
Emir Gurjão
Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.
A UFCG precisa voltar a olhar para o futuro
Publicado em 24 de agosto de 2026Um país não pode escolher entre conhecimento e produção. Precisa dos dois.
A universidade produz conhecimento, forma profissionais, realiza pesquisas e desenvolve tecnologia. A empresa transforma parte desse conhecimento em produtos, serviços, produtividade, empregos, renda e desenvolvimento.
Quando esses dois mundos caminham juntos, a sociedade avança.
Quando caminham separados, perdemos oportunidades.
A Paraíba precisa pensar em desenvolvimento
Não podemos pensar apenas em administrar o presente.
Precisamos preparar o futuro. Queremos ampliar nossa indústria? Queremos produzir tecnologia?
Queremos criar empresas capazes de competir nacional e internacionalmente?
No setor privado, empresas pequenas, médias e grandes estão procurando incorporar tudo aquilo que possa aumentar a produtividade e a competitividade: automação, sensores, robótica, inteligência artificial, softwares de gestão, visão computacional, análise de dados, novos materiais e processos produtivos mais eficientes.
O empresário sabe que quem parar será ultrapassado.
A tecnologia não espera.
E nossas universidades?
É exatamente nesse ponto que surge minha preocupação com parte do direcionamento que observo atualmente no ensino público superior.
E é aqui que considero necessário fazer uma reflexão particularmente sobre a Universidade Federal de Campina Grande — UFCG.
Tenho enorme respeito por essa instituição e pela sua história. Justamente por respeitá-la, considero importante cobrar dela aquilo que historicamente sempre soube fazer:
ousar.
A tradição tecnológica de Campina Grande não nasceu por acaso. Em 1968, ainda na antiga Escola Politécnica, foi instalado o primeiro computador existente em universidades do Norte e Nordeste do Brasil, um IBM 1130. Poucos anos depois, Campina Grande estava entre os centros pioneiros da formação em Computação no país.
Essa capacidade de perceber o futuro antes que ele chegasse ajudou a construir a reputação tecnológica que Campina Grande possui até hoje.
É exatamente esse espírito que precisamos recuperar.
Os novos cursos da UFCG
Em 13 de agosto de 2026, a UFCG anunciou a autorização do Ministério da Educação para sete novos cursos de graduação a serem implantados em 2027.
Serão:
Fisioterapia, em Campina Grande;
Licenciatura em Educação Especial e Inclusão, em Cajazeiras;
Fonoaudiologia, em Patos;
Terapia Ocupacional, em Cuité;
Agronomia, em Sumé;
Pedagogia, em Sumé;
Licenciatura em Ciências Biológicas, também em Sumé.
Mas algo chama a atenção:
Entre esses sete novos cursos, não existe um curso voltado especificamente para Inteligência Artificial, Robótica, Mecatrônica, Automação Industrial, Ciência de Dados, Cibersegurança, Sistemas Inteligentes ou outras áreas diretamente relacionadas à revolução tecnológica que estamos vivendo.
Mas precisamos perguntar:
isso é suficiente diante da dimensão da transformação que está acontecendo no mundo?
Na minha avaliação, não.
Inteligência artificial não será apenas mais uma disciplina dentro das universidades
Estamos diante de uma transformação comparável à chegada da eletricidade ou da informática.
Por isso, nossas universidades precisam pensar grande.
A UFCG deveria liderar esse movimento
Uma instituição com a tradição tecnológica da UFCG possui condições extraordinárias para liderar uma nova etapa de desenvolvimento da Paraíba.
Poderíamos pensar na criação ou no fortalecimento de formações em áreas como:
Inteligência Artificial e Sistemas Inteligentes; Robótica e Mecatrônica; Automação e Indústria 4.0; Ciência e Engenharia de Dados; Cibersegurança; Computação de Alto Desempenho; Microeletrônica e Semicondutores; Novos Materiais; Energias Renováveis e Armazenamento de Energia; Engenharia aplicada à economia circular.
Em alguns casos, talvez seja mais inteligente modernizar profundamente currículos existentes, criar ênfases, laboratórios, especializações, cursos tecnológicos, programas interdisciplinares e centros de pesquisa aplicada.
O importante é estabelecer uma direção.
Universidade e indústria precisam conversar muito mais
Outro ponto fundamental é aproximar a universidade do setor produtivo.
A universidade não deve ser simplesmente uma escola profissionalizante da indústria. Sua missão é muito maior.
Mas também não pode funcionar como uma ilha distante da transformação econômica que acontece ao seu redor.
Uma boa universidade deve perguntar:
Quais tecnologias estão mudando a indústria?
Que profissionais serão necessários daqui a dez anos?
Quais empresas poderemos ajudar a criar?
Quais problemas nossa ciência poderá resolver?
Como transformar pesquisas realizadas dentro da universidade em produtos, patentes, startups e novos negócios?
Essa aproximação entre universidade, indústria, governo e empreendedorismo precisa ser muito mais intensa.
Precisamos de laboratórios compartilhados.
Precisamos estimular professores e estudantes a criarem empresas.
Precisamos ampliar incubadoras e parques tecnológicos.
Precisamos facilitar a transferência de tecnologia.
Precisamos aproximar nossos pesquisadores das pequenas e médias empresas paraibanas.
Porque inovação não pode ficar somente dentro do laboratório.
Ela precisa chegar à fábrica, ao campo, ao hospital, à escola e à sociedade.
Educação pública também precisa ter estratégia econômicas.
Criar vagas é importante.
Democratizar o acesso é importante.
Promover inclusão é importante.
Mas precisamos acrescentar outra pergunta:
quais competências o Brasil precisa desenvolver para competir no mundo que está surgindo?
Uma política educacional também deve dialogar com uma política de desenvolvimento econômico.
O Brasil precisa voltar a pensar em industrialização.
E não estou falando da indústria do século passado.
Estou falando da indústria baseada em automação, inteligência artificial, novos materiais, energia limpa, biotecnologia, eletrônica, software e altíssima produtividade.
Sem profissionais preparados nessas áreas, poderemos até comprar máquinas e tecnologias estrangeiras, mas continuaremos dependentes daqueles que as desenvolvem.
Existe uma diferença enorme entre usar tecnologia e produzir tecnologia.
É a diferença entre comprar a máquina e saber construir a máquina.
Entre utilizar um software e desenvolver o software.
Entre utilizar inteligência artificial e participar da construção da inteligência artificial.
É nessa segunda categoria que quero ver a Paraíba.
Precisamos recuperar a ousadia
Minha crítica à UFCG nasce exatamente do respeito que tenho pela sua história.
Não quero uma UFCG menor.
Quero uma UFCG ainda maior.
Quero uma universidade que preserve tudo de bom que construiu, mas que tenha coragem para novamente olhar vinte anos à frente.
Uma universidade que perceba hoje aquilo que o mercado perceberá amanhã.
Foi assim quando Campina Grande começou sua caminhada na Computação.
Foi assim quando gerações de professores e pesquisadores construíram uma das mais importantes tradições tecnológicas do Nordeste.
E precisa continuar sendo assim.
A própria UFCG acaba de iniciar a execução de seu Plano de Desenvolvimento Institucional 2026–2030, que deverá orientar objetivos, metas e ações para os próximos anos. Esse é justamente o momento para colocar essa discussão no centro do planejamento institucional.
Porque existe um risco que nenhuma grande instituição pode ignorar:
uma universidade pode ter sido extraordinariamente moderna no passado e, ainda assim, tornar-se uma universidade do passado se deixar de acompanhar as transformações do presente.
A UFCG possui professores qualificados.
Possui tradição.
Possui pesquisadores.
Possui história.
Possui reconhecimento.
Possui uma cidade que respira tecnologia.
Portanto, possui praticamente todos os ingredientes necessários.
O que precisamos agora é de visão estratégica, coragem e ousadia.
A Paraíba precisa de uma educação que prepare seus jovens não apenas para os empregos que existem hoje, mas para aqueles que ainda serão criados.
Precisamos ensinar nossos jovens a utilizar as novas tecnologias.
Mas precisamos ir além:
precisamos prepará-los para criar essas tecnologias.
É assim que se constrói uma economia moderna.
É assim que se fortalece a indústria.
É assim que surgem novas empresas.
É assim que aparecem empregos melhores.
É assim que aumentam a produtividade e os salários.
E é assim que educação, ciência e tecnologia deixam de ser apenas políticas setoriais e passam a constituir aquilo que realmente deveriam ser:
políticas estratégicas para o desenvolvimento do Brasil.
Obs.: Usei Inteligência Artificial para construir este texto.
