Valberto José

Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.

Ex-boêmio refaz itinerário etílico vivenciado em Campina Grande

Publicado em 2 de outubro de 2025

A mesmice de nossos encontros não nos incomodava. Sempre na mesa de bar, na casualidade do momento, como no primeiro, na Nossa Cervejaria, por trás do teatro, cada um na solidão de sua mesa cativa. Eu, saído da jornada de trabalho, imolando a hora, enquanto começava as aulas; ele, à espera de uma nova presa que satisfaria seus instintos carnais.

Nosso reencontro, quase 40 anos depois, seria diferente, sim, por sua nova de vida. Agora praticante empolgado da abstemia, abandonou a boemia responsável (sempre teve responsabilidade laboral) e participa do Terço dos Homens na terra que o adotou, além do compromisso dominical com a igreja. Ao nos abraçarmos no reencontro de décadas, Fernando foi logo sussurrando aos meus ouvidos que deixara a bebida.

– Você ainda gosta de ouvir Peninha? perguntou assim que me avistou e foi descendo do alternativo que o trouxe. “Você só mudou o cabelo, agora prateado, pois calvo você já era”, comparou, avisando que só queria passear pela cidade, rememorando o passado na sobriedade de agora.

A pedido, começamos o itinerário urbano pelo Plínio Lemos. “Agora é uma vila olímpica. Vila Olímpica Plínio Lemos”, avisei. Gostou do que viu, mas mostrou preocupação com o local do Campinense treinar. “Tem o ‘Renatão’ para treinar e o ‘Amigão’ para jogar”, expliquei. “Quero conhecer esse CT”.

Na Avenida Canal, avançando para o Açude Velho, admirou-se com a verticalização urbanística em seu entorno, de modo especial a trilogia erguida no terreno onde era produzida a Caranguejo. “As torres gêmeas, meu!”. Nos minutos parados no sinal, pareceu brilhar os olhos ao divisar o Bar do Cuscuz. “Se eu ainda bebesse a gente ia aí”. Sugeri o almoço.

No Museu dos Três Pandeiros, estrategicamente parei o carro em frente. Fernando teceu loas ao projeto arquitetônico e sua finalidade de preservação e exposição da arte popular. Recordou que no local funcionou, por muitos anos, a Cervejaria 2002, sentindo-se nostálgico das serestas com Geraldo Cavalcante ou Ronaldo Soares de que participou.

A primeira vez foi como estudante noturno do Colégio 11 de outubro, por influência de colegas da turma. Do “2002”, ele já saiu de mãos dadas com Socorro, com quem começara uma paquera após o alerta do companheiro Inácio de que a moça separara do marido há mais de ano e demonstrava interesse nele.

Na breve caminhada pela calçada do açude, observou com mais calma as mudanças que o progresso trouxe. “Lindos os arranha-céus! Aqui era o Aliança Clube 31, ali a delegacia da Polícia Federal. O Colégio Regina Coeli não funciona mais! E o prédio está abandonado?”. Com seu olhar atento avistou um edifício nas proximidades do ISEA. Pareceu dilatar os olhos miúdos quando eu disse que fora edificado no local do colégio de Biu Patola.

Mais à frente, volvendo o rosto para o São Vicente de Paulo, estranhou o descampado onde funcionava o “CEU” – Clube dos Estudantes Universitários. “Agora não é o céu nem o inferno”, brincou, após minhas explicações sobre o futuro do local. Também rememorou o Cave Pizzas, “que tinha um rapaz (Wilson Barbosa) que cursava jornalismo contigo e era o faz-tudo de lá”.

Em direção ao local de treinamento da Raposa, aplaudiu o tamanho do Parque do Povo e encantou-se com o número de prédios construídos no bairro da Prata. “No meu tempo Campina Grande só tinha três edifícios: o Lucas, o Paloma e o Rique”, lembrou.

No “Renatão”, lamentou não poder entrar, pois o time estava em recesso forçado das competições. Visitou a loja do clube e comprou uma camisa para o neto. Meses depois, por telefone, confirma que era para a mulher, uma trezeana, mas simpatizante de tudo que é da Paraíba.

Sugeri, ao sair do espaço rubro-negro, uma passagem pelo campo do Treze. Aceitou, com a condição de não entrar. Descemos pela lateral da Embrapa, pegamos a Floriano Peixoto para dobrar ao lado do Hospital Antônio Targino. “Bebi muito aqui”, disse, ao passar em frente ao Bar do Alexandre. Na passagem pelo “PV”, percebeu o recuo do muro, que “foi mais pra lá”.

Seguimos pela Avenida Almirante Barroso e demonstrou surpresa quando confirmei que a Viação Borborema não existe mais. Alegrou-se ao chegar no Cruzeiro e ver o Bar de George funcionando. Mais à frente, onde hoje é o Colégio Panorama, lembrou que “aqui ficava a cervejaria de Bibiu”.

Percorremos ainda a Av. Dinamérica, retornando para o almoço no Bodão Bar. Entre uma garfada e outra, recordou seu tempo de boemia na cidade, citando os bares que frequentava. Toinho da Cabeça de Galo, Canarinho e Picado de Dona Carminha na Feira Central; Barraca de Tião na Palmeira, Ceboleiro em José Pinheiro e vez por outras o Chopp do Alemão; ainda Moacir e seu Macena no Monte Santo…

De barriga cheia, fizemos uma insistente e rápida passagem por minha casa. Fernando tinha que conhecer os meus, né? Fui deixá-lo na rodoviária. Antes, um passeio pelo centro. Na Rua João Pessoa, lembrou o pai, que só a chamava de Rua da Areia. Quando passou em frente onde funcionou o Copacabana – pousada de encontros amorosos, lembrou da amante colegial. “Aqui eu torava Socorro até que ela me apresentou à mãe, foi quando passei a frequentar a casa dela”.

Mas foi na passagem em frente onde funcionou o Estrela, casa noturna daquele tempo, na Rua João da Silva Pimentel, esquina com a João Suassuna, que externou uma certa emoção. “No Estrela quase fiz uma loucura”, lamentou.

Naquela noite distante, chegou ao Estrela já melado, tomou outras e arranjou confusão com um habitué do local. Acalmada a briga, desceu as escadas e ficou na calçada disposto a dar cabo ao desafiador. Buscou a arma no carro e ficou à espera. Desistiu da empreitada quando Faustino, homossexual que vivia no local, o fez demover da determinação. “Você vai matar fulano? Pelo amor de Deus, não faça isso; ele é sobrinho de seu amigo Fabricio”.

No outro dia, no ápice da ressaca, remoendo o acontecido, o telefone toca. Era um parente de São Paulo, confirmando que lhe arranjara bom emprego e fosse urgente. Num instante a ressaca passou e na mesma semana foi embora. No mês de aniversário de Campina Grande é bom refazer esse itinerário etílico, agora sob a sobriedade de quem deixou a boemia no passado.