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Até o padre aprovou

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De tanto ouvir falar ou ver Dona Cleonice costurar roupas para os bisnetos, vestidos das netas e até o de noiva de uma delas, comecei alinhavar o sonho de possuir uma camisa trabalhada por ela. Até então nunca a pedi, na consciência de poupar-lhe o trabalho. No entanto, cansado da procura de uma camisa de mangas 3/4 e não encontrar, resolvi, há um ano, sondar essa possibilidade, se comprasse a malha.

De forma carinhosa, aperfeiçoada ainda mais pela serenidade de sua fala, minha mãe me fez declinar dessa ideia sob a alegação de que é difícil encontrar uma malha boa, de qualidade. Mas, às escondidas, me surpreendeu com uma camisa de malha, mangas compridas, de presente, no meu aniversário. Fiquei feliz com o mimo, mas penoso com o gasto desnecessário, saído da insuficiente pensão deixada por meu pai.

A vida de Dona Cleonice foi de costurar de ganho, desde nova, quando adquiriu uma máquina com o dinheiro da venda de seu pequeno rebanho de ovelhas, no sítio de meu avô. No serviço de costureira, ajudou papai a criar 11 filhos e só deixou de trabalhar quando a idade avançou e a contribuição voluntária dos filhos permitiu.

No primeiro domingo deste mês, após o costumeiro almoço familiar em sua casa, eu me organizando para voltar à minha, ela, já caminhando para o seu quarto de fé, vai falando: vem cá que quero te mostrar uma coisa. E, desculpando pela desarrumação momentânea, puxa um pacote, vai abrindo-o e confirmando que tinha comprado o tecido para fazer uma camisa para mim e que eu levasse “aquela camisa que te veste tão bem”. Controlei a emoção.

Dona Cleonice cuidou de tudo, a partir do dia mais propício – sábado pela manhã – para a compra. Chamou a neta Aline para lhe fazer companhia e, depois de andar por algumas lojas e olhar várias peças de tecido, escolheu o que mais lhe agradou. “Quando botei o olho, disse: é este”.

No sábado seguinte, dia de meu aniversário, acompanhado da filha e dos dois netinhos, estava eu no seu ateliê a provar a peça. Aprovada de primeira, sem a necessidade de ajustes. Fiz, como sempre, questão de estrear o presente na missa dominical. “Gostei da camisa”, disse padre Ednaldo, ao me cumprimentar, após a celebração. “Foi minha mãe quem fez”, ressaltei, satisfeito e agradecido.
Afinal, é Dádiva Divina ganhar de presente de 67 anos uma camisa costurada por minha mãe de 85.

marcos

Equipe de jornalismo do A Palavra Online.

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