Emir Gurjão

Pós graduado em Engenharia Nuclear; ex-professor da Universidade Federal de Campina Grande; Secretário de Ciências, Tecnologia e inovação de Campina Grande; ex-secretário adjunto da Representação do Governo da Paraíba, em Campina Grande; ex-conselheiro de Educação do Estado da Paraíba.

VOTAR EM UM PROJETO OU NUMA RENOVAÇÃO FAMILIAR

Publicado em 16 de novembro de 2025

Quando olhamos para o cenário político atual, vemos a mesma cena se repetir: mandatos concentrados em poucas famílias. Deputado federal irmão de senadora, que é mãe do vice-governador. Prefeito pai de deputado federal. Deputado estadual irmão de deputado federal. Tudo girando em torno do governador e da máquina estadual e federal.

Não é coincidência, é modelo de poder.

Como funciona a política de família

Famílias que acumulam cargos costumam agir em três frentes:

Usam o poder para se manter no poder
Controlam secretarias, diretorias, convênios, emendas, contratos e nomeações. Esses espaços viram moeda de troca: apoio em troca de empregos, obras e favores.

Transformam o Estado em trampolim eleitoral particular
Visitas oficiais viram palanque, inaugurações viram comício permanente. Recursos públicos são apresentados como “presente” daquela família, e não como direito pago pelo contribuinte.

Fecham a porta para quem está de fora
Quem comanda o governo concentra tempo de TV e rádio, cargos em Brasília e no Estado, além de uma rede de prefeitos, vereadores e cabos eleitorais dependentes dessa estrutura. A oposição entra na disputa com muito menos recursos.

Qual é o problema?

O problema começa quando o Estado passa a servir ao projeto de famílias, e não ao interesse público.
Quando a mesma rede familiar controla:

Governo do Estado

Bancada federal e estadual

Diretórios partidários com muito dinheiro público

a República corre o risco de virar um condomínio familiar de luxo.

As consequências são claras:

Baixa renovação de ideias
Com os espaços de poder ocupados, novas lideranças desistem ou se submetem. Em vez de discutir projetos, discute-se apenas quem será “o da vez” da mesma turma.

Confusão entre público e privado
O cidadão ouve: “Fulano trouxe a obra”, como se fosse dinheiro do bolso dele. Não é. É dinheiro do contribuinte, muitas vezes de quem nem votou naquele grupo.

Eleições com campo inclinado
A eleição existe, mas o jogo é desequilibrado. A máquina estatal funciona como um muro alto para proteger quem já está no poder.

Voto livre, disputa desigual

O voto é livre, mas a disputa nem sempre é justa.
O eleitor é bombardeado por propaganda oficial, obras concentradas em ano eleitoral e presença constante de quem ocupa a máquina. Quem está no governo fala com o povo todos os dias; quem está fora, quando consegue.

Por isso, é preciso lembrar um princípio simples:

O Estado não tem dono. Não é herança de família.

O que o eleitor deve observar

Antes de votar, vale perguntar:

Este cargo dá continuidade a um projeto para o Estado ou é apenas mais um degrau da mesma família?

Esse candidato trata obra pública como dever ou como “favor pessoal”?

Também é papel do eleitor:

Separar serviço público de favor
Escola, estrada, hospital, programa social: tudo é pago com imposto. Governante não faz caridade; cumpre obrigação.

Exigir debate de propostas, não de arranjos familiares
Em vez de aceitar combinações entre governantes, prefeitos, deputados e senadores ligados por laços de sangue, o eleitor pode cobrar:

planos claros para saúde, educação, segurança e desenvolvimento econômico em todo o Estado;

metas e prazos;

transparência em gastos e nomeações.

O único poder que não pode ser totalmente controlado por nenhuma família é o voto consciente.

Famílias podem participar. Dominar, não.

Parentes na política podem existir; o que não pode é a sociedade aceitar como “normal” que um pequeno grupo transforme o Estado em aparelho permanente de sua própria sobrevivência.

Isso não é estabilidade. É concentração de poder.
E concentração de poder, em qualquer área, é perigosa. O eleitor às vezes demora a perceber porque o “produto” não é arroz nem feijão: é o futuro do Estado.

Conclusão

Os eleitores não são obrigados a aceitar que o governo seja um negócio de família. Sempre que um grupo usa o cargo público para montar a própria máquina eleitoral, mostra que confia mais na força da estrutura do que na força das ideias.

A resposta precisa vir de quem está acima de qualquer família, grupo ou partido: o povo.

Na próxima eleição, ao olhar para as fotos de campanha, vale fazer uma simples pergunta:

Estou votando em um projeto para o meu Estado ou apenas renovando o contrato de uma família no poder? Escrito por Emir Candeia Gurjão, as 06:42 do dia 16 de Novembro de 2025