
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
Bodas de ouro laborais
Publicado em 17 de abril de 2026O cheiro insosso de fragmentos de osso cru, partidos por machada apropriada em cepo de madeira, quando o progresso das serras elétricas ainda não chegara à Campina Grande de outrora, continua impregnado nas minhas narinas, meio século depois. O aroma distante aviva a lembrança de meu primeiro dia de trabalho, naquele 12 de abril de 76, aos 17 anos, no açougue familiar, três meses depois de meu retorno à cidade, após cinco anos em terras sertanejas da Paraíba.
Morando provisoriamente na casa de uma tia, no bairro da Liberdade, enquanto toda prole não vinha, saía às 4h15 da madrugada, a pé, percorrendo partes das ruas Rio de Janeiro, Assis Chateaubriand e Almeida Barreto, além de margear o Açude Velho, para chegar ao José Pinheiro às 5h da matina. Ainda não existiam a loja do Hiper Bompreço, que veio a ser inaugurada em 77, e o moderno prédio da FIEPB, em cujo terreno uma pequena vereda me motivava a atravessar e encurtar o caminho até o Açougue Santa Terezinha.
O comércio seria a opção mais natural de trabalho nessa transição adolescente a adulto, embora o jornalismo impresso já estivesse nos meus planos. Desde pequeno vendia produtos comercializados por meu pai, e dois dos tios maternos já eram comerciantes firmados no ramo de carne, precisando de funcionários, sobretudo formar especialistas em corte e desossa, além do atendimento no balcão.
Assim como o aroma do ambiente ainda impregna as narinas, as marcas dos cortes acidentais da profissão persistem nas mãos e dedos. A maioria dos acidentes fora provocada pela manipulação da serra manual; de faca, mais raros, e apenas um me fez tomar pontos – cinco – na saliência que eu chamo de “a maçã da mão”, mas cientificamente é a eminência tenar.
As cenas desse acidente nunca esqueci; também as do atendimento médico. Ainda sinto o ranger do gume da faca dividindo a musculatura do polegar. Nos preparativos para ir ao hospital, pedi ao mano Patrício que tirasse a bermuda ensanguentada que eu vestia no momento. “Não vou tirar roupa de homem não”, reagiu.
Na aplicação anestésica, o enfermeiro injetou a primeira dose bem dentro do corte; na segunda, foi levantando a pele levemente com a ponta da agulha.
Conforme ela ia levantando, eu, que estava sentado, fui desabando para trás, caindo, desmaiado, na maca hospitalar.
Foram 43 anos de atividade no comércio de carne, dos quais 17 a serviço e 26 por conta própria. No regime inicial, consegui cumprir a responsabilidade de arrimo de uma família de 11 filhos, e pagar um curso superior; como “empresário” – abri a firma no nome da mulher – mantive um padrão classe média, com filhos em escola privada, plano de saúde e carro seminovo. Mudança no trânsito da rua atropelou essa padronização.
Não tenho muito do que me queixar. É certo que os muitos anos de excesso de trabalho e a informalidade laboral de uma década eliminaram o direito à aposentadoria por tempo de serviço. Acabei me aposentando por idade, e após a reforma previdenciária, perdendo direitos e vantagens. Costumo dizer, brincando, que, por ironia do destino, o ócio remunerado que me coube não dá nem um churrasco.
