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Coluna · Marcos Marinho

O “TAL” DE QUEIROGA

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Quando o ex-Ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Queiroga, foi entrevistado por mim e Júnior Gurgel no nosso PODMARINHO, e nem ainda sonhava em sair candidato ao Senado nas eleições deste ano, nos revelou que o Presidente da República da época, Jair Bolsonaro, quando a ele se referia o qualificava de “o tal” de Queiroga.

Disse-nos Queiroga que o fato nunca teve conotação depreciativa, mas tem uma simples explicação: nem ele e nem Bolsonaro se conheciam, e nem sequer mantinham algum tipo de amizade.

Queiroga morava no Rio de Janeiro e lá conheceu o filho de Bolsonaro, Flávio, com o qual solidificou uma profunda amizade familiar que acabou o levando até o Palácio da Alvorada a chamado do Presidente, e lá aceitou o desafio de assumir o ministério, isso no difícil momento da pandemia do Coronavírus.

De modo rápido, Marcelo Queiroga nos contou a história e aproveitou para mostrar algumas páginas (em prova) do livro sobre a sua vida, que estava para publicar. E se comprometeu a mandar para a gente exemplares devidamente autografados assim que a gráfica liberasse o primeiro lote.

Semana passada, cumprindo agenda em Campina Grande, Queiroga me chamou para acompanhá-lo e fomos almoçar em ‘Manoel da Carne de Sol’ para botar o papo em dia…

E foi lá que ele autografou o livro e me presenteou, cumprindo assim a promessa de outrora.

“Eu venho lá do sertão – O sertanejo que nasceu na praia” tem 341 páginas, ótimas ilustrações e fotografias da sua vida e do seu labor no Ministério da Saúde, inclusive dados e gráficos dimensionando a o período da sua gestão e o bem que ele diz ter feito ao povo brasileiro enquanto esteve à frente da Saúde do País.

Ainda não “devorei” todo o livro, mas o farei brevemente porque é de fato muito bom de ler; é como se estivéssemos – eu e ele – conversando com intercalados goles de uma cerveja geladinha.

Como não sou egoísta, vou aqui dar uma ‘palhinha’ para você, querido leitor, reproduzindo a NOTA DO AUTOR:

Das aspas pra adiante tudo é da lavra do ex-Ministro:

“VOCÊS CONHECEM O TAL DE QUEIROGA?”

“A pergunta, feita em tom de ironia pelo Presidente da República, ecoou rapidamente na imprensa e nas redes sociais. Para alguns, o “tal” era apernas mais um nome técnico chamado a apagar incêndios em meio à maior crise sanitária recente. Para outros, tratava-se de um médico que, além do jaleco, trazia consigo algo que Brasília reconhece de longe: capacidade de articulação política.

Este livro parte dessa pergunta – aparentemente casual – para responder quem é, afinal, o tal de Queiroga. A resposta não está apenas nos corredores do Ministério da Saúde, nem restrita aos meses tensos da pandemia. Ela começa muito antes, no sertão da Paraíba, onde gerações de uma mesma família ajudaram a moldar a política, o Judiciário e a organização do território.

Entre o Império e a República, entre a medicina e a política, entre o sertão e Brasília, esta é a trajetória de um cardiologista que não surgiu por acaso no centro do poder, mas como resultado de uma história longa, documentada e profundamente enraizada no Brasil profundo.

O TAL DE QUEIROGA: O SERTANEJO DIANTE DA TORMENTA
“O SERTANEJO É, ANTES DE TUDO, UM FORTE”

A frase de Euclides da Cunha atravessou o tempo porque não descreve apenas um homem ou uma região. Ela descreve um modo de existir, moldado pela adversidade, pela escassez e pela necessidade de resistir sem perder a dignidade.. É dessa tradição que venho.

Minhas raízes estão fincadas no sertão da Paraíba, território onde a vida sempre exigiu mais do que conforto ou facilidades: exigiu resiliência, coragem e capacidade de atravessar crises. Não é por acaso que, diante de um dos períodos mais conturbados da história recente do Brasil, recorri instintivamente a essa herança para seguir adiante.

Sou cinéfilo confesso, e há uma cena de The Shawshank Redemption (Um Sonho de Liberdade) que sempre me acompanhou. No desfecho do filme, o personagem Red – interpretado por Morgan Freeman – com sua voz grave e inesquecível – descreve a fuga de Andy Dufresne, condenado injustamente. Depois de cavar um túnel por anos, Andy atravessa o esgoto de uma prisão de segurança máxima, um verdadeiro inferno subterrâneo, para emergir do outro lado livre. Red resume aquela jornada dizendo que Andy “navegou por um mar de merda e saiu do outro lado mais limpo do que entrou”.

Guardei essa imagem porque ela traduz, com brutal honestidade, o que significa atravessar um ambiente hostil sem se deixar contaminar por ele.

Assim foi a minha passagem pelo Ministério da Saúde. Assumi a pasta no momento mais crítico da pandemia, diante de uma crise sanitária sem precedentes, sob pressão permanente, enfrentando uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) por seis meses consecutivos, lidando com a complexidade de um ministério que, por sua própria natureza, reúne técnica, política, dor humana e urgência absoluta. Naveguei por um ambiente conturbado, exposto, muitas vezes injusto. Atravessei tudo isso com serenidade, método e compromisso público. Saí do outro lado com a crise sanitária superada e com a consciência limpa de quem fez o que precisava ser feito.

Essa força não surgiu do nada.

Como Scarlett O’Hara, que dizia que sua resistência vinha de Tara, atribuo a minha capacidade de enfrentar e vencer crises às minhas raízes sertanejas, apesar de nunca ter vivido em suas áridas terras. Sou um sertanejo que nasceu na praia. É do sertão que vem a obstinação silenciosa, a paciência estratégica, a coragem que não grita, mas persiste, que herdei dos meus pais e dos meus avós. É do sertão que vem a noção de que as dificuldades não são superadas em um único gesto heroico, mas na soma diária de decisões difíceis.

Luiz Gonzaga, “Rei do Baião”, traduziu esse sentimento em versos que atravessam gerações:

“Quando vim da minha terra
Foi com dor no coração
Quando lá deixei meus pais
Meus parentes, meus irmãos
Aquela gente querida
Faz parte da minha vida
Como vou dizer que não…”

Essa gente querida faz parte de mim. É dela que vem a inspiração para superar os obstáculos. É ela que explica por que, mesmo sob ataque, pressão e desconfiança, segui adiante sem me desviar. O sertão não me ensinou apenas a resistir – ensinou-me a atravessar.

E talvez seja isso, afinal, que explica quem é o tal de Queiroga.”

Foto de Marcos Marinho

Marcos Marinho

Colunista do A Palavra Online.

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