Valberto José

Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.

A cruz prometida que originou o bairro do Cruzeiro

Publicado em 4 de dezembro de 2025

O cruzeirinho povoou minha imaginação de menino por toda minha infância feliz. Perguntava a mim mesmo por que uma igrejinha tão pequena ficava ao lado de uma igreja tão grande ou ainda por que tantas réplicas de pernas, braços e outras partes do corpo humano naquele lugar, que nunca via gente nenhuma entrar. Também não imaginava que uma cruz deu origem a um bairro tão grande e que se tornou menor diante da Santa Cruz que se fez bairro.

Sim, o bairro do Cruzeiro se estendia, nos meus tempos de menino, até depois da ponte sobre o riacho de Bodocongó, daí ainda hoje chamada de ponte do Cruzeiro. A construção da Igreja de Santa Cruz certamente contribuiu para que o bairro se dividisse; a partir do Colégio Panorama, desde então, é bairro de Santa Cruz. A igreja, depois Nossa Senhora da Dores, remói minhas dores de saudade, não obstante preservar a cruz e a santidade.

Como a maioria dos que veem o cruzeirinho preservado, sempre tive curiosidade de saber como ele surgiu, quem construiu a capelinha e até a igreja que há pouco se tornou paróquia. Felizmente que apareceu, há quase 20 anos, uma abençoada de Esperança com o nome de Maria, engajou-se na comunidade, apaixonou-se por ela e vasculhou a história.

A cabelereira Maria Oliveira penteou o passado da capelinha, conversando com pessoas quase centenárias, pessoas das ruas próximas, visitando sítios, entrando em casas desconhecidas, deslocando-se a lugares mais distantes do território municipal em busca da verdade histórica. Ela não conseguiu esclarecer tudo, pois lhe faltou provas documentais, mas amenizou a curiosidade de muitos, inclusive a minha.

A cruz, plantada no lugar ainda no século XIX, não é marca de uma fatalidade eterna; é bênção de uma graça alcançada e de promessa paga. Um homem da região de Catolé de Boa Vista, que continua no anonimato, apesar da esperteza de Maria, rogou uma dádiva, e, atendido, caminhou com a cruz até não suportar mais, conforme prometera. Justamente naquele local da rodagem, à época conhecido por Mata Redonda, exausto, fincou a cruz.

A localização estratégica da cruz, às margens da estrada de acesso aos rincões mais distantes do município de Campina Grande e do Cariri paraibano, tornou-se ponto de parada obrigatório de católicos em passagem, para fazer suas preces e devoções. Com o tempo o local foi atraindo mais fiéis, surgindo a necessidade de erguer a capelinha.

A data de construção do cruzeirinho não foi confirmada, embora outra fonte sugira o ano de 1889. Na pesquisa de Maria Oliveira, foi informado que, 10 anos depois, a família Tavares Pequeno adquiriu a área e passou a cuidar zelosamente do incipiente santuário, o que reforça a versão sugerida.

A igreja São Francisco de Assis teve sua construção iniciada no ano de 1938, em terreno doado por Alfredo Ambrósio e Alexandrina Tavares, e conclusão em 1942. Antes, porém, com o crescimento devocional na capelinha, principiou-se a celebração de missas campais ao seu lado.

Pelo que informaram a Maria Oliveira, Monsenhor Sales, falecido em 1927, foi um dos celebrantes dessas missas ao ar livre; confirmado esse fato histórico, a pequena capela já existia há tempo.

O cruzeirinho foi a base do desenvolvimento urbano da localidade, originando, portanto, o bairro e inspirando sua nomenclatura. Viva o cruzeirinho, viva o bairro do Cruzeiro!