Marcos Marinho

Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

Nas enchentes daqui “solidariedade” só da boca pra fora

Publicado em 4 de maio de 2026

A invernada que se antecipou sobre algumas cidades paraibanas neste recente final de semana motiva algumas observações e/ou questionamentos envolvendo o trabalho dos homens públicos – prefeitos, governador e secretários, deputados, vereadores, senadores, ministros de Estado etc., e onde, via de regra, pouco ou quase nada entra no rol das prioridades gerenciais, valendo nessas horas tão somente o desarranjo que atende pelo nome de improviso.

De quinta feira para hoje a palavra SOLIDARIEDADE, de tanto que vem sendo pronunciada em entrevistas ou fortuitos encontros de autoridades com desabrigados, desassistidos e desamparados da tragédia deve ter-lhes entortado a boca.

Ser solidário com a dor alheia é dever de todos, por óbvio. E o que dizer dessas autoridades? Porque não basta o discurso bonito sob pingos de chuva no meio das ruas onde o séquito de fotógrafos e cinegrafistas tomam imagens para mostrar “o trabalho” do momento. É certo que o efeito surpresa das intempéries tem a sua culpa e a mãe-natureza tem lá os seus pesados braços…

Sexta feira pela manhã, seguindo para o litoral Sul do Estado, ao cruzar a ponte sobre o rio Paraíba na altura de Caldas Brandão, BR 230, deu para ver o volume d’água descendo o estuário no rio Paraíba, dando para estimar que em poucas horas chegariam em Cruz do Espírito Santo, Santa Rita e todas as outras cidades até a desembocadura em Cabedelo.

Lá atrás, no que deve ter sido a primeira grande enchente do rio Paraíba, até a Igreja Matriz de Cruz do Espírito Santo foi levada pela correnteza, que seguiu fazendo estragos rio abaixo, de sorte que tragédias como essa de agora não são nenhuma novidade. Como igualmente não é mais novidade que esses gestores – municipais, estaduais e federais – só esbocem alguma reação, algum trabalho que seja, quando tem gente e animais mortos sendo arrastados para o meio dos canaviais.

N’outra feita, aqui neste espaço, me insurgi contra o nome DEFESA CIVIL batizando uma repartição que deveria prevenir ao invés de remediar. E colho essa certeza do exemplo que recolhi, ao lado do meu saudoso amigo Carlos Noujaim Habib, durante convenção lojista que participamos na bela Blumenau, em Santa Catarina, cidade no Vale do Itajaí cortada pelo rio que dá nome ao próprio vale e que periodicamente esborra do seu leito e produz estragos na localidade, embora com efetivo controle preventivo da Defesa Civil e demais órgãos do aparato de segurança pública.

A enchente do Itajaí é uma loucura, mas ela é domada. Baseada nas planilhas da meteorologia, a Defesa Civil dá o alarme de que em pouco mais de seis horas ela chegará, tempo suficiente para que as famílias saiam de suas casas e procurem familiares em locais mais seguros, inclusive se precisarem com ajuda de veículos e servidores do órgão, estruturados inclusive para removerem móveis, animais e o que mais necessitarem.

Agora mesmo, por exemplo, com foco na prevenção, o município de Itajaí, na chamada área metropolitana de Blumenau, está colocando em prática medidas estratégicas para o segundo semestre de 2026. Entre elas, o desassoreamento do Ribeirão da Murta, a definição de abrigos emergenciais e o fortalecimento da comunicação com a população.

A atuação integrada entre secretarias, Defesa Civil e instituições parceiras garante mais agilidade nas respostas e amplia a proteção às áreas mais vulneráveis.

Com a previsão de chuvas acima da média a partir de julho, o trabalho segue com monitoramento constante, planejamento e informação chegando a quem mais precisa.

Ou seja, a enchente é previsível, vai chegar com intensidade máxima, mas os cuidados prévios do Poder Público evitarão catástrofe, mortes e desespero, o que por aqui simplesmente não existe, reinando a improvisação que gera politicagem, notadamente em ano como este 2026, de eleições!

Em Santa Rita mesmo, onde a água por pouco não a varre do mapa, o São João 2026 que lá ocorrerá de 12 de junho a 5 de julho na Praça do Povo, terá atrações de elevadíssimos cachês, como Solange Almeida, Pablo, Priscila Senna, Raça Negra e Menos é Mais. Dinheiro é o que não falta e as atrações só sobem ao palco com o PIX nas suas contas.

Isso é Brasil !!!

Ano passado os municípios paraibanos destinaram R$ 130,1 milhões para os festejos juninos, um aumento de 80% em comparação com 2023, segundo o Relatório São João 2025 divulgado pelo Tribunal de Contas da Paraíba (TCE-PB). O estudo, elaborado pela Diretoria de Auditoria e Fiscalização (DIAFI) com base em dados do sistema Sagres até 31 de julho de 2025, revela que as despesas com festas de São João entre 2023 e 2025 totalizaram R$ 318,6 milhões, representando 50,5% dos R$ 630 milhões gastos em festividades no período.

E, por incrível que pareça, a Prefeitura de Santa Rita foi a que mais gastou com shows no período.

O relatório do TCE-PB detalha que 79,4% das despesas de 2025 foram feitas por contratações diretas, sendo 64,3% por inexigibilidade de licitação e 15,1% por dispensa. As modalidades de pregão eletrônico e adesão a atas de registro de preços responderam por 17% dos gastos. A função Cultura concentrou 80% dos recursos (R$ 104,1 milhões), seguida por Comércio e Serviços (12,5%) e Desporto e Lazer (3,5%).
Uma farra mesmo. Enfim, isso é Brasil!

Santa Rita liderou os gastos em valores absolutos, com R$ 11,3 milhões, seguida por Sapé (R$ 7,8 milhões), Santa Luzia (R$ 7,6 milhões), Monteiro (R$ 4,4 milhões), João Pessoa (R$ 3 milhões), Esperança (R$ 2,9 milhões), Conceição (R$ 2,5 milhões), Campina Grande (R$ 2,3 milhões), Cabedelo (R$ 2,3 milhões) e Cajazeiras (R$ 2,1 milhões). Em termos per capita, Santa Luzia registrou o maior valor, com R$ 492,69 por habitante. O relatório também comparou os gastos com São João às áreas de Saúde e Educação, destacando que, em Santa Luzia, as despesas com as festas representaram 30,8% do total per capita aplicado em Saúde e 39% em relação à Educação.