
Emir Gurjão
Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.
A Operação Pamonha Voadora
Publicado em 25 de abril de 2026Dizem que, em certas horas da história, as grandes potências descobrem que satélite, drone, míssil invisível e inteligência artificial não resolvem tudo. Às vezes, o que falta mesmo é uma Guarda Municipal de Campina Grande, um pau de sebo bem amarrado, um tocador de forró no rádio e alguém com coragem suficiente para entrar no Irã vestido de quadrilheiro.
Tudo começou quando uma aeronave das Forças Armadas dos Estados Unidos foi abatida em território iraniano. Os dois ocupantes conseguiram ejetar. Um caiu em área conhecida e foi resgatado quase imediatamente. O outro desapareceu nas montanhas, em região difícil, pedregosa e cheia de fendas, onde nem satélite americano, nem drone europeu, nem bússola de general aposentado conseguiam dar conta.
Trump, desesperado, pediu ajuda à OTAN. Os europeus desconversaram. Pediu ao Brasil oficialmente. Lula recusou. Foi então que Trump, sem mais alternativa, telefonou para Bolsonaro.
Bolsonaro, segundo contam, não pensou duas vezes. Ligou para aliados, consultou conhecidos e, em poucos minutos, a notícia chegou a Campina Grande. O prefeito Bruno Cunha Lima foi informado da missão e reuniu a Guarda Municipal.
— Meus amigos, o mundo precisa de Campina Grande — teria dito Bruno, com solenidade.
A Guarda Municipal não vacilou. Doze agentes se apresentaram. Juntaram-se a eles um tradutor, um especialista em aviação da UFCG, o professor Bruno, e Marco Simplício, autoridade local em paraquedismo e em histórias difíceis de contestar depois da terceira dose.
O pedido foi simples: logística.
Trump respondeu com rapidez. Poucas horas depois, pousava em Campina Grande um gigantesco avião de transporte, viajando a inacreditáveis Mach 12, trazendo dentro três helicópteros. Para os técnicos, aquilo era impossível. Para Campina Grande em véspera de São João, era apenas terça-feira.
Chegando ao Irã, os helicópteros se dividiram. Um deles foi enviado para uma área mais distante, com a missão de distrair os iranianos. Lá, os agentes começaram a soltar traques, peidos de véia e outros fogos juninos, confundindo drones inimigos, que eram abatidos por engenhosas bombas-canoa. Balões juninos subiam ao céu e atraíam mísseis como se fossem pamonhas voadoras.
Enquanto isso, os outros helicópteros vasculhavam a região montanhosa. Foi quando os guardas, atentos, captaram um som vindo de uma fenda nas pedras. Não era pedido de socorro em inglês. Não era código militar. Era forró.
Mais precisamente, Biliu de Campina.
— Encontramos o militar! — gritou um dos agentes.
A lógica era perfeita: se havia Biliu tocando numa montanha do Irã, só podia haver campinense por perto, ou alguém em processo acelerado de salvação.
O helicóptero pairou. Os guardas, vestidos com roupas juninas, desceram por um pau de sebo especialmente adaptado para resgate internacional. Lá embaixo, encontraram o piloto americano assustado, faminto e completamente sem entender por que sua salvação vinha ao som de forró.
Ao subir no helicóptero, recebeu atendimento emergencial: pamonha, canjica e algumas doses de cachaça para “aquecer o espírito”. O tradutor tentou explicar que aquilo não fazia parte do protocolo militar americano. A Guarda respondeu que protocolo bom era o que salvava o vivente.
No voo de volta, a decisão foi unânime: nada de Washington. O destino seria Campina Grande, aeroporto João Suassuna.
Ao desembarcar, o militar foi atendido pelo SAMU e por uma equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, rezadeiras e descendentes dos famosos farmacêuticos das farmácias do Quarenta e do Zé Pinheiro. Depois de exames, reza forte e chá de quixaba com outras ervas, o homem se restabeleceu completamente.
Alguém sugeriu:
— Já que ele melhorou, vamos levar o rapaz ao Parque do Povo.
E assim foi feito.
Vestido com traje junino oferecido por João Dantas, o militar americano chegou ao Parque do Povo como herói internacional. No começo, ficou tímido. Depois de duas músicas e uma dose, já dançava como se tivesse nascido entre a Feira Central e a Avenida Canal.
No embalo da festa, conheceu uma moça da noite campinense, dessas que conhecem melhor a Rua João Pessoa e a Índios Cariris do que muito taxista antigo. Conversa vai, xote vem, e de madrugada os dois já estavam noivos.
Foram comemorar no Bar de Cunha, na Feira da Prata. O americano provou mocotó, buchada, tripa e cuscuz com graxa. Ao final, emocionado, pediu a mão da moça em casamento. Ela aceitou imediatamente. O casamento ficou marcado para dali a oito dias.
Para padrinhos, o militar convidou Trump e Melania.
Trump aceitou. Disse que viria pessoalmente agradecer a Bruno, à Guarda Municipal e ao povo de Campina Grande pela operação que nem Hollywood teria coragem de filmar.
No dia marcado, o Força Aérea Número Um se aproximava da Paraíba escoltado por seis modernos aviões invisíveis. Ao chegar perto de Boa Vista, porém, o piloto se perdeu. Trump olhou pela janela e viu um homem embaixo.
— É Toinho, o que gosta de apostar — informou alguém da CIA, que aparentemente já tinha dossiê sobre todo mundo.
O piloto começou a gesticular pedindo orientação. Toinho botou a mão no ouvido, balançou a cabeça e demonstrou que não estava entendendo nada. Foi então que abriram uma pequena janela do avião e desceram, amarrado num cordão, um bilhete pedindo duas coisas: a direção do aeroporto João Suassuna e uma encomenda urgente para Trump — queijo de coalho, rapadura e água de cacimba da bodega de Mané Pixa.
Toinho, prestativo, providenciou tudo. Depois, subiu num lajedo, abriu os dois braços e orientou o piloto como quem guia caminhão em estrada de barro.
O avião pousou suavemente em Campina Grande.
No desembarque, Trump foi recebido por jornalistas, blogueiros, colunistas sociais e curiosos. Melania foi conduzida por um famoso colunista social para tomar chá com mulheres da sociedade campinense. Trump, cercado por microfones, foi convidado para a abertura do Maior São João do Mundo.
Ele respondeu que aceitava, mas com uma condição:
— Quero tocar zabumba no palco principal e participar de uma quadrilha junina.
Como era hora do almoço, Trump pediu para ir ao Bar da Fava.
E ali, entre fava, bode, cuscuz e conversa alta, ficou claro que a diplomacia mundial talvez tivesse encontrado uma nova sede: Campina Grande.
Porque, quando o mundo se perde entre guerra, míssil, drone e geopolítica, sempre aparece alguém do Nordeste dizendo:
— Deixe comigo. Isso aí a gente resolve depois do almoço.
