
Marcos Marinho
Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.
Congresso de olho nas urnas e o Povo ao Deus dará
Publicado em 16 de julho de 2026O recesso parlamentar entre amanhã (18) e 31 deste mês de julho de 2026 se insere em um dos anos legislativos mais atípicos e politicamente tensionados das últimas décadas, onde o cenário de eleições gerais para presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, já mostra os efeitos do esvaziamento político provocado pelas campanhas eleitorais nos estados.
Deputados e senadores naturalmente voltam suas atenções para as bases eleitorais e as articulações políticas deixam Brasília, passando a acontecer diretamente nos estados, onde a disputa eleitoral efetivamente ganha corpo. Como resultado disso, tem-se um Congresso com dificuldades de manter quórum suficiente para votações relevantes e debates aprofundados sobre matérias de interesse nacional.
Durante o ficam suspensas as sessões ordinárias, votações em plenário e reuniões das comissões permanentes. Em Brasília, apenas uma comissão representativa, formada por deputados e senadores, permanece funcionando para análise de casos considerados urgentes.
Enquanto pautas importantes para o país seguiram em ritmo lento, o Congresso concentrou esforços na aprovação de mudanças nas regras eleitorais e partidárias. A Câmara dos Deputados aprovou medidas que flexibilizam a fiscalização da aplicação de recursos públicos destinados aos partidos políticos e campanhas eleitorais.
E entre as mudanças aprovadas estão a criação de um teto de R$ 30 mil para multas partidárias, o aumento do prazo para pagamento dessas dívidas passando de um para quinze anos e ainda a autorização para envio de mensagens automatizadas para celulares de eleitores durante as campanhas. O texto já seguiu para sanção presidencial, após ter tramitado pelo Senado.
O debate sobre o uso do dinheiro público nas eleições voltou a ocupar espaço central na política nacional. O Fundo Eleitoral, criado em 2017 após o fim do financiamento empresarial de campanhas, atingirá neste ano o valor aproximado de R$ 4,9 bilhões.
Defensores do fundo afirmam que o mecanismo permite uma disputa mais equilibrada entre candidatos, dando oportunidade àqueles com menor poder econômico. Por outro lado, grande parcela da população questiona, com razão, o volume expressivo de recursos públicos destinados às campanhas eleitorais enquanto áreas essenciais como saúde, educação e segurança pública continuam enfrentando dificuldades estruturais.
Além do Fundo Eleitoral, também ganha força a chamada “vaquinha virtual”, modalidade de arrecadação na qual pessoas físicas podem contribuir financeiramente para campanhas por meio de plataformas digitais cadastradas na Justiça Eleitoral.
Mas talvez uma das discussões mais importantes não esteja apenas no valor destinado às eleições, e sim em quem controla a distribuição desses recursos. O comando e a repartição do fundo eleitoral se transformaram em uma poderosa ferramenta política dentro dos partidos, fortalecendo lideranças e ampliando disputas internas por espaço e influência.
Enquanto isso, matérias relevantes para os servidores públicos federais acabam ficando em segundo plano. O funcionalismo acompanha com preocupação um Congresso cada vez mais tomado por disputas eleitorais, CPIs, polarização política, embates institucionais e estratégias voltadas exclusivamente para 2026.
Na prática, o país entra em um período onde o debate político tende a ser muito mais eleitoral do que administrativo. E, infelizmente, quem acaba pagando essa conta é justamente a população, que continua aguardando respostas concretas para problemas estruturais e para pautas fundamentais que permanecem represadas no Parlamento.
O recesso parlamentar deste ano não simboliza apenas uma pausa formal dos trabalhos legislativos. Ele representa, acima de tudo, um retrato do atual momento político brasileiro: um Congresso voltado para as urnas, enquanto grande parte das demandas da sociedade segue aguardando prioridade

