Última carta de Natal de jovem morto na Bica revela sonho de cuidar de animais e pedido por afeto
Publicado em 18 de dezembro de 2025Texto escrito na adolescência expõe trajetória marcada por abandono, desejo de ser policial florestal ou veterinário e falta de acesso à saúde mental.
Antes de morrer aos 19 anos, após invadir o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, a Bica, em novembro de 2025, Gerson de Melo Machado deixou registrado em uma carta de Natal um desejo simples e simbólico: trabalhar como policial florestal ou veterinário e receber carinho da mãe. O texto, escrito ainda na adolescência, veio a público nesta terça-feira (16) e lançou nova luz sobre a história de vulnerabilidade do jovem.
A carta, com o tema “Desejo do Coração”, foi escrita por Gerson enquanto estava no Centro Educacional do Adolescente (CEA) e compartilhada nas redes sociais pela conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou sua trajetória. No texto, ele também expressa o desejo de receber a visita da mãe. “Eu queria ter uma grande felicidade que eu nunca tive, mas como Deus é maior um dia irei ter”, escreveu.
Além dos sonhos profissionais ligados ao cuidado com animais, Gerson agradeceu aos professores, agentes, diretores e advogados da unidade socioeducativa, demonstrando reconhecimento pelo apoio recebido no período em que esteve institucionalizado.
Segundo Verônica Oliveira, a história de Gerson foi marcada por sucessivas violações de direitos. A mãe, que enfrentava problemas psicológicos, perdeu a guarda dos filhos, que foram colocados para adoção. Em uma tentativa de reaproximação, ainda jovem, Gerson procurou a genitora, mas ouviu que ela não o reconhecia mais como filho.
“Ele foi uma criança sem direitos, um adolescente sem direitos e virou adulto em um curto espaço de tempo sem nenhum direito. Ele precisava de cuidados na saúde mental”, afirmou a conselheira tutelar. Para ela, a tragédia expõe falhas estruturais na rede de proteção e assistência psicológica a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
A divulgação da carta provocou comoção nas redes sociais e reacendeu o debate sobre saúde mental, acolhimento institucional e o acompanhamento de jovens que deixam o sistema socioeducativo sem suporte contínuo.
Fonte: Da Redação
