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Coluna · Marcos Marinho

SEM NOTA PROMISSÓRIA

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A capacidade humana de surpreender continua sempre em alta. E tanto faz se no ALTO ou no BAIXO clero. Ou seja, o que acontece na zona rica com a elite também se dá no lado oposto, dentro da favela e da sarjeta.

O que há de se fazer, lá ou cá, é forçar as pessoas a se ver como ela é.

Para começo, cada uma tem de compreender o raciocínio que a levou a cometer seus deslizes. Depois, tem de se dar conta do mal que causou a outros. E a partir daí tem de entender que as outras pessoas não pensam iguais e que é necessário mudar o modo como se relaciona com o mundo.

Tem de deixar de se ver como o centro de tudo e aprender que existem limites para as suas vontades e consequências para os seus atos.

É uma receita aparentemente fácil, simples de colocar em prática. Requer apenas disposição, fé em Deus e sabedoria para compreender que a vida é efêmera. Hoje, somos; amanhã, quem sabe…

Delimitar espaços é outra excelente alternativa para uma vida com menos dramas. Porque geralmente o que continua a ocorrer é a síndrome da mesmice. Há pessoas que avançam em um dia e retrocedem no seguinte. Algo como dizer que uma vez errado, sempre errado.

Nesse caso, a pessoa tem de se manter sóbria para não arriscar pôr tudo a perder. Não é que vá cometer os mesmos erros. O que ocorre é que esse tipo parece ter dentro de si uma inclinação para repetir o padrão de pensamento que resulta em cometer as mesmas situações. Aí, tem de estar sempre vigilante, cada vez com maior senso de auto-crítica, sem o que a vida lhe será eternamente um pesado fardo.

Verdade que temos casos perdidos. Gente que não pode ser restaurada. Que nasceu para morrer dentro do lodo. Felizmente, essa é uma parte mínima. Causa alegria, portanto, saber que a maioria esmagadora das pessoas tem apetite por mudar. E outra vez os parâmetros: umas para melhor; outras para pior. Ainda bem que a inclinação para o lado bom é infinitamente superior.

Longe estou de dar lições a quem quer que seja. Até porque o meu dever de casa continua parcialmente por fazer. A tarefa que a vida me deu é árdua e a caminhada íngreme desde o nascedouro. Nada me chega fácil, prontinho, selecionado… Ganho coisas extraordinárias, mas todas carentes dos meus retoques e acabamentos. Nunca, até aqui, recebi produto acabado, a me satisfazer ou a me entesourar. E das jóias tantas que ainda tenho e continuam gravitando em meu derredor, orgulho-me do trabalho de lapidação que duramente consegui executar.

Dizem que a idade matura o homem. Que o passar dos anos torna-o mais frio, mais sereno, mais duro. E dizem também – mas não se sabe se por causa disso – que a longevidade é capaz de provocar em boa parte das pessoas o aumento da capacidade de diálogo e conciliação. Seria, talvez, o avistar do ocaso. Se o tempo que resta é menor, viva-se ele com mais amor, com mais intensidade, com menor nível de problemas, com pouco esforço físico, com mais alegria e mais coragem para enfrentar as adversidades que continuarão a existir.

Naturalmente que existem momentos em que um pulo a mais para a própria sombra ajudará a refletir e depurar os sonhos. Cada um de nós precisa, em algum ou em alguns momentos da existência, de abrir-se para si mesmo.

Não há melhor confidente, nunca!

Por vezes, a solidão resulta em um dos remédios mais eficazes para males fortuitos, daqueles desnecessários que de repente se atrelam às pessoas sem que se saibam as reais razões do seu existir. Males banais que nascem do acaso, que surgem do inconsequente e que acabam ganhando adubo por mãos e forças estranhas que a própria natureza delas se amedronta.

Então, fazer-se a própria muleta!

Nessas horas, como em auto-estrada onde o carro enguiça e ninguém breca para dar socorro, onde a solidariedade foge e onde o ombro-amigo é só utopia, olho no espelho… É vendo a dor que dilacera que surgirá o elixir salvador.

A vantagem é maravilhosa. Finda a travessia descomunal, não haverá dívidas a quitar. Mesmo porque o Pai – sombra, muleta e elixir – não aceita nota promissória de filho que ama e protege.

Publicado originalmente em A PALAVRA ON LINE em 08/09/2024

Foto de Marcos Marinho

Marcos Marinho

Colunista do A Palavra Online.

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