Emir Gurjão

Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.

Quando o professor ( Benedito Antonio Luciano) abre a porta do poema ( Escrito pelo poeta Cruz e Souza)

Publicado em 30 de abril de 2026

Ler Cruz e Sousa ( que eu não, li) é entrar em uma linguagem de outro tempo. Os poemas, escritos há mais de 130 anos, exigem do leitor comum um esforço que nem sempre está ao seu alcance imediato.

Foi exatamente isso que percebi ao ler os trechos dos poemas “Cárcere das Almas” e “Violões que Choram”, citados pelo professor Benedito Antonio Luciano em seu artigo “Cárcere que aprisiona e cordas que libertam”, publicado no Paraíba Online.

Mas, há uma barreira: muitos termos não pertencem mais ao vocabulário cotidiano; as imagens são simbólicas; as frases não entregam o sentido de forma direta e atual . É como se o leitor estivesse diante de uma bela porta antiga, trabalhada em madeira nobre, mas sem saber onde está a chave.

E é aí que entra o professor Benedito.

Ele não diminui a poesia. Não empobrece o texto. Não transforma Cruz e Sousa em algo vulgar ou superficial. Ao contrário: ele faz uma mediação inteligente. Ele clareia o caminho.

Em “Cárcere das Almas”, por exemplo, o poeta fala da alma aprisionada, sofrida, desejando liberdade, olhando para a imensidão do mundo e do mistério. Mas Sem explicação, muitos leitores (Inclusive eu)não conseguem organizar o entendimento.

Em “Violões que Choram”, a dificuldade é ainda maior, Ao leitor comum parece bonito e, ao mesmo tempo, confuso.

Pedi a algumas pessoas próximas que lessem os versos e explicassem o que haviam entendido. Nenhuma conseguiu apresentar uma interpretação segura. Isso me levou a uma conclusão importante: esse tipo de poesia, por mais rica que seja, acaba ficando restrita a um número pequeno de leitores, porque exige vocabulário, sensibilidade literária e treinamento interpretativo.

E aqui faço uma observação, não uma crítica.

O problema está na distancia que se criou entre a linguagem clássica da literatura e a linguagem cotidiana do brasileiro comum. É como comparar uma partitura musical complexa com uma música popular ouvida no rádio.

O professor Benedito funcionou como um tradutor da sensibilidade poética. Ele pega um texto difícil, e aproxima o leitor do “comum”.

A literatura clássica precisa desses mediadores. Com uma boa explicação, eles voltam a respirar. Ganham leitores. Deixam de ser monumentos distantes e passam a ser experiências possíveis.

Por isso, o artigo de Benedito merece elogio. Ele mostrou que a poesia difícil não precisa ser abandonada; precisa ser apresentada com inteligência, paciência e clareza.

No fundo, há uma bela ironia nisso: em “Cárcere das Almas”, Cruz e Sousa fala de almas aprisionadas. E, ao explicar o poema, Benedito ajuda a libertar o leitor do cárcere da incompreensão e com uma boa explicação, ela deixa de ser inacessível.