Valberto José

Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.

O trauma silencioso de um pai

Publicado em 7 de agosto de 2026

Seria uma tarde de paz, alegria e felicidade, o encontro familiar reunindo três gerações — avoenga, paterna e filial —, num dia pesado daquele mês, em mais um ano dos anos de chumbo. Tocaios no nome, ambos se chamavam José, eles geraram um momento instantâneo de tensão, cujas consequências causaram inimizade pacífica e distanciamentos imediato. Sogro e genro não souberam honrar o santo que lhes inspirara o nome, diante da travessura inocente de José, neto e filho.

O menino acabara de aprontar uma das suas, certamente se amostrando diante da presença do avô, feito aquele animal quando vê gente, provocando a ira do pai, que não se conteve. De cinturão à mão, bem ao estilo da época, José partiu em direção ao filho, despertando no velho o sentimento de justiça do santo. Na defesa do neto, o clima esquentou entre sogro e genro, sem que este respeitasse a idade daquele. Por pouco não se agrediram fisicamente.

O conflito provocou o distanciamento definitivo e a inimizade contrita entre os dois. Talvez essa desavença tenha motivado José, o genro, a se mudar de cidade com a mulher e os sete filhos, alegando necessidades profissionais e fixando residência a cerca de 200 km de distância. Lá, permaneceram por quase uma década, sem que o velho se animasse a visitar os descendentes. Nem na volta em definitivo da família à terra natal aconteceu o desejado reencontro pacífico de sogro e agregado.

Sabe aquela opinião radical de sujeito opinioso, tão característica da época? Esse sentimento elevado afetava os dois e impedia que um se obstinasse a ir ao encontro do outro. Até mesmo na doença terminal do velho não houve o abraço fraterno que todos ansiavam. Com certeza, não havia ódio nem rancor entre eles, mas um distanciamento sem mágoa, uma pacificação silenciosa, imperceptível.

Os sete netos cresceram, casaram-se e o avô tomou o seu destino eterno sem que José, o genro, frequentasse a casa dos filhos — nem mesmo quando o time da quarta geração começou a se formar. Apenas uma vez, após incessantes apelos do rebento que herdara o seu nome, e sob a justificativa de que fizera uma reforma no imóvel, José abriu uma exceção e lhe fez uma rápida visita.

Na família, embora estranhasse essa esquisitice paterna, não se comentava nada. Até o dia em que José Neto, sempre incomodado com a situação, conversou com um tio, e este esclareceu a determinação do irmão de não ir à casa dos filhos.

— Isso é trauma, meu sobrinho. Desde aquela vez, quando você era criança e ele foi lhe bater, o seu avô interveio e eles brigaram… Seu pai se arrependeu. Surpreso, José nem se lembrava do que aprontara e do desentendimento entre o pai e o avô. Mas entendeu, enfim, o bloqueio paterno.