Valberto José

Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.

Setembro Amarelo, Bíblia…

Publicado em 30 de setembro de 2026

Não houve premeditação na decisão de Sônia de se isolar no quarto do apartamento da sobrinha, no 12º andar do único “arranha-céu” existente no bairro, após o almoço de Natal em família. Tampouco na determinação de ficar à janela. Ali, sentia as rajadas contínuas dos ventos alísios que, naquela tarde, varriam o Planalto da Borborema e pareciam tornar ainda mais turvo o turbilhão de pensamentos sobre os acontecimentos da véspera.

A manicure trabalhara o dia todo, acabando o expediente com a iluminação natalina já cintilando a cidade. Tomou um banho rápido, vestiu a roupa que comprara para aquela noite e foi saindo para se encontrar com o marido, que chegaria de viagem, na casa dos familiares dele. Num piscar de olhos — nem chegou a dar cinco passos —, após transpor a calçada, sentiu um estalo. “Não vou mais, não”, decidiu.

Com a mesma rapidez com que sentenciou o fico, Sônia entrou em casa, admirando-se da facilidade com que abriu a porta. Sentou-se no sofá, os pensamentos a mil, receosa de encarar a cama solitária. Resolveu, então, sorver um cálice de vinho. Depois mais um. E mais outro. Foi tomada por uma sensação de leveza e sentiu vontade de um quarto cálice, mas decidiu ir para o quarto, pois o cansaço e o sono já a dominavam.

Quando acabara de guardar o vinho e de lavar o cálice, e já caminhava para o leito, o celular tocou. Uma voz familiar e amiga, na serenidade que o momento exigia, disse-lhe: — Foi bom você não ter vindo. Falou mais alguns assuntos, como a lhe preparar os tímpanos para ouvir a pancada. O marido chegara para o Natal em família acompanhado da amante. “Não acredito!”, reagiu entre a dúvida e a certeza. Mas não cerrou os olhos naquela noite. No outro dia, as fotos das redes sociais comprovavam tudo.

Embora o desânimo a dominasse, Sônia aceitou de bom grado o convite da sobrinha para o almoço. Após, mesmo na certeza de que não ia dormir, optou por ficar no quarto; a solidão talvez fosse melhor para remoer a inimaginável decepção que sofrera em plena noite de Natal. O vento que invadia o cômodo a convidou à janela.

Do quadrilátero aberto, divisou as serras que contornam a cidade. Os pensamentos estavam a mil por segundo e uma força estranha começou a subir por suas pernas, chamando-a ao salto letal. Já não sentia os pés no chão, parecia levitar. Pronta para o impulso decisivo, um vento soprou mais forte e, então, ouviu o farfalhar das folhas de um livro na estante próxima à janela. Era uma Bíblia que, naquele momento, salvou a sua vida. — Nunca mais eu vou sofrer, meu Deus — confiou.

E saiu dali direto para a igreja, onde dobrou os joelhos e rezou como nunca havia rezado, agradecida pelo dom da vida.