
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
“Desce daí, Miguel!”
Publicado em 27 de maio de 2025Vivenciar a avosidade tem proporcionado instantes divinos e consoladores para mim. Tenho a consciência de que não a vivencio na plenitude de seu significado – embora seja um neologismo que nem nos dicionários encontrei – pois a situação não exige. Eu a vivencio, todavia, e com todas as vias possíveis, no sentido de deixar aos netos um legado imenso de memórias afetivas.
Há exatos três anos, completados neste 26 de maio, o pequeno Miguel me promoveu a avô; depois veio José, e o terceiro já está a caminho. Miguel tem a esperteza inocente das crianças, sempre a nos surpreender com sua prematuridade encantadora para sua criança então com dois anos.
Como na vez em que estávamos na casa de minha mãe, quando foi servido o lanche da tarde, em mesa comprida. Eu me encontrava no lado oposto, encostado na parede, bem próximo da cabeça da mesa; ele, na outra cabeceira, ao lado da mãe e de uma tia-avó. “Vou para perto de vovô”, disse, ao observar que o pão fora colocado bem juntinho de mim.

Ver os netos se entretendo com carros de brinquedos desperta minha memória afetiva, mormente lembrando quando minha mãe fazia serões na sua atividade laboral de costureira. E eu a lhe fazer companhia até ela encerrar o expediente extra, às vezes já madrugada, brincando incansavelmente com um carrinho em cima da máquina.
Fui uma criança que brincou muito com as miniaturas automobilísticas e, já crescidinho, até fabricava meus próprios carrinhos. Logo, sou apaixonado pela carreta artesanal, fabricada a partir da madeira, que Miguel tem e que algumas vezes tive que consertar.
Recentemente, ao chegar no quarto de brinquedo dos netos, vi que o cordão que a puxa estava enroscado numa das rodas. Deu trabalho para desenrolar, só conseguindo com a ajuda providencial da filha. Após consertada, sai pelo meio da casa puxando e testando a carretinha e Miguel querendo brincar com ela. Foi bem diplomático. “Vovô quer ajuda?”.
Ele também apronta pegadinhas com a gente. Margarida fiou com os dois no último final de semana, pois Morgana e Gustavo trabalharam no ECC da Paróquia João Paulo II. Num momento de descontração, ele se fez que estava chorando, alisando um dos dedos do pé e dizendo “ai meu dedinho”. “Que é que tu tens no dedo, Miguel”, perguntou a avó. “Tenho nada não, vovó”, disse, abrindo um sorriso, na sua sagacidade inocente.
Na primeira vez que levamos Miguel e José, o outro netinho de um ano e sete meses, ao Parque da Liberdade, eles já conheciam o Parque da Criança, levados que foram pela mãe e o pai. “Parece o Parque da Criança”, disse Miguel, assim que o meu carro foi passando pelo portão do logradouro.
Posteriormente os levamos outras vezes e numa delas coloquei os dois em cima de uma das árvores do parque. Feliz na aventura momentânea, Miguel olha para Morgana e pede: me chama, mamãe. Não entendi nada. A mãe, que costuma ler versículos da bíblia para eles, compreendeu que o filho fazia uma analogia dessa aventura com a passagem do Evangelho de Lucas 19, em que Zaqueu sobe numa árvore para ver Jesus. “Dessa daí, Miguel”, grita ela.
