Valberto José

Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.

Meio século se passou e não nos encontramos mais

Publicado em 20 de dezembro de 2025

A festa teve outro significado, outra motivação, além da conclusão de uma etapa escolar. Celebrou-se formatura da turma pioneira da escola que anos antes iniciara suas atividades como opção educacional entre as décadas de 60 e 70, na cidade de Patos. Instituto Educacional Vera Cruz, mais do que um ambiente de aprendizadofuncionou como um consultório psicológico a amenizar o impacto da mudança de cidade, na minha adolescência iniciante. 

O pioneirismo da unidade escolar acomodava duas turmas de 5ª Série do 1º grau, correspondente hoje ao Ensino Fundamental, cada uma com cerca de 40 alunos. No final, a turma concluinte da 8ª série contava apenas 17 heróis da resistência, sobreviventes à avalanche de transferências de estudantes que afetou o colégio e que, suponho hoje, fez Marlene César, querida professoraassumir a direção 

Fatos marcantes acontecidos dentro e fora do Vera Cruz ainda reluzem no meu HD humano. Naquela encenação teatral, deu um branco na colega Norma Marinho, que contracenava com Manoel Alves Moreira, olvidando o texto. “Esqueci”, disse com admirável naturalidade. “Esqueceu o que, severgonha!”, improvisou Zito, arrancando gargalhadas, somente interrompidas quatro ou cinco anos depois, quando ele protagonizou sua cena derradeira em acidente automobilístico na Serra de Teixeira. 

Foi a primeira vez que lidei diretamente com o luto materno, voltando a Patos cerca de um ano depois dessa fatalidade. Não sei como arranjei coragem e fiz uma visita à sua mãe, que, ao me ver, caiu em pranto profundo e me deixou de consciência pesada. Pudera!  Zito costumava, na hora do recreio, me levar em sua casa, que ficava a uma distância de 1 Km da escola, para o lanche da tarde. 

Antes de Zito, outro Manoel, Medeiros, fora o colega mais próximo. Moradores do mesmo bairroíamos e voltávamos juntos para o Vera CruzRetornando das aulas, ficamos em frente ao Hotel Botijnha, da família de Bonaldo. Logo, fui posicionando uma cadeira de balanço na calçada ventilada, naquele final de tarde; numa rapidez surpreendente, Medeiros sentou-se nela. Peguei ar, xinguei-o com alguma coisa e fui embora. 

 Minha reação intempestiva preocupou Bonaldo“Ele vai ficar com raiva de você. “Fica não. Eu conheço Valberto”, confiou Medeiros. No outro dia, continuamos seguindo em dupla à escola até que ele e sua família se mudaram para João Pessoa. 

No Vera Cruzvivenciamos a dureza de uma ditadura internadecerto reflexos do regime instalado no país, e a liberdade da democracia restabelecidaDe início, uma diretora tãcaxia, que chegou a calar momentaneamente um aluno, colocando esparadrapo na sua bocaafastada depois, nova dirigente assumiu abrindo diálogo com todos, sempre com um sorriso cativante e disposta a nos ouvir. 

 Nunca esqueci da vez que Marlene César, antes de assumir a direção, levou dois discos e os tocou na aula de Moral e Cívica. Um, de Chico Buarque interpretando Construção; outrocom Geraldo Vandré alertando que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Após rodar, a professora fez sua explanação e disse que os discos eram proibidos e se o Exército soubesse quem possui um deles, seria apreendido o dono, acrescento hoje, poderia ser preso.  

O melhor do Vera Cruz, além do conhecimento adquirido, claro, foram os preparativos da festa de formatura. Com aval da nova diretoria, os líderes da turma puderam planejar e arranjar meios de arrecadar dinheiroRifaspedidos, corrida ao comércio e aos sítios em busca de ofertas e ajudas, realização de festinhas (retraído, numa delas me soltei e surpreendi a todos dançando). Nas viagens aos sítiosDavi conduzia a Rural que nos levava. Imagine uma lata de sardinha.  

Tudo isso aconteceu há meio século. A dispersão foi grande, mormente após conquistado o diploma superior Poucos ficaram em Patoseu e a mana Socorro logo voltamos para Campina Grande. Há cinco anos Marcos Dias Novo conseguiu reunir quase todos no grupo de WhatsApp. Desde entãoa sugestão de reencontro festivoe sempre protelado. Que tal noprimeiros meses – janeiro ou fevereiro – do ano novo? A data não pode passar em branco.