
Marcos Marinho
Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.
Meus dois pés na “cobrança” de Renato Diniz
Publicado em 23 de dezembro de 2025Até 15 minutos atrás eu estava na estrada, vindo de Carapibus onde tenho uma casinha para o descanso na porta do Oceano Atlântico, e ao parar para a obrigatória tapiocazinha com café quente lá no Irmão Firmino abri o ZAP para ver as novidades, logo me deparando com uma oportuna cobrança do meu dileto e inoxidável amigo Renato Diniz, multiplataforma humana do nosso jornalismo policial.
Aliás, mais do que uma cobrança não apenas dirigida a este seu admirador, mas igualmente ao maior às da microfonia campinense, o Doutor e Diretor de Jornalismo da Campina FM, Lenildo Ferreira, o confrade foi direto ao ponto:
– “Sabe o que eu queria? Era ler de você ou de Lenildo um texto bem palmatória sobre esse moído das Havaianas…”.

Como cobrança de amigo do quilate de Diniz é mais do que ordem, e o cansaço da “água de coco” na praia logo iria esfriar o tema, a Providência Divina me ajudou ligeiro a encontrar palavras com as quais já me desincumbo da feliz obrigação, restando agora a pena de Lenildo, que com certeza virá e a mim também saciará!
Faço minhas, portanto, essas palavras irretocáveis do cronista cuiabano João Guató, que pesquei da internet:
“Os bolsonaristas acordaram um dia desses com uma dor estranha no corpo. Não era na consciência — essa já foi embora faz tempo —, mas no pé. No pé direito. Tudo porque Fernanda Torres, atriz, mulher, artista e, portanto, perigosa por definição, apareceu num comercial de Havaianas e disse, com todas as letras, sem código secreto da URSAL nem legenda do Foro de São Paulo:
– “Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. […] O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés.”
Pronto. Bastou isso. O cérebro coletivo da extrema-direita nacional sofreu uma luxação semântica. “Pé direito” deixou de ser força de expressão e virou partido político. A língua portuguesa foi acusada de militância.
De repente, um comercial de chinelo virou plano de governo. Um desejo de ano-novo virou ataque à direita. E uma atriz virou ameaça à democracia — aquela mesma democracia que eles só defendem quando vence.
Eduardo Bolsonaro, sempre pronto para o sacrifício simbólico inútil, gravou vídeo jogando um par de Havaianas no lixo. Um gesto histórico. O chinelo, até então inocente, foi punido por ousar tocar um pé patriota. Comparou com o boicote à Budweiser, provando que o Brasil copia até as birras estrangeiras.
Bia Kicis e Nikolas Ferreira engrossaram o coral da indignação performática:
– “Se as Havaianas não nos querem, nós também não queremos as Havaianas.”
Como se a marca estivesse chorando num canto, implorando pelo amor de um eleitor que acha que “havaiana” é ideologia.
A hashtag #HavaianasNoLixo se espalhou. Gente filmando a própria falta do que fazer. Jogando fora o que já foi pago. O capitalismo aplaudiu de pé — com os dois pés, diga-se.
E a internet respondeu do jeito que sabe: com escárnio. Teve quem sugerisse amputar a perna esquerda, só por garantia. Outros recomendaram ferraduras, já que o raciocínio anda meio equino. Houve quem perguntasse se agora tropeçar seria comunismo e pisar em falso, progressismo.
O mais fascinante é esse talento especial para enxergar conspiração onde só há metáfora.
Um grupo que não entende ironia, odeia arte e tem alergia a nuance, mas se acha guardião da pátria. Patriotismo frágil esse, que se esfarela diante de um chinelo de borracha.
A campanha não falou de política. Falou de ir com tudo. De viver. De meter os dois pés na vida. Mas quem vive de paranoia prefere ficar parado, equilibrado num pé só, com medo de cair na realidade.
No fim das contas, o Brasil segue andando — com os dois pés, descalço, de chinelo, de sandália ou até de ferradura. Já o bolsonarismo… esse tropeça até em propaganda de Havaianas.”
