Emir Gurjão

Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.

Taxar o medico e Premiar quem espalha a doença – O caso da reciclagem

Publicado em 28 de janeiro de 2026

– O caso da reciclagem Mais imposto, mais sujeira: como o Brasil está punindo quem recicla

No Brasil quanto mais correto ambientalmente você age, mais imposto você paga.

O imposto efetivo sobre a reciclagem salta de cerca de 6,5% para mais de 26,5%. A conta simples. Com a incidência de IBS + CBS na casa dos 25%, o reciclador passa a carregar um peso fiscal típico de quem produz valor novo, quando na verdade ele corrige um erro do sistema de consumo.

A lógica invertida

A reciclagem funciona como um médico tratando uma doença que a própria sociedade criou: o resíduo. Mas, no Brasil atual, o médico é taxado e o agente da doença recebe incentivo.

Quem compra matéria-prima virgem ou importada gera crédito fiscal. Quem compra matéria-prima reciclada, não.
Resultado prático:

Importar plástico e matéria prima Principalmente da China vira vantagem fiscal;

Comprar reciclado nacional vira prejuízo contábil.

Na prática, o sistema diz ao empresário:

“Seja ambientalmente correto e perca margem. Seja ambientalmente indiferente e ganhe crédito.”

É óbvio o que o mercado fará.

Quem perde com isso:

Fechamento de pequenas recicladoras, que operam com margens mínimas;

Cooperativas inviabilizadas, sobrevivendo apenas de convênios temporários;

Retorno da informalidade, sem nota, sem controle e sem dignidade;

Mais resíduos em aterros, aumentando custo público e impacto ambiental.

Ou seja: mais imposto não gera mais sustentabilidade — gera mais sujeira.

O erro de visão do Estado

O Estado trata a reciclagem como um “negócio comum”, quando ela é, na verdade, um serviço ambiental prestado à sociedade. Cada tonelada reciclada:

reduz custo de aterro,

reduz emissão,

reduz gasto público futuro,

reduz importação,

gera trabalho local.

Tributar isso como se fosse luxo é um erro conceitual grave.

O que seria justo (e racional)

A lógica correta deveria ser o oposto:

Imposto zero para recicladores;

Crédito fiscal para quem compra reciclado;

Imposto negativo ou remuneração ambiental por tonelada reciclada.

Reciclagem não deveria “pagar imposto”.
Reciclagem deveria receber por corrigir externalidades que o próprio Estado não consegue resolver sozinho.

Um apelo necessário

Se essa distorção não for corrigida, o governo federal estará punindo quem recicla e protegendo quem não recicla. O resultado será previsível: menos recicladores, mais aterros e mais custo para o próprio Estado.

Ainda há tempo de corrigir.
Mas é preciso entender que política fiscal mal desenhada destrói política ambiental, e não há discurso verde que sobreviva à matemática tributária.

O Brasil não precisa de mais imposto.
Precisa de lógica, coerência e respeito a quem faz a coisa certa.

Essa política não é erro técnico isolado — é falta de compreensão do papel econômico da reciclagem e ganancia por mais impostos. Quem governa precisa decidir: quer discurso ambiental ou resultado ambiental? Os dois juntos, desse jeito, não coexistem.

Escrito por Emir Candeia Gurjão