Bar de Cunha: quando a madrugada de Campina Grande encontra sua verdadeira mesa
Publicado em 11 de abril de 2026Em toda cidade há lugares que funcionam como simples estabelecimentos comerciais. E há lugares que se transformam em referência, em ponto de encontro, em extensão viva da identidade coletiva. Em Campina Grande, o ‘Bar de Cunha – O Cangaceiro’, no terraço da Feira da Prata, já ultrapassou há muito tempo a condição de bar. Tornou-se um espaço simbólico da convivência, da gastronomia popular e da sociabilidade campinense.
O grande responsável por isso é o próprio Bartender Cunha, figura carismática, sempre alegre, sempre receptiva, sempre pronta para uma boa conversa. Caracterizado como um cangaceiro nordestino, ele não apenas administra um negócio: ele encarna um personagem que dialoga com a cultura regional, com a irreverência do povo nordestino e com a hospitalidade que faz de Campina uma cidade de encontros.
Ali, o freguês encontra cerveja gelada, destilados, cachaça e uma cozinha que honra a tradição popular com fartura e sabor. O cardápio é daqueles que não pede sofisticação inventada porque já possui autenticidade de sobra: mocotó, tripas, arrumadinho, carnes guisadas de várias espécies, codornas, aves assadas e uma sucessão de tira-gostos que fazem do local uma parada obrigatória para quem sabe reconhecer comida com identidade. O cuscuz de milho é um capítulo à parte. O arroz com caldo, outro. São pratos que não tentam parecer importantes: são importantes porque agradam de verdade.
Mas o Bar de Cunha não se resume ao que serve. Seu valor maior está no que proporciona. Há ali tempo para a conversa, para o reencontro, para a escuta, para a brincadeira e para aquela informalidade boa que anda cada vez mais rara. E talvez o traço mais curioso e mais revelador do seu prestígio esteja justamente no horário em que ganha nova vida.
Depois da meia-noite e já entrando pela madrugada, o Bar de Cunha passa a receber uma clientela ainda mais diversa e expressiva. Muitos chegam depois de restaurantes sofisticados, solenidades, festas, eventos sociais e compromissos formais. Outros saem de casa já com destino certo, apenas para descontrair, relaxar e aproveitar o ambiente. É como se, passada a vitrine da noite oficial, Campina Grande procurasse um lugar mais verdadeiro para encerrar — ou recomeçar — sua convivência. E esse lugar, para muitos, é o Bar de Cunha.
Não deixa de ser um fenômeno interessante. Pessoas que passaram por ambientes refinados, por casas elegantes, por encontros cerimoniosos, terminam escolhendo justamente um bar popular, vivo, espontâneo e profundamente nordestino para fechar a noite. Isso diz muito. Diz que o requinte, sozinho, não basta. Diz que a boa mesa precisa de alma. Diz que há lugares que impressionam por fora e lugares que acolhem por dentro. O Bar de Cunha pertence claramente ao segundo grupo.
E talvez seja por isso que suas mesas reúnam gente tão variada. Por ali passam juízes, promotores, desembargadores, médicos, professores, industriais, empresários, governadores, senadores, deputados, vereadores de todas as correntes partidárias, cantores famosos, atletas consagrados e, naturalmente, o povo anônimo, que é o povo real da cidade. Todos convivendo no mesmo espaço, sob o mesmo clima, diante da mesma comida, ouvindo a mesma música. Há algo de profundamente democrático nisso.
A trilha sonora completa o cenário. Vai da MPB ao forró, passa por canções românticas daquelas que mexem com lembranças antigas e sentimentos guardados. Não raro, alguém se anima a dançar. E esse detalhe é importante: onde ainda há espaço para música, dança e conversa sem pressa, ainda há espaço para humanidade.
Campina Grande tem bons restaurantes, casas sofisticadas e ambientes modernos. Isso é positivo. Mas poucos lugares conseguem reunir, com naturalidade, identidade cultural, gastronomia popular, mistura social, música, afeto e permanência simbólica como faz o Bar de Cunha. Ele não disputa apenas mercado. Disputa memória. E, nesse campo, já conquistou um lugar raro.
O ‘Bar de Cunha – O Cangaceiro’ se consolidou como um ponto cultural e gastronômico da cidade. Mais do que isso: virou uma espécie de território da autenticidade campinense. Um lugar onde o povo come bem, bebe bem, conversa bem e se reconhece.
Em tempos em que tantos espaços são montados para parecer alguma coisa, o Bar de Cunha se destaca justamente porque é alguma coisa. Tem personalidade, tem alma, tem calor humano. E isso, no fim das contas, é o que faz um endereço deixar de ser apenas um ponto da cidade para se tornar parte dela.
Fonte: Da Redação (Por Emir Candeia Gurjão)
