
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
As profundas reflexões de um ex-cliente
Publicado em 28 de janeiro de 2026Guardo muitas lembranças de minha longa temporada comercial, mas não alimento saudades; a clientela, sim, me nutre de saudades. Como é bom reencontrar os ex-clientes! Sempre que reencontro um deles, sinto aquela alegria jubilante, sentindo-a recíproca na espontaneidade do sorriso aberto e da vibração com que me acolhem, na casualidade do momento inesperado. Eles sempre me surpreendem.
No mês que marca a data que cerrei as portas comerciais, gosto de recordar, aqui, clientes que por muito tempo nos prestigiaram, principalmente aqueles que me surpreendem com uma atividade ou uma qualidade que eu desconhecia, após desfeita a parceria. No sétimo ano sem a rotina de trabalho no açougue, evoco Jaildo, cliente que nos fidelizou suas compras por mais de uma ou duas décadas e que só deixou de nos prestigiar com o fechamento da loja.
Foram dois encontros casuais nesses anos, na loja Mil Grãos, embora moremos em bairros adjacentes. No último, em maio do ano passado, comutamos os contatos, iniciando a troca de mensagens via Whatsapp. Eu, enviando-lhe, às primeiras horas da manhã, um versículo da Liturgia do Dia e desejando-lhe um dia de bênçãos; ele, retribuindo minhas felicitações, com sua reflexão de rara profundidade.
Logo percebi uma pessoa admiravelmente culta, que leu muito e que continua incansável na leitura. “Tenho o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo”, confessou em mensagem, confirmando que, naquele momento, estava “com um tijolo à sua frente, com mais de 900 páginas, porém muito leve”. É o livro “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a ingressar na Academia Brasileira de Letras.
Essa fome por leitura de Jaildo só conheci agora, nas nossas conversas online, pois o horário (manhãs de sábado) que fazia suas compras era de pique, restringindo o tempo de conversas ao contato comercial. Então, pelo Whatsapp, fiquei sabendo que queria ser jornalista. Até iniciou no Curso de Comunicação Social da antiga URNE, chegando até a dialogar com editor de jornal para entrar no batente da redação. Ao saber quanto ganharia de salário, desistiu do ofício e transferiu a matrícula para o curso de Direito.
Recapitularei neste espaço versículos enviados e as reflexões do amigo: “Coragem, filha! A tua fé te salvou” (Mateus 9,18-26). – A fé é uma transformação interior; fé e ação causam mudanças na vida das pessoas, refletiu.
“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm até vós vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes” (Mateus 7,15- 20). – Os falsos profetas se encontram em todos os espaços da vida pública; sejam religiosos ou leigos, sempre anunciam mentiras, agora com o agravante da sofisticação tecnológica.
“Não julgueis e não sereis julgados, pois vós sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes” (Mateus 7,1-5). – Eis a justiça divina, a proporcionalidade como uma regra do seu amor universal. “Sede perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mateus 5,43-48). – Poderemos buscar a perfeição relativa; a imitação da ética cristã”.
“Quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha” (Mateus 7,21-29).
– Se Cristo diz conheço-me, conhecereis ao Pai, significa sua comunicação direta com Deus; ou seja, suas palavras representam vida; e uma existência bem construída tem a potência de uma Rocha.
“Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros” (João 13,34). – Eis o projeto do Reino de Deus anunciado por Cristo: que sejamos respeitosos reciprocamente, e que, fortalecidos pela fé, um dia nos abraçaremos como irmãos.
“No mundo, tereis tribulações. Mas, tende coragem! Eu venci o mundo!”, disse Jesus. (João 16,33). – Viver na paz divina é viver em guerra com o mundo. “Todo aquele que se encoleriza com seu irmão, será́ réu em juízo” (Mateus 5,20-26). – Devemos nos desvencilhar dos sentimentos que nos desumanizam, já que a razão nos é inerente e pensar sobre o bem é um imperativo divino e ético.
“Então, levantando-se, ameaçou os ventos e o mar, e fez-se uma grande calmaria” (Mateus 8,23-27). – Toda essa tempestade está na vida mundana; mas quando nos voltamos para vida interior as tormentas se encerram, e o “coração” se acalma.
“Eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus” (João 11,19-27). – O Reino de Deus é a ética civilizatória. A metáfora da semente da mostarda revela que nossos corações devem estar abertos para solidariedade.
Sensibilizado com as profundadas reflexões do Jaildo, remeti-lhe minha gratidão pelo contato iniciado. “Estabelecer este contato com o amigo foi o que melhor me aconteceu este ano. É muito prazeroso ler tuas inspiradas, serenas e enlevantes reflexões. Grato!”. – Suas colocações nos remetem a refletir sobre a atualidade bíblica, o que nos impõem a pensá-la nos dias presentes, reagiu.
Lamento que neste janeiro que está findando, Jaildo deu uma pausa nas suas mensagens reflexivas. Mas compreendo, pois, como todo bom campinense, deve estar aproveitando o verão no litoral paraibano.
