
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
Fiel supera protocolo e é o 13º do lava-pés
Publicado em 10 de abril de 2026A humildade é uma característica da fé, e a fé, a virtude dos humildes. Ninguém sabe demonstrar a fé mais do que os humildes, as pessoas do povo, a gente simples, o povão. Na praticidade de sua crença, desafiam protocolos, preceitos, formalidades… Conheci Nelson na volta às missas da Capela de Santa Clara, em Rosa Cruz, e na matriz de São Francisco, no Cruzeiro, após quase 10 anos frequentando assiduamente a Igreja de São João Batista, no Jardim 40. Com suas peculiaridades, é muito querido pela comunidade.
Nelson se divide entre a matriz e a comunidade, e nem sempre nos encontramos na missa dominical de Santa Clara. É exemplar na prática da fé, pois quando entra na igreja, vai direto ao Sacrário adorar o Santíssimo Sacramento, quer chegue antes ou depois da celebração iniciada. Nos aproximamos mais quando passei a participar do Terço dos Homens. Quando lhe passam o microfone para rezar a Ave Maria, solta apressadamente o vozeirão, omitindo palavras e encurtando a oração.
Naquele domingo dos primeiros meses do nosso retorno, ele nos surpreendeu. Chegou quando a equipe da Liturgia da Palavra iniciara as leituras; célere, na compenetração do seu gesto, atravessou a nave central e foi direto ao altar. Sequer cumprimentou o padre, que se manteve sereno e, sem fazer a genuflexão, iniciou a adoração com o sinal da cruz. Depois, retornou; girou o olhar à procura de um lugar e sentou-se no primeiro banco que encontrou.
Na Missa do Lava-pés, Nelson mantém sua intensidade de fé; nos últimos dois anos conseguiu participar do rito, mesmo sem estar inscrito. Em 2025, sentou-se antes do meio da assembleia; quando iniciada a celebração, a igreja superlotada, ele levantou-se, percorreu a nave central e ficou, de pé, esperando sua vez. Conseguiu, depois que um dos fiéis lhe concedeu a vaga.
Este ano a cena se repetiu de forma mais discreta, pois ele se sentou bem próximo ao altar, no lado direito, embora o ato tenha se realizado à esquerda. Logo que o primeiro fiel foi chamado, Nelson ficou de pé e, aos poucos, foi se aproximando e ficou na espera. Depois que os 12 selecionados tiveram os pés lavados, ele se dirigiu à cadeira, sentou-se e o sacerdote, emocionado, lavou-lhe os pés. No final, padre Ednaldo confessou a emoção pelo rito extra protagonizado “pelo senhor de Santa Clara”.