
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
Nas esquinas da minha rua
Publicado em 19 de setembro de 2025As esquinas são pontos estratégicos de espionagem ou comerciais, a depender da rua, se de grande movimentação de veículos ou de pessoas. As da minha rua, uma pequena via de pouco mais de 200 metros, não despertam vocação mercantil, mas favorecem a espreita e a bisbilhotice disfarçadas, justamente pela pequenez territorial.
A centralidade de minha casa na área me garante visão privilegiada das esquinas que nos limitam, fazendo com que eu veja, do portão ou da calçada, todo o movimento nas extremidades. As quatro residências que definem as esquinas ficam com a frente nas ruas transversais e o oitão na nossa.
Naquela tarde, não estava de “quina pra lua”. Tendo que pegar produto que deixara pago em loja três quarteirões depois, sentido norte, saí a pé pela calçada, tranquilo, despreocupado, sem pressa e o passo lento. Ao me aproximar do oitão da casa abandonada da esquina, pequeno caminhão, letreiros pintados no baú me chamando a atenção, foi manobrando em direção à nossa rua.
Conforme o veículo foi entrando, na lentidão que a esquina exige, fui girando a cabeça, lendo o que estava escrito, e não vi que a caixa da Cagepa estava sem tampa. Pisei em cima e fui ao chão, felizmente segurando o corpo com o braço malhado e o joelho direito protegendo o esquerdo bichado. Sofri apenas uma lesão na canela.
Também numa tarde, final dela, aconteceu na esquina oposta. Saí de carro, sentido sul da rua, quando parei para ver o trânsito da rua lateral e manobrar à esquerda, amiga, parada na casa esquinal, me chama e pergunta se eu conhecia os donos. É que, ele ou ela, na displicência da saída apressada, não acionou o controle e o portão ficou aberto, justificou. “Tem até bicicleta exposta”, disse a mulher. Voltei uma hora depois e o imóvel ainda às escâncaras.
Após uma semana, sem pretensão nenhuma, saí pela rua e parei na esquina; em minutos, apareceu a jovem moradora, com quem eu comento sobre o acontecido. O portão ficou aberto por muito tempo, confirmou. Felizmente, alguém que mora no condomínio de vários andares em frente, avistou a abertura. Embora sem aproximação com a dona, tinha o contato de sua amiga, que avisou. Nada foi levado.
Numa esquina, portanto, vi a porta aberta ao perigo rapinante; na outra, escapei ileso do acidente que o abandono imobiliário causou.
