria candidato a Prefeito no ano seguinte (1980), quando terminaria o mandato de Enivaldo Ribeiro. Chico perguntou se teria coragem de repetir 1968, ele disse que sim. E que traria toda sua equipe com ele – exceto um – para concluir o projeto interrompido. Vez por outra, as lágrimas brotavam, a voz embargava...

    Até 15/03/79, quando Geisel passou a faixa presidencial para Figueiredo, os acontecimentos e surpresas do dia a dia – sem o AI-5 – fizeram todos esquecer a velha política “paroquiana”. Cinema sem censura... Capitólio e Babilônia lotavam todos os dias. Músicas proibidas tocando no rádio, revistas pornográficas expostas nas bancas ao lado da Play Boy... A sensação entusiástica expressada pela população jovem era semelhante a quem acabara de atravessar o deserto e ter chegado num lago em meio a pradarias verdejantes. De todos os governos militares, Geisel foi o que mais criou Empresas Estatais. Seus quadros dirigentes eram formados por “Militares da Ativa”, a partir de Major. O próprio Geisel exonerou todos, e os levou de volta à Caserna.

    Meados de Junho, com o povo já se acostumando à democracia, o tema político voltou a pauta: eleições para prefeito e vereadores ano seguinte, 1980. Infelizmente, o amigo Aluísio estava a cada dia mais deprimido. Enviou o primo Élcio Cunha Lima para o Rio Grande do Sul para gerenciar uma Indústria de Carrocerias que era de seu irmão Fernando. Checar outros ativos e imóveis, que havia dúvida se ainda existiam. Fernando foi um dos sócios de Tião Maia - o Rei do Gado no Brasil – e foram os primeiros a importarem a raça Nelore, para abate. Aluísio não tinha noção do tamanho do rebanho, nem onde se encontrava.

    Mesmo assim, certa noite o provocamos: algumas lideranças “emedebistas” estão planejando a volta de Ronaldo ano vindouro (1980). A resposta foi ríspida. “Estão todos cegos, ou não querem enxergar o volume de obras que o prefeito (Enivaldo) está fazendo”. A cidade e tempo são outros, diferentes de 1968. Passaram-se dez anos, e o eleitorado se não duplicou, triplicou. Quem terá coragem de enfrentar um candidato apoiado pelo Prefeito? Um milionário? Ronaldo não tem dinheiro. Pela estrutura deixada por Fernando, e seus votos de Campina, se não disputar uma vaga de deputado Federal pelo Rio em 1982, terá chances aqui. Mas logo agora (1980) é utopia.

    Na manhã do dia 28 se setembro de 1979 – exatamente um ano do trágico assassinato de seu irmão Fernando - um infarto fulminante levou nosso amigo Aluísio para outro plano. Era ainda muito jovem, tinha apenas cinquenta anos. Mas, um guerreiro cansado. Foi outra tragédia na família... Um balde de água fria, na “fervura” da pré-campanha de Ronaldo – já ebulição - projeto de voltar a PMCG.  

    Na sequência, elemento “sorte”, desacertos de Enivaldo, racha de Asfóra e volta triunfal de Ronaldo.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte V)

    06/12/2021

    O assassinato de Fernando Cunha Lima provocou grande comoção em Campina Grande e todo Estado. Silêncio profundo abateu-se sobre os habitantes da Rainha da Borborema, amargurados pela tragédia, que trouxe sentimento de consternação e dor.

    Imediatamente surgiram boatos de que o crime tinha sido obra dos Militares. Na época “suspeitos de sempre” - por tudo de ruim que acontecia no país. A rua Monte Santo e Cemitério lotado. Carros de som reproduziam discursos de despedidas dos oradores presentes. O candidato a deputado federal Marcondes Gadelha, levou a multidão às lágrimas. Acompanhamos tudo ao lado de William Tejo, que tinha voltado ao batente, atendendo nosso convite, então Gerente da Sucursal do Correio da Paraíba.

    Saímos após o encerramento das exéquias com Tejinho, e fomos nos confortar com alguns goles de conhaque. Ele iria escrever um artigo, sob a ótica de crime político. Naquele momento, não havia outra explicação. Pedimos na ocasião cautela. Iríamos conversar com Aluísio e saberíamos o que estava pensando a família, sobretudo ele, o líder (Alpha) que esteve sempre na retaguarda. O momento era de dor imensurável. O senso de oportunidade nos recomendava esperar a hora exata. Nada mudaria o trágico acontecimento. Palavras de conforto, não repararia o dano.

    Dia seguinte ao sepultamento, no final da tarde, Aluísio nos ligou e nos convidou para nos encontrarmos e conversarmos. Iria à casa de seu tio João Cunha Lima – chefe do Cartório de Ivandro que funcionava na rua Afonso Campos – seu amigo e confidente, com quem tratava os assuntos de família. Passou no Calçadão e fomos para outro local.

    Sua aparência nos chocou. Pálido, petrificado, com aspecto ausente... Numa linguagem rasteira, a “ficha ainda não tinha caído”. Perguntamos se já tinha sido confirmado o que a cidade comentava: atentado político. Não, respondeu de imediato. Nada de política. Quem o matou foram seus sócios, picaretas que ele os considerava como amigo e parceiros de negócios. Conspiraram contra ele. A Polícia já tem vários suspeitos. Mas, foi alguém muito próximo. Apesar de não ter guarda-costas ou seguranças, Fernando era precavido. Conversamos longamente e no final nos disse que estava com viagem marcada para o Rio, para cuidar do espólio. Eram muitos e grandes negócios. Fernando tinha crescido com rapidez, e não teve tempo de se organizar.

    Aluísio esteve fora por quase todo o mês de outubro. Quando ocorreu a tragédia, restavam apenas cinquenta dias para as eleições de 15 de novembro. O MDB-PB estava literalmente destroçado. Em dois anos havia perdido Janduhy Carneiro, Petrônio Figueiredo, Rui Carneiro e seu sucessor que ressuscitou a legenda Fernando Cunha Lima.

    Com a lacuna deixada pela ausência de Fernando no comando da campanha, Humberto Lucena foi derrotado. Aliás, diretamente contra Ivan Bichara perdeu o pleito. O ex-governador obteve 303.154 votos, contra 269.795 de Humberto Lucena. Mas, o MDB havia lançado duas sublegendas: o vereador Ary Ribeiro e João Bosco Braga Barreto. O assassino Farah era filho ou sobrinho de um Gen. do Exército da reserva. Para teoria da conspiração, Farah estava a serviço dos Militares.

    Ary Ribeiro se elegeu vereador (MDB) dois anos antes (1976) com 2.903 sufrágios. Para Senador da República, as urnas de Campina Grande despejaram uma avalanche de votos totalmente imprevisível: 48.784. Seu discurso era sobre o assassinato político de Fernando Cunha Lima. Tinha sido Delgado na cidade, fez um bom trabalho, conquistou o respeito da população que lhes pôs na Casa Félix Araújo. Quando ele falava que Fernando havia sido assassinado, o povão acreditava no Delegado. João Bosco Braga Barreto foi na mesma linha, e de modo mais contundente, cobrando de Ivan Bichara o que ele não tinha realizado por Cajazeiras, terra natal de ambos. Saiu das urnas com 50.032 votos. Somados os votos das sublegendas - Ivan Bichara não tinha sublegenda - perdeu para Humberto. Corrigindo: a ARENA (303.154) e MDB (368.611) Quem venceu foi o MDB, maioria de 65.457, não Humberto.

    Marcondes Gadelha, desconhecido em Campina Grande e sem apoiadores, só pelo discurso no sepultamento de Fernando, a cidade lhes presenteou com quase 13 mil votos. Recorde até então, obtido por um deputado federal na cidade. A “estrutura” financeira de Ary e Bosco, estavam pagas por Fernando, antes de sua trágica partida.

    Após as eleições, no final de novembro, reencontramos Aluísio. Desta vez, percebemos seu estado emocional. Abalado, machucado e deprimido. Os suspeitos já estavam presos. José Carlos Succar Farah, sócio minoritário, porém de confiança de Fernando, que era Presidente da ITN Trading Company S.A., Holding que comandava 18 empresas de exportações. O comparsa de Farah, era José de Abreu Ferraz, que tinha uma revenda de veículos importados. Trabalhava com dinheiro de Fernando.

    Neste longo relato, Aluísio descreveu sua chegada ao Rio, e o quadro devastador de “terra arrasada” que encontrou. O rombo na Trading era gigantesco. Desapareceram todos os “haveres” recebíveis, e só constavam dívidas vencidas e vincendas. Inúmeros contratos de gaveta (promessa de compra e venda) pertencentes a Fernando, não tinham sido encontrados. Letras de Câmbio - uma espécie de cheque ao portador – que o governo Collor de Mello acabou, era um papel seguro neste tempo. Servia como reserva, ou moeda para negócios imediatos. Fernando tinha falado a Aluísio quanto dispunha. O encontrado foi muito aquém. A família desconhecia outros locais onde ele guardava documentos. “Roubaram e mataram meu irmão”, confessava Aluísio, até o dia em que também partiu, antes da missa de primeiro aniversário pelo falecimento de Fernando. Viveu estes poucos dias, na busca de recuperar parte do patrimônio do irmão. Sua angústia e amargura aumentava a cada dia, pois mesmo que a Justiça condenasse os assassinos, ele já tinha os tinha sentenciado. A vingança era uma questão de honra inegociável. Não recuaria nem a pedido do criador. O plano já estava elaborado e em curso.

    Tentando confortar o amigo, sugerimos que nem tudo estava perdido. Ivandro estava no Senado. Bastidores de Brasília apostavam na promessa de Geisel de revogar o AI-5 até o final de dezembro. “Política na família nunca mais”. E Ronaldo? indagamos. “Se ele quiser voltar, que seja pelo Rio de Janeiro. Na Paraíba não”.  

    Na sequência, a morte de Aluísio, volta de Ronaldo, elemento “sorte”. Brigas, mágoas e rompimento no Clã.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte IV)

    03/12/2021

    O ano de 1978 foi de temor, muitas dúvidas e boatos desassossegadores no Congresso Nacional. A Paraíba, particularmente Campina Grande, foi marcada por uma tragédia brutal e hedionda, que arrancou os alicerces do Clã Cunha Lima, em construção. O Exército dividido, maioria dos Quartéis querendo o recrudescimento do regime. General Sílvio Frota, Ministro do Exército, pretendia ser o sucessor de Geisel, apoiado por expressiva parte das Forças Armadas e da ARENA. Foi exonerado e preso em domicílio. Geisel trocou quase todos os Comandantes, a partir do seu Chefe do Gabinete Militar, General Hugo Abreu, o homem que acabou com a guerrilha do Araguaia.  

    Contra tudo e quase todos, lançou o General João Batista Figueiredo, Chefe do SNI – Serviço Nacional de Informações, como seu candidato. Chamou as lideranças da ARENA – partido que dava sustentação ao governo no Congresso – e os fez engolir “goela abaixo” sua excêntrica escolha. Um candidato do SNI? Órgão que aterrorizava todo o país? Tinha Jarbas Passarinho, Costa Cavalcanti, Mário Andreazza... Que eram Militares e políticos, abertos ao diálogo, defensores da transição que vinha sendo conduzida por Petrônio Portela: “Distensão”. Mas, os Generais que ficaram ao lado de Geisel, foram enfáticos: “não aceitavam civil, nem batiam continência para Coronéis”. Temendo mais uma crise, Geisel promoveu Figueiredo para quatro estrelas, e o pôs na reserva.

    Nosso termômetro era Aluísio Cunha Lima, que conversava com Fernando e nos transmitia os acontecimentos de bastidores. Fernando havia assegurado a Aluísio que boatos de retrocesso não passavam de “escaramuças”. As eleições estavam asseguradas, e os Militares “descontentes” iriam trabalhar sorrateiramente o nome do General Euler Bentes Monteiro, como adversário de Figueiredo, candidato pelo MDB. Todavia, o Colégio Eleitoral não se resumia ao Congresso Nacional. A ARENA elegeria Figueiredo. Euler Bentes tinha sido voz dissidente do “pacote de Abril”.

    No apagar das luzes de 1977, Aluísio nos ligou e pediu para irmos até sua loja na Rua João Pessoa. Lá nos mostrou o Contrato Social da CLIVEL- Cunha Lima Veiculos Ltda. Empresa recém fundada, que seria Concessionária da FIAT em Campina Grande, João Pessoa; Natal e Mossoró. Aureliano Chaves, governador de Minas Gerais, tinha trazido a FIAT para seu Estado, arrancando-a de última hora do ABC Paulista.  Fernando Cunha Lima, tinha conseguido através de sua recomendação, estas quatro Concessionárias. Na ocasião, nos ofereceu a função de gerente no Rio Grande do Norte. Sabia que gostávamos do Jornalismo. Mas, argumentou que seria uma experiência diferente, que se eu não me encontrasse no ramo, poderia voltar a fazer o que gostava.

    Milton Cabral (Senador da República) entrou na briga com Fernando pelas concessões de João Pessoa e Campina Grande, com a SIBRAL Veículos. Em Junho a FIAT decidiu por Milton Cabral. Levantamos a hipótese, que deveria ter o “dedo” dos Militares na escolha. Não, respondeu Aluísio. Foi questão “cadastral”. Patrimônio apresentado por Milton Cabral, ninguém possuía na Paraíba. Só na Av. Vieira Souto (Rio de Janeiro), na época o metro quadrado mais caro do planeta, Milton tinha 22 apartamentos e a maioria “coberturas”. Propôs antecipar pagamento referente a dois anos de quotas à vista. Até este dia, não sabíamos que Milton Cabral era genro de Drault Ernani, um dos homens mais ricos do Rio de Janeiro. Banqueiro, maior acionista da única Refinaria de Petróleo privada do país na época (Manguinhos); dono do Recreio dos Bandeirantes... Muito influente na política nacional. Para uma multinacional, o perfil de Milton suplantava Fernando. Mas, o Rio Grande do Norte permanecia com a CLIVEL.

    Em Junho(1978) ninguém conseguia mais se aproximar de Fernando Cunha Lima. Onde ele estivesse - em Campina Grande ou João Pessoa - sede do comando da campanha, tendo à frente o ex-ministro Abelardo Jurema, tinha uma imensa fila que queria falar com ele. Todos prontos para apoiá-lo, e muitos queriam disputar uma vaga na Assembleia Legislativa com seu apoio. Humberto Lucena não desgrudava dele. Lançou-se candidato ao Senado, imaginando que enfrentaria Milton Cabral e não Ivan Bichara, que se licenciou do governo para disputar uma das duas vagas. Milton era candidato dos interesses petrolíferos do sogro bilionário. Teria derrotado Humberto.

    Saudoso gênio e intelectual Machado Bittencourt, Cineasta, Fotógrafo, Historiador e Jornalista, foi contratado por Fernando Cunha Lima para produzir todo material audiovisual da campanha. As fotos coloridas vieram da Editora Bloch (Revista Manchete). Todo tipo de equipamento foi fornecido por Fernando. Câmeras Fotográficas importadas, filmadoras de 08 e 16 milímetros... A campanha seria documentada para posteridade, mostrando o início de uma carreira política de longevidade. Estúdio foi montado num galpão construído ao lado da casa de Machado, no final da Rua João Suassuna. Após a campanha, iria para o Rio, realizar seu sonho de produzir bons filmes.

    Dia 1º de Setembro (1978) foi eleito indiretamente pela Assembleia Legislativa, Tarcísio Buriti para o Governo do Estado e Milton Cabral para o Senado Federal. Ainda em Setembro (15), o Colégio Eleitoral elegeu João Batista Figueiredo presidente, pela ARENA, com 355 votos. Euler Bentes Monteiro pelo MDB obteve 266 sufrágios. Restava só 15 de novembro, para o eleitor indicar Deputados Federais, Estaduais e um Senador. 26 de setembro a noite, Fernando Cunha Lima deixou seu escritório no Rio, e foi jantar com sócios e amigos. Não apareceu no dia seguinte. Dia 28 pela manhã encontraram seu corpo a 50 km da cidade. Destino ou acaso? A notícia paralisou a Paraíba, o Rio e teve repercussão em todo país. Havia dúvidas... Procuramos imediatamente Aluízio, mas não o encontramos. À tarde veio a confirmação. Abelardo Jurema reconheceu o corpo no IML. Presumimos que o projeto político do Clã – mesmo com Ivandro há dois meses no Senado - havia sucumbido com a vítima, que foi sepultada ao lado dos sonhos de muitos. Por outro lado, mesmo morto, levou outros a vitória. Na sequência, “Fênix” ressurge das cinzas, racha na família; sorte ou destino, determinando o curso da história do Clã.  

  • HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte III)

    30/11/2021

    O ano de 1977 foi marcado por grandes inquietações políticas no cenário nacional. No dia 1º de Abril, o presidente Ernesto Geisel surpreendeu o país, fechando o Congresso Nacional. O AI-5 - arma de defesa dos Militares - sem uso desde 31/12/69, foi acionado para alterar a legislação. Fazer mudanças no Poder Judiciário - impedidas pelo Senador Paulo Brossard - e uma Emenda Constitucional que ampliava vagas na Câmara dos Deputados – beneficiando Estados do Norte/Nordeste – criando também mais uma vaga para o Senado (por Estado) através das eleições indiretas, juntamente com governadores ano seguinte (1978).  O episódio ficou conhecido como “pacote de abril” e os novos Senadores, “qualificados” pejorativamente pela mídia como “Biônicos”.

    Em meio a todo o pandemônio, Aluísio Cunha Lima nos convidou para ir ao aeroporto João Suassuna receber Fernando, que vinha no seu próprio Jatinho, acompanhado do deputado federal Humberto Lucena e do ex-ministro Abelardo Jurema. Nos dirigimos para uma granja, de propriedade de Aluísio, localizada nos Cuités. Hoje não sabemos mais se ainda é granja, ou área urbana. A presença de Fernando era muito marcante. Possuidor de carisma tão impactante quanto Ronaldo, porém se expressava de forma absolutamente distinta. Dominava o ambiente, centralizava a discussão...Todos queriam apenas ouvi-lo. Explanou sobre geopolítica, macroeconomia; política internacional; a acelerada falência da Rússia e leste Europeu - fato ainda ignorado por todos - e o “milagre Japonês” ... Na época, o Japão estava para o mundo como hoje está a China. Era a segunda maior economia do Ocidente.

    Um otimista que transmitia segurança. Escutamos e ficamos boquiaberto com seus relatos, sempre citando opiniões e pontos de vistas de figuras respeitadas como Celso Furtado, de quem era amigo pessoal, Oscar Niemeyer; Adolpho Bloch – que o tinha como um filho – Condessa Pereira de Carneiro, dona do Jornal do Brasil; Aureliano Chaves – então governador de Minas Gerais, eleito vice-presidente de João Batista Figueiredo nas eleições indiretas de 1978... Ao cabo de três horas de conversa, quando todos já estavam saindo, Aluísio nos chamou e se dirigiu a Fernando: “este é o amigo que te falei...” Memória privilegiada, Fernando respondeu de imediato, o do Rio Grande do Norte? Sim, respondemos. Conhece Cortez Pereira? Não, apenas sabemos que foi governador e misteriosamente afastado.

    Ele ainda conseguiu implantar o projeto “Serra do Mel”, comentou Fernando. Apesar de ser Potiguar, morava em Campina Grande, e não sabia que projeto era este. Muito tempo depois, tomamos conhecimento. Fernando junto com Cortez, trouxeram para o Rio Grande do Norte um grupo de investidores judeus, aproveitaram uma área inabitada, das mais críticas do semiárido - apesar de se localizar a 50 km do litoral – consideradas terras devolutas da União. Cortez desapropriou e começou a instalar um "kibutz" no estilo Israelita. Hoje Serra do Mel é um município, e o maior produtor de castanha de caju do RN, que é o maior produtor do país. Os judeus transferiram apenas Know-how. Não investiram porque havia impedimentos burocráticos.

    Nosso primo Bandeira (o General), continuou Fernando, foi quem fez a transição suave, sigilosa e sem danos morais para Cortez. Não foi cassado, afastou-se. Indagamos se o problema tinha sido corrupção, pois Cortez era Udenista e tinha respaldo do líder dos Militares no Senado, Dinarte Mariz. “Briga de cachorro grande”, respondeu Fernando. Nossa última pergunta foi sobre o “pacote de Abril”: haverá retrocesso? A pergunta era pertinente, estávamos em maio de 1977. “Não. Quem foi cassado? Ninguém. Quanto tempo durou o recesso? Duas semanas. Geisel tem compromissos com Jimmy Carter e a comunidade financeira internacional. O Exército voltará aos Quartéis até 15 de março de 1979”. Os acontecimentos ocorreram exatamente da forma que ele discorreu. Isto não é “previsão”, nem “bola de cristal”. Estava tudo planejado. E fica mais que explícito, sua participação nos bastidores da “transição”.

    Noventa dias após o fim do recesso do Congresso (1977) no dia 20/07/1977 morre o Senador Rui Carneiro, líder do MDB no Estado e um dos mais expressivos políticos paraibano no Congresso Nacional. A perda de seu irmão Janduí, deputado federal de 1945 até 07/06/1975 – quatro meses após o início do seu oitavo mandato, o tinha deixado profundamente abalado. Foram dois irmãos no Congresso por três décadas. Janduí na Câmara e Rui no Senado. Rui e Janduí tinham sido reeleitos em 1974. O suplente Otacílio Queiroz concluiu o mandato de Janduí. Outra perda irreparável do MDB, setembro ainda do fatídico 1975, foi do deputado federal Petrônio Figueiredo, filho do ex-senador Argemiro de Figueiredo. Concluiu seu mandato Arnaldo Lafayette, suplente com 1.700 votos. Quem era o suplente de Rui que continuaria em seu lugar no Senado até abril de 1983? Ivandro Cunha Lima. Voltamos a indagar: destino ou acaso? Ivandro perdeu a eleição municipal de 1976. Se tivesse sido eleito, não teria ocupado por cinco anos uma cadeira no Senado da República, conquistando inclusive o ambicionado cargo de 1º Secretário da Mesa Diretora, cargo que administra a Casa. Fernando fortaleceu-se, e se tornou o herdeiro natural dos ideais de Rui Carneiro.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (Parte II)

    27/11/2021

    Ex-prefeito Evaldo Cruz estava encerrando sua gestão (1976). Eleito em 1972, sucedeu Luís Mota Filho - segundo interventor nomeado pelos Militares - para substituir Ronaldo da Cunha Lima (cassado) e seu vice Orlando Almeida, impedido de assumir. Na realidade o eleito (1972) tinha sido Juracy Palhano. O pleito foi "tomado" pelo Major Câmara, então comandante da 5ª Cia de Infantaria, hoje 31º Batalhão de Infantaria Motorizado, aquartelada aqui em Campina Grande.

    Após o traumático pleito de 1968, a inesperada derrota do Senador Argemiro de Figueiredo (1970), falecimento de Seu Cabral e as cassações de Ronaldo e Vital do Rego, a Rainha da Borborema vivia seu “saara” político. Luizito Mota (1972) indicou Evaldo Cruz, então Diretor da CANDE (fábrica de tubos que concorria com a Tigre), empresa de Humberto Almeida, irmão de Orlando Almeida, o vice que não assumiu. Parecia ser candidatura única...Até o dia em que o então Vereador Everaldo Agra começou a anunciar que seria candidato para enfrentar Evaldo.

    Dois empresários emergentes entraram na disputa: Antônio Gomes, como vice de Evaldo Cruz; Juraci Palhano, bastante conhecido na cidade como Professor, ex-radialista, ex-funcionário do Banco do Brasil, proprietário de Colégios, agropecuarista e investidor imobiliário na cidade...  

    Convidado por Everaldo Agra – conversa intermediada pelo Jornalista Aécio Diniz - inverteu os papéis: ele seria "cabeça de Chapa” e Everaldo vice. Foi uma das mais belas campanhas da cidade. Contagiante, a partir do jingle de Juracy. Em noventa dias, saíram do zero e chegaram ao topo.

    Em sua última visita ao Diário da Borborema (1975), Major Câmara foi se despedir. Havia sido transferido para Natal. Desconhecendo a história de Aécio Diniz e sua ligação com Juraci Palhano, fez um longo relato/desabafo sobre o combate ao comunismo que realizou na cidade. A narrativa culminou na confissão: “o tal do Juraci estava eleito prefeito... Uma comissão de “Senhores Responsáveis”, defensores da gloriosa Revolução, foi até o Quartel no final do primeiro dia de apuração dos votos, e nos informou quem estava por trás do tal candidato: Vital do Rego, os Cunha Lima... E citou uma lista de cassados”.  Finalizou: “Naquela noite mandei uma escolta trazer até o Quartel o presidente da Junta Apuradora, e fui direto: não quero saber de votos. O prefeito é Evaldo Cruz. Se o resultado for outro, prendo todos vocês comunistas”.

    No primeiro dia de apuração, Juraci estava dando 2x1 em Evaldo Cruz. No dia seguinte o quadro se inverteu. Teve urnas no bairro da Liberdade - maior reduto de Juraci e Cunha Lima - que não foi contabilizado um único sufrágio em seu favor. Terminada a apuração, Evaldo Cruz saiu em passeata. Os eleitores de Juraci também. A passeata de Juracy (derrotado) tinha o dobro de pessoas que a do eleito. William Tejo e Tarcísio Cartaxo, perplexos com o fato que testemunharam, sempre falavam que fora algo inédito - treta descarada - que jamais seria visto na história política da Paraíba.

    Voltando às eleições de 1976, Evaldo Cruz - amigo e respeitado pelo então governador Ivan Bichara Sobreira, entregou-o à tarefa de escolher o seu sucessor. Ligado ao Grupo da Várzea, o consenso foi indicar Enivaldo Ribeiro, deputado estadual de primeiro mandato, eleito em 1974. Carismático, popular, Enivaldo pôs imediatamente a campanha nas ruas, pois já tinha um adversário: Juracy Palhano, que vinha para o tira-teima. Mas, o MDB preferiu sair do anonimato e lançar seu próprio candidato. Não iriam mais apoiar Juraci (Arena 2) sublegenda. O nome escolhido – julgamos que forçado – foi o de Ivandro Cunha Lima, suplente de senador de Rui Carneiro.

    Como conversávamos diariamente com Aluísio, não sentimos entusiasmo pela escolha de Ivandro. Sensato, Aluísio enfatizava que o tempo era outro, diferente de 1968. Enivaldo vinha com a máquina do governo. Andava rua acima, rua abaixo, puxado por um cordão de bêbados, povão pedinte; entrava em todas as casas... Ivandro era um gentleman, cordial; cavalheiro; todos na cidade gostavam dele, não tinha inimigos, nem sequer quem o invejasse. Entretanto, não tinha o perfil de Enivaldo e do próprio Ronaldo, na facilidade de se envolver com o povão. Jamais iria fazer um discurso contundente contra o “Regime”. Era conciliador e estava correndo o risco de ter um grande prejuízo material: dividirem seu Cartório - até hoje - o único da Cidade de Registros. A lucidez de Aluísio era impressionante.

    Passamos a conversar nos finais de tarde, em sua loja na rua João Pessoa. Tinha deixado de frequentar o “cafezinho”. Só voltaria após a campanha.  Temperamento forte e pavio curto, não levava desaforo para casa. Segundo Aluísio, “Ivandro estava passando por uma provação. Deus vai escolher a sua melhor derrota. Perguntamos sobre Fernando. Tem a mesma opinião que a minha, respondeu. Mas, não pôde deixar de atender a Rui Carneiro. Realmente Fernando veio a Campina Grande só na última semana da eleição. Iria conversar com Juraci Palhano, para que o mesmo desistisse de sua candidatura e viesse apoiar Ivandro. A turma do boato espalhou que Fernando veio “comprar” Juraci. Episódio que feriu os brios de Juraci, que sequer aceitou o encontro. Foi até o final, dividindo votos da oposição. Enivaldo venceu. Ivandro foi sossegar. Mas, o projeto de Fernando permanecia mais vivo que nunca. Seria posto em prática apenas dois anos depois, a partir de 1978.

  • A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (Parte I)

    26/11/2021

    Destino ou acaso? A história do clã Cunha Lima teve sua origem - ascensão - de forma bem distinta e com desfechos não previstos pelos principais líderes da família - irmãos mais velhos de Ronaldo - Aluísio; Fernando e Ivandro.  

    Janeiro de 1974, aos 18 anos, fomos admitidos no Diário da Borborema. Seis meses depois assumimos um cargo de direção, indicação do superintendente e mestre Aécio Diniz de Almeida.

    Começamos a frequentar o atual Calçadão (na época o Cafezinho São Braz) e participar do bate-papo bacurau. As conversas se estendiam até altas horas da noite. As rodas dos participantes eram bem divididas. Tinha a turma dos ‘Comunistas Moscovitas’, dos ‘Chineses’; da ‘política local’; do ‘futebol’; dos ‘negócios (grandes empresários)’ e conseguimos “penetrar” nos debates de todas.  

    Ora ouvindo, ora opinando...

    Conhecemos o então o saudoso amigo Aluísio Cunha Lima e através dele começamos a conhecer a história política e sócio/econômica da cidade. Passamos a conversar diariamente, nos encontrando até após o almoço, no Cafezinho. Para tabagistas, três ou quatro goles da preciosa “rubiácea”, pós refeição, é indispensável.

    Quando indagávamos sobre a volta de Ronaldo, Aluísio sempre desconversava. Enfatizava que o poeta estava muito bem no Rio de Janeiro e com certeza logo que os militares deixassem o poder, conquistaria um mandato de deputado federal (pelo Rio).  

    E quanto à Paraíba?

    Respondia: “o homem” será Fernando. Tem grandes negócios, forte influência e apoio dos meios empresariais do país. Será governador em 1982.

    Aos poucos foi relatando o prestígio de Fernando Cunha Lima...  

    Amigo pessoal de Juscelino Kubitschek, tinha sido diretor do Banco DENASA de Investimentos - que era do ex-presidente - trabalhava com capital externo, atraindo investidores internacionais... Braço direito do Senador Rui Carneiro, representante no Brasil do Chase Manhattan Bank, aqui com o nome de Banco Lar Brasileiro, Fernando dispunha de todas as ferramentas necessárias para o projeto do clã, além de “informações privilegiadas”.

    Na curiosidade de saber mais - sempre que havia oportunidade - abordávamos sobre a cassação de Ronaldo. Ele tinha ligações com os comunistas? Era amigo dos banidos de 1964? O afastaram pelo simples fato de ter sido eleito pelo MDB?  

    Aluisio baixava um pouco a cabeça, olhava-nos sobre os óculos, e respondia: um dia você vai saber. Eu vou te contar. E para que não insista mais sobre este assunto, saiba que o general Bandeira (linha dura temível da época) é primo legítimo nosso. Ele é sobrinho de minha mãe (Dona Nenzinha) e amigo de todos nós: é sangue.

    Em junho deste mesmo ano de 1974, começaram as eleições para renovar 1/3 do Senado Federal. Rui Carneiro mais uma vez foi candidato. Perguntamos a Aluísio se Fernando seria seu suplente. “Não... Vai ser Ivandro”. O projeto de Fernando começará em 1978, elegendo-se o deputado federal mais votado do Estado. Os militares voltarão aos quartéis no final deste governo (Geisel)”.

    Julgamos impossível, e questionamos: esta informação é de Fernando ou do general Bandeira? De ambos, respondeu. Em 15 de novembro (1974) Rui Carneiro foi eleito senador, para tentar cumprir seu último mandato. Ivandro, que nunca tinha sonhado com política, era seu primeiro suplente. Um resultado que surpreendeu a Paraíba.

    Saudoso amigo jornalista Tarcísio Cartaxo nos levou até a coordenação da campanha de Rui em Campina Grande, para negociarmos as matérias pagas e inserções de anúncios publicitários do candidato. Foi nesta ocasião que conheci, na Rua Dr. João Moura (em sua residência) o amigo tribuno Vital do Rêgo. Ele era quem estava comandando a logística da campanha na Rainha da Borborema, de Rui e Ivandro. Exatamente Vital, que seis anos antes tinha sido derrotado por Ronaldo e em 1965 foi adversário de Rui na campanha fraudada que levou João Agripino ao Governo (1965).

    Duas décadas depois, no programa Debate Borborema, horário que dividíamos com o companheiro Dagoberto Pontes, fizemos um comentário (2004) de que a história Vital x Ronaldo só tinha uma explicação: “Carma”, filosofia mística da Índia, que aborda sobre o destino programado pelos Deuses aos homens. Algo como “escrito nas estrelas”. Na sequência, apontaremos fatos, relatos esquecidos e não registrados historicamente, sobre a trajetória do clã, suas tragédias e perdas, 1978/1979.  

  • TRAGÉDIA DE MARÍLIA MENDONÇA DEIXA RECADO DE SOBREVIVÊNCIA PARA MÍDIA TRADICIONAL

    13/11/2021

    Passaram-se sete dias do fatídico desastre aéreo que culminou na morte de cinco pessoas, dentre as quais a cantora Marília Mendonça. Pouco mais das 17hs. do último dia 05 de novembro (2021) as redes sociais congestionam-se. Transbordaram as postagens de fotos dos destroços da aeronave, da cantora; família – mãe e ex-marido - vídeos de seus shows; músicas recentes...Até no Twitter (radical) vinte e quatro horas no ar, só com debate político – houve trégua.

    A mídia tradicional, também conhecida como “profissional” – que abomina as redes sociais - registrou no primeiro momento o fato. Porém, quando percebeu (horas depois) que a perda de Marília Mendonça provocou uma comoção nacional, correu atrasada em busca de levantar matérias sobre a artista, e identificar o que ela representava para o Brasil, que ignorava e desconhecia. No meio artístico, quem não estiver no eixo Rio/Bahia, aparecendo diante das câmeras das quatro redes de TV, não tem talento nem público.

    Observemos o último feito desta “Grande Mídia Nacional” que equivocadamente insiste em não olhar para frente. Encetaram com estardalhaços o “seriado” CPI da COVID-19, na esperança de recuperar espaço e audiência perdida. Por cinco meses, todos juntos e a todo minuto, tentaram destruir a imagem do presidente Bolsonaro. A novela chegou ao seu final com índice de audiência inexistente. Fim de carreira para os velhos atores que protagonizaram as cenas: Renan, Aziz, Randolfe Rodrigues...

    No dia que Marília Mendonça deixou este plano terrestre, fomos conferir sua popularidade no Instagram. Tinha 38 milhões de seguidores. Hoje, uma semana depois, aumentou e aparece com 41 milhões. O Brasil está em terceiro lugar no ranking mundial de usuários desta plataforma, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e Índia. Até 2020, eram 69 milhões de brasileiros, ligados diuturnamente no Instagram. Percebem o quanto era querida a jovem cantora de 26 anos, simples; humilde e em plena ascensão, sem cobertura da “Grande Mídia”? De cada dois perfis do Instagram, mais de um deles a segue.

    Se juntar todas as “vacas sagradas” que levaram bilhões da Lei Rouanet na era petista, seus seguidores (hoje) não alcançam a metade do patamar desfrutado por Marília Mendonça. Gil, Caetano, Chico Buarque; Ivete Sangalo; Cláudia Leite...

    Nas eleições presidenciais de 2018, a Globo, capitaneando todo o grande “sistema” de comunicação do país, só noticiou que Bolsonaro seria candidato no dia de sua convenção. Não observou que ele vinha usando a mais popular ferramenta da internet (Facebook), com milhões de seguidores e fazendo diariamente “lives comícios”.

    Um seguidor nas redes sociais é um fã, amigo ou admirador. Ninguém segue quem detesta. Hoje, Bolsonaro tem mais de 40 milhões de seguidores. E fazendo um comparativo com seus prováveis adversários ou concorrentes veja o quadro atual: Bolsonaro no Twitter 7,128 milhões; Facebook 10 milhões; Instagram 19 milhões. Lula no Twitter 2,853 milhões; Facebook 4,148 milhões; Instagram 3,4 milhões. Sergio Moro no Twitter 3,336 milhões; não tem Facebook; Instagram 2,5 milhões.

    Estes dados revelam tendências bem diferentes das viciadas pesquisas, patrocinadas pela “velha mídia”. Amostragem de simpatia, com possibilidades de se converterem em votos. Fica a pergunta: ainda há tempo da “velha mídia” ser aceita nas redes?

  • O PREÇO DO SILÊNCIO

    01/11/2021

    A experiente senadora Nilda Gondim, com seu prudente e disciplinado silêncio que talvez confundam com submissão, tem representado ao longo do tempo papéis secundários para quem a considera apenas como viúva do saudoso tribuno Vital do Rego, filha única do ex-governador Pedro Moreno Gondim, liderança que governou a Paraíba por duas vezes, e elegeu seu sucessor.

    A vida é um eterno aprendizado, e suas lições alcançam até os “disléxicos” ou hiperativos, considerados pela Neurologia, pacientes de TDAH. O que não é o caso da senadora, que teve habilidade por décadas de ser a esposa, companheira; confidente e mãe de três filhos, do genial e excêntrico Vital do Rego. No anonimato e sem “glamour”, segurou a “barra” desempenhando o delicado papel de “lã entre cristais”, evitando choques entre seu pai, seu esposo e demais familiares próximos e influentes.

    Semana passada, após recentes “escaramuças” intempestivas e desagregadoras protagonizadas por Veneziano e Ana Cláudia, Nilda encontrou-se casualmente no Senado da República (Brasília) com o governador João Azevedo. Fez a festa... O abraçou, e exclamou: “meu governador!”. É impossível dimensionar o nível de tolerância de Nilda. Sobrou-lhes habilidade e sacrifício, para manter o equilíbrio da convivência extremada, entre seu esposo e filhos (Vital e Veneziano), cujos projetos políticos sempre estiveram em rota de colisão.

    Saudoso amigo, advogado Luís de Marillac Toscano - que conheceu Nilda desde criança no Palácio da Redenção - nos falou algumas vezes sobre seu poder de renúncia ao abdicar do espólio político deixado por seu pai, ainda em vida, quando foi cassado. Em sua visão, ela deveria ter sido deputada federal em 1970. Citava o exemplo de Aluízio Alves - governador do Rio Grande do Norte - amigo e contemporâneo de Pedro Gondim, com quem esteve ao seu lado até na cassação, vinda da inesperada lista de 1968, onde incluía o esposo de Nilda, Vital do Rego. Por que Nilda não foi deputada federal em 1970? Henrique Eduardo Alves (RN) filho de Aluízio, se elegeu com 21 anos. Cortaram a árvore, em seu lugar brotu uma semente.

    Antes tarde que nunca. Quem curiosamente observa à distância a vida de Nilda Gondim, conclui que sua existência foi resumida a “deveres”, sem a menor chance de ter uma única vez “direitos” de ser ouvida, mostrar o que pensa; suas ideias... Ou simplesmente, saber se seu sonho político, são valores latentes da genética paterna.

    Esteve sempre sob a “copa das árvores”, sombreada até por suas próprias crias - que em tese – impediram seu crescimento. A esta altura da vida, talvez tenha chegado o momento de exigir “alforria”. Talvez tenha decidido ser Nilda Gondim, e não a filha de Pedro, viúva de Vital; mãe de Vital Filho e Veneziano. Se desejar continuar na vida pública, e julgar que João Azevedo – ainda aliado - é um líder no processo eleitoral de 2022, que atrele seu destino ao dele. Pelo que aprendeu ao longo de sua existência, com certeza - no mínimo – resta-lhes uma simples lição doméstica: “não se faz omeletes, sem quebrar ovos”.

    Rosalba Ciralini é esposa de Carlos Augusto Rosado, que foi deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Rosalba não tinha tradição político/familiar: Rosado/Maia, Medeiros/Mariz nem Alves, Oligarquias do RN. Mas, foi tudo o que seu marido (Rosado) sonhou e não conseguiu. Até hoje, vivem felizes. Prefeita de Mossoró por cinco vezes, realizando sonho de Carlos Augusto. Elegeu-se Senadora da República e Governadora do Rio Grande do Norte. E se Nilda Gondim, filha de Pedro, tivesse desfrutado desta oportunidade a partir de 1970?

  • A CORRIDA PARA CHEGAR AO SENADO

    28/10/2021

    Acordo Romero Rodrigues e João Azevedo está consumado. A reunião de Brasília foi pretexto para Romero e Eva ouvirem Gilberto Kassab. Resta agora, a disputa pela vaga do Senado. Nilda Gondim será candidata a reeleição? Seu filho Veneziano Vital do Rego, ainda claudica na busca de chegar ao Palácio da Redenção, através de uma ampla frente de oposições, onde estarão Ricardo Coutinho, Luís Couto e todos os investigados da “Operação Calvário”. Palanque que só desmontará, em troca de espaços na chapa majoritária, e com repercussão contundente: reduzir a cinzas a chapa “Ricardistas”.

    Aguinaldo Ribeiro foi madrugador e tem trabalhado com afinco seu voo para o Senado. Estaria numa posição bem mais confortável, se a postulação tivesse surgido do povo ou lideranças representativas. É possuidor de um sistema de comunicações (Rádios) totalmente inaproveitável para suas ambições políticas. Dispõe de uma assessoria (desconhecida) que ao invés de aproximá-lo do eleitorado, blinda-o. No seu estilo “sorrateiro” esqueceu até a “sintonia” da mesa de jantar.

    Quando Daniella Ribeiro fez algumas declarações severas contra o governador João Azevedo no início deste ano (2021), alegando que o mesmo teria que “conversar” sobre política e eleições, deveria ter dado demonstração prática de seu descontentamento. Era para ter se lançado pré-candidata, e iniciado andanças por todo o Estado, visitando cidades onde foi votada. Hoje teria poder de barganha para assegurar a vaga de seu irmão. Ou Quiçá, consolidado uma postulação de oposição.

    Como não existe espaço vazio, o senador Veneziano Vital do Rego - figura política mais aquinhoada com cargos no governo do Estado – julgou que havia chegado seu momento. Mas, João disputando o Senado, e ele como candidato a inquilino da Granja Santana. Sua ousadia, espantou o núcleo governista. João Azevedo, como homem função (politico), representa o projeto de um grupo, onde ele é o “cabeça”. São mais de 18 deputados estaduais, pelo menos metade da bancada da Câmara dos Deputados, que estão no mesmo barco onde João é o timoneiro. Um exército de veteranos profissionais – não aventureiros - que dependem do mandato, como único meio de sobrevivência.

    Comenta-se agora que Veneziano Vital do Rego pode rever sua postura e unir-se ao “grupão”, ao lado de Romero, João Azevedo; Cícero Lucena... A condição seria Romero abrir mão da vaga de vice, para Ana Cláudia, e disputar o Senado Federal. Injunções “suprapartidárias” já estariam sendo feitas junto a Gilberto Kassab, sob o argumento que para o PSD seria melhor um Senador, que um vice-governador.

    Esta especulação desconexa, está sendo criada para fortalecer a posição de Veneziano como “coringa”. Esqueceram de um detalhe: parentesco. Caso João Azevedo seja reeleito, e renuncie para disputar o Senado (2026), Ana Cláudia assumindo, deixaria Veneziano inelegível para disputar o governo. Só poderia disputar a renovação de seu mandato. Ana é sua parente em primeiro grau. Nilda ainda poderá ser a surpresa...

    Pela mais absoluta falta de apoios em redutos expressivos como Campina Grande e João Pessoa, Efraim Filho não tem cacife para enfrentar Aguinaldo ou Nilda. Seria um candidato pesado e “puxado” pelo chapão de João Azevedo. A não ser que seja o “Trem pagador” da campanha. Neste caso, o acomodarão.

  • VÃO SACRIFICAR ROMERO OU PEDRO?

    27/10/2021

    O Clã Cunha Lima sabe perfeitamente que não tem quadros para encabeçar uma chapa de oposição, com chances de enfrentar o pré-candidato à reeleição, governador João Azevedo. Esta mesma realidade insofismável é concebida (intramuros) pelo MDB, ao observar a falta de entusiasmo da classe política, que não enxerga estrutura no desejo “utopista” do senador Veneziano Vital do Rego, e sua “solitária” empreitada de chegar ao Palácio da Redenção em 2022.

    Ex-governador Cássio Cunha Lima, “machucado” por duas derrotas consecutivas (2014/2018), está sem discurso “motivacional” que o estimule a uma terceira tentativa “majoritária”. A inteligente “distensão” imposta por João Azevedo esvaziou o “pastoril” Cunha Lima x Ricardo Coutinho x José Maranhão, este último em seu repouso eterno.

    A dinâmica da política pôs o PSDB em declínio. Uma agremiação que corre o risco de se tornar “nanica” em nível nacional, após o pleito de 2022. A aventura João Dória – referência tucana – será mais desastrosa que a de Geraldo Alckmin em 2018. Alckmin até se afastar do governo - próximo ao pleito – era muito bem avaliado pelo seu Estado (SP), responsável por 1/3 do PIB do Brasil. Mas, a onda “Bolsonarista” radicalizou a eleição entre direita e esquerda. PT x Bolsonaro. O que mudou desde então? Nada.

    O acordo João Azevedo/Romero Rodrigues foi a costura mais que perfeita para sobrevivência política dos Cunha Lima, principalmente para aqueles que integram a ala “Cassista”. Com o fim das famigeradas coligações, só o governo e sua “máquina” tem condições de eleger metade dos parlamentares federais e estaduais.

    João Azevedo – que perdeu para o desconhecido Lucélio (2018) em Camina Grande - não subestima o comportamento “sincericida” da cidade, que detesta o PT, abomina as esquerdas e despreza comunistas. A direita - quem a represente ou se identifique com ela - sempre venceu na Rainha da Borborema. Collor de Melo – Ronaldo era Prefeito do PMDB e não conseguiu votos para Ulisses Guimarães – Fernando Henrique Cardoso; José Serra; Geraldo Alckmin; Aécio Neves e Bolsonaro.

    O pleito certamente será “estadualizado”, distante do radicalismo nacional, para ser consumado no primeiro turno. Bolsonaro pode até perder em todo o país. Mas, em Campina Grande, se repetirá o fenômeno “antipetista” das eleições de 2006: a única cidade do interior nordestino que o tucano venceu.

    A rebeldia desagregadora de Cássio Cunha Lima – se for aceita por Romero - terá um custo: sacrificará a carreira política de seu filho Pedro, a de Romero Rodrigues ou de ambos. Ele substituirá Pedro, como candidato a deputado federal? PSDB, em quaisquer circunstâncias, dificilmente elegerá três representantes para a Câmara dos deputados. Cássio ou Pedro, Rui Carneiro e Romero? Pelo coeficiente eleitoral previsto – algo em torno de 200 mil votos – a legenda terá que obter cerca de 600 mil, número de sufrágios conquistados por Cássio em 2018 para o Senado, ficando em quarto lugar (601.333). Entre 2014/2018, Cássio - se não os perdeu - tomaram-lhes mais de 400 mil votos.

    Perda de apoios importantes como o de Cícero Lucena, prefeito do maior colégio eleitoral do estado, tem um peso significativo. Esta peripécia contará com apoio de Cabedelo, Patos; Sousa e Cajazeiras?

    Quanto a Campina Grande, Bruno Cunha Lima é muito jovem. Tem que escrever sua própria história, realizando uma gestão diferenciada e voltada para recuperar a autoestima do povo desta terra: o “Campinismo”. Sua eleição será plebiscitária - em 2024 - e não ano vindouro. Queimará cartuchos numa batalha perdida, ou os guardará para usá-los em sua defesa no “Campo da Honra” de 2024?


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