Valberto José

Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.

SAF, safadeza, safadão

Publicado em 28 de março de 2025

Severino Marinho Leite, nos nossos encontros nas manhãs de domingo em Toinho da Cabeça de Galo, filosofava que “futebol é cachaça”. Meu amigo Marinho Branco se referia aos mecenas que investiam nos clubes de futebol sem ambição de lucro, apenas pelo prazer e por divertimento, e o retorno pessoal seria a conquista de um título. Com o advento da SAF, o mecenato futebolístico tende a acabar.

Antes, bem antes, já se falava em clube-empresa, tendo o União São João, Araras – SP, se constituído o primeiro clube–empresa do País, sob a Lei Zico (Lei nº 8.672, de 6 de julho de 1993), que facultava aos clubes de futebol a transformação em empresas. Outros clubes surgiram com essa característica, mas boa parte sequer disputa competições, e entre aqueles que disputam, poucos estão na primeira divisão dos Estados de origem ou nacional.

Com o surgimento da Lei Pelé (Lei 9.615 de 24 de março de 1998) e a consequente revogação da Lei Zico, o que era facultativo passou a ser obrigatório, e todos os clubes de futebol profissional do Brasil deveriam se tornar empresas. A Lei n° 9.981, sancionada em 2000, tornou a obrigatoriedade novamente opcional para os clubes.

A Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo especial de constituição de empresas voltado para o futebol no Brasil, foi oficializado por meio da Lei nº 14.193 de 6 de agosto de 2021, e se constitui em tendência pelo País. Também já aportou na Paraíba, com o CSP, e mais recentemente o Botafogo de João Pessoa aderindo, após um processo cuidadoso de preparação. O próximo deve ser o Treze.

Tenho um sentimento e, conversando com alguns torcedores, eles concordam de que a SAF tira o sentido de coletividade que o clube inspira, aquele que, basta torcer, é seu. Com a SAF, fica a sensação de que o clube agora, oficialmente, tem dono e isso pode acabar o amor, a paixão pelo time. Ao mesmo tempo, acho que se jogar futebol e conquistar títulos, ganha torcedores.

As vantagens da SAF é que acabaria aquela especulação entre torcedores de que fulano entrou no clube para tirar proveito próprio ou, no popular, para roubar; também muitos dirigentes deixariam de ser injustiçados por torcedores inconformados pela perda de um campeonato.

Não sei o que Seu Marinho, se vivo fosse, diria sobre a SAF, mas acho que aprovaria com ressalvas, pois, como toda empresa, requer um bom gestor, correto e cumpridor de seus deveres. Afinal, em tudo há riscos, e a sonoridade da sigla já lembra de safadeza, safado, safadão e safar.