EXCLUSIVO – UFCG atual, uma universidade com história, mas sem direção estratégica

Publicado em 8 de setembro de 2026

Professor aposentado da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o candidato a suplente de Senador na chapa encabeçada pelo ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga (PL), Emir Candeia Gurjão, fez hoje contundente pronunciamento analítico, via redes sociais, sobre a atual situação da universidade localizada na Rainha da Borborema, crítica que ele justifica que “não nasce de desprezo pela Universidade. É justamente o contrário. Nasce do respeito por aquilo que a UFCG foi, pelo que representa para Campina Grande e, sobretudo, pelo que ainda poderia ser.

Segue o texto:

A universidade não existe apenas para administrar cursos, distribuir diplomas e reproduzir estruturas acadêmicas que funcionaram no passado.
Uma grande universidade precisa antecipar o futuro.

Precisa observar o que está acontecendo no mundo, identificar as tecnologias que modificarão a economia, as profissões, a indústria e a sociedade e começar hoje a formar as pessoas que serão necessárias amanhã.

E é exatamente aí que vejo o grande problema da UFCG atual:
temos competência, temos história, temos pesquisadores, temos professores qualificados, temos tradição tecnológica — mas falta direção estratégica, ousadia institucional e ambição para o futuro.

A universidade que um dia enxergou o futuro antes dos outros

A tradição tecnológica de Campina Grande não nasceu por acaso.

Em 1968, quando computadores ainda eram praticamente desconhecidos pela população brasileira, a antiga Escola Politécnica de Campina Grande instalou um IBM 1130, considerado o primeiro computador instalado em uma universidade das regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Aquilo não foi simplesmente a compra de uma máquina.

Foi uma decisão estratégica.

Alguém teve a coragem de olhar para uma tecnologia que ainda estava começando e compreender que ela modificaria o mundo.

Essa decisão ajudou a criar as condições para o desenvolvimento da Computação em Campina Grande. Em 1973, surgiu a formação superior em Processamento de Dados, numa época em que pouquíssimas universidades brasileiras caminhavam nessa direção.

Esse pioneirismo ajudou Campina Grande a construir a reputação tecnológica que conserva até hoje.

Onde está, na atual direção da UFCG, aquela mesma capacidade de enxergar vinte anos à frente?

O mundo está mudando. E a UFCG?

Estamos entrando em uma transformação tecnológica talvez tão profunda quanto foram a eletricidade, a industrialização, o computador pessoal e a internet.
Inteligência artificial, robótica, computação quântica, automação, ciência de dados, biotecnologia, novos materiais, semicondutores, armazenamento de energia, sistemas autônomos e visão computacional estão deixando de ser tecnologias experimentais.

Estão se transformando na infraestrutura econômica do século XXI.

A inteligência artificial estará presente em praticamente todas as áreas, e a velocidade dessa transformação é extraordinária.

A tecnologia não espera que as universidades atualizem seus currículos.

Quem perceber primeiro formará os profissionais que desenvolverão essas tecnologias.

Quem perceber tarde formará profissionais apenas para utilizá-las.

Uma universidade com a história da UFCG não pode se contentar em formar profissionais capazes de utilizar tecnologias desenvolvidas em outros centros brasileiros ou no exterior.

Temos que formar pessoas capazes de criar essas tecnologias.

Precisamos participar do desenvolvimento das tecnologias do futuro, criando soluções capazes de gerar empresas, patentes, propriedade intelectual, empregos e riqueza.

Essa deveria ser uma obsessão estratégica da UFCG.

O problema da UFCG não é ausência de capacidade intelectual. A competência existe.

O problema é a ausência de uma estratégia institucional clara, capaz de organizar essas competências em torno de um verdadeiro projeto de futuro.

A UFCG deveria estar entre as universidades brasileiras protagonistas da nova revolução tecnológica.
O contraste merece atenção.

A Universidade Federal da Paraíba criou o Bacharelado em Engenharia de Robôs, com início previsto para o segundo semestre de 2026. Enquanto isso, qual é a prioridade anunciada pela UFCG para ocupar os novos espaços da revolução tecnológica?

Na Paraíba, estão sendo discutidas e estruturadas iniciativas relacionadas à computação quântica, incluindo um centro dedicado a essa tecnologia. Um espaço que, historicamente, Campina Grande teria todas as condições e toda a vocação para ocupar primeiro, Mas esta sendo direcionada para a UFOB em João Pessoa!

É difícil aceitar que uma universidade reconhecida durante décadas por enxergar o futuro antes de quase todo mundo comece a se acostumar a chegar depois.

Uma instituição com a tradição tecnológica da UFCG deveria tratar as tecnologias estratégicas do século XXI como prioridade institucional, e não como iniciativas periféricas ou isoladas.

Por isso, faço uma pergunta direta à administração superior da Universidade:

Que UFCG queremos construir para 2040?

Queremos ser conhecidos nacionalmente em Inteligência Artificial?

Queremos nos tornar referência latino-americana em Robótica?

Queremos criar um grande centro de Ciência de Dados?

Queremos participar da indústria brasileira de semicondutores?

Queremos desenvolver tecnologias para energias renováveis?

Queremos criar soluções para automação industrial?

Queremos liderar pesquisas em novos materiais?

Queremos aplicar engenharia, automação e inteligência artificial à economia circular?

Queremos transformar pesquisa acadêmica em patentes, produtos e empresas?

Queremos atrair empresas nacionais e internacionais para desenvolver tecnologia dentro de Campina Grande?

Queremos que nossos alunos saiam da Universidade procurando emprego ou também criando empresas capazes de gerar empregos?

A atual direção da UFCG precisa compreender que administrar o presente não é suficiente.

Administrar orçamento, concursos, departamentos, prédios, reuniões, processos administrativos e calendários acadêmicos é obrigação de qualquer gestão.

Liderança universitária é muito mais do que isso.

Liderar é dizer para onde a instituição irá.

É escolher prioridades.

É assumir riscos.

É mobilizar professores.

É buscar recursos.

É criar centros de excelência.

É estabelecer parcerias internacionais.

É aproximar grandes empresas dos projetos de pesquisa.

É modernizar currículos.

É criar cursos antes que a demanda se torne óbvia.

É enxergar aquilo que ainda não está evidente para todos.

Uma universidade pode estar administrativamente funcionando e, ao mesmo tempo, estar estrategicamente parada.

E esse é exatamente o risco que vejo hoje na UFCG.

A UFCG não pode começar a viver apenas da própria reputação, porque prestígio acumulado não é patrimônio eterno.
Precisa ser renovado.

Qual é a grande aposta tecnológica que estamos fazendo hoje e que alguém, em 2050, lembrará dizendo:

“Naquela época, a UFCG percebeu antes dos outros o que estava acontecendo”?

Precisamos voltar a ser ousados.

Vejo uma instituição com enorme capacidade, mas conduzida sem uma visão estratégica proporcional à velocidade das mudanças que estão acontecendo no mundo.

Não falta inteligência dentro da UFCG.

Falta direção.

Falta estabelecer grandes objetivos.

Falta dizer claramente quais áreas serão estratégicas para os próximos vinte anos.

Falta transformar conhecimento acadêmico em um projeto institucional de desenvolvimento.

Falta ousadia.

A UFCG pode continuar formando milhares de alunos.

Pode continuar publicando artigos.

Pode continuar realizando concursos.

Pode continuar inaugurando instalações.

Pode continuar funcionando normalmente.

Mas funcionar não significa liderar.

E uma universidade que deixa de liderar as transformações corre o risco de ser ultrapassada por instituições que tiveram mais coragem para perceber o futuro.

Não quero uma UFCG menor. Quero uma UFCG muito maior.
Minha crítica não é contra a UFCG.

É contra uma direção que, na minha avaliação, não está demonstrando uma visão de futuro à altura da história e do potencial da UFCG.
A UFCG não se torna moderna pelo que fez cinquenta anos atrás.

Torna-se moderna pelo que está fazendo hoje para os próximos cinquenta.

A UFCG pode ter sido extraordinariamente moderna no passado e, ainda assim, transformar-se em uma universidade presa ao passado se não acompanhar — e, principalmente, se não liderar — as transformações do presente.

O mundo já começou a disputar o futuro.

E qual é a direção da UFCG nessa disputa?

Talvez exista aí uma das maiores contradições da nossa Universidade.

Hoje, seus dirigentes possuem títulos, currículos e formação acadêmica muito superiores aos disponíveis às gerações que construíram o pioneirismo tecnológico de Campina Grande.

Mas formação acadêmica, por si só, não produz liderança.

Aqueles dirigentes do passado talvez tivessem menos títulos, mas tiveram algo decisivo:
visão para perceber o futuro, coragem para tomar decisões e ousadia para colocar Campina Grande na vanguarda.

É justamente essa direção que precisamos reencontrar.

Porque o maior risco para a UFCG não é perder a sua história.

Ter uma grande história e não conseguir construir um futuro à altura dela.

Fonte: Da Redação