Marcos Marinho

Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

Asfóra e a vida sob “auxílios”

Publicado em 27 de fevereiro de 2026

Já disse outras vezes, mas nunca é demais repetir: dos políticos com os quais convivi Raymundo Asfóra, de longe, foi o mais correto.

E leia-se por CORRETO ser ético, responsável, cumpridor das suas responsabilidades, compromissos e obrigações, além de bom pagador, excelente amigo, exemplar pai de família e notável homem público – desses, sim senhor, de dar inveja a tantos salafrários que continuam hoje a infestar (melhor seria dizer empestar) a seara…

Dou esse testemunho não apenas por ter sido assistente do seu gabinete parlamentar em Brasília, por quatro anos, mas principalmente pelos laços anteriores que nos uniam, nas noites campinenses e nas redações dos jornais da cidade, notadamente na Gazeta do Sertão, onde chefiei a editoria a convite de Edvaldo do Ó, mas que somente pude aceitar ante a insistência de Asfóra, depois dele selar comigo o compromisso de escrever os editoriais – pelo menos uns três por semana!

Óbvio que os exemplos de Asfóra continuam a me acompanhar e deles lembro quase todos os dias, na certeza de que a sua vida acabou cedo demais, fazendo por isso mesmo imensa falta ao Brasil.

E é necessário parodiar: “não se fazem mais Asfóra como antigamente…”

Agora, por exemplo, quando o mundo nacional e a mídia pautam a questão dos “penduricalhos” nas folhas salariais dos Três Poderes da República, em acintoso enriquecimento ilícito dos que a integram, lembrar de Asfóra é obrigação!

Quando chegamos ao Planalto a primeira grande queixa de Asfóra eu não posso deixar de lembrar.

– “Marcos Marinho, que danado a gente veio fazer aqui???”, indagou-me na boca do caixa da agencia do Banco do Brasil no Anexo IV da Câmara dos Deputados, com visível cara de constrangimento, após ver o saldo da sua conta não conferir com o valor no contracheque que recebera pelo primeiro mês de atividade parlamentar.

– Eu tava tão bem em Campina, tomando sossegado o meu uisquezinho em Manoel (o da Carne de Sol) e vim parar aqui pra viver de auxílio, isso tá certo?”, complementou a indagação me deixando ainda mais surpreso e curioso, sem elementos para dar resposta à pergunta.

Digamos que naquela época (lá se vão quase quatro décadas) um deputado federal ganhasse o que hoje representa um terço do teto do funcionalismo medido pelo salário dos Ministros da Suprema Corte (hoje seria em torno de R$ 25 mil). Era o valor registrado no contracheque e era o que Asfóra imaginava iria botar no bolso.

Mas… Na sua conta-corrente tinha bem mais!

Tinha o “auxílio” alimentação, o “auxílio” transporte, o “auxílio” gabinete, o “auxílio” postal e uma outra verba maiorzinha que as demais que depois soubemos ser uma espécie de 13º parlamentar, dividido em duas parcelas – uma em janeiro e outra em dezembro de cada ano da legislatura – para ajudar os deputados a encarar as naturais despesas do período.

Ou seja: o deputado ganhava R$ 25 mil (a preço de hoje, em tese) e o resto, fora o do contracheque, era PENDURICALHO…

Mas a gente percebe que os tempos mudaram. Para melhor, obviamente. Alguns desses “auxílios” passaram a integrar a chamada Cota de Apoio Parlamentar, o tal COTÃO através do qual os congressistas passaram a pagar almoços e jantares finos, viajar em assentos de Primeira Classe nos vôos para fazer turismo com a família pelo mundo afora, alugar carros de luxo, lanchas e até aeronaves executivas para os seus deslocamentos no País, pagar advogados e jornalistas para servi-los full-time…

E vai por aí!!!

E que nem se fale sobre as Emendas Parlamentares, “Penduricalho” nobre e oficial onde gordas comissões das empresas e/ou prefeituras ajudam Suas Excelências a comprarem gjgantes mansões em condomínios fechados e viverem como reis no Brasilsão de tantas e tão imensas desigualdades sociais.

Voltemos a Asfóra e o nosso pobre tempo de vida na Capital do País:

Da bancada de 12 deputados federais da Paraíba, o único sem posses era justamente Raymundo Yàsbeck Asfóra. Zé Maranhão e Aluizio Campos, fazendeiros donos de grandiosas glebas de terra no Centro-Oeste eram os mais ricos, cada um contando pra lá de 30 mil cabeças de gado em seus rebanhos; Ernany Sátyro, João Agripino e Tarcisio Burity, como ex-governadores, já desembarcaram no Planalto Central com cofres abarrotados. Os demais, idem!

Mas, sobrevivemos sem maracutaias e longe dos privilégios, que igualmente existiam naquela época em profusão. Afinal, isto aqui é e sempre foi Brasil.

Considerando o altíssimo custo de vida na Capital da República, até para deputados federais e senadores ganhando “apenas” um terço do teto do funcionalismo, caso de Asfóra além de tudo com sete filhos para educar, a coisa era muito difícil e o meu amigo turco não tinha fazenda, empresa e nem escritório de consultoria que pudessem lhe ajudar na engorda dos proventos.

Não foram poucas as vezes que Asfóra me disse de não ter a mínima disposição para tentar renovar o mandato, até porque seu verdadeiro desejo era “devolvê-lo aos Cunha Lima”, pois admitia aos amigos mais próximos que só fora eleito porque a desistência de Ivandro de disputar uma cadeira na Câmara Federal abrindo-lhe redutos importantes como Alagoa Nova, Cuité e Gurjão, dentre outros, fora o peso decisivo.

Indicar Cássio, o herdeiro de Ronaldo, para disputar a vaga, foi uma saída genial. E o PMDB acabou lhe indicando vice governador na chapa de Tarcisio Burity, resolvendo a questão de modo justo e nenhum trauma.

Registro que sobreviver em Brasília aqueles quatro anos não foi momento glorioso. Eu, ajudando nas horas menos cheias Maranhão e Aluízio, na parte de imprensa e de assessoria legislativa, e deles recebendo a devida contrapartida financeira, escapei… E com as amizades que fiz por conta do cargo, uma delas com o então diretor geral da Câmara, Ademar Sabino, ajudei Asfóra a tambem escapar… Conseguia trocar um cheque de Asfóra com Ademar todo dia 10, quando o que recebeu da Câmara já sumira pelo ralo.

E assim foi nossa história “milionária” no Planalto Central, diferente das histórias dos nossos parlamentares de agora, que quadruplicam seus ganhos a cada mês e contam com assessores ganhando vários deles quase R$ 30 mil mensais, fora os penduricalhos, propinas e jabaculês.

De minha parte nada a reclamar, pois lá entrei honesto e saí mais ainda. Asfóra idem!

E viva Flávio Dino, por botar o dedo nessa ferida que pode vir a estancar todos esses “auxílios”, ou melhor, PENDURICALHOS da Nação.