Marcos Marinho

Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

Eu, a ditadura militar, o nosso ‘Rubens Paiva’ e Luizito Motta

Publicado em 1 de abril de 2025

Eu tinha apenas 11 anos e quinze dias em 31 de março de 1964 e não conseguia ainda mensurar o tamanho da tragédia nacional que naquela data eclodira.

Com meu pai vitimado por um AVC (trombose, na época), aos 17 anos precocemente – e por necessidade de sobrevivência alimentar da família – me submeti a um teste no Diário da Borborema, tendo sido graças ao bom Deus aprovado.

A banca examinadora era comandada por Epitácio Soares, editorialista do jornal e às número um da comunicação campinense. Fui contratado como Repórter e aí então comecei a sentir o tamanho do braço voraz da ditadura militar.

Meu tempo no DB foi curtíssimo. Edson Gaudêncio quebrou a marretadas as linotipos das oficinas, o jornal passou a ser impresso em João Pessoa (O Norte), e eu fui convidado por Josusmá Viana para integrar a equipe de fundação do que viria a ser o Jornal da Paraíba.

Ainda imberbe, o atrevido “foca” muito aprendeu na convivência com William Tejo, Ismael Marinho, José Levino, Chico Maria, Nilo Tavares e Robério Maracajá, dentre outros feras, apaixonados pela profissão.

O braço armado, e covarde, dos militares primeiro alcançou meu irmão mais velho, Ismael, o ‘Rubens Paiva’ da Paraíba que somente não teve o pescoço cortado pela guilhotina verde oliva porque sua ‘Eunice Paiva’, minha saudosa cunhada Hosana Régis Marinho, avançou sobre os milicos como uma fera e encontrou em João (Pinta Cega) Nogueira de Arruda, seu compadre vereador, as diligências urgentes para evitar o trucidamento dele e consequentemente seu corpo jogado em alto mar, igualzinho ao acontecido com o deputado carioca.

Também, e ainda bem, a Paraíba não tinha um DOI-CODI… Mas a tortura patrocinada pelos homens do Exército existia forte e fazia miséria! Que o diga, por exemplo, o meu amigo ex-vereador João Dantas, ainda hoje portador de alucinantes zumbidos na cabeça, consequência das muitas tapas que tomou nos ouvidos.

Ismael presidia o combativo diretório municipal do PRP (Partido da Representação Popular), pelo qual fora candidato a vereador, não logrando êxito, e era secretário parlamentar da Mesa Diretora da Câmara Municipal, com bom trânsito, por dever de oficio, nas bancadas de situação e oposição.

Viera de Tacima (que mudou para Campo de Santana e depois voltou a se chamar Tacima), onde era agente dos Correios e estava respondendo a um inquérito administrativo pelo sumiço de um malote, nada a ver com a sua responsabilidade funcional.

O mano estava no foco dos militares desde a cassação do prefeito Newton Rique, de quem era assessor de Comunicação. Mas, ficha limpíssima que o era, ficava difícil incriminá-lo em alguma coisa, até que ressuscitaram o tal inquérito, achando (ou depositando) nele o ‘álibi’ para tirar Ismael de circulação.

As sessões ordinárias da CMCG, como ainda hoje acontecem, eram realizadas na parte da manhã, de terças a quintas. E foi numa quarta feira de trabalho normal que Ismael não veio para o almoço em casa, não chegou para o jantar e não mandou ninguém avisar à esposa as razões do sumiço.

Avisado, Pinta Cega pegou seu velho Fusquinha e esbarrou ligeiro lá em casa, na rua Nilo Peçanha. Um rapaz do fiteiro que ficava ao lado do prédio da Câmara, na calçada da Floriano Peixoto, tinha revelado a ele ter visto um Fusca da Policia botar “aquele seu amigo” dentro dele e saído em velocidade.

Por isso, quando recebeu o telefonema de ‘Eunice Paiva’, quer dizer, de Hosana Régis, praticamente matou a charada: Ismael estava em maus lençóis! E lá de casa mesmo, aflito ante o nosso desespero, fez uma ligação para o Dr. Firmino Brasileiro, amigo seu e amigo dos chefões do quartel da 15 de novembro. E se comprometeu a dar notícias “ainda hoje” do paradeiro do seu compadre.

Foi, sem dúvidas, a mais comprida das noites da minha vida.

Lá em casa ninguém dormiu e não tivemos nenhuma notícia, nem boa e nem sofrível… E Pinta Cega só voltou a aparecer quando a noite da quinta-feira já podia mais que o dia… De certa forma nos tranquilizou: o mano estava vivo, mas incomunicável, preso em uma cela do Presidio do Róger, em João Pessoa.

Dr. Firmino não era apenas amigo do comando da Guarnição do Exército de Campina Grande, mas por ser alguém de irrestrita confiança dos militares, era o único médico a ter autorização de entrar nos porões da ditadura, para atender profissionalmente os presos ou mesmo para atestar óbitos consumados.

Por isso, deu garantias a Pinta Cega de que Ismael não fora visto em nenhum dos ambientes da tortura oficial em Campina Grande, informando ainda que alguém só poderia ter contato com ele passados pelo menos quinze dias da incomunicabilidade.

Passados os quinze dias, fomos a João Pessoa eu, Hosana, Dona Virgilia (nossa mãe) e Seu Ovidio (nosso pai). Deram-nos 30 minutos para a visita e encontramos nosso ‘Rubens Paiva’ de barba feita, banho tomado, um pouco magro, mas alegre por nos reencontrar. Saíra da cela (espécie de solitária) e fora transferido para um pavilhão onde dormiam 15 detentos, presos de pouca periculosidade – nos informou.

A direção do presídio autorizou que uma única pessoa da família pudesse visitá-lo, uma vez por semana, missão a mim confiada. E a cada sexta feira eu pegava o ônibus da Real e ia ao presidio ver o mano e contar-lhe as novas – da família e da vida externa. Já amigo dos companheiros de pavilhão, Ismael logo aprendeu o oficio de sapateiro e trabalhava com afinco na fabricação de finas sandálias de couro, que eu trazia para nosso pai vender em Campina e com o arrecadado ajudar na feira.

Ismael ficou no Róger por quase seis meses e foi liberado em 1970 ainda a tempo da família reunida assistir à final da Copa do Mundo do México, onde a canarinha sagrou-se tricampeã mundial de futebol.

Do inquérito dos Correios, nada pesou contra o mano.

Lá mais adiante foi a minha desagradável vez, eu ainda no Diário da Borborema, encarregado da cobertura dos trabalhos na Câmara Municipal e no Gabinete do Prefeito, ao tempo em que Luiz Motta Filho (Luizito) era o prefeito, na condição de Interventor Federal indicado pelos militares.

Ronaldo Cunha Lima, então prefeito, teve seu mandato cassado, assim como já acontecera com outro prefeito eleito democraticamente, Newton Rique. O vice do poeta era Orlando Almeida, mas os generais o impediram de tomar posse, sendo decretada Intervenção Federal no Município, quando mandaram pra cá um general decrepito, Manoel Paz de Lima, cuja ineficiência nem a própria ditadura aguentou e poucos meses depois foi mandado embora, sendo nomeado outro interventor, dessa vez um jovem químico industrial campinense, de família tradicional: Luiz Motta Filho, o conhecido Luizito, que administrava o curtume da família, às margens do Açude Velho.

Luizito atuava como líder em órgãos de classe, empresas e autarquias. Como prefeito, liderou uma equipe de planejadores que traçou o que seriam os contornos e o espírito da urbanização em Campina Grande pelos próximos seguintes vinte anos. Após deixar a interventoria, voltou a se dedicar aos seus interesses empresariais e mudou-se para João Pessoa, onde veio a falecer mês passado.

Enquanto gestor público, Luizito foi exemplar. Mas sua fidelidade pra lá de canina aos militares castigou um pouco a sua biografia.

Vou aqui dar, apenas e tão somente, o meu exemplo.

Vereadores de oposição ao Governo, em determinado dia, fizeram ácidas críticas a Luizito e eu, que cobria a CMCG para o Diário da Borborema, fiz uma boa matéria que o DB publicou em manchete de primeira página, com letras garrafais.

“Vereadores pedem a volta de Paz de Lima”, foi mais ou menos essa a manchete do jornal, que eu em duro sofrimento viria depois saber que causara grande ira no Interventor.

Luizmar Resende era o homem da Comunicação da prefeitura e instituiu o costume de reunir a imprensa credenciada no Gabinete do Prefeito todo dia às 11 horas, onde passava um ‘briefing’ das notícias que tinha interesse em divulgar. Como sempre, cheguei pontualmente à sala dele e fui logo chamado a um canto mais reservado, quando então me comunicou que Luizito queria falar comigo e já estava à minha espera.

Nesse dia, Luizmar avisou a todos que o ‘briefing’ seria repassado por Manoel de Deus, o Chefe de Gabinete do Prefeito, porque ele tinha outro compromisso agendado. E me pediu para lhe acompanhar, quando então entramos no gabinete de Luizito, que estava à nossa espera de cara amarrada, já demonstrando que o assunto era coisa séria.

Dei-lhe bom dia e um “pois não, prefeito”, dizendo-lhe estar à disposição para a conversa.

– “Pode dizer, prefeito!”, provoquei.

– “Quem tem a dizer é você. Eu, não!”, alteou a voz o sisudo Luizito Motta, levantando da cadeira e com olhar de flecha pra mim sentenciou já saber que “aquela manchete foi você quem fez”.

Ato contínuo, mandou Luizmar me “conduzir” (isso mesmo, CONDUZIR) ao Quartel do Exército, onde o major comandante estaria me esperando.

Confesso que foi o meu primeiro MEDO na vida, eu ainda menor de idade, pertinho de completar meus 18 anos e completamente inocente sobre as ciladas da profissão.

Óbvio que logo me passou à cabeça o acontecido com o mano Ismael. De branco gelo, que era a minha cor da pele, fiquei branco neve, sem sangue e tremendo interiormente.

O trajeto da Floriano Peixoto (no possante Dodge Dart do prefeito), onde ficava a prefeitura, até a 15 de novembro, na Palmeira, onde fica o Quartel do Exército, durou uma eternidade.

Ao meu lado, um acovardado Luizmar Rezende não disse um único pio…

No portão do Quartel um ajudante de ordens bastante formal, com cara de poucos amigos, já nos esperava e subimos todos para a sala do comando. Lá, o jovem recruta abriu a porta e avisou: “só entra o jornalista!”.

Meu medo diminuiu em 10% quando o comandante bastante descontraído me recebeu com um sonoro bom dia, mandando eu sentar.

Perguntou se estava tudo bem e me ofereceu um suco de maracujá gelado, certamente atestando a trágica e trêmula situação dos meus pobres nervos. Tomei o suco num gole só, ansioso para saber o meu destino dali por diante.

– “Meu jovem, foi você quem fez essa matéria, não foi?”, perguntou o major mostrando a capa do DB , logo adiantando: “Mas a pergunta que me interessa é outra. Foi você quem botou ela nesse destaque, manchete de primeira página?”.

Soltei o ar preso nos pulmões e disse-lhe a verdade. Que eu era tão somente um repórter de rua, sem nenhuma interferência na editoria ou diagramação, tarefa sob responsabilidade do Editor-Chefe, Fernando Wallack.

E por aí findou o nosso encontro, ele – o comandante – apertou minha mão, se despediu cordialmente e me conduziu até a ante-sala onde estava o ansioso Luizmar, e foi econômico em palavras:

– “Pode ir e diga ao nosso Interventor que está tudo muito bem com o nosso nobre jornalista”.
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EM TEMPO:

01) Depois disso nos encontramos, eu e o major, muitas vezes mais. Eu inclusive sempre era convidado para as festas no Quartel, sendo sempre muito bem recebido por todos de lá.

02) Continuei fazendo a cobertura do Gabinete do Prefeito e daí por diante Luizito me tratou com muita galhardia. Viajamos juntos em algumas vezes, para eventos que ele fazia questão de me convidar, mas nunca conversamos depois que ele deixou a prefeitura e se mudou para João Pessoa. A última notícia que tive dele, ano passado, foi através de Lula, seu filho mais velho que é Chefe de Gabinete da presidência da Assembleia Legislativa, e me telefonou perguntando se eu estava em Carapibus, porque o pai queria se encontrar comigo. Fiquei de marcar uma visita a ele, mas o tempo não permitiu…