LENILDO FERREIRA: “Era uma vez, o São João” – Uma crônica para quem se lembra
Publicado em 30 de junho de 2025Naquele tempo, os tempos eram outros. São João não era apenas uma festa. Era congraçamento, encontro das famílias, reunião de amigos, um acontecimento esperado o ano todo. Uma legítima e marcante expressão das nossas raízes culturais.
A rodoviária ficava fruviando. Os ônibus da Itapemirim chegavam lotados. Vinham os filhos visitar os pais, chiando o sotaque de São Paulo ou do Rio, às vezes cheios das modernidades. A vizinhada louvava como estavam mudados, mais gordos e rosados!
As casas se enchiam de gente, com fartura de comida, de zuada e de alegria.
Os homens despalhavam o milho verde, ralavam a espiga – e o ralador, comprado na feira, amolado que só língua de fofoqueira, aqui e ali, levava um samboque de dedo.
As mulheres terminavam o preparo, embalavam as pamonhas na palha bem amarrada, colocavam o panelão enorme de canjica no fogo. No zunzunzum das conversas, todo mundo falava, ninguém ouvia e todos entendiam.
A noite chegava com a casa, a rua e o mundo todo envolvidos em aromas doces que se misturavam a um fumaceiro ardido das fogueiras incontáveis, uma em cada porta. Quem era mais abastado fazia a maior.
Ah! Quem dera um drone para ter batido retratos lá do alto em uma noite daquelas. Ia ser bonito de se ver!
Mãos se cruzavam sobre a lenha queimando, para firmar o pacto dos compadres de fogueira, levado a sério como compromisso para a vida toda.
O milho ia para a brasa. Os meninos pequenos soltavam ratinhos e giravam o chuveirinho. A rapazola detonava bomba canoa, bomba bujão, peido de velha. Buraco no muro virava esconderijo para detonação. Tudo tremia. As moças faziam simpatia para saber o nome do futuro namorado…
E lá vinha um balão! Pega o espelho! Mira nele! Canta: “Cai, cai, balão! Cai, cai, balão”. Foi-se embora. Mas, lá vinha outro… e outro, e outro…
Tome fumaça! Os olhos choravam sem querer. O milho bem assadinho era envolto na palha. Daqui a pouco, as travessas enchiam as mesas: pamonha, canjica, milho cozido, queijo de coalho. O ágape nordestino, a confraternização de um povo amoldado em sua cultura.
A radiola tocava Assisão e Luiz Gonzaga. Tinha quadrilha junina em cada bairro, sem dançarinos profissionais, gente lorde, figurino caro. Eram crianças com bigodes pintados a lápis, calças com falsos remendos, chapéus de palha, vestidos simples de chita, tranças arrumadas pelas mães.
O marcador gritava pelo padre, anunciava os noivos, bradava o alavantu. As famílias da molecada eram o público, ali do lado, de pé, entre admirando e rindo.
E a fogueira queimava até se reduzir em brasas que viravam cinzas. E Assisão cantava até o giro do LP chegar pela enésima vez à última faixa. E os balões desapareciam no céu salpicado de pontinhos vermelhos encantadores.
Até a fumava evanescia, restando somente sua catinga marcante que, quando também sumia, era como se anunciasse o fim do São João. E a espera do ano seguinte.
Mas, isso foi naquele tempo, quando o tempo era outro. E o tempo passou. Em algum momento, a gente não percebeu, veio o último São João daqueles.
As fogueiras foram apagadas antes de serem acesas. O balão não caiu porque não subiu. A música mudou para uma zuada muito diferente daquelas letras e melodias que falavam das nossas raízes.
Parece que não foi de um dia para o outro. Mas, seja como for, a gente não viu passar e nem sabia que estava acabando. E acabou mesmo.
São João hoje é apresentação musical no Parque do Povo e casas de shows. Umas bandeirolas banguelas nos bairros. Quadrilhas juninas profissionais e caríssimas se apresentando em grandes estruturas. E só.
Válido e bom para a economia da cidade. Mas, afora saudades e saudosismos, não é mais São João.
E nem é culpa de ninguém. É o ciclo da vida. Tudo se acaba, até as coisas, as festas, as tradições.
É que os tempos são outros. E daquele tempo só restam as lembranças.
Mas, até as lembranças vão se acabar também…. Junto com a gente – afinal, elas vivem em nós.
Fonte: HORA AGORA
