Emir Gurjão

Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.

Comentários desmentem a hierarquia da pesquisa e revelam outra disputa nas redes

Publicado em 1 de abril de 2026

A publicação da pesquisa Anova/PB Agora, que coloca Cícero Lucena na liderança da corrida pelo Governo da Paraíba, produziu um efeito curioso: em vez de consolidar a ideia de favoritismo, incendiou a caixa de comentários e expôs um cenário bem diferente no campo da militância digital.

Ao observar a reação dos leitores, o retrato que aparece não é o de Cícero dominando o debate. Pelo contrário. Quem mais mobilizou apoiadores nos comentários foi Lucas Ribeiro, seguido por Efraim Filho, deixando Cícero em terceiro lugar no volume de manifestações espontâneas. Mostra que a recepção da pesquisa ficou muito distante da fotografia que o levantamento tentou apresentar.

Nos comentários, Lucas apareceu com a militância mais ativa, mais repetitiva e mais disciplinada. Seu nome surgiu de forma direta, simples e constante, muitas vezes associado a Lula e João Azevêdo, formando um campo político mais identificado com a continuidade do atual bloco governista.

Efraim Filho, por sua vez, mostrou outro tipo de força. Seu apoio veio muito amarrado ao eleitorado de direita, quase sempre acompanhado de referências a Flávio Bolsonaro, Queiroga e ao número 22. Ou seja, seu capital digital é mais ideológico. É um apoio de trincheira, de identidade, de lado escolhido. Isso lhe dá firmeza entre os seus.

Já Cícero Lucena, não dominou a conversa como se poderia esperar de quem lidera uma pesquisa divulgada no próprio post. Seus defensores ressaltaram experiência, trajetória e capacidade administrativa. Mas o volume foi menor. Na prática, foi como um dono de loja que põe uma faixa enorme dizendo que é o líder de vendas, mas vê a calçada em frente mais cheia na loja do vizinho.

No fim, o post trouxe duas mensagens ao mesmo tempo. A primeira, formal, era a da pesquisa: Cícero lidera. A segunda, emocional e barulhenta, veio dos comentários: Lucas foi o nome mais empurrado pela militância, Efraim mostrou musculatura ideológica, e Cícero não conseguiu transformar a liderança estatística em liderança de ambiente digital.

É preciso cautela. Comentário de rede social não substitui pesquisa séria, assim como aplauso em comício não substitui voto na urna. Mas também não deve ser desprezado. Comentário é febre, e febre indica que há alguma coisa acontecendo no corpo político.

Se a pesquisa mostra a fotografia, os comentários mostram o clima. E, nesse clima, o que se viu foi uma disputa muito mais embolada, mais desconfiada e mais barulhenta do que a manchete principal tentou sugerir.