Marcos Marinho

Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

NEM 1 x 1

Publicado em 6 de julho de 2026

Dona Márcia caprichou na decoração da nossa cozinha/sala, vestiu a blusa verde-amarela bordada com pedras que me fez comprar lá no Zepa, e eu caprichei na fava que a panela de pressão de 20 litros cozinhou para a galera aguardar o passo a mais da canarinha no caminho do Hexa. Também preparei uns espetinhos para o genro botar no braseiro na hora do jogo: peito de frango com bacon, alcatra bovina, carne de sol de porco e corações de galinha…

É bem certo que faltou picanha, mas o bolso não dava para esse luxo, que troquei por dois litros do melhor malte escocês que tinha no carrinho das ofertas do Rede Compras aqui do Catolé. E os dois litros da Serra Preta que meu amigo Luciano “mamão” pegou na boca do alambique e mandou pra mim sexta feira completaram o cardápio etílico.

É óbvio que eu já estava preparado para o pior, pois em se tratando da Seleção Brasileira isso há anos já virou coisa normal. Mas, ainda com um tiquinho de nada de esperança, custei a crer que os vikings entrassem em campo também para remar…

E aí, deu mesmo no que deu!

Lembro que foi nessa mesma cozinha/sala lá bem longe no tempo, quando o espaço era ainda apenas área de lazer com sinuca, TV e vídeo cassete, que a emoção me fez vibrar nos dias da conquista do Tetra e do Penta. Minha filha Petra, que ontem ao lado das gêmeas que agora me dão múltiplas alegrias chorou junto comigo e toda a tropa familiar na hora em que os gigantes noruegueses nos trucidavam, naquela disputa pelo Tetra ainda estava na barriga da mãe e acho até que a vitória do time foi o que me incentivou na escolha do seu nome.

Mas, podem crer, essa bordoada que os chifrudos da Noruega ontem nos deram doeu mais do que os 7 x 1 que os alemães empurraram na gente aqui mesmo no Brasil, n‘outra triste Copa.

Quase escondido entre a briosa torcida que formamos junto aos filhos, genros, sobrinhos, netos e futuro bisneto, mais a sogra, cunhada, sobrinhos da madame e alguns amigos da vizinhança que igualmente acreditavam na vitória pátria, meu mundo agora de raras emoções se encheu das mesmas cores e alto pulsar no coração igualzinho lá atrás quando fomos Tetra e Penta.

Dos torcedores amigos daqueles idos quem mais fermentou a alegria foi o saudoso Shaolin, na época já polindo sua desabrochante verve humorística e nos levando a “cagar” de rir…

Com as graças de Deus, meu Joca (Joaquim) e o “time” de priminhos e priminhas haverão de viver a alegria do Hexa, daqui a quatro anos. Onde eu estiver, também ficarei feliz por eles.

Hoje, caminhando para enfrentar oito décadas de vida e onde já não consigo quase mais “cagar” de rir como outrora, alcancei no jogo de ontem uma espécie indizível de orgasmo ao fazer minha a estonteante, belíssima e inocente festa que Joaquim, meu neto número 12 (a soma atual é 16), nos deu nos ansiosos e elétricos momentos que antecederam à brutal queda da amarelinha aos pés dos criadores de bacalhau lá dos confins do mundo…

O amado e prá lá de emocionado molequinho, de apenas cinco anos de vida, pulava e gritava tanto na hora dos raros ataques da Seleção que parecia Galvão Bueno narrando os jogos daquele tempo que os atletas bilionários de agora teimam competentemente em não deixar voltar.

Já antevendo a derrota horrorosa, Joaquim saiu da sala e não chegou a ver o gol que tanto torceu e esperou para ver, do seu ídolo Neymar.

E aí foi a vez desse avô coruja, já piamente não crendo mais em qualquer virada, correr ao quintal para dizer a Joaquim que Neymar tinha feito um gol.

Ainda acreditando, acho eu, que Neymar salvaria a Pátria, a dura constatação de Joaquim olhando para a TV se deu ao contrário e me derrubou, com lágrimas escorrendo no rosto – meu e dele: “mas não tá 1 x 1”, desandou a chorar mais forte.

Entendi o que a inteligência dele quis dizer: que apesar do gol brasileiro, a festa tinha acabado!

Joaquim e meus outros 15 netos, mais os bisnetos que estão a caminho, Deus os abençoará para os gritos das vitórias que verão a partir do Hexa…

Quanto a mim, nessa altura do “campeonato” (A VIDA) já não convém ter a mesma esperança.