
Emir Gurjão
Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.
Groenlândia: geopolítica não é moral, é sobrevivência estratégica
Publicado em 25 de janeiro de 2026Baseado em palestra do professor Bentocello, é necessário tratar a possível anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos fora do campo emocional, ideológico ou moral. Trata-se de geopolítica dura, do tipo que define quem controla o próximo século.
A Groenlândia ocupa uma posição única e estratégica: está localizada entre os Estados Unidos, a Europa e a Rússia, no coração do Ártico. Essa região deixou de ser apenas um território gelado e periférico para se tornar a nova rota marítima comercial global — possivelmente a mais importante do mundo nas próximas décadas.
Hoje, essa rota é majoritariamente controlada pela Rússia, que já conseguiu reduzir em cerca de 50% o tempo de transporte entre a Ásia e a Europa. Isso não é apenas logística: é poder econômico, poder naval, controle das cadeias globais e redução brutal do custo do frete. Quem domina a rota domina o comércio.
A Groenlândia é o ponto-chave desse tabuleiro. Quem controla a ilha controla:
a vigilância aérea do Ártico,
a rota marítima,
a defesa antimíssil,
e a instalação de sistemas de interceptação antecipada de mísseis.
Para os Estados Unidos, isso é vital. Interceptar um míssil antes de ele se aproximar do território americano é a diferença entre defesa e vulnerabilidade. Não se trata de projeção de poder abstrata, mas de segurança nacional concreta.
Enquanto o Ocidente debate resoluções, a Rússia constrói. Hoje, a Rússia possui mais de 50 bases militares no Ártico, com pistas aéreas, portos militares, sistemas de mísseis e a maior frota de quebra-gelos do mundo, incluindo sete de propulsão nuclear. Isso não é retórica: é infraestrutura real, instalada e operacional.
Do outro lado, a China avança de forma silenciosa e eficiente. Investe em:
portos no norte da Europa,
infraestrutura logística ligada à Nova Rota da Seda,
mineração na Groenlândia,
e, principalmente, terras raras.
A China já controla mais de 70% do refino mundial de terras raras, insumos essenciais para:
baterias,
mísseis nucleares,
inteligência artificial,
sistemas militares avançados.
E a Groenlândia possui reservas não exploradas estratégicas desses minerais. Quem chegar primeiro não apenas extrai — define as regras do jogo.
Enquanto isso, a OTAN conta com 32 países, mas mais da metade não cumpre a meta mínima de 2% do PIB em gastos militares. Os Estados Unidos bancam mais de 65% do orçamento da OTAN. Ou seja, pagam a conta, têm o poder militar e, logicamente, querem definir a estratégia.
O problema é que a Europa insiste em operar por meio de:
resoluções,
conselhos,
votações,
cooperação burocrática,
discursos morais.
Isso é lento. Geopolítica não espera consenso.
Rússia e China jogam de outra forma:
estratégia clara, logística pesada, ocupação territorial e objetivos definidos. Sem espetáculo. Sem discursos vazios.
Os Estados Unidos entendem que precisam se antecipar, marcar presença e consolidar posição antes que Rússia e China completem seu avanço no Ártico. A questão não é se Trump é simpático ou antipático. Isso é irrelevante.
A questão central é simples:
quem controla as rotas, os minerais e as bases logísticas controlará o próximo século.
Grande parte do Ocidente ainda acredita que geopolítica funciona como uma assembleia: discursos, resoluções e boas intenções. A realidade é outra. O mundo real é decidido por quem chega primeiro, constrói primeiro e controla primeiro.
No Ártico, não vence quem fala melhor.
Vence quem ocupa.
Este artigo é de minha inteira responsabilidade.
Emir Candeia Gurjão
Opinião direta (em forma de analogia)
A Groenlândia é como um cruzamento de rodovias no deserto: quem controla o entroncamento decide quem passa, quanto paga e quem fica de fora. Não é uma questão de simpatia, é uma questão de controle do fluxo.
