
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
Ferro de Engomar atrai amigo em itinerário de improviso
Publicado em 6 de janeiro de 2026Em mais um agradável encontro semestral, tivemos que lançar mão do improviso. Em junho, quando ele veio na pressa que o curto tempo exige, planejamos ir à Pedra da Boca, em Araruna, na sua vinda de agora, mas o repentino “estou pensando em ir amanhã, pela manhã. Que achas?” deletou o imaginado e tivemos que improvisar tudo, eu dando o mote. Então, feito repentistas às cordas da viola, fizemos nosso improvisado itinerário por Campina Grande e acabou sendo um dia belíssimo.
Morando em São Paulo há quase 40 anos, Jurandy França não esquece a terrinha – Arara – e toda vez que vem nos encontramos no presente e com o passado que nos uniu nessa amizade duradoura. Nas últimas vindas, estivemos em Passagem e em Ingá.
Desta vez, o cenário voltou a ser Campina Grande, mas aonde ir, se já batemos praticamente todos os lugares da cidade? “Tu que sabes”, devolveu, quando perguntado, exigindo apenas uma passada na lojinha do Campinense, onde compraria uma camisa para sua “menina”.

Adoro mostrar a cidade a quem vem de fora, seja parente, amigo, ou amigo dos parentes. Passava das 9h da última sexta-feira do ano, quando fui buscar Jurandy na velha rodoviária, no meu decano. Margeei o Açude Velho, rumei pelo Parque do Povo, contornei o Açude Novo e aprumei no sentido Bela Vista.
Ao nos aproximarmos da Feira da Prata, me veio, de improviso, o primeiro mote, quando sugeri ao amigo uma parada no local, alertando-o de que o bom mesmo é no domingo.
Sugestão aceita, passeamos pelo seu interior, ele gostou da estrutura, achou linda, e não aprovou mais o mercado por causa da manutenção que falta. “São 16 anos desde a inauguração”, expliquei. Jurandy reagiu, lamentando a descontinuidade e a falta de cuidados nos serviços públicos.

Logo chegamos ao Renatão. Como não havia treinos, que seria à tarde, demoramos o tempo suficiente de o amigo adquirir o modelo mais novo da peça rubro-negra. Aliás, comprou uma e ganhou outra, ainda na promoção de Natal, conforme a moça que nos atendeu.
Saindo do antigo César Ribeiro, tracei mentalmente um roteiro, que incluiria Bodocongó, as universidades, seguindo pelo Serrotão e voltando pela Alça Sudoeste, onde lhe mostraria os serviços de duplicação urbana da BR 230. Passamos pela UFCG, Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e, na ponte, já margeando o açude, abdiquei do itinerário imaginado, fiz o retorno, e segui pela Rua Florípedes Coutinho, acessando a Avenida Floriano Peixoto.
Após mostrar-lhe o hospital em construção, o Help e o Trauma, me mantive na avenida, agora retornando sentido centro. Passando em frente à Vila Sítio São João, a vista do portão do estacionamento aberto me inspirou outro mote: entrar no ambiente. Estacionei o carro, procuramos os portões de entrada das pessoas e não avistamos ninguém.
Estávamos já desistindo, quando surgiu, ainda distante, um senhor empurrando um carro de mão e lhe perguntei, falando alto, se tinha como a gente entrar. O homem acenou para alguém e logo apareceu João Dantas, bem à vontade, camisa aberta mostrando o abdômen e liberou o acesso, avisando antes que a estrutura estava em obras e nada funcionava.
Jurandy observou tudo, fixou-se nos detalhes, fotografou muita coisa; nada falou, mas decerto desejou um dos bares funcionando para tomar a cerveja de que tanto aprecia. Saiu encantado com a Vila Sítio São João, já programando estarmos lá em junho, quando ele e a mulher vêm de novo.
Saindo da Vila, damos uma rápida passada na casa de minha mãe, de onde seguimos para o meu lar, quando o amigo, aí sim, tomou a primeira gelada do dia. Eu o surpreendi trocando a costumeira dose de cachaça pelo drinque de Campari; imagino que essa troca ocasional quase o fez desistir do mimo que me trouxera, dois copos do aperitivo para a minha coleção.
Após o almoço típico da casa – Tilápia assada e pirão -, conversa animada e, de repente, mais um mote sugerido: ir à Livraria Cultura. Como tinha ingerido as três doses, chamei Hélder para dirigir o decano, nos deixando no centro.
O filho nos deixou na esquina da Floriano Peixoto com a Rui Barbosa seguimos, caminhando, sentido Getúlio Vargas. “Esse bar é o bar dos aposentados”, disse ao amigo, apontando para o Ferro de Engomar.
Entramos na Cultura, escolhi um livro de Efigênio Moura e o presenteei; ele optou por um livro de contos do potiguar Bartolomeu Correia de Melo e me deixou de lembrança. O combinado era sair do estabelecimento e esperar sua irmã Mara e o cunhado Aluísio, que vinham de Arara e nos buscariam no centro.
Na calçada, olhei para um lado e outro da rua e me veio o mote derradeiro. “Rapaz, vamos esperar a mana no Ferro de Engomar? Jurandy glosou o mote e caminhamos para lá. Ele pediu a cerveja, eu pedi a dose de Campari, logo servidas à mesa adicionados de duas fatias de queijo do reino num pires. “O tira-gosto veio de cortesia”, brinquei. “Aqui, vocês só pagam se consumir”, ponderou o proprietário Ednaldo Cordeiro (Coroné), que nos atendia tomando a sua gelada.
Jurandy apreciou o Ferro de Engomar, prometeu voltar na próxima vez que vier, fez fotos, e nas redes sociais classificou-o como “um lugar acolhedor e cheio do cheiro da cultura popular”. Mesmo com toda esta farra, garanto, o amigo voltou para Arara engomado.
