Marcos Marinho

Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

Um convento para a SUDENE

Publicado em 9 de outubro de 2025

Eu não convivi, mas conheci Seu Cabral, o famoso “Pé de Chumbo”, como assim carinhosamente seus eleitores o identificavam.

Era um homenzarrão de cara sempre fechada, mas por incrível que pudesse parecer, pelo menos a mim nunca meteu medo, pois exalava simplicidade (bondade mesmo) por todos os poros – sua grande e definitiva marca – e isso, sem nenhuma dúvida, o fazia querido das massas.

Seu Cabral (Severino Bezerra Cabral) foi prefeito de Campina Grande de 30.11.59 a 30.11.63. Na vida privada, como trabalhador industrial, montou aqui a primeira fábrica de leite pasteurizado da Paraíba, a “Leite Celeste”. Também era dono da fábrica Caruá, uma tecelagem, e tinha uma agência de automóveis, atuando como espécie de concessionário da Chevrolet.

Quando estive com ele a primeira vez, no casarão lá da Getulio Vargas onde os íntimos como meu irmão Ismael tinham acesso pela porta do beco lateral, quase nos fundos da casa, eu ainda não tinha nem 10 anos de idade e, por isso mesmo, não fazia a menor ideia do tamanho (leia-se importância) daquele gigante que era a maior autoridade da nossa cidade.

Naquele dia também conheci Dona Anita, a dedicada esposa, verdadeiro “braço direito” do mundo deles dois. Uma doce criatura!

O mano Ismael já era jornalista famoso em Campina, bem acreditado e paparicado pelos poderosos da época. Não tanto pelos ousados “furos” jornalísticos que conquistava para o Diário da Borborema, mas especialmente pela excelência do seu bom e escorreito português, joia rara na época para gente analfabeta como o alcaide, bem ao estilo de outro ás da imprensa local, o velho Pita (Epitácio Soares), de quem Ismael era discípulo e de quem Seu Cabral se servia para os discursos da política e das importantes solenidades.

Seu Cabral tinha lá os seus talentos… Falava a linguagem do povão. Nada a ver com Raymundo Asfóra ou Vital do Rego, os maiores oradores da província naquele tempo.

E foi exatamente esse seu jeito desabusado e simples, atropelando de modo natural o vocabulário da língua pátria, que Seu Cabral mais se fez querido, se tornando inclusive um ser folclórico, sem freios na língua e nem no modo de agir, caindo mesmo no gosto popular, sem críticas de ninguém e tampouco censuras.

Semana passada, rebuscando arquivos d’APALAVRA ONLINE em ajuda a Júnior Gurgel que procurava por um dos seus magníficos textos de anos atrás, encontrei uma PÉROLA do mundo de Seu Cabral, extraída nas eleições de 1968, sua última disputa eleitoral num comício em Bodocongó.

Conta Gurgel que Seu Cabral estava lendo o discurso e alguém (um sabotador) havia tirado as páginas da ordem. Mas ele percebeu, parou e perguntou: “onde diabos está Epitácio?”.

Asfóra, que era candidato a vice, às pressas tomou-lhe o calhamaço de papel e mandou ele continuar. Ficou por trás, soprando as palavras no seu ouvido. Já para finalizar, Asfóra cochichou: “aqui construiremos praças, um mercado público, todas as ruas deste amado bairro serão calçadas, faremos um convênio com a Sudene”.

Aplausos, barulhos no palanque, Seu Cabral não entendeu bem a última frase. Asfóra repetiu: “Em convênio com a Sudene”.
Hesitante por não ter ouvido corretamente, nosso “Pé de Chumbo” disparou:

“E um convento para a Sudene!!!”.

Era assim, o marido de Dona Anita.

Que se neste espaço eu for contar as demais PÉROLAS enriquecedoras da história dele, meu mestre-editor Vanderley de Brito com certeza cancelará este meu precioso espaço no Jornal do IHCG.
Parei!!!!!!!
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(Artigo escrito originalmente para o ‘Jornal do IHCG’)