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EXCLUSIVO – Breviário da carne e da hypocrisia brazileiras (Por Olímpio Rocha)

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Há, disseminado pelas vastidões moraes deste paiz, um typo humano cuja persistência através dos séculos deveria interessar menos aos theologos que aos naturalistas, porque sua extraordinária capacidade de adaptação aos successivos regimes, religiões, constituições e costumes sugere não propriamente uma convicção, que é cousa contingente e modificável, mas uma característica quasi anatômica, uma excrescência do organismo social brazileiro, tão antiga quanto o patriarcado que a engendrou e tão resistente quanto essas espécies ruderaes que vicejam sobre ruínas, atravessando Colônia, Império e República sem perder a singular faculdade de estabelecer para os outros uma disciplina que jamais reputou inteiramente applicável a si mesmo.

O espécime já existia no Brazil colonial, quando o senhor de engenho, cercado de filhos legítimos, bastardos, escravizados e mulheres sobre as quaes exercia poderes hoje difficilmente concebíveis, presidia a família como sacerdote severíssimo da honra feminina, exigindo das filhas a virgindade, da esposa a fidelidade, dos subalternos a continência e de si próprio absolutamente cousa nenhuma; sobreviveu no coronel sertanejo, que mandava as mulheres da casa à missa, financiava procissões, beijava o annel episcopal, condemnavа com vehemência qualquer desvio dos costumes e, finda a novena, encontrava sem grave conflicto metaphysico a porta lateral do bordel, porque o pecado, no patriarcado brazileiro, nunca foi distribuído democraticamente, cabendo aos poderosos o direito de praticá-lo e aos demais a obrigação de temê-lo.

A República não extinguiu a espécie, apenas lhe trocou a indumentária, substituindo o gibão pelo terno, o bacamarte pelo telefone, a casa-grande pelo condomínio, a carta manuscripta pela mensagem electrónica, conservando-lhe, todavia, a estructura psychológica fundamental, pois continuamos produzindo homens capazes de perscrutar a sexualidade alheia com fervor inquisitorial, de condemnar homossexuaes, policiar identidades, esquadrinhar banheiros, livros, escolas, famílias e desejos, como se a Pátria estivesse permanentemente ameaçada por alguma cópula heterodoxa, ao mesmo tempo em que reclamam, para suas próprias alcovas, uma espécie de habeas corpus libidinal, ampla, geral e irrestricta.

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Tal fenômeno mereceria classificação própria: chamemo-lo Homo moralis braziliensis. Seu comportamento apresenta curiosa variação circadiana, sendo eminentemente conservador durante as horas solares e susceptível de surpreendente liberalização depois do crepúsculo, quando a mesma criatura que, pela manhã, considera necessário salvar a civilização occidental dos costumes alheios pode descobrir, à noite, que a liberdade individual afinal encerra virtudes insuspeitadas; transformação biologicamente admirável, verdadeira plasticidade fenotypica da consciência, mediante a qual o organismo conserva intacta sua physiologia enquanto altera completamente a moral conforme a iluminação do ambiente.

Não se trata, convém advertir, de condemnar o prazer, porque semelhante empresa seria tão estúpida quanto declarar guerra à gravidade, nem de transformar prostitutas em rés de qualquer processo moral, pois a prostituição atravessou impérios, concílios, cruzadas, inquisições, monarchias, revoluções e dictaduras, assistindo, provavelmente com alguma fadiga, à successão interminável de homens que a procuram à noite e a condemnam pela manhã. Aliás, talvez a prostituta seja, nessa velha comédia dos costumes, a personagem mais singularmente honesta.

Ella não promette castidade, não reivindica santidade e nem pede voto em nome de Deus. Não converte o próprio comportamento em legislação para a cama do vizinho e não pretende salvar a família brasileira. Offerece um serviço, estabelece condições, recebe por elle e segue a vida, numa transparência mercantil que, comparada a certas transacções políticas e moraes, chega a possuir qualquer cousa de philosophicamente edificante.

A moral sexual brazileira, com effeito, raramente foi apenas moral, sendo também instrumento de poder, classe e gênero, porque os corpos nunca receberam igual fiscalização, havendo sempre maior severidade para a mulher que deseja, para o pobre que transgride, para o homossexual que ama, para aquelle que diverge da norma, enquanto o patriarcha, o coronel e o potentado conservaram para si largas zonas de extraterritorialidade ética, como se a própria posição social lhes conferisse salvo-conducto contra os mandamentos que distribuíam aos subordinados.

É justamente por isso que não devemos confundir ética com moralismo. A ética pergunta pelo consentimento, pela liberdade, pela dignidade, pelo dano causado ao outro. O moralismo prefere perguntar quem dormiu com quem. E talvez o faça porque fiscalizar lençóis é infinitamente mais fácil que examinar relações de poder.

Chegamos, então, ao nosso espécime contemporâneo. Mensagens, photographias e documentos atribuídos a Alexandre Santini, antigo amigo e sócio de Flávio Bolsonaro, indicariam que o senador teria participado de festas privadas com garotas de programa, encontros que Santini teria ajudado a organizar; nas mensagens divulgadas, o senador seria mencionado pela expressão quasi apostólica “meu filho”, havendo inclusive recomendações de discrição relacionadas ao período eleitoral.

E subitamente toda aquella arqueologia deixa de parecer antiga. O senhor de engenho mudou de século, o coronel mudou de indumentária e o bilhete virou WhatsApp. O bordel tornou-se hotel e o velho conflicto entre a moral proclamada e a liberdade secretamente reclamada atravessou quatro séculos sem perder a saúde. Nada disso escandaliza pelo sexo.

Se adultos, livremente, desejam encontrar-se, beber, amar, fornicar, pagar, receber, arrepender-se ou repetir tudo na semana seguinte, não vejo por que a República haveria de nomear bedel de alcova, corregedor de libido ou Santo Officio destinado a averiguar a orthodoxia dos lençóis. O problema principia quando a liberdade deixa de ser direito e transforma-se em privilégio.

Quando a carne que se tolera em si mesmo vira depravação no corpo alheio. Quando se condemna a homossexualidade do outro, fiscaliza-se sua família, seu gênero, seu desejo e sua intimidade, mas se reivindica para si, fechada a porta, a soberania absoluta do próprio corpo.

A prostituição, portanto, não é a accusada deste breviário em forma de pequeno ensaio. É testemunha antiquíssima de uma civilização que frequentemente pune menos o pecado que a falta de poder para praticá-lo impunemente. E talvez seja essa a ironia derradeira, depois de quatrocentos annos de sermões, procissões, coronéis, patriarchas, inquisidores de costumes e salvadores da família: havia naquellas festas mulheres que vendiam serviços e homens que carregavam discursos, e talvez a posteridade, menos pudibunda e mais exacta que nós, descubra que as primeiras, justamente porque jamais venderam virtude, eram as únicas que não tinham moral alguma a prostituir.

Fonte: Da Redação

Redação A Palavra

Equipe de jornalismo do A Palavra Online.