Marcos Marinho

Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

Atestado de pobreza radiofônica

Publicado em 2 de outubro de 2025

O deplorável ciclo de pobreza – material e principalmente intelectual – do rádio campinense, que tem afastado do seu dial milhares de possíveis ouvintes, pode ser atestado de modo palpável na Panorâmica FM, a emissora do milionário deputado federal Damião Feliciano.

Em viagem cedinho ao litoral do Estado semana passada tive o atrevimento de ligar o rádio do carro e acabei tendo o desprazer de sintonizar o modorrento jornalístico matinal daquela emissora, onde ainda pontua, com razoável nível de profissionalismo, o velho Chico Alemão e suas históricas gargalhadas, ainda tão ao gosto das desassistidas e miseráveis periferias da Borborema.

Passando ao largo de uma pauta realmente jornalística, e desesperadamente buscando pescar ouvintes, o programa usa boa parte do tempo que dispõe para botar no ar áudios de eventuais desassistidos moradores da cidade dando os seus nomes e endereços para concorrerem a uma cesta básica de alimentos que a produção sorteia a cada final de mês.

O valor estimado de uma cesta básica normal, segundo o DIEESE, é de 40% do salário mínimo nacional (R$ 607,20), mas varia de região para região, sendo bem menor em capitais nordestinas e em cidades de pequeno porte, onde a pobreza mais campeia e onde os produtos que a compõe costumam ser de segunda ou terceira qualidade, barateando sensivelmente o valor final.

Em Campina Grande, por exemplo, tem mercadinho de bairro vendendo a cesta em torno de R$ 420,00, e as consideradas mais encorpadas, com itens de média qualidade, pouco ultrapassam os R$ 500,00.

É esse, portanto, o custo mensal da “isca” no anzol da Panorâmica para atrair os “peixes” magérrimos da vasta periferia municipal campinense, e assim engordar sua audiência para tentar vender melhores cotas publicitárias no mercado.

Esse tipo de procedimento é comum em emissoras de rádio por aí afora… Mas em programas musicais ou de variedades, nunca em informativos, a não ser em casos excepcionais quando os próprios anunciantes colocam produtos dos seus reclames em oferta e dispõem alguns deles para sorteio em determinados dias, como acontece por exemplo com o Posto GS, que programa seus prêmios no jornal da Correio FM, onde tem cota master de publicidade, caso de uma moto 0 km que será ofertada para sorteio em março de 2026 entre os clientes que preencherem cupons na compra de combustíveis e gás de cozinha.

Em João Pessoa, onde a prática de premiar ouvintes é mais comum, as emissoras em parceria com seus anunciantes sorteiam liquidificadores, ayr fryer’s, ventiladores, bicicletas e mesmo dinheiro em espécie. Repita-se: sempre em programas musicais e de variedades, jamais nos jornalísticos tradicionais, onde a notícia e os abalisados comentários de expert’s são prioridade número um, exatamente em respeito à vasta audiência desses horários.

No caso do noticioso matinal da Panorâmica que eu tive o desprazer de sintonizar em meu caminho para João Pessoa, ávido para saber as novas daquele dia, do Riachão ao Cajá, percurso que em velocidade normal de 80 km/hora se faz em trinta minutos, todo esse tempo foi dado aos áudios de interessados em concorrer à tal cesta básica do mês!

Até lembrei do saudoso Chico Anisio encarnando o Professor Raimundo ao se referir, gesticulando os dedos da mão direita, à pequenez da sua franciscana remuneração…

– “E o salário, ó…”.
Nesse nosso caso, dá para parodiá-lo:
– “E as notícias, ó… Nada!”