Emir Gurjão

Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.

O “apocalipse” perdeu força — e isso ajuda a explicar a maré à direita no Ocidente (e o risco para a esquerda no Brasil em 2026)

Publicado em 12 de dezembro de 2025

Por anos, parte do establishment político apostou num roteiro simples: “a direita é uma ameaça existencial; vote em nós para salvar a democracia”. O problema é que, quando esse discurso vira repetição automática, ele soa menos como alerta e mais como desculpa. E eleitor, como consumidor, troca de loja quando a promessa não entrega: não adianta o gerente gritar que o concorrente é “perigoso” se a prateleira está vazia e o preço subiu.

1) O caso americano:

A eleição presidencial de 2024 nos EUA é um exemplo didático. Donald Trump voltou ao poder derrotando Kamala Harris, com 49,81% do voto popular (contra 48,34%), além de 312 votos no colégio eleitoral

E sim: isso foi mais do que o percentual de Trump em 2016 (46,2%).
The American Presidency Project

Se o eleitor estivesse “comprando” majoritariamente o enquadramento apocalíptico, esse desfecho seria bem menos provável.

2) Europa: a direita cresce, e o alarmismo parece combustível, não freio

Reform UK: análises recentes apontam o partido já liderando pesquisas e com espaço para crescer.

E o próprio primeiro-ministro Keir Starmer reconheceu publicamente que, se o campo “progressista/centrista” falhar, o país pode “mover-se à direita” de um modo que “desafiaria a essência” do que o Reino Unido é governado hoje.

Alemanha: a AfD chegou a liderar uma pesquisa nacional (Ipsos) em 2025, um marco simbólico do desgaste dos partidos tradicionais.

França: “antes pária”, o Reagrupamento Nacional passou a ser descrito como o partido mais popular; e uma pesquisa (Odoxa) projetou Jordan Bardella vencendo a presidencial de 2027 em simulações.

A mensagem é clara: chamar o adversário de “fim do mundo” pode funcionar uma vez; quando vira muleta, perde credibilidade.

3) Por que o “discurso apocalíptico” falha tanto?
Porque ele tenta substituir entrega por narrativa.

No cotidiano, é como um síndico que explica a infiltração do prédio dizendo “o problema é o discurso do morador do 402”. O morador quer o teto consertado. Em política, esse “teto” costuma ser:

custo de vida, emprego e renda;
segurança pública;
imigração/identidade (na Europa);
eficiência do Estado e serviços públicos.

Quando o eleitor percebe que o governo (ou o bloco político) não resolveu o básico, o alerta “você precisa de mim para impedir o caos” soa autoprotetor.

4) O fator China como espelho incômodo: “resultados” viram moeda política. A ascensão tecnológica chinesa incomoda porque muda o debate de “valores” para “capacidade de executar”. Sem idealizar regime nenhum, os números em cadeias industriais são um choque de realidade;

Isso reforça um clima político: “menos discurso, mais entrega” — e a direita tem surfado esse sentimento.

5) Brasil 2026: a esquerda tende a perder terreno.

No Brasil, a esquerda também tenta colar o rótulo “apocalipse” na direita. Só que há um detalhe estratégico: medo não sustenta voto sozinho quando o eleitor está frustrado com o dia a dia. o que indica que a esquerda está desmoronando, quando age desta forma.

A direita” tem base em dois fatos políticos concretos:

a direita tende a crescer quando o voto vira “punição por desempenho” (custo de vida, segurança, percepção de desorganização e falta de perspectiva no desenvolvimento do país);

há movimento de reorganização: Flávio Bolsonaro confirmou candidatura e recebeu apoio público de Tarcísio, consolidando um polo competitivo.

6) Onde a eleição pode virar

Se a disputa entrar em modo plebiscitário (“continua ou muda?”), a direita ganha quando consegue parecer:

mais simples e direta (menos justificativa, mais plano);

mais realista (foco em inflação, emprego, segurança e contas públicas);

menos dependente de rótulos (“fascista/comunista”) e mais centrada em resultados.

A esquerda perde quando insiste no “apocalipse” como substituto de performance., e quando trata o eleitor como alguém que precisa ser “educado”, não atendido.

O que está desmoronando primeiro não é necessariamente a esquerda “como bloco”, e sim o poder do seu discurso de medo como cola eleitoral. Nos EUA e na Europa, isso já ficou visível em resultados e em pesquisas. No Brasil, a janela para uma virada da direita existe — principalmente se o governo não conseguir transformar narrativa em entrega até 2026 Escrito por Emir Candeia Gurjão, as 06:20 horas do dia 12 de Dezembro de 2025.