Valberto José

Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.

Aguiar acerta no Bingo

Publicado em 14 de março de 2026

A decisão unilateral de meu pai de se mudar com a família para o Sertão da Paraíba, em 1970, não foi um lance de sorte desses que no bingo da vida queremos ou somos forçados a dar. Não conseguiu a melhora de vida que sonhara e causou forte impacto à prole de oito filhos – eu, o mais velho, à época com 12 anos. Conhecer quase toda a região parece ter sido o único benefício proporcionado, exclusividade imposta aos três mais crescidos.

Naquele tempo, papai viajava por todo o solo sertanejo paraibano, e até por algumas cidades do Ceará e Rio Grande do Norte, vendendo produtos nas mercearias locais. Na condição de número 1 do time que se formaria em Patos, logo fui escalado para vender em lugares que sequer conhecia; aos mais distantes, acompanhava-o, em aprendizado nada lúdico para substituí-lo quando ele não pudesse ir, nos fins de semana e nas férias escolares.

Uma das muitas viagens que fiz com o meu velho foi a Aguiar, a partir de Sousa, constituindo-se a única vez que estive lá. Tinha 13 ou 14 anos, e a mudança de rota me surpreendeu, pois o itinerário traçado contemplava Marizópolis, então distrito, e Antenor Navarro, hoje São João do Rio do Peixe. Foi desse “passeio” que me lembrei quando soube que um radiotelescópio seria instalado no município.

Não recordo exatamente em quais cidades passamos, acessando a estrada pelo balde do Açude São Gonçalo, mas fragmentos de memórias creditam que trabalhamos nas praças de Nazarezinho, São José de Lagoa Tapada e Boqueirão dos Coxos (Igaracy), antes de chegar a Aguiar. Mal-acostumado com o conforto do asfalto até Sousa, estranhei o chão batido que teríamos pela frente.

Dois acontecimentos nessa viagem estão nítidos na minha memória mais de 50 anos depois. Não recordo em que carro viajávamos ou de qual dessas cidades saímos. Após um avanço de quilômetros na estrada empoeirada daquele sertão despovoado, avistamos um Aero Willys (veículo fabricado no Brasil entre 1960 e 1971) parado no lado direito com as quatro portas abertas. “Esse aí está de asas abertas”, gracejou o motorista do carro que nos conduzia.

Na cidade de Aguiar, papai negociava os seus produtos numa bodega de frente à praça quando de repente, bem de longe, começamos a ouvir o refrão “Jesus Cristo! Jesus Cristo! /Jesus Cristo, eu estou aqui”, cantado em coro por várias vozes.

A entoação coletiva ia ficando mais alta, mais tocante aos nossos ouvidos, conforme se aproximava, até interromper o atendimento. A procissão, predominantemente feminina, ressoando a música Jesus Cristo, sucesso de Roberto Carlos em 1971, impressionou o adolescente que eu era.

O bingo da vida me proporcionou conhecer a cidade engatinhando na sua história; cinco décadas depois, entra na história mundial ao ganhar no Bingo da Ciência. Viva a cidade A(guiar) a pesquisa científica.