Marcos Marinho

Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

A dama orfã que a Paraíba começa a aplaudir

Publicado em 4 de abril de 2026

As flores, os abraços e apertos de mãos, os beijos – falsos ou sinceros – foram todos ontem para Lucas Ribeiro, empossado aos 36 anos de idade como o mais novo governador do Estado da Paraíba.

O neto de Enivaldo, pelo que dele conhecemos, não vai decepcionar.

Mas, não é desse ilustre rebento da minha amiga Dani (Daniella) que eu quero falar.

Falo agora, chamando a atenção para todos os conterrâneos, da nossa Primeira Dama, esse tiquinho (no bom sentido, óbvio) de mulher que vai ajudar o marido a continuar sendo o homem público que aprendeu a ser: sem falsidade, sem discurso fantasioso carregado de palavreado difícil, humano, sincero, verdadeiro!!!

A bela sobrinha do meu caríssimo advogado amigo José Fernandes Mariz carrega consigo uma história de vida que muita gente desconhece e que ela nunca expôs, por ser triste, dolorosa e muito cruel.

Vinte e dois dias atrás, ainda antes de subir abraçado ao seu amor as escadas do antigo Palácio da Redenção, hoje transformado em Museu de História, entronizando-se Primeira Dama, Camila Mariz Ribeiro foi laureada pelo Poder Legislativo paraibano com a maior honraria da Casa, oportuna propositura do também meu particular amigo Eduardo Carneiro, numa solenidade explosiva em brilho, aplausos e uma emoção sem limites.

Mariz foi um dos familiares a discursar, ele igualmente com o coração na palma da mão e as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Confesso que pouco ou quase nada eu conhecia da vida tão amargurada de Camila, orfã de mãe aos 10 anos de idade.

A oração de Mariz em homenagem à querida sobrinha foi de fato uma ORAÇÃO, dessas que se eternizará para sempre no seio familiar e, a partir de agora, em todos os paraibanos que começam a conviver e mais de perto admirar a pequenininha Primeira Dama do nosso glorioso torrão.

O tio amado de Camila começou por lembrar que “o tempo que muitas vezes é implacável com as dores, tem o poder sublime de eternizar os grandes amores”. E, dizendo-se inspirado na sabedoria de Guimarães Rosa, lembrou que o que a vida nos exige, acima de tudo, é coragem, como aquela que o fez chegar ao 12 de março de 2026, sob o teto da Casa de Epitácio Pessoa.

– “Falo a vocês transbordando a emoção de um tio, mas também com a firmeza de um irmão que precisou segurar com as próprias mãos as rédeas de uma árdua instrução criminal, garantindo que a nossa tragédia não tivesse a impunidade como capítulo final. Para que todos compreendam a luz e o peso desta Comenda que agora repousa no peito de Camila, precisamos retornar àquele fatídico dia 26 de fevereiro”, começou Mariz a historiar o drama que enlutou Camila e todos os familiares.

Naquela manhã, recordou Mariz que o sol despontara como em qualquer outro dia. “Às seis horas, minha irmã Sílvia Fernandes Mariz já estava de pé. Com a dedicação que lhe era peculiar, ela despertou sua única filha, Camila. Preparou o afetuoso café da manhã e repassou os apontamentos escolares. Era a rotina sagrada e silenciosa do amor materno”, contou.

E continuou: “Ao saírem, logo no portão da casa de nossa mãe a sombra da posse e do machismo cruzou o caminho de ambas. O homem a quem Sílvia um dia dedicou amor surgiu subitamente, exigindo, com uma urgência irascível, o ‘documento’ de um veículo. Faltavam menos de dez minutos para o início da aula. Como qualquer mãe faria, Sílvia pediu apenas o tempo de deixar a filha no colégio, prometendo voltar logo para procurar o papel. A resposta que recebeu foi a rispidez de um tirano incapaz de aceitar ‘nãos’. Graças à generosidade de uma vizinha, que se prontificou a levar a menina, a cena teve aquele desfecho inicial. Camila seguiu para a escola e, num instante em que o tempo pareceu congelar, olhou para trás. Foi a última vez que seus olhos encontraram viva aquela que lhe deu a vida, o carinho e o amor”, recordou o tio da Primeira Dama.

A história conta que a genitora de Camila entrou em casa para buscar o documento, sendo acompanhada pelo seu algoz. Escondendo a covardia de uma arma em suas vestes, ele fechou a porta do quarto ao entrarem. E para abafar o horror iminente, ligou o som em alto volume.

Então, esperou que a irmã de Mariz, tia de Camila, lhe desse as costas, transformando um gesto de confiança no preço de sua vida. Aplicou-lhe uma ‘gravata’ e, dominado pela fúria dos covardes, desferiu dez facadas pelas costas.

Emocionado na tribuna da Assembleia Legsilativa, Mariz lembrou que “as paredes daquele quarto ainda guardam, na memória da nossa dor, as marcas de sangue das mãos de Sílvia em sua ânsia desesperada para se livrar das garras do assassino. Ela queria viver, ela precisava viver para Camila, mas a crueldade foi maior do que a esperança”, disse ele

A história não parou por aqui. “A via crucis que percorremos em busca de justiça foi longa, exigindo o enfrentamento de manobras absurdas, como o pedido de incidente de insanidade mental planejado para ocorrer especificamente em uma clínica psiquiátrica. Nós não recuamos um passo sequer; lutamos contra as sombras e contra as influências, até que a condenação veio. Aquele homem não praticou “somente” um feminicídio ou matou apenas uma mulher. Ele amputou esperanças, ceifou sonhos e assassinou o convívio, mas, onde o ódio tentou plantar a morte, o amor foi forçado a fazer brotar a vida. E essa vida abundante é você, Camila”, chorou o tio quase pai.

Camila foi criada pela matriarca dos Mariz, Dona Francisca Fernandes Mariz, que esteve presente à solenidade da ALPB.

E foi Mariz de novo em sua especial oração que fez todo o auditório chorar naquele 12 de março de 2026: “É exatamente aqui que a poesia da vida ousa desafiar a tragédia. No mundo nebuloso do Alzheimer, onde tantas lembranças se apagam, o coração de 92 anos da nossa matriarca encontrou memória e fôlego intactos para amar intensamente essa neta. Dona Tiquinha perdeu uma filha de forma brutal, mas ganhou outra, fazendo de Camila o combustível puro para a sua longevidade. Mamãe, ao ver a sua neta hoje recebendo a maior comenda deste Poder Legislativo como uma personagem marcante da história da Paraíba, eu sei que a brisa do tempo bate leve em seu rosto. Essa brisa vem para consolar a sua alma e lhe sussurrar que a sua missão se cumpriu” , chorou ele mais ainda.

Camila Mariz Ribeiro carrega consigo a luz da memória de Sílvia Fernandes Mariz (Silvinha), e não apenas a saudade.

E volto a recorrer ao discurso de Mariz, endossando suas palavras eloquentes e emocionadas quando ele conclui seu libelo trazendo à ribalta o poeta Mário Quintana quando alertou que “o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.

O passado de dor de Camila e de toda família Mariz esteve presente naquela solenidade e continuará presente no dia-a-dia e nos afazeres da nossa Primeira Dama, sim, mas não mais como uma âncora, e sim como uma bússola, como Mariz anunciou.

A Camila, seu honrado tio pediu que ela recebesse a Comenda não apenas como uma honraria, mas como a prova incontestável de que o amor de sua mãe não sangrou em vão. “Ele pulsa forte em você e continuará a salvar vidas através de você”.

Que Camila e seus lindos filhos, ao lado de Lucas, que passam a carregar nos ombros o futuro grandioso do nosso Estado, meus mais escolhidos votos de vida longa e sabedoria.