Tentativa de privatização do Açude Velho em 1988 foi barrada por ação legislativa de Márcio Rocha (PCB), revela resgate histórico
Publicado em 20 de janeiro de 2026
Márcio Rocha exerceu mandatos consecutivos de vereador entre 1983 e 1997, inicialmente pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, posteriormente, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Sua trajetória é reconhecida até hoje como uma das mais relevantes da história do Legislativo de Campina Grande e da Paraíba, marcada pela defesa intransigente do interesse público, dos direitos sociais, do patrimônio coletivo e das liberdades democráticas.
Origem familiar e formação política

É filho também de Fátima Tarradt Rocha, filha do palestino José Tarradt, mulher reconhecida como verdadeira matriarca da família, dedicada dona de casa e figura de grande firmeza moral, que se dedicou integralmente à criação de dez filhos, exercendo influência decisiva na formação ética, política e humana de dezenas de netos e bisnetos.

Em 1988, o projeto do shopping contou com acolhimento do Executivo municipal, que recebeu empresários, autorizou estudos técnicos e encaminhou a proposta à Câmara Municipal. No Legislativo, formou-se inicialmente maioria favorável à cessão do bem público.
Márcio Rocha, mesmo como vereador da base política do prefeito, da qual depois se afastou, denunciou publicamente que a proposta representava a privatização de um patrimônio histórico, ambiental e simbólico da cidade. Para além da oposição política, articulou e aprovou um projeto de lei que transformou o Açude Velho em patrimônio histórico do município, criando impedimento jurídico direto à sua doação, cessão ou alienação. A iniciativa legislativa foi decisiva para inviabilizar o empreendimento e preservar o Açude Velho como bem público.

Um dos documentos centrais desse acervo é o artigo publicado em 1995 no Diário da Borborema, jornal do qual Márcio Rocha era articulista. No texto, preservado em seu arquivo pessoal, ele responde diretamente a declarações do ex-prefeito Ronaldo Cunha Lima, então senador, que afirmava que Campina Grande só não teve um shopping no Açude Velho por atuação isolada de “um vereador”.
No artigo, Márcio Rocha é categórico ao afirmar que a tentativa de construção do shopping só foi barrada pela ação direta e organizada, por ele capitaneada em conjunto com a minoria da Câmara Municipal, com apoio decisivo de setores da sociedade civil que se posicionaram contra a privatização do patrimônio público. O texto desmonta versões posteriores e registra que a derrota do projeto não foi circunstancial, mas resultado de enfrentamento político e iniciativa legislativa concreta.

A atuação de Márcio Rocha no episódio do Açude Velho integra um conjunto mais amplo de grandes lutas sociais e institucionais, amplamente documentadas em seus artigos e intervenções parlamentares. Entre elas, destacam-se:
•a defesa da Ocupação do bairro das Malvinas, em favor do direito à moradia;
•o enfrentamento ao grupo de extermínio “Mão Branca”, com denúncias públicas de execuções e violência institucional;
•a luta pela federalização do curso de Medicina, consolidando o curso na Universidade Federal da Paraíba;
•o combate às oligarquias campinenses e ao clientelismo político, na oposição às gestões de Cássio Cunha Lima e Félix Araújo;
•a defesa permanente do direito à saúde, com atuação direta como médico popular nas comunidades carentes.
Márcio Rocha também teve participação ativa na luta pela redemocratização do país, tendo liderado em Campina Grande o Comitê pelas Diretas Já, ainda na década de 1980, enfrentando os resquícios da ditadura militar e mobilizando a sociedade civil pela retomada do voto direto e das liberdades democráticas.

Além da atuação parlamentar, Márcio Rocha teve papel central na estruturação de políticas públicas de saúde. Foi o primeiro diretor do Hospital Regional de Emergência de Campina Grande, unidade que posteriormente se transformou no Hospital de Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes. Atuou também como diretor de Atenção à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, durante a gestão do prefeito Veneziano Vital do Rêgo, sendo responsável pela implantação e modernização do Programa de Saúde da Família (PSF) no município, chegando a assumir interinamente a Secretaria Municipal de Saúde.
Sua produção intelectual sempre esteve vinculada à luta pelos direitos humanos, inclusive em temas internacionais. Neto do palestino José Tarradt, Márcio Rocha sempre afirmou tratar a questão da Palestina não apenas como pauta geopolítica, mas como dimensão de sua própria história familiar, como descendente direto do povo palestino.
Memória, presente e livro
O resgate desse episódio histórico ganha atualidade diante da recente crise ambiental no Açude Velho, denunciada pelo advogado e professor Olímpio Rocha, filho de Márcio Rocha, ex-candidato a prefeito de Campina Grande e primeiro suplente de deputado estadual pelo PSOL, que cobrou providências das autoridades e denunciou o atual prefeito Bruno Cunha Lima por crime ambiental.
Atualmente, Márcio Rocha, médico do SUS e figura histórica da política campinense, não exerce funções na gestão pública, estando afastado da vida político-partidária e dedicado à família. É casado com a médica pediatra Luísa Marillac e pai de Olímpio Rocha, de Lívia Rocha, enfermeira do Governo do Distrito Federal, e de Tâmara Rocha, que atua no setor hoteleiro em Estocolmo, na Suécia, onde reside há alguns anos. É avô de Duda e Gabriel, filhos de Lívia, e de Marcinho, filho de Olímpio.
Como parte do esforço de preservação dessa memória política e intelectual, encontra-se em fase final de revisão o livro “O Médico dos Pés Descalços”, com previsão de lançamento para o mês de agosto, quando Márcio Rocha completará 68 anos de idade. A obra reunirá mais de 50 artigos de opinião, nos quais o autor trata de temas locais, nacionais e internacionais, da luta contra grupos de extermínio à defesa da redemocratização, do direito à moradia e à saúde às questões internacionais relacionadas aos direitos humanos.
O título do livro remete à sua atuação direta como médico popular nas comunidades carentes, característica que lhe rendeu a alcunha de “Médico dos Pés Descalços”, cunhada pelo poeta Zé Laurentino, autor de um cordel sobre sua vida e trajetória, que também integrará a publicação.
A história do Açude Velho evidencia que a defesa do patrimônio público é uma luta permanente, que atravessa gerações. Como sintetizam Belchior e Elis Regina, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.
Fonte: Da Redação (Por Olimpio Rocha)
