
Emir Gurjão
Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.
Censura Disfarçada: E o Silêncio
Publicado em 26 de julho de 2025Nem toda censura vem de ordens judiciais. Muitas vezes, ela veste a fantasia da “virtude”, da “segurança” ou até da “ciência”. Ela se esconde por trás de palavras nobres, mas age com a mesma eficiência: cala, paralisa e molda consciências. Em nome do bem, muitos acabam fazendo o mal sem perceber — e é sobre isso que precisamos falar.
Václav Havel, dissidente e pensador, descreveu com precisão esse mecanismo invisível:
“Quando todo mundo sabe haver uma linha que não pode ser cruzada — mas ninguém sabe exatamente onde ela está — a sociedade se cala.”
Essa linha muda de lugar conforme os ventos da ideologia, das redes, das narrativas oficiais. Ninguém sabe o que pode ou não dizer. Então, por segurança, todos se calam. Não por imposição direta, mas por medo do julgamento social, do cancelamento, da perda do emprego ou da reputação. Isso é autocensura, a mais eficiente forma de controle.
Mas o problema se agrava quando pessoas comuns — honestas, trabalhadoras, bem-intencionadas — tornam-se, sem perceber, peças dessa engrenagem.
Alguns repetem discursos ideológicos porque os absorveram como “verdade indiscutível”. Outros, por conveniência, sobrevivência ou ambição, passam a defender teses que não entenderam, mas que os favorecem social ou financeiramente. Há ainda os que trabalham de verdade, produzem, se esforçam, mas sem saber estão ajudando a manter o teatro funcionando.
Havel comparou esse sistema a um teatro:
Todos fingem que a peça é boa, mesmo quando é medíocre. Todos aplaudem, mesmo que nada faça sentido.
Até que alguém se levanta e diz: “Isso não faz sentido!” Ele não destrói o teatro, mas abre os olhos de quem também fingia.
O poder da verdade está em não fingir. Mesmo que você não consiga mudar tudo, ao se recusar a compactuar com a mentira — mesmo que seja apenas ficando em silêncio diante da imposição — você começa a desmontar o sistema por dentro.
A armadilha da “virtude automatizada”
Censura moderna não é feita só por ditadores, intelectuais engajados, jornalistas militantes e, muitas vezes, gente boa, que acredita estar fazendo a coisa certa. “Finja que acredita. Finja que concorda. Finja que está tudo bem.”
O dever de viver na verdade
A liberdade precisa de pequenos gestos , feitos por pessoas comuns que, em vez de repetir mentiras ou silenciar opiniões divergentes, escolhem viver na verdade. Isso exige coragem moral, não heroísmo. E essa coragem é contagiosa.
Não alimente a mentira. Não finja que a peça é boa só porque os outros aplaudem.
Mesmo que você esteja sozinho, mesmo que pareça pequeno, recusar o fingimento é um ato de resistência. Escrito por Emir Candeia Gurjão, as 08:58 horas do dia 26 de Julho de 2025
