QUEM TEVE MEDO? – A pré-candidatura de Olímpio Rocha ao Governo da Paraíba, o conflito com a Federação PSOL-Rede, os apoios políticos, a disputa com o grupo Ribeiro e a candidatura que terminou discutindo, antes do voto, o próprio direito de chegar à urna.

Publicado em 18 de setembro de 2026

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Quem teve medo?

Nós precisamos olhar para a política da Paraíba no futuro”, diz Ricardo Coutinho ao receber apoio de Olímpio Rocha em Campina Grande – A Palavra Online

No domingo, 26 de julho de 2026, quando terminou a convenção da Federação PSOL-Rede na Paraíba e alguém anunciou o resultado de oito votos contra quatro, Olímpio Rocha percebeu que a maior dificuldade de uma candidatura ao Governo do Estado talvez não estivesse onde ele imaginara quando, cinco meses antes, decidira entrar numa eleição contra o governador Lucas Ribeiro, o ex-prefeito Cícero Lucena e o senador Efraim Filho, todos eles cercados por partidos maiores, prefeitos, parlamentares, estruturas financeiras e redes políticas consolidadas havia décadas, porque antes que pudesse enfrentá-los nos debates, confrontar seus programas, responder às pesquisas ou descobrir até onde chegaria uma candidatura de esquerda que começara pequena e vinha crescendo praticamente sem dinheiro, precisaria superar uma barreira anterior ao voto popular e infinitamente mais prosaica: convencer a própria federação partidária a permitir que seu nome chegasse à urna.

No sábado anterior, o PSOL da Paraíba havia homologado sua candidatura ao governo e a de Socorro Pontes a vice, num ato realizado no Sindicato dos Bancários, em João Pessoa, depois de meses nos quais o partido estadual sustentara publicamente a necessidade de uma candidatura própria; vinte e quatro horas depois, no entanto, a federação que o PSOL forma com a Rede Sustentabilidade decidiu por oito votos a quatro rejeitar a candidatura e, naquele momento, apoiar a reeleição de Lucas Ribeiro, produzindo uma situação que talvez resumisse melhor que qualquer discurso as contradições da esquerda paraibana em 2026, porque o PSOL queria lançar um candidato para enfrentar o governador enquanto seu parceiro de federação não apenas preferia o governador como já participava do governo que pretendia reeleger.

Em João Pessoa, Boulos destaca pré-candidatura de Olímpio Rocha ao Governo da Paraíba pelo PSOL - PSOL ParaíbaPSOL Paraíba

Essa participação não era uma insinuação inventada depois da derrota para justificar o resultado da convenção, pois, nos dias anteriores à votação, a própria imprensa registrava abertamente que a Rede possuía cargos no Governo da Paraíba, integrava o conselho político organizado por Lucas Ribeiro e tinha maioria dentro da federação estadual, enquanto seu presidente nacional, Paulo Lamac, declarava que a direção nacional respeitaria a orientação do partido na Paraíba, que já compunha o governo desde João Azevêdo e decidira continuar com Lucas; na convenção isolada da Rede, realizada na véspera da votação da federação, o próprio governador compareceu ao encontro no Sintep e recebeu formalmente o apoio da legenda.

É a partir desses fatos que Olímpio construiu uma interpretação mais dura sobre o que teria ocorrido nos bastidores: para ele, a resistência não se explicava apenas por uma divergência tática entre PSOL e Rede, mas por uma articulação política do grupo Ribeiro, na qual Aguinaldo Ribeiro teria tido interesse particular em impedir que o sobrinho, Lucas, enfrentasse nos debates um adversário que passara meses atacando a concentração familiar do poder, a PPP da Cagepa, a distribuição dos investimentos estaduais e a própria influência de Aguinaldo sobre as decisões do grupo governista. Olímpio diz acreditar que não queriam descobrir o que aconteceria quando aquelas críticas deixassem de circular apenas em vídeos de Instagram, entrevistas de rádio e pequenos atos para serem feitas, ao vivo e diante de centenas de milhares de pessoas, a poucos metros do governador.

Há uma sequência objetiva que ajuda a explicar por que Rocha chegou a essa conclusão, pois a Rede integrava o governo, declarou apoio a Lucas antes de a federação decidir, possuía maioria na instância estadual e utilizou essa maioria para rejeitar o candidato do PSOL, enquanto o PSOL, que tinha formalmente aprovado Olímpio e dizia defender sua candidatura, terminou incapaz de assegurar que ela chegasse à disputa eleitoral.

A pergunta que Olímpio fizera publicamente alguns dias antes da convenção, e que naquele momento parecia apenas mais uma frase destinada às redes sociais, adquiriu depois um sentido muito mais amplo: “Quem é que tem medo da candidatura de Olímpio Rocha?”, perguntou em 20 de julho, afirmando que, se acreditavam que sua candidatura era eleitoralmente irrelevante, não haveria razão para impedir que ela passasse pelo teste dos votos; cinco dias depois, já com a candidatura homologada pelo PSOL, repetiu que estavam “pedindo a minha cabeça” e relacionou a tentativa de retirada da disputa ao medo de sua presença na eleição.
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Quando Olímpio anunciou, em 9 de fevereiro, que entraria na corrida pelo Governo da Paraíba, não possuía uma estrutura comparável às dos principais concorrentes, não comandava prefeitura, não tinha mandato parlamentar, não liderava uma bancada estadual nem dispunha de uma máquina partidária capaz de percorrer os 223 municípios, e talvez por isso tenha apresentado desde o princípio sua candidatura menos como resultado de uma engenharia eleitoral tradicional do que como ocupação de um espaço político que considerava vazio, sustentando que Lucas Ribeiro, Cícero Lucena e Efraim Filho, apesar das muitas diferenças existentes entre eles, não representavam a esquerda que ele dizia querer colocar diretamente na eleição.

A candidatura começara, na verdade, com uma desistência, porque o professor Lúcio Flávio Vasconcelos fora inicialmente cogitado pelo PSOL para a disputa e decidiu retirar o nome e apoiar Olímpio, abrindo caminho para que, em 28 de fevereiro, uma plenária estadual com participação da direção partidária confirmasse a pré-candidatura; naquele momento, a presença da então direção nacional e o discurso de construção coletiva fizeram Olímpio acreditar que havia não apenas autorização, mas incentivo para percorrer o Estado e transformar aquela decisão partidária numa candidatura eleitoralmente reconhecível.

A matéria-prima principal de sua campanha era a própria biografia, porque Olímpio não tinha como apresentar uma coleção de obras realizadas como prefeito, secretário ou governador e, em seu lugar, apresentava uma coleção de processos, conflitos, representações, ações populares e causas de direitos humanos, frequentemente lembrando a atuação contra Jair Bolsonaro, Bruno Cunha Lima, Hugo Motta, despejos de comunidades, leis discriminatórias, irregularidades administrativas e violações de direitos, de modo que a candidatura ao governo parecia, sob muitos aspectos, uma tentativa de transformar em programa eleitoral o mesmo método utilizado durante anos na advocacia popular: localizar uma estrutura considerada injusta, confrontá-la e obrigá-la a responder.

Talvez por isso a pré-campanha tenha produzido, desde cedo, episódios que oscilavam entre a política, o Direito e uma espécie de humor involuntário da vida pública paraibana, como ocorreu quando Olímpio ironizou Pedro Cunha Lima por sua antiga insistência em transformar a Granja Santana, residência oficial dos governadores, num equipamento aberto à população, sugerindo que Pedro poderia carregar algum trauma de infância relacionado ao local onde seu pai, Cássio Cunha Lima, vivera quando governava o Estado, provocação à qual Pedro respondeu defendendo o fim dos privilégios associados à residência oficial, até que se descobriu, depois de alguma troca de farpas, que os dois aceitavam alguma utilização pública do espaço e divergiam sobretudo sobre a manutenção da residência funcional.

No dia seguinte apareceria um PlayStation, porque, ao explicar uma antiga cobrança de honorários contra a Prefeitura de Campina Grande, Olímpio contou que, diante da dificuldade de receber aproximadamente quatro mil reais por um serviço advocatício, pedira a penhora de bens da municipalidade e incluíra deliberadamente entre eles a cadeira utilizada pelo prefeito e um eventual videogame encontrado no gabinete, acrescentando que poderia levar o aparelho para casa e jogar futebol eletrônico com o filho, detalhe que nada dizia sobre o orçamento estadual, a saúde pública ou a segurança, mas dizia alguma coisa sobre a maneira como o candidato aprendera a chamar atenção sem possuir os instrumentos tradicionais de uma grande campanha.

Essa dimensão pessoal ficaria ainda mais clara em julho, quando a CBN revelou uma carta enviada por Olímpio às direções estadual e nacional do PSOL e da Federação PSOL-Rede, na qual reclamava da ausência de apoio material e relatava que vinha pagando com seus próprios recursos despesas da pré-campanha, inclusive combustível, de maneira que uma candidatura ao governo de um Estado com orçamento bilionário dependia, em seus primeiros meses, de o próprio candidato abastecer o automóvel para continuar viajando e dando entrevistas.
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A precariedade financeira, entretanto, não significava ausência de apoios politicos, porque, enquanto aumentavam as dificuldades dentro da federação, a pré-campanha passou a publicar uma sucessão de manifestações de apoio de militantes, dirigentes partidários, sindicalistas, professores, lideranças comunitárias e integrantes de movimentos sociais; foram mais de cem vídeos publicados nas redes sociais, número que corresponde à estratégia claramente perceptível daquele período de substituir grandes atos e publicidade cara por depoimentos individuais de pessoas apresentando as razões pelas quais defendiam a candidatura.

Alguns desses apoios ultrapassaram as redes sociais e foram registrados pela imprensa, como o de Guilherme Boulos, a quem Olímpio se aproximara politicamente e que manifestara apoio à pré-candidatura durante passagem pela Paraíba; o do senador Veneziano Vital do Rêgo, com quem Olímpio mantinha uma relação política antiga e a quem, numa relação de apoio recíproco, o PSOL decidiu respaldar para o Senado; e o de Charliton Machado, coordenador estadual da campanha de Lula, que recebeu formalmente Olímpio na articulação presidencial e o descreveu publicamente como uma figura importante na defesa de Lula, da democracia e da soberania nacional.

O apoio de Veneziano tinha um peso simbólico particular porque atravessava uma relação familiar e política antiga, uma vez que Marcio Rocha, pai de Olímpio, integrara a administração municipal de Veneziano em Campina Grande, enquanto a aproximação com Charliton permitia a Olímpio sustentar que sua candidatura poderia oferecer ao presidente Lula um palanque inequivocamente identificado com a esquerda na disputa estadual; em julho, Olímpio passou a integrar formalmente a pré-campanha de Lula na Paraíba, enquanto a direção estadual do PSOL caminhava para apoiar Veneziano e João Azevêdo nas duas vagas do Senado.

Ao mesmo tempo, Olímpio recebia diariamente manifestações de integrantes de movimentos de mulheres, da população LGBTQIA+, de organizações ligadas à moradia e de movimentos populares do campo e da cidade, e o próprio manifesto da pré-candidatura foi uma iniciativa de militantes partidários, lideranças comunitárias, trabalhadores, sindicalistas e representantes de movimentos sociais, uma rede de apoio que não possuía o peso institucional de dezenas de prefeitos, mas que ajudava a explicar por que sua candidatura estaria longe de ser uma aventura pessoal sem resplado popular.

É importante distinguir, evidentemente, apoio político de potencial eleitoral, porque a existência de centenas de depoimentos ou a manifestação de dirigentes conhecidos não permite concluir quantos votos Olímpio teria obtido, e a única pesquisa estadual de repercussão nacional naquele estágio, realizada pela Real Time Big Data no fim de maio, registrava 2% para seu nome, fotografia inicial e limitada de uma eleição ainda distante; a hipótese sustentada por seus aliados de que aquela poderia se transformar na maior votação da história do PSOL numa disputa majoritária paraibana jamais poderá ser testada, não porque as urnas tenham desmentido a tese, mas precisamente porque a candidatura deixou de existir antes que as urnas pudessem confirmá-la ou rejeitá-la.

Esse talvez seja o ponto mais desconfortável para seus antigos companheiros de partido, porque não é intelectualmente sério afirmar hoje que Olímpio venceria, chegaria ao segundo turno ou alcançaria determinado percentual, da mesma maneira que não é possível afirmar o contrário com segurança; o PSOL não abriu mão de uma vitória demonstrada, pois essa vitória nunca existiu, mas abriu mão da possibilidade de descobrir até onde chegaria uma candidatura que havia passado de uma inscrição partidária quase solitária, em fevereiro, à condição de nome reconhecido na disputa estadual, incluído em pesquisas, sabatinado pelas principais redes de comunicação do Estado e cercado por uma mobilização digital que sua equipe contabilizava em centenas de apoios públicos.
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Foi na sabatina da CBN e do Jornal da Paraíba, em 16 de julho, que Olímpio mostrou que existia um candidato para além do homem que processava adversários, e durante quase uma hora falou de tarifa zero progressiva no transporte intermunicipal, de uma política tributária que levasse em conta indicadores como o IDH dos municípios, da necessidade de realizar concursos e diminuir a dependência de contratos temporários, da descentralização da média e da alta complexidade do SUS, de fortalecimento da UEPB, de inteligência e prevenção na segurança pública e da revisão da parceria público-privada da Cagepa, que se tornara uma das bandeiras centrais de sua campanha.

Na questão da água e do saneamento aparecia talvez a divergência programática mais simples de explicar ao eleitor, porque o governo defendia a PPP como mecanismo para ampliar investimentos e universalizar serviços, enquanto Olímpio dizia considerar que uma atividade essencial não deveria ser submetida à lógica privada de remuneração do capital e prometia utilizar os instrumentos jurídicos disponíveis para rever o contrato, discussão que permitiria, caso a candidatura sobrevivesse, um confronto objetivo entre dois projetos de administração pública.

Havia ainda o fim da escala 6×1, a defesa da agricultura familiar e da reforma agrária, uma política de desenvolvimento regional que reduzisse a concentração de investimentos no litoral, proteção da Caatinga, valorização de servidores, políticas de igualdade racial, direitos da população LGBTQIA+, combate ao feminicídio e maior participação de mulheres no governo, propostas que ao menos permitiriam uma disputa política em torno de conteúdo, justamente aquilo que Olímpio dizia desejar quando reclamava que a eleição paraibana corria o risco de se transformar numa competição entre famílias e estruturas tradicionais.
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Quando a crise da federação explodiu definitivamente, porém, discutir programa passou a ser quase um luxo, porque a Rede havia decidido apoiar Lucas Ribeiro antes mesmo da convenção conjunta, e sua direção nacional deixara claro que respaldaria a decisão paraibana; no sábado, 25 de julho, enquanto o PSOL homologava Olímpio, Lucas comparecia à convenção da Rede, e, no domingo, os votos da maioria estadual foram suficientes para derrotar a candidatura por oito a quatro.

Foi nesse momento que Olímpio passou a recorrer à memória de Margarida Maria Alves para explicar, de maneira deliberadamente dura, o que considerava estar acontecendo com uma parte da esquerda paraibana, não porque acusasse qualquer dirigente atual, integrante da Rede ou membro da família Ribeiro de participação no assassinato da sindicalista, associação para a qual não existe fundamento e que seria historicamente falsa, mas porque via na capitulação diante de estruturas tradicionais de poder uma inversão da herança política representada por Margarida, que presidiu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, confrontou interesses de grandes proprietários e usineiros e foi assassinada em 12 de agosto de 1983, depois de receber ameaças por sua atuação sindical; seu assassinato permanece como um dos símbolos mais brutais da violência contra trabalhadores rurais na história paraibana, e documentos e pesquisas históricas registram que o crime ocorreu num ambiente de forte conflito entre os trabalhadores organizados e grandes interesses fundiários.

A comparação utilizada por Olímpio é política e histórica, não criminal: em sua leitura, uma esquerda que nasceu para enfrentar as estruturas oligárquicas e que reverencia Margarida em discursos, marchas e homenagens não pode, quando chega a hora de uma decisão concreta, escolher a segurança de cargos e alianças com grupos poderosos em detrimento de uma candidatura própria e depois continuar utilizando a memória da sindicalista como se não houvesse contradição alguma, porque o sentido da lembrança de Margarida, para ele, está justamente em não se acomodar ao tipo de estrutura de poder econômico e político contra a qual ela organizou trabalhadores.

Olímpio seria ainda mais incisivo em reuniões partidárias: dizia que era estranho ver setores da esquerda paraibana homenagearem Margarida e, ao mesmo tempo, aceitarem caminhar eleitoralmente com aquilo que ele classificava como as novas formas do velho poder oligárquico; o ponto político da comparação, para ele, era o de que estruturas de poder mudam de linguagem, vestem ternos diferentes e ocupam instituições diferentes, mas uma esquerda que abdica de enfrentá-las corre o risco de transformar sua própria memória histórica numa cerimônia sem consequência.
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Depois da votação de oito a quatro, começou outra campanha, menos fotogênica e mais adequada ao temperamento profissional de Olímpio, na qual a disputa pelo governo foi substituída pela disputa pelo direito de disputar o governo, com recursos partidários, discussão sobre ata, denúncia à Polícia Federal e, posteriormente, processos na Justiça Eleitoral.

Olímpio sustentou que sua intenção de recorrer à Federação Nacional fora omitida ou registrada inadequadamente na ata estadual e levou o caso à Polícia Federal, enquanto a direção estadual do PSOL apresentou o recurso à instância nacional; nos dias seguintes, veículos de imprensa anunciaram que a direção nacional mantivera o veto à candidatura, mas, numa solução que evidenciava a própria contradição política da crise, também determinara que a Federação PSOL-Rede não poderia formalmente integrar a aliança do Progressistas de Lucas Ribeiro, de maneira que Olímpio não poderia concorrer, mas a federação também não deveria fazer exatamente aquilo que a maioria estadual havia decidido quando o retirou da disputa.

Olímpio contestaria posteriormente até mesmo a natureza jurídica dessa deliberação nacional, sustentando perante a Justiça Eleitoral que não existira uma decisão formal válida do órgão nacional da federação sobre seu recurso, argumento que encontrou resistência no TRE-PB, onde o registro da chapa Olímpio-Socorro acabaria indeferido sob o entendimento de que a convenção isolada do PSOL não poderia substituir a autorização da federação; a controvérsia seguiu para o TSE, e, a essa altura, uma candidatura que nascera para falar de saúde, transporte, universidade e desenvolvimento regional estava reduzida a uma discussão sobre competência partidária, atas, instâncias e estatutos.

Para Olímpio, foi também nesse ponto que o PSOL nacional falhou de maneira mais grave, porque o partido que incentivara a candidatura, que possuía maioria dentro da estrutura nacional da federação, que tinha dirigentes cientes do conflito paraibano e que assistira à pré-campanha crescer durante meses terminou sem encontrar uma solução política capaz de preservar o nome que seu próprio diretório estadual homologara; chamar isso de “capitulação” é a linguagem de Olímpio, não uma descrição neutra das razões que moveram cada dirigente nacional, mas é assim que ele interpreta a decisão e é a partir dessa experiência que passou a reconsiderar sua permanência partidária.

Não se sabe, e provavelmente será difícil saber algum dia, se Aguinaldo Ribeiro teve interlocução direta com dirigentes nacionais do PSOL sobre o caso; Olímpio, porém, afirma não ter dúvidas sobre a existência de uma articulação política mais ampla para retirar seu nome, enquanto os fatos publicamente comprováveis mostram uma Rede comprometida com o governo, a direção nacional da própria Rede apoiando a decisão estadual, uma maioria de oito votos formada contra sua candidatura e um PSOL que, apesar de formalmente defendê-la, terminou aceitando um cenário no qual não teria candidato próprio ao governo.
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A retirada formal não encerrou a presença de Olímpio na eleição, e talvez esse tenha sido um dos aspectos mais inesperados daquela história, porque, depois de perder a candidatura, ele continuou agindo como um candidato que apenas não possuía espaço na urna, assistindo aos debates, produzindo vídeos, atacando as contradições dos concorrentes e procurando interferir em episódios concretos da campanha.

Quando Eduardo Carneiro passou a ser mencionado como possível vice de Lucas Ribeiro, Olímpio recuperou e divulgou um vídeo antigo em que o deputado defendia Jair Bolsonaro em 2018; a gravação provocou reações dentro de partidos de esquerda que integravam a base governista e coincidiu com a retirada de Carneiro do centro das especulações sobre a vice, episódio que demonstrou que o candidato impedido de participar dos debates ainda podia, do lado de fora, mudar o assunto discutido por quem estava dentro deles.

Também questionou publicamente se Lucas possuía autonomia para escolher seu próprio vice ou se a decisão caberia a Aguinaldo Ribeiro, provocação que condensava sua leitura sobre a família Ribeiro e sobre a relação entre poder formal e poder político na estrutura governista; em seguida, representando juridicamente outro candidato, pediu a impugnação da candidatura de Daniella Ribeiro à primeira suplência do Senado, com fundamento na discussão constitucional sobre inelegibilidade reflexa decorrente do parentesco com Lucas, tese posteriormente rejeitada pelo TRE, mas que também seria levantada pelo Ministério Público Eleitoral.

Em agosto, levou a disputa para o plano nacional ao apresentar ao Ministério Público Eleitoral uma notícia-crime contra Renan Santos pelas declarações dirigidas a Janja durante um debate presidencial, pedindo que fossem examinadas sob as regras eleitorais relativas à injúria e à violência política contra a mulher; a representação não equivalia a uma conclusão do Ministério Público sobre a existência de crime, mas recebeu repercussão nacional e mostrava que a impossibilidade de disputar o governo não havia reduzido a disposição de Olímpio para utilizar a arena jurídica como prolongamento da arena política.
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A relação com Veneziano continuou mesmo depois da candidatura barrada, e Olímpio declarou que manteria seu voto no senador, enquanto se recusava a apoiar qualquer dos candidatos ao governo, registrando ainda que Veneziano havia demonstrado apoio à sua postulação quando ela estava em construção; semanas depois, ao anunciar apoio a Ricardo Coutinho para deputado federal, voltou a falar da candidatura interrompida e disse ao ex-governador que, se não tivessem feito o que classificou como uma “sacanagem”, imaginava Ricardo marchando ao seu lado naquela disputa, recebendo como resposta uma declaração de que a relação entre os dois deveria ultrapassar aquela eleição.

Essas aproximações ajudam a compreender por que a derrota partidária não significou necessariamente uma volta ao ponto de partida, porque Olímpio saiu de fevereiro com uma presença pública diferente daquela com que entrou: havia sido sabatinado como candidato ao governo, aparecido em pesquisa estadual, construído relações com a coordenação de Lula, recebido manifestações de Boulos, Veneziano e Charliton, feito uma campanha digital que contabilizava mais de cem depoimentos de apoio e se tornado personagem de uma crise partidária acompanhada diariamente pela imprensa política.

Foi nesse ambiente que se aproximou do Movimento por uma Revolução Solidária, corrente política ligada a Guilherme Boulos e a outros quadros do PSOL, grupo que também atravessara em 2026 um profundo conflito com a maioria partidária em torno da relação com o PT e que decidiu permanecer no PSOL durante o processo eleitoral, embora seu futuro posterior continuasse em discussão; Olímpio considera que sua experiência na Paraíba confirmou algumas das críticas feitas por esse campo à condução nacional do partido e passou a admitir, para depois das eleições, uma reflexão sobre sua própria filiação, inclusive a hipótese de acompanhar uma reorganização partidária que possa aproximá-lo do PT, possibilidade que não constitui ainda decisão formal e que dependerá das discussões posteriores à eleição.

Uma eventual mudança partidária abriria naturalmente outra discussão sobre Campina Grande, onde Olímpio já disputou a Prefeitura, possui sua principal base de reconhecimento público e construiu grande parte de sua trajetória profissional e política, podendo vir a participar, dentro de um novo arranjo partidário, das discussões sobre futuras eleições municipais ou proporcionais; isso não significa que exista hoje candidatura definida, muito menos que seja possível prever seu papel em 2028 ou em eleições posteriores, mas apenas que a experiência de 2026 alterou as condições a partir das quais essas conversas poderão ocorrer, especialmente se as relações estabelecidas com lideranças do campo de Lula, com Ricardo Coutinho, Cida Ramos e com integrantes do PT e da Revolução Solidária forem mantidas.
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Talvez por isso a pergunta do título permaneça mais interessante do que qualquer resposta apressada, porque Olímpio entrou na eleição sem dinheiro suficiente para pagar sequer todas as despesas de combustível, enfrentando candidatos que possuíam estruturas incomparavelmente maiores, apareceu com apenas 2% numa pesquisa estadual e, ainda assim, viu uma federação mobilizar suas engrenagens internas para impedir que sua candidatura chegasse às urnas, embora seus adversários pudessem simplesmente permitir que ele concorresse e deixar que os eleitores, caso o considerassem irrelevante, resolvessem o problema em outubro.

Olímpio tem sua resposta e não faz questão de suavizá-la: acredita que setores do grupo Ribeiro, tendo Aguinaldo como articulador político central, preferiram não correr o risco de vê-lo diante de Lucas Ribeiro nos debates, acredita que a Rede escolheu os compromissos de um partido que já estava dentro do governo em vez da possibilidade de sustentar uma candidatura de esquerda e acredita que o PSOL nacional, ao não usar sua força política para preservar a decisão do partido na Paraíba, abriu mão de descobrir se aquela candidatura poderia produzir a maior votação majoritária de sua história no Estado.

Aqueles que tomaram a decisão poderão oferecer outra versão, segundo a qual uma federação precisa funcionar por regras coletivas, a Rede tinha o direito de defender sua estratégia, a maioria estadual decidiu e a direção nacional precisou administrar interesses diferentes sem permitir que a disputa paraibana comprometesse a unidade nacional da aliança; essa explicação existe e precisa fazer parte de qualquer reconstrução séria do episódio, mas não elimina uma contradição que os documentos públicos deixam visível, pois a candidatura aprovada pelo PSOL foi retirada por uma maioria formada essencialmente pelo partido que integrava o governo estadual que aquela candidatura pretendia enfrentar.

É nesse ponto que a memória de Margarida Maria Alves retorna não como acusação criminal ou equivalência histórica, mas como pergunta política dirigida sobretudo à própria esquerda, porque Margarida se transformou em símbolo justamente por ter recusado a submissão diante de poderes econômicos e políticos muito maiores do que o sindicato que dirigia, e Olímpio passou a sustentar que pouco significa homenageá-la todo mês de agosto se, diante das formas contemporâneas de concentração de poder, a esquerda escolhe a acomodação em vez do conflito; os tempos são outros, os personagens são outros e ninguém deve confundir adversários eleitorais de 2026 com os responsáveis por um assassinato político de 1983, mas a pergunta sobre para que serve a memória de Margarida quando ela deixa de orientar escolhas concretas permanece legítima dentro da interpretação que Olímpio faz do episódio.

Ao final daqueles sete meses, portanto, Olímpio não havia conseguido aquilo que pretendia em fevereiro, que era oferecer seu nome aos paraibanos numa eleição para governador, mas também não voltava simplesmente ao lugar de onde saíra, porque entre o anúncio da pré-candidatura e o indeferimento do registro construíra um programa, enfrentara adversários estaduais e nacionais, recebera apoios que iam de militantes anônimos a um senador da República, ao coordenador da campanha presidencial de Lula na Paraíba e a uma das principais lideranças nacionais do PSOL, produzira centenas de manifestações públicas de apoio, entrara em sucessivas polêmicas, colocara a Cagepa, a tarifa zero, os concursos, a escala 6×1 e a desigualdade regional no debate e, sobretudo, transformara uma candidatura inicialmente tratada como pequena numa disputa interna suficientemente séria para dividir uma federação, produzir recursos nacionais, chegar à Polícia Federal e terminar no Tribunal Superior Eleitoral.

A pergunta que sobrava não era, portanto, se Olímpio Rocha seria eleito, porque nunca lhe foi permitido chegar ao momento em que essa pergunta pudesse ser respondida, nem se venceria Lucas Ribeiro, Cícero Lucena ou Efraim Filho, porque qualquer tentativa de responder abstratamente seria ficção eleitoral, mas por que uma candidatura considerada por tantos pequena demais para ameaçar as grandes estruturas políticas precisou ser retirada antes que o eleitor pudesse medi-la, por que um partido que a aprovara terminou sem conseguir garanti-la, por que uma federação cuja maioria estadual estava instalada dentro do governo teve poder para impedir a única candidatura que aquele PSOL havia decidido apresentar ao governo e, finalmente, por que, diante de uma campanha sustentada durante meses com gasolina paga pelo próprio candidato, centenas de apoios gravados em celulares, um programa construído no caminho e uma disposição evidente para o confronto, alguém decidiu que seria melhor não descobrir o que aconteceria se Olímpio Rocha chegasse aos debates e depois às urnas, razão pela qual, depois de todas as atas, convenções, recursos, notas, votações, acusações, decisões judiciais e explicações partidárias, a pergunta formulada antes do veto continuava sendo também a pergunta que restava depois dele: quem teve medo de Olímpio Rocha?

Referências principais
Jornal da Paraíba — Federação PSOL-Rede não aprova candidatura de Olímpio e decide apoiar Lucas Ribeiro. Abrir matéria
Termômetro da Política — Rede no governo e no conselho político de Lucas Ribeiro. Abrir matéria
Paraíba Já — Direção nacional da Rede sinaliza respaldo à posição estadual. Abrir matéria
Paraíba Online — Olímpio mantém pré-candidatura e diz que recorrerá. Abrir matéria
Jornal da Paraíba — Carta cobra recursos e relata despesas de combustível. Abrir matéria
CBN Paraíba — Sabatina CBN e Jornal da Paraíba. Abrir matéria
Termômetro da Política — Olímpio passa a integrar formalmente a pré-campanha de Lula na Paraíba. Abrir matéria
Página PB — Olímpio oficializa apoio a Veneziano para o Senado. Abrir matéria
Jornal da Paraíba — Recurso nacional sobre candidatura de Olímpio. Abrir matéria
CBN Paraíba — TRE-PB nega registro da candidatura. Abrir matéria
Paraíba Online — Recurso ao TSE para manter candidatura. Abrir matéria
Fonte83 — Após candidatura barrada, Olímpio anuncia voto em Veneziano e João. Abrir matéria
Folha de S.Paulo — PSOL recusa federação com PT em derrota para grupo de Boulos. Abrir matéria
Memórias Reveladas / Arquivo Nacional — Assassinato de Margarida Maria Alves. Abrir matéria
Nota editorial: o texto distingue fatos documentados, posições políticas atribuídas a Olímpio Rocha e hipóteses de bastidor que não dispõem de comprovação documental pública.

Fonte: Da Redação