Cenas de uma devoção maternal (II)
Não seria uma eclâmpsia inesperada durante o parto, em sua primeira gestação, que abalaria a fé juvenil de minha mãe. Superada a situação preocupante, fez, agradecida, promessa a Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro, e todos os filhos nascidos posteriormente tiveram na Igreja de Bodocongó, às terças-feiras, o primeiro passeio. Foram 12 promessas pagas por termos sobrevividos à doença e permanecidos sem sequelas.

No tempo em que morou em Patos, onde deu à luz os últimos três da prole numerosa, esperava, pacientemente, a primeira oportunidade de visitar os familiares em Campina Grande e cumprir o seu compromisso de fé. Quando, logo, o novo membro da família era, digamos, apresentado à comunidade de origem materna.
Fui um privilegiado na condição de primogênito. Como tal, vivenciei e testemunhei ou ouvi de minha mãe muitas histórias de sua devoção mariana. Inúmeras vezes, quando criança, fui com ela para a novena, saindo da Almirante Barroso e percorrendo a pé o corredor de Dona Mequinha (estreita estrada cercada de avelós ligando os bairros de Santa Cruz e Santa Rosa), agora o Parque Linear Dinamérica, até à igreja.

Uma das histórias que mais me encantaram foi da vez que papai lhe fez companhia em celebração noturna. Na volta para casa, onde hoje é o giradouro sobre a ponte ferroviária, seguiram pelos trilhos, sentido Pedregal, e avistaram um grupo de homens, de onde saiu uma mulher e os acompanhou. Nenhum deles esboçou reação e a mulher foi resgatada, mas sofrendo, na acolhida, a repreensão impulsiva de meu pai.
Dona Cleonice não se contentou como voto único à Nossa Senhora o passeio inicial dos filhos que viriam a nascer. Os dois nascidos após o primeiro parto ganharam o nome de Socorro e Afonso, pagamento de outra promessa feita pela recuperação da saúde.
Recentemente, eu a indaguei como conseguira colocar nomes de santos em cinco de seus 13 rebentos, diante da intransigência de Zé Patricio e de seu radicalismo religioso quando evangélico. “Só tive direito a botar o nome quando lhe dizia que era uma promessa”. A “fé move montanha”.











