
Vanderley de Brito
Historiador, arqueólogo, genealogista e atualmente é presidente do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG).
A mãe do jacaré
Publicado em 20 de janeiro de 2026Tive o privilégio de acompanhar e coparticipar da concepção, gestação e consagração de uma obra literária simplesmente extraordinária. Estou falando do livro-infantil “O jacaré do Açude Velho”, de autoria da escritora austro-brasileira Ida Steinmüller, que é também uma mulher de qualidades raras.

Sou suspeito de falar, devido nossa proximidade, mas qualquer um que a conhece sabe de que estou falando. Ida é exótica, uma criatura admirável, educada ao extremo, tem gestos refinados, é culta, formosa e de uma bondade imensurável. Não precisava ter nada mais do que isso para angariar admiração, mas, além de tudo, ela é muito sensível e uma escritora talentosa.

Filha de austríacos, mas nascida e criada em Campina Grande, Ida foi educada à moda europeia, e, lendo livros desde criança, se tornou uma encantada por literatura infantil, de modo que durante toda sua vida sonhou em escrever um livro-infantil, mas os descaminhos da vida não lhe possibilitaram e somente já em idade madura, beirando os 70 anos, realizou seu sonho, quando, em 2023, escreveu e publicou seu livro sobre um jacaré urbano que se tornou um mito em sua cidade. A obra é uma adaptação de uma história real, foi o primeiro livro-infantil ambientado na cidade de Campina Grande e eu tive a honra de ser o ilustrador da obra.

A ideia do livro é extraordinária e a composição foi magistral, pois, tendo o próprio jacaré como narrador na primeira pessoa, a doçura de Ida está muito presente no texto, chega dá para sentir na estrutura da narrativa a frequência vibratória de uma mãe contando uma estória de Trancoso para um filho à beira da cama, e ela ainda inovou ao criar uma linguagem repleta de expressões do linguajar popular regional.

A própria estrutura das frases imita a cadência da fala regional, que soa autêntica e próxima da oralidade, com expressões regionais como “tadinho”, “eu ficava todo ancho me achando celebridade” e “a água não era lá muito cheirosa não”, que interagem com o contexto linguístico, social e paisagístico local.

E a riqueza da obra não para aí. Ida ainda conseguiu imprimir uma experiência imersiva na obra, seja na noção de tempo transcorrido, onde, no avançar dos anos, tanto os personagens quanto à cidade sofrem transformações, como também, intuitivamente, se esboçou um método storytelling no enredo, com um personagem cativante em sucessivos conflitos, contextos e superações, de modo a engajar e gerar uma conexão emocional entre os leitores e o jacaré.

A obra é uma lição emocionante de humanidade e resiliência, mas vale ressaltar que toda essa aventura mágica foi feita em poucas palavras. Aliás, embora seja uma obra de “final feliz”, o livro tem um particular gosto de quero mais. É literatura de alto dom.

O sucesso da obra foi imediato, só no evento de lançamento foram vendidos mais de 70 exemplares. Em poucos meses toda a edição de mil exemplares encerrou, foi feita uma segunda edição, que também vendeu em meses, e agora, pouco mais de dois anos depois de lançada, a obra já está em sua terceira edição. Pela sua impressionante força didática, estrutura emocional e apelo regional, inúmeras escolas (públicas e privadas) da cidade e região adotaram o livro.

Estima-se que mais de duas mil crianças já trabalharam a história do simpático jacaré de Ida. A obra tem participado com destaque de diversas feiras literárias, recebeu uma moção de aplauso da Câmara Municipal de Campina Grande e um prêmio nacional em um evento pedagógico na cidade de Foz do Iguaçu.

Durante essa campanha, que permanece em brilhantura até hoje, Ida tem participado assiduamente das atividades didáticas, aceitando todos os convites das escolas para interagir com seus leitores. É uma coisa impressionante, as crianças intuem sua amabilidade, se agarram com ela e não querem soltá-la.

Uma vez, numa dessas escolas, assim que ela chegou uma criança ávida para conhecer a autora, com toda sua inocência, ao vê-la chegando, saiu correndo eufórica e gritando: “Êita! Chegou a mãe do jacaré”.










