Marcos Marinho

Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

Chico César, Olímpio Rocha e o novo olhar do “vai tomar no cu”

Publicado em 31 de agosto de 2026

Parece destino! Por vias avessas ou transversas, o nosso talentoso Chico César cada vez que bota o pé – e o resto do belo corpo – em Campina Grande faz zoada…
Com repercussão que ultrapassa as nossas fronteiras!

E o bom disso é que ele se mantém inspirador para outros conterrâneos – os inteligentes e também os ‘nem tanto’.

A primeira grande ação de Chico por estas paragens, sem ser musical, foi quando desapeou sua bainha peniana alguns anos atrás em pleno palco do Teatro Severino Cabral, ali na beirada do velho Açude Novo, para molhar o histórico carpete daquela Casa com a maior mijada do mundo. Não lembro quem era o diretor do teatro na época, se Hermano José ou outro discípulo dele, mas a verdade é que não houve recriminação e tampouco aplausos da atônita plateia que lá compareceu apenas para ouvi-lo cantar; jamais apreciar sua mijada!

Agora, conforme nos relata um jovem da mais fina inteligência campinense, que por lá esteve nessa recente volta de Chico César ao teatro, a questão – também controversa e de ‘profunda’ repercussão -, envolve outra parte do corpo humano que, em especiais momentos políticos como o atual em que vivemos, se faz realmente lembrada em muitos grotões da periferia e, sem dúvidas, também e ainda mais nos ambientes requintados das nossa elites: o cu.

E é desse NOVO OLHAR para o redondinho de cada um de nós que o advogado e insuperável na arte da boa escrita, Olímpio Rocha, escorado em Chico César nos oportuniza a maravilhosa crônica que a seguir eu tenho a alegria e me atrevo a transcrever:

PONDERANDO O ‘VAI TOMAR NO CU’

Ontem, no Festival de Inverno de Campina Grande, enquanto o público de Chico César gritava o já tradicional “Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu”, o cantor resolveu interromper o coro para fazer uma ponderação: talvez fosse preciso pensar em outro xingamento, afinal tomar no cu pode ser bom, pode ser prazeroso, pode até ser que o destinatário goste, e eu confesso que saí dessa observação menos interessado nas hipotéticas preferências sexuais de Jair Bolsonaro do que numa questão muito mais grave para o futuro da humanidade: afinal, o que ainda nos restará para xingar alguém?

Porque “vai se foder” também não parece resistir a uma análise mais rigorosa, já que foder, em circunstâncias adequadas e entre pessoas interessadas, costuma ser uma atividade bastante apreciada, e se entendermos o “se” literalmente poderemos chegar à masturbação, prática igualmente legítima, saudável e, segundo consta, bastante popular, de modo que em poucos segundos perdemos dois dos pilares fundamentais do palavrão nacional.

Poderíamos então recorrer ao velho “filho da puta”, mas aí surge outra dificuldade, porque se defendemos que mulheres devem ter autonomia sobre seus próprios corpos e que trabalhadoras sexuais merecem direitos e dignidade, por que exatamente ser filho de uma puta deveria representar uma desonra?

“Corno” também apresenta problemas, porque ser traído não é culpa de quem foi traído e, no mundo das relações abertas, talvez o suposto ofendido ainda responda que aquilo foi previamente combinado; “safado” tampouco funciona, porque há pessoas que gastam bastante tempo e dinheiro tentando ouvir exatamente isso em determinadas circunstâncias.

Nesse ritmo, não demorará muito para que, ao bater o dedo mindinho na quina da cama, em vez de soltar um palavrão, sejamos obrigados a respirar profundamente e declarar: “registro veementemente meu desconforto diante deste móvel e reconheço, contudo, que sua quina não deve ser estigmatizada”.

É claro que a linguagem carrega preconceitos, é claro que determinados xingamentos reproduzem racismo, misoginia e homofobia e devem ser repensados, mas talvez exista uma pequena diferença entre combater formas concretas de opressão e submeter cada palavrão popular a uma banca examinadora composta por linguistas, sociólogos, psicanalistas e um fiscal de coerência ideológica.

Porque quando uma torcida manda o juiz tomar no cu, ninguém está sugerindo que ele experimente uma prática sexual potencialmente prazerosa; quando alguém manda outro se foder no trânsito, não está desejando que o sujeito tenha uma tarde eroticamente satisfatória; e quando milhares de pessoas gritam “Bolsonaro, vai tomar no cu”, o sentido da frase é perfeitamente compreendido por todos, inclusive, imagino, pelo próprio Bolsonaro.

Palavrão não é programa de governo, tese de doutorado nem resolução congressual; palavrão é descarga emocional, é a língua encontrando uma saída de emergência para aquilo que “venho por meio desta manifestar minha indignação” jamais conseguiria expressar.

Então, com todo respeito a Chico César, artista que amo, talvez a esquerda não precise reinventar o palavrão, precise apenas lembrar que falar com o povo também exige aceitar que o povo às vezes fala feio.

E, se um dia conseguirmos construir uma sociedade tão avançada que “vai tomar no cu”, “vai se foder”, “filho da puta”, “corno”, “safado” e todos os demais palavrões tenham sido abolidos por absoluta inadequação político-semântica, espero sinceramente que Bolsonaro já esteja bem longe da vida pública.

Agora, numa coisa, Chico tem total razão: tomar no cu pode ser muito bom mesmo! Dizem.