
Emir Gurjão
Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.
Cícero virou candidato da insistência, não da convergência
Publicado em 7 de abril de 2026Na política, força de verdade se mede por atração. Quando um projeto é sólido, os apoios chegam quase por gravidade. Quando isso não acontece, o que sobra é a fotografia de um candidato que corre atrás de alianças sem conseguir impor o próprio ritmo. É essa, hoje, a situação de Cícero Lucena: um nome experiente, conhecido e competitivo, mas que ainda não conseguiu se transformar no centro natural de convergência da política paraibana. Sua pré-candidatura avança mais pela insistência do que pela formação espontânea de uma maioria ao seu redor.
Cícero tentou se aproximar do PT, buscou a direção nacional e trabalhou para ter o partido em seu palanque. Reuniu-se com Edinho Silva justamente com esse objetivo. Mas não que conseguiu . O PT da Paraíba continua apontando para Lucas Ribeiro , e a presidente estadual da legenda, Cida Ramos, informou que a escolha será anunciada no dia 11 de abril. Em termos políticos, a tradução é simples: Cícero procurou o apoio petista, mas não conseguiu transformá-lo em compromisso.
Ao mesmo tempo, Cícero também não conseguiu se firmar como referência principal do campo conservador. Esse espaço tende a ser ocupado por Efraim Filho, que se filiou ao PL em ato com Flávio Bolsonaro, recebeu elogios públicos do senador e vem defendendo a unidade da direita em torno de uma mesma agenda. Em linguagem direta: a faixa mais claramente identificada com o bolsonarismo encontra em Efraim uma casa política mais natural. Isso estreita a margem de crescimento de Cícero nesse eleitorado e o empurra ainda mais para uma disputa para esquerda e centro-esquerda — justamente onde o PT ainda não lhe deu garantia alguma. Essa conclusão é uma inferência política sustentada pelo movimento recente dos atores.
Também não conseguiu atrair para si o eixo principal do governismo estadual. O campo ligado a João Azevêdo continua estruturado em torno de Lucas Ribeiro, que assumiu o governo no início de abril após a renúncia de João para disputar o Senado. Ou seja: o núcleo do poder estadual não migrou para Cícero. Continua com Lucas. Isso é decisivo, porque mostra que Cícero entrou na disputa sem romper o bloco governista e sem absorver a máquina política que realmente organiza a sucessão estadual.
Cícero ter como vice Pedro Cunha Lima ou Romero Rodrigues, mas, não consegui-o . O apoio A engenharia política continuou incompleta, a vice seguiu indefinida, e o noticiário passou a ventilar outros nomes para preencher essa lacuna. Quando uma candidatura precisa insistir demais na montagem da chapa, passa a imagem de que ainda não encontrou seu eixo definitivo. É como uma casa com fachada pronta, mas ainda com muita parede por levantar do lado de dentro.
Cícero deixou a Prefeitura de João Pessoa para apostar tudo na disputa estadual. Abriu mão do cargo concreto, do poder visível e da vitrine administrativa que possuía, mas saiu sem uma coligação plenamente fechada, sem o PT garantido, sem hegemonia na direita e sem o grupo governista ao seu lado. Politicamente, fez uma aposta alta sem ainda ter reunido todas as fichas necessárias para sustentá-la até o fim.
No fundo, a dificuldade de Cícero é esta: ele tenta parecer inevitável, mas ainda soa dependente de negociações que não acontece. Tenta vender a imagem de unidade, mas ainda esbarra em resistências e indefinições. Tenta mostrar força, mas continua precisando costurar demais para provar viabilidade. Em vez da imagem do candidato que atrai todos para si, vai se consolidando a de um candidato que busca apoio em vários lados, sem dominar por inteiro nenhum deles.
É por isso que Cícero Lucena vai sendo, neste momento, mais credenciado pelas dificuldades do que pelas conquistas. Esta praticamente isolado, e também não domina o tabuleiro. À direita, Efraim ocupa o espaço mais nítido da identidade bolsonarista e grande parte do centro . No campo lulista, o PT não lhe entregou o selo que ele deseja. No governismo, Lucas segue sendo o herdeiro direto. E assim Cícero vai se colocando numa posição desconfortável: a de quem saiu cedo demais da prefeitura e ainda não conseguiu mostrar que é, de fato, o ponto de encontro decisivo da oposição e do centro político paraibano.
