
Emir Gurjão
Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.
A Guarda Municipal de Campina Grande e o resgate do piloto Americano no Iran- segundo Toinho
Publicado em 7 de abril de 2026Numa das noites mais frias e improváveis do São João, quando a neblina descia sobre uma serra rochosa no Irã, em meio à guerra, como se fosse fumaça de fogueira espalhada pelo vento, surgiu uma missão que ninguém em Campina Grande esqueceria.
Diziam que havia um homem escondido num ponto quase inacessível da montanha, depois que o avião em que ele viajava fora abatido durante o conflito. Ninguém sabia ao certo como ele tinha ido parar ali, a mais de 7.000 pés de altura. Uns diziam que era perseguição. Outros, medo. Outros ainda juravam que era destino. O certo era só um: ele estava sozinho, no escuro, cercado de pedra, vento e silêncio. E seu único sinal vinha de um pequeno aparelho que tocava um forró antigo, como se a sanfona tivesse virado farol de esperança.
Foi então que entrou em ação a equipe mais improvável já vista em operação internacional: a Guarda Municipal de Campina Grande.
Depois de viajarem 10.230,97 quilômetros em um avião cargueiro Hercules com velocidade 12 MACH, 10 homens e três helicópteros , surgiram na montanha vestidos com roupa de quadrilha junina, chapéu de couro, corda no ombro e a valentia de quem já enfrentou muita ladeira, muito aperreio e muita improvisação na vida. Subiram a serra com alma de resgate e coração de festa.
Lá no alto, dois helicópteros da Guarda Municipal cortavam a escuridão. As luzes, em formato de balões juninos, piscavam na névoa como se até o céu tivesse entrado no clima do São João. Um deles avançou primeiro, desviando a atenção dos perseguidores com barulho de festa: traques, rojões e clarões explodindo longe da área principal. Era como num arraial quando a zabumba puxa o povo para um lado, enquanto o segredo acontece do outro.
Os outros seguiram atentos, guiados não por radar, satélite ou tecnologia de ponta, mas por uma coisa muito mais poderosa no imaginário nordestino: o eco de um forró antigo tocando entre as pedras.
Quando localizaram a origem da música, veio a cena mais inacreditável de todas.
Do helicóptero principal, dois guardas desceram por uma estrutura lisa, brilhando no escuro como um pau de sebo de festa de interior, só que reforçado por cordas e equipamento de segurança. Um levava a maca. O outro, o material de imobilização. Um terceiro permaneceu na aeronave, controlando a tensão das cordas e coordenando tudo no meio do vento e da neblina.
Quando chegaram ao homem escondido, viram que ele estava cansado, assustado, mas vivo. Falaram em “ingrês” com calma. Prenderam-no com cuidado na maca. Fizeram o sinal combinado. Lá em cima, o terceiro guarda iniciou a subida. A corda esticou, o vento bateu, a neblina fechou e, por alguns segundos, tudo pareceu suspenso entre a vida e a lenda. Mas a equipe funcionou como relógio de igreja em dia de novena: cada um no seu papel, sem erro e sem hesitação.
Dentro do helicóptero, como lembrança de que aquilo ainda era Campina Grande até no alto das montanhas do mundo, havia pamonha, canjica e um cheiro de comida de festa que parecia desafiar a própria guerra.
Com a missão concluída, o helicóptero da distração se afastou, levando consigo o barulho e os olhos dos perseguidores. E com o caminho livre, os demais levantaram voo rumo ao Hercules que os levaria ao aeroporto João Suassuna e dali de helicóptero para coração do forró: o Parque do Povo.
A chegada foi triunfal.
Os helicópteros pousaram perto do grande palco no instante em que Capilé e Wesley Safadão agitava a multidão Cantando uma musica de Biliu de Campina . O homem resgatado, ainda atordoado, mas agora vestido com roupa junina, mal teve tempo de entender o milagre que vivera. Foi recebido com aplausos, sanfona, luzes, bandeirolas e um convite inesperado: entrar na quadrilha das Virgens da Seca.
Ali, no meio do arrasta-pé, da poeira alegre e da animação de Campina, o homem que havia escapado da montanha encontrou também uma moça. Conversaram, sorriram, dançaram e, como toda boa história popular gosta de exagerar o improvável, amanheceram já prometidos um ao outro.
Mas o espanto ainda não tinha terminado.
Porque, segundo Toinho da Volta, o homem das apostas e das histórias que ninguém sabe onde acabam a verdade e começa o aumento, havia mais por trás daquela noite.
Toinho jurava, com a mão no peito e o olho brilhando, que estava em Boa Vista quando viu o avião de Trump parar no ar. Disse que o piloto abriu uma portinhola e perguntou em “Ingrês”, lá de cima mesmo, qual era a direção do aeroporto de Campina Grande. Sem perder tempo, Toinho subiu num lajedo, ficou em posição de baliza, levantou os dois braços com as mãos espalmadas e apontou o rumo certo, como se estivesse guiando não um avião, mas o próprio destino.
Trump, agradecido, ainda pediu um favor urgente: que Toinho fosse até a bodega de Manoel Pixe em Boa Vista buscar um pedaço de queijo e um doce de banana. E Toinho, ligeiro como notícia ruim e fiel como amigo antigo, montou no jumento e atendeu ao pedido sem nem perguntar duas vezes e ainda trouxe Agua de Cacimba e que segundo ele Trump achou saborosa .
No dia seguinte, no casamento comunitário, apareceu Donald Trump como padrinho da união do homem salvo com a namorada que ele arranjara na festa. Ninguém entendeu direito como ele chegou, mas todos acharam melhor não estragar a história com excesso de lógica.
E quando Trump já se preparava para voltar aos Estados Unidos, fez um convite pessoal a Toinho: queria recebê-lo para um almoço no salão nobre da Casa Branca.
Toinho aceitou na hora, mas, como homem acostumado a negociar, impôs suas condições.
Disse que só iria se pudesse levar a turma do Café Aurora e que o voo tinha de sair do aeroporto de Campina Grande. Exigiu também que Trump arranjasse um jogo do Treze contra o time de Lionel Messi. E pediu ainda que, antes de qualquer solenidade internacional, Trump fosse prestigiar a bodega de Ventura, no Parque do Povo.
Segundo Toinho, Trump aceitou tudo prontamente.
E foi assim que a história terminou do jeito que só Campina Grande saberia terminar: com guerra virando cordel, resgate virando festa, festa virando casamento e uma conversa de lajedo atravessando o mundo inteiro até chegar à Casa Branca.
E até hoje, quando alguém duvida, Toinho encerra a narrativa com a mesma frase, firme e convicto:
“Em Campina Grande, até tragédia estrangeira, quando passa por aqui, termina em forró, casamento e bodeguinha.”